Terra

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O que caracteriza essa área é a alternância de formas topográficas representadas pelos relevos planálticos, morros de altura variada e depressões estreitas ou amplas. Dependendo da espessura e da composição dos solos, as fisionomias dos cerrados e de outros tipos de vegetação podem estar nitidamente separadas ou podem confundir-se em contatos pouco nítidos.

Há áreas de pequenas superfícies, em que quase todas as fisionomias, como matas de nascente, de galerias e de vereda são encontradas, constituindo-se em mosaico vegetal. Os tipos de vegetação que recobrem a grande área do pantanal de Mato Grosso têm sido considerados como uma unidade sob a designação de Complexo do Pantanal. Essa expressão, embora registrada por um bom número de pesquisadores e consagrada na literatura científica, não deve ser mantida quando se referir aos mapeamentos de 1:1.000.000 e maiores, o que na verdade se observa nessa extensa planície é a influência da topografia em função das enchentes periódicas.

Maior ou menor tempo de permanência da água, superficial e subsuperficial, está inteiramente dependente das feições topográficas e do solo. Variações de apenas alguns centímetros podem definir a ocorrência de matas, campos limpos, carandazais, campos permanentemente inundados etc.

Em 1948, Waibel estudou a vegetação e o uso da terra no Planalto Central do Brasil e, ao constatar que em áreas muito limitadas sob mesmas condições climatológicas, pode-se encontrar uma grande variedade de tipos de vegetação, concluiu que esta variedade depende principalmente das condições edáficas que, por sua vez, dependem das rochas que originam os solos.

O mesmo autor, baseando-se em conceitos dos agricultores locais, afirma que há dois grandes tipos de solos na região dos cerrados: os solos de matas e os solos dos campos. Análises têm sempre revelado que os solos de cerrados (de campos) são sempre mais pobres que os de matas.

Alvim e Araújo, autores que também destacam a importância do solo para a compreensão dos cerrados afirmam, por exemplo, que a distribuição desta paisagem em sua região fitogeográfica é aparentemente controlada pelo solo, mais que por qualquer outro fator ecológico. Segundo esses autores, as plantas dos cerrados parecem ser tolerantes a um baixo teor de cálcio e a um ph baixo, o que não permite o crescimento de árvores típicas das florestas.

Arens, admite que o pronunciado xeromorfismo (escleromorfismo foliar) do cerrado seja uma consequência das condições oligotróficas dos solos, que são geralmente ácidos e empobrecidos em bases trocáveis. Afirma ainda que um dos fatores principais seria provavelmente a relativa escassez de nitrogénio assimilável, o que pode originar o escleromorfismo oligotrófico, fazendo com que a vegetação peculiar do cerrado seja selecionada pela deficiência de minerais, à qual ter-se-ia adaptado.

Em trabalho posterior, o mesmo autor afirma que as deficiências minerais limitam o crescimento e, em consequência, causam acúmulo de carboidratos. O excesso de açúcares é utilizado para formação de cutículas espessas de esclerênquima para produção, em resumo, de estruturas que dão à planta o caráter escleromorfo.

Goodland, ao estudar os solos do Triângulo Mineiro, estabelece uma relação entre os gradientes de fertilidade do solo com as diversas fisionomias dos cerrados. Variam, do cerradão ao campo limpo de cerrado, os seguintes fatores: ph, percentagem de carbono e nitrogénio, matéria orgânica, teor Ca+++, Mg++ K+ Al+++, percentagem de alumínio, fosfatos e relação C/N.

Assim, o solo do cerradão ocupa a extremidade mais alta do gradiente, por apresentar teores elevados de matéria orgânica (N, P, K) Ca, Mg e ph mais alto, baixa relação C/N e quantidades menores de alumínio.

Há uma estreita relação entre a riqueza orgânico-mineral do solo e as fisionomias do cerrado. O xeromorfismo resulta também, em grande parte, da carência de micronutrientes do solo. Essa carência ou oligotrofismo limita o uso dos produtos de fotossíntese, os quais ficam acumulados em determinadas partes das plantas, dando-lhes o aspecto escleromórfico. Também o nanismo das plantas do cerrado é atribuído à carência de micronutrientes, como N, P e S, que são indispensáveis para a síntese das proteínas que entram no desenvolvimento normal de novos tecidos.

A tortuosidade dos galhos das árvores do Cerrado, que estão geralmente em um subsistema particular, o stricto sensu, ocorre por causa da pobreza do solo. O solo é o oligotrófico, carente de nutrientes básicos, então a planta suga o máximo possível e acumula açúcar que se aloja na bifurcação das plantas, dando-lhes essa característica.

Qualidade nutricional dos solos do Cerrado: um outro ponto de vista

Ana Maria 05/09/2011

O Cerrado é um ecossistema cujos solos apresentam, de forma geral, baixa disponibilidade de nutrientes para as plantas (Lepsch 2002; Haridasan 2005; 2008). Esta questão é bastante discutida pela comunidade científica e amplamente divulgada em revistas de circulação nacional e internacional. A informação de que os solos do Cerrado são nutricionalmente pobres também é largamente transmitida ao grande público, principalmente por meio de publicações e de programas de extensão promovidos por instituições públicas (universidades e empresas ligadas ao governo) e empresas privadas relacionadas ao agronegócio. De acordo com tais divulgações, no Cerrado há predomínio de solos cujas análises químicas apontam baixo pH (elevada acidez), alta concentração de alumínio (tóxico para a maioria das plantas cultivadas) e reduzida disponibilidade de nutrientes como o nitrogênio, o fósforo e o potássio, que são essenciais para o crescimento das plantas. Assim, expressivas quantidades de calcário e de fertilizantes normalmente são recomendadas e aplicadas para tornar tais solos produtivos para as culturas agrícolas (Lepsch 2002).

Apesar disso, a qualidade nutricional dos solos do Cerrado é uma questão que parece depender muito do ponto de vista. Haridasan (2008) destacou que o conceito de deficiência nutricional, bem estabelecido na agricultura, não deve ser estendido indiscriminadamente às plantas nativas em ecossistemas naturais. Nesse contexto, quando a disponibilidade de nutrientes é avaliada com base em critérios agronômicos, ou seja, em relação aos requerimentos nutricionais de plantas cultivadas tais como a soja, o milho, o sorgo, o algodão, entre outras, os solos do Cerrado realmente são pobres em nutrientes e muitas vezes necessitam da aplicação de fertilizantes para que tais culturas apresentem boa produtividade. Por outro lado, quando a disponibilidade de nutrientes é avaliada com base nos requerimentos nutricionais das plantas nativas do Cerrado, não é prudente afirmar que seus solos são pobres.

Há diversas evidências indicando que a maioria das espécies de plantas lenhosas nativas do Cerrado está adaptada à disponibilidade natural de nutrientes dos solos sobre os quais elas crescem, incluindo o fato de sua própria existência e manutenção temporal. Explorando a quantidade de nutrientes naturalmente disponíveis no solo, as espécies de plantas nativas do Cerrado conseguem completar todo o seu ciclo de vida, o que é um indicativo de que a qualidade nutricional do solo não é fator limitante para sua sobrevivência e perpetuação ao longo do tempo. Além disso, mesmo sobre solos pobres do ponto de vista agronômico, é conhecido que a vegetação lenhosa das formações savânicas (vegetação mais aberta) do Cerrado tem grande capacidade de resistir à ocorrência de distúrbios, tais como a entrada de fogo e a derrubada, e de rapidamente se recuperar após as perturbações.

A elevada riqueza de espécies vegetais no bioma Cerrado é um fator que reforça a opinião de que os solos deste ecossistema não são pobres em nutrientes em relação às necessidades das plantas nativas. Atualmente, estão descritas e catalogadas mais de 12.300 espécies nativas de plantas (Mendonça et al. 2008) e a porcentagem de espécies endêmicas (que não ocorrem em outros lugares) chega a 44% (Silva & Bates 2002). Estes fatores contribuíram para que o bioma Cerrado fosse incluído entre os 34 ecossistemas prioritários para a conservação no planeta Terra (Mittermeier et al. 2004).

A concentração de nutrientes nos tecidos vegetais (folhas, por exemplo) das espécies lenhosas do Cerrado também pode indicar baixos requerimentos nutricionais. Os resultados do estudo conduzido por Haridasan (2005) em áreas de cerrado sentido restrito, uma formação savânica do bioma Cerrado com cobertura arbórea variando entre 5% e 70% (Ribeiro & Walter 2008), indicam que de forma geral as espécies lenhosas mais abundantes são justamente as que apresentam as menores concentrações de nutrientes nos tecidos vegetais. Segundo Haridasan (2005), este padrão indica que as espécies mais abundantes requerem menores quantidades de nutrientes em relação às menos abundantes, o que pode ser uma vantagem competitiva em relação às propriedades químicas normalmente observadas nos solos do Cerrado.

Tomadas em conjunto, as evidências aqui apresentadas sugerem que a disponibilidade de nutrientes nos solos do bioma Cerrado é uma questão que deve ser avaliada e discutida com cautela, principalmente em relação ao ponto de vista que a classifica. Os solos do Cerrado podem ser pobres em nutrientes quando comparados aos solos de outros ecossistemas brasileiros e em relação aos requerimentos nutricionais de plantas cultivadas, mas não o são em relação à vegetação nativa, que parece estar muito bem adaptada à disponibilidade natural de nutrientes. Sugerimos que futuras discussões relacionadas ao estado nutricional dos solos do bioma Cerrado incluam os dois pontos de vista aqui destacados (agronômico e ecológico), principalmente no meio acadêmico.

Bibliografia

Haridasan, M. 2005. Competição por nutrientes em espécies arbóreas do cerrado. In: Scariot, A.; Sousa-Silva, J.C. & Felfili, J.M. (Orgs.). Cerrado: ecologia, biodiversidade e conservação. Brasília: Ministério do Meio Ambiente. p.167-178.

Haridasan M. 2008. Nutritional adaptations of native plants of the cerrado biome in acid soils. Brazilian Journal of Plant Physiology 20(3): 183-195.

Lepsch, I.F. 2002. Formação e conservação dos solos. São Paulo: Oficina de Textos. 178p.

Mittermeier, R.A.; Gil, P.R.; Hoffmann, M.; Pilgrim, J.; Brooks, T.; Mittermeier, C.G.; Lamoreux, J. & Fonseca, G.A.B. 2004. Hotspots revisited: Earth’s biologically richest and most endangered terrestrial ecoregions. Mexico City: CEMEX. 392p.

Mendonça, R.C; Felfili, J.M.; Walter, B.M.T.; Silva Júnior, M.C.; Rezende, A.V.; Filgueiras, T.S.; Nogueira, P.E. & Fagg, C.W. 2008. Flora Vascular do Bioma Cerrado. In: Sano, S.M.; Almeida, S.P. & Ribeiro, J.F. (Eds.). Cerrado: ecologia e flora. Brasília: Embrapa Informação Tecnológica. p.421-1.279.

Ribeiro, J.F. & Walter, B.M.T. 2008. As principais fitofisionomias do Bioma Cerrado. In: Sano, S.M.; Almeida, S.P. & Ribeiro, J.F. (Eds.). Cerrado: ecologia e flora. Planaltina: Embrapa-CPAC. p.151-212.

Silva, J.M.C & Bates, J.M. 2002. Biogeographic Patterns and Conservation in the South American Cerrado: A Tropical Savanna Hotspot. BioScience 52(3): 225-233.

* Henrique Augusto Mews é biólogo, doutorando em Ciências Florestais pela Universidade de Brasília (UnB) (henriquemews@gmail.com). Divino Vicente Silvério é biólogo, doutorando em Ecologia pela UnB (dvsilverio@gmail.com). José Roberto Rodrigues Pinto é engenheiro florestal, doutor em Ecologia e professor do Departamento de Engenharia Florestal da UnB (jrrpinto@unb.br).