O mesmo corpo que se comunica, brinca, interpreta, pensa … rodopeia cerratense”

  • O mesmo corpo que se comunica, brinca, interpreta, pensa… rodopeia cerratense
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“O mesmo corpo que se comunica, brinca, interpreta, pensa… rodopeia cerratense”

Esta galeria reúne bonitas e fraternas experiências pelo cerrado goiano, retratando nossa trajetória de extensão e parceria entre comunidades campesinas e a Universidade Federal de Goiás, especialmente o Coletivo Magnífica Mundi (Jornalismo), a Faculdade de Educação Física e o curso de Teatro.

No objetivo de fincar o pé na terra, – ou “solidamente ancorados” no chão (MENDES, 2002) – que é de todos e, assim, compreender mais profundamente os cerrados e suas gentes, pro­curou-se um nome que estivesse neles. Mas, de algum modo, que não fosse repetitivo, banal. Por isso, os nomes dos projetos Terra Encantada: gente miúda, direitos integrais e Berra Lobo.

Terra e palavra no cotidiano de uma gen­te simples, mas encantada. Lobos não costumam berrar, dizem por aí. É certo que, vez ou outra, uivam com o nariz para o alto, para que o som chegue mais longe. Forma eficiente de se comunicar à distância. O uivo recupera a presença dos companheiros/ companheiras de matilha. Mesmo que alguns lobos berrem baixo e outros em tom mais elevado, juntos se fazem ouvir mais longe e com mais força.

As propostas buscam fortalecer a autonomia e os aspectos da vida comunitária de grupos do campo (povoados, assentamentos/MST, quilombolas), incluindo as alternativas de trabalho e economia solidários, que reforcem e/ou atualizem projetos de vida digna, oferecendo e construindo de maneira compartilhadapossibilidades concretas aos sujeitos de continuar a viver no seu lugar, caso seja a opção como reivindicam seus familiares.

O Terra encantada acontece na Escola e Comunidade do Sertão (Alto Paraíso – Chapada dos Veadeiros – GO) e o Berra Lobo no Assentamento Oziel Alves – MST (Baliza – GO). Ambos, territórios de esperança (MOLINA, 2012)! Por meio de oficinas e rodas de conversa bus­camos ampliar as possibilidades de os envolvidos − crianças, jovens e adultos; estudantes e professoras − se legitimarem como produtores de sentido. São experiências orgânicas com o jornalismo, as práticas corporais e o teatro, junto com os muitos aprendizados e trocas sobre saberes tradicionais e o cotidiano de luta.

Financiados pelo Ministério da Educação, por meio de edital PROEXT, os projetos tentam aprofundar uma construção de saberes entre uni­versidade, escola e movimento social popular, desta vez com o braço camponês, que retorna ao campo.

Pequenas humanidades, plenas, aqui nos cerrados centrais do país.

LEITE, Jaciara Oliveira. Ser criança camponesa no Cerrado. 2018. 230 f., il. Tese (Doutorado em Educação)—Universidade de Brasília, Brasília, 2018.

Resumo:

Como é ser sujeito-criança no campo e o que expressam as crianças sobre suas vidas, seu lugar? Essa foi a questão central que inspirou esta pesquisa de doutorado realizada, principalmente, com e sobre as crianças que residem na Comunidade do Sertão – Chapada dos Veadeiros – GO, um território camponês localizado no bioma Cerrado. O objetivo geral da investigação foi: compreender e analisar a infância no/do campo, na comunidade participante da pesquisa, em diálogo com os estudos sobre Corpo, Educação do Campo e Sociologia da Infância. Desse objetivo, desdobraram-se três específicos: a) analisar o contexto atual camponês, em especial as relações com a educação e vida das crianças; b) identificar e analisar os espaços-tempo, as práticas e aspectos que caracterizam a vida das crianças; c) identificar e analisar os sentidos e significados atribuídos pelas crianças à escola e ao território. O trabalho orientou-se pela concepção de criança como sujeito social e, por isso mesmo, pela busca da construção compartilhada dos dados de pesquisa junto com elas. Privilegiou-se o diálogo e a observação das diferentes linguagens das crianças por meio, sobretudo, de estratégias lúdicas de pesquisa (SILVA, 2003). Os instrumentos principais foram: observação participante com registros em “Diários Camponês”; entrevistas/conversas estruturadas em torno de jogos e brincadeiras; desenho; registro iconográfico com fotos e vídeos; e os eventos-campo. Foram ao todo quatro anos de viagens de imersão no campo e de estudos teóricos que constituíram uma práxis de pesquisa com os sujeitos e o território. Esse processo indicou a constituição de infâncias camponesas “cerratenses” (BERTRAN, 2011) tecidas na interação dialética entre as crianças, o corpo, a natureza (o bioma Cerrado), o trabalho e os modos de viver camponês, que são atravessados pelas questões históricas e atuais de contradição entre campesinato (resistência) e poder público (ausência/intervenção) naquele território. É nesse contexto que as crianças experienciam às suas maneiras os diferentes espaços-tempo do território, com destaque especial para a escola, possibilidade concreta de acesso à Educação Básica no campo, central para a comunidade e para a constituição das crianças como sujeitos sociais.

Disponível em http://repositorio.unb.br/handle/10482/32255