“O início do Cerrado data do período Cenozoico, há 65 milhões de anos, tendo sido concretizado há 45 milhões de anos. Isso significa que o Cerrado já atingiu seu clímax evolutivo, é um ambiente que uma vez degradado jamais se recuperará na plenitude de sua biodiversidade” Altair Barbosa (2017)

A partir de 1992, Dr. Altair Barbosa sugeriu a utilização do conceito biogeográfico para o Cerrado definido-o como um conjunto de fatores atmosféricos, hidrosféricos, litosféricos e biosféricos, incluindo as populações humanas. Como esses fatores estão intimamente interligados, a modificação em qualquer um deles provoca modificação no sistema como um todo, onde as diferentes faces do sistema se mostram como subsistemas interatuantes; qualquer modificação nos elementos dos subsistemas provoca modificações no Sistema como um todo.

O Sistema Biogeográfico do Cerrado não pode ser entendido como uma unidade zoogeográfica particularizada porque não apresenta esta característica, tampouco pode ser considerada uma unidade fitogeográfica, porque não se trata de uma área uniforme em termos de paisagem vegetal. O mais correto é correlacionar os diversos fatores que compõem a sua biocenose – os rios, a população humana e outros elementos, como a geologia, a geomorfologia, o clima, solos, fisionomia vegetal, quantidade de água nos lençóis, comunidades animais, etc –  e defini-la como um Sistema Biogeográfico, como propõe Altair Barbosa (1996).

O Cerrado Como Sistema Biogeográfico

                                 Dr. Altair Sales Barbosa *

A região dos cerrados não pode ser entendida como uma unidade zoogeográfica particularizada, porque não apresenta esta característica, tampouco pode ser considerada uma unidade fitogeográfica, por não se tratar de uma área uniforme em termos de paisagem vegetal. O mais correto é correlacionar os diversos fatores que compõem sua biocenose e defini-la como um Sistema Biogeográfíco. Um sistema que abrange áreas planálticas, o Planalto Central Brasileiro, com altitude média de 650 metros, clima tropical subúmido de duas estações, solos variados e um quadro florístico e faunístico extremamente diversificado e interdependente. A fauna variada dos cerrados, que transita noutros domínios morfoclimáticos e fitogeográficos, por exemplo, a caatinga, tem sua maior concentração registrada nesse Sistema Biogeográfico, em virtude das possibilidades alimentares durante todo ciclo anual.

Há um estrato gramíneo que sustenta uma fauna de herbívoros durante boa parte do ano, enquanto não está seco. A seguir, aparecem as flores que, durante uma determinada época, substituem como alimento as gramíneas. O final das floradas coincide com o início da estação chuvosa, que faz rebrotar os pastos secos e a maturação de várias espécies frutíferas. Acompanhando os herbívoros e atrás, também, de recursos vegetais, animais, com outros hábitos, formam uma complexa cadeia. Em termos vegetais, este sistema é complexo e nunca pode ser entendido como uma unidade, pois há o predomínio do cerrado stricto sensu como paisagem vegetal, mas há também seus variados matizes, como campo e cerradão, além de formações florestadas, como matas e matas ciliares e ainda são comuns as veredas e ambientes alagadiços.

As áreas florestadas são constituídas pelas matas ciliares que ocorrem nas cabeceiras dos pequenos córregos e rios, em suas margens, como também se espalham em áreas mais extensas acompanhando as manchas de solo de boa fertilidade natural. Por exemplo, as matas do rio Claro e outras vertentes do Paranaíba e o outrora chamado “Mato Grosso de Goiás”. As veredas e ambientes alagadiços são mais abundantes, a partir do centro da área nuclear (sudoeste de Goiás), em direção norte e leste para o sul e, à medida que se aproxima do pantanal matogrossense as veredas tendem a desaparecer, ficando apenas os ambientes alagadiços com contornos diferenciados.

Nessa perspectiva, o Sistema Biogeográfico do Cerrado pode ser subdividido em subsistemas específicos, caracterizados pela fisionomia e composição vegetal e animal, além de outros fatores, que apresentam a seguinte organização: Subsistema dos Campos, Subsistema do Cerrado Stricto Sensu, Subsistema do Cerradão, Subsistema das Matas, Subsistema das Matas Ciliares e Subsistemas das Veredas e Ambientes Alagadiços.

Essa diversidade de ambiente é um fator muito importante para a diversificação faunística, permitindo a ocorrência de animais adaptados a ambientes secos e, também, a ambientes úmidos. Da mesma forma, propicia tanto a ocorrência de formas adaptadas a áreas ensolaradas e abertas, como favorece a ocorrência de formas umbrófilas. Esses fatores atribuem ao Sistema Biogeográfico um caráter singular, distinguindo-o pela diversidade de formas vegetais e animais.

O Sistema Biogeográfico dos Cerrados é limitado por uma série de complexas formas vegetacionais intermediárias que adquirem contornos específicos em direção à caatinga e outras configurações, em direção à floresta amazônica úmida.

No aspecto fisionômico e em muitos pontos da composição faunística, florística e da ocupação humana, as áreas com savanas da América do Sul, que aparecem nas Guianas, Venezuela e Colômbia, muito se assemelham ao Sistema do Cerrado e, se não fosse o caráter da descontinuidade, poderiam perfeitamente estar incluídas como um subsistema do mesmo sistema, mesmo levando em consideração os aspectos evolutivos.

* Altair Sales Barbosa possui graduação em Antropologia pela Pontificia Universidad Católica de Chile, doutorado em Arqueologia Pré-Histórica pela Smithsonian Institution – National Museum of Natural History, de Washington, Estados Unidos. É coordenador do projeto Enciclopédia Virtual do Cerrado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, do qual é sócio titular.

Os Subsistemas do Sistema Biogeográfico do Cerrado

Devido à sua localização, o Cerrado é conhecido como o “Bioma do Contato”, pois compartilha várias áreas de transições ecológicas e paisagísticas com os outros biomas brasileiros (Caatinga, Florestas Amazônica e Atlântica, Floresta de Araucária, Pantanal, Zona de Cocais). Carlos Eduardo Mazzeto (2009, p. 90-91) considera que, desta forma, o cerrado contínuo, – que representa 22,65% do território brasileiro – ao ser somado a área de transição com outros biomas, alcança 36% da área nacional. É importante ressaltar também os cerrados amazônicos – ilhas de cerrado na Amazônia – que acrescem 7,8 milhões de hectares a esta porcentagem.

Para Barbosa, a área nuclear do cerrado não pode ser entendida como uma unidade zoogeográfica particularizada, e tampouco pode ser considerada uma unidade fitogeográfica, porque não se trata de uma área uniforme em termos de paisagem vegetal. Ele acredita que se aos fatores zoogeográficos e fitogeográficos forem agregados de fatores morfológicos e climáticos, dentre outros, tem-se maiores elementos para a compreensão do Cerrado como um Sistema Biogeográfico (BARBOSA, 2002, p. 143).

Por este motivo nós preferimos definir o Cerrado como Sistema Biogeográfico porque ele não pode ser tomado como uma unidade homogênea, pois ostenta em seu domínio uma série de ambientes diversificados entre si, pelo caráter fisionômico e pela composição vegetal e animal. Estes ambientes constituem os seus subsistemas. Sua compreensão é de fundamental importância para se entender o Sistema como um todo e o caráter da biodiversidade que ostenta. Esse Sistema Biogeográfico é composto por seis subsistemas interatuantes como poderão ver em cada um dos ícones.

Conheça os elos que compões esse sistema!

Fauna

Mamíferos, aves, anfíbios e répteis! Saiba mais sobre cada um dos grupos e as listas de espécies de répteis e anfíbios!

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Quem vê copa, não vê raiz! O Cerrado é uma floresta invertida e isso significa que as suas raízes são muitas vezes maiores do que a parte superficial. Mas nem de árvores tortas vive o Cerrado, venha conhecer os diferentes grupos vegetais!

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Nesse tópico falaremos sobre as diferentes formas desse grande Cerrado. Temas como topografia, águas, fogo e clima!