Respire o ar do Cerrado

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Em trabalho intitulado “Climatologia dos Cerrados”, Reis faz considerações sobre o binômio clima/vegetação. Desse trabalho, destacam-se algumas conclusões, como a de que a vegetação de cerrado não é xerófita — logo, estará na dependência de um clima subúmido; a condição climática que determina o cerrado é a mesma responsável pelo aparecimento da mata; uma vez satisfeita a condição climática, o cerrado aparecerá ou não, na dependência de fatores edáficos, de ordem nutricional; as diferenças de regime hídrico e térmico em certos limites não implicam em modificações sensíveis na fisionomia da vegetação do cerrado.

Camargo, considerando as influências climáticas do ponto de vista dos aspectos micro, topo e macro climáticos, afirma que, dada a escassa cobertura vegetal, as temperaturas do ar e a umidade variam muito no decurso do dia. O autor sugere que essa condição microclimática severa é antes consequência que causa da vegetação, também, o topoclima tem efeito limitado sobre a vegetação natural. Essa vegetação é encontrada sob várias condições macroclimáticas.

Um dos estudos mais exaustivos sobre Climatologia do Brasil foi apresentado por Nimer em 1977. Dentre outras observações, o autor reconhece que o domínio de um clima quente e semi-úmido, com quatro a cinco meses secos, empresta ao clima da região Centro-Oeste do Brasil uma notável homogeneidade e esta, por sua vez, é reforçada pela uniformidade de seu sistema geral de circulação atmosférica.

A essa homogeneidade climática corresponde uma paisagem vegetal constituída pelos cerrados, em sentido lato, quebrada localmente por outros componentes do meio natural, tais como topografia, litologia e solos.

O Caráter Xeromorfo dos Cerrados

Revestindo o solo especialmente com gramíneas, entre as quais repontam ervas, arbustos e árvores em proporções variáveis, a vegetação do cerrado impressiona sobretudo pelo aspecto tortuoso de suas árvores e arbustos, cujos caules, com frequência, recobrem-se de espessa casca com folhas coriáceas e brilhantes ou revestidas por um denso conjunto de pêlos, emprestando, ao cerrado, a aparência de vegetação adaptada às condições de seca.

Não é de estranhar, pois, que até recentes anos fosse o cerrado chamado frequentemente de “campo seco”. Contribuía para isso o fato de ocorrer tal vegetação, muitas vezes, em regiões onde é comum um período de 4 a 5 meses totalmente sem chuvas.

Parece não haver dúvida quanto a ter sido Rawitscher o primeiro a considerar seriamente a possibilidade de que a vegetação de cerrado não fosse condicionada pela falta de água.

Levaram-no a isso, observações casuais nas frequentes viagens feitas em várias partes do Estado de São Paulo, onde visitou cerrados, especialmente em Emas, próximo a Pirassununga.

Folhas enormes, que muitas plantas de cerrado apresentam, ausência de sinais de murchamento, mesmo no auge da seca, floração e brotação abundantes antes das chuvas, pareciam contradizer a noção geral de que a existência dos cerrados fosse devido à escassez de água.

Essas observações iniciais de Rawitscher conduziram a uma série de trabalhos posteriores de outros pesquisadores, no sentido de desvendar o aspecto de xeromorfismo que caracteriza a vegetação de cerrado.

O primeiro trabalho experimental foi conduzido pelo próprio autor, com a colaboração de Ferri e Rachid (1943), no cerrado de Emas a São Paulo. Entre as muitas conclusões, os autores afirmam que a água não é um fator limitante da vegetação de cerrado.

Em trabalho mais extenso, de 1944, no qual observa o comportamento estomático e de transpiração, Ferri chega às mesmas conclusões, evidenciando que a vegetação de cerrado de Emas não se comporta, apesar de seu acentuado xeromorfismo, como adaptada à condições de seca.

Em 1955 Ferri publicou um extenso trabalho intitulado “Contribuição ao conhecimento da ecologia do cerrado e da caatinga: estudo comparativo do balanço d’água de sua vegetação”. Na introdução, o autor caracterizou os vários tipos de vegetação que ocorrem no Brasil e indicou sua distribuição. A seguir, focalizou a atenção nos ambientes em que vivem as plantas dos cerrados (em Emas) e da caatinga (em Paulo Afonso). Apresentou, depois, uma descrição fisionómica dos dois tipos de vegetação, cuja composição florística também analisou. Entrou, finalmente, no estudo pormenorizado de problemas morfológicos, especialmente da anatomia das folhas, da transpiração, do comportamento estomático, dos déficits de saturação, entre outros relativos a um grande número de espécies características dos dois tipos de vegetação que estudou e comparou.

Fatos já descritos em trabalhos anteriores foram postos em destaque: grande profundidade dos solos dos cerrados; abundância de água nesse solo; profundidade considerável dos sistemas radiculares das plantas permanentes; presença frequente de estrutura xeromorfa na vegetação do cerrado, como estômatos em depressões, epidermes revestidas por cutículas espessas e camadas cuticulares ou recobertas por numerosos pêlos ou escamas, presença de hipoderme e parênquimas incolores, células pétreas e esclerênquimas bem desenvolvidos etc. Todos esses elementos são, habitualmente, correlacionados com condições xéricas. E, no entanto, o estudo do comportamento da vegetação do cerrado não indica a adaptação a tais condições que, em verdade, não existem.

A grande maioria das plantas permanentes dos cerrados transpiram livremente e com altos valores, mesmo nos períodos de secas mais pronunciadas; somente poucas mostram pequena restrição no consumo hídrico nessa época.

As plantas do cerrado mostram, quase sem exceção, estômatos abertos durante todo o dia, mesmo durante a seca. Também é comum encontrá-los abertos à noite. Em geral, as reações estomáticas das plantas permanentes do cerrado são lentas. O fechamento total das fendas estomáticas, quando se faz cessar o suprimento hídrico arrancando a folha da planta, pode consumir em uma hora ou mais e, às vezes, nunca se completa inteiramente. A transpiração cuticular é frequentemente muito elevada, embora as cutículas e as camadas cuticulares sejam espessas. Os déficits de saturação das folhas são baixos, em geral, mesmo na época seca. O valor mais alto encontrado foi da ordem de 5% do conteúdo máximo de água.

Embora restritas a um habitat muito mais seco, a maioria das espécies dominantes da caatinga (exceto as bromeliácea, as cactáceas e as euphorbiaceae suculentas) não apresentam xeromorfismo tão acentuado quanto as plantas do cerrado.

Assim, não são frequentes cascas espessas nem folhas coriáceas ou pilosas. Cutículas grossas, estômatos em depressões, abundante tecido mecânico são também incomuns. Embora com xeromorfismo menos pronunciado que o da vegetação do cerrado, as plantas da caatinga revelam-se melhor adaptadas, fisiologicamente, para sobreviverem em condições xéricas.

Mesmo durante a época das chuvas, várias plantas já revelam necessidade de restrição do consumo hídrico, ficando com estômatos abertos somente nas primeiras ordens do dia; outras, após fecharem os estômatos nas horas e condições mais severas, reabrem-nos à tardinha. Muito poucas podem manter estômatos abertos durante o dia.

À medida que se agrava a seca, curvas de transpiração indicativa de grande restrição no consumo hídrico tornam-se cada vez mais frequente. Por fim, quase todas as plantas mantêm os estômatos fechados durante todo o dia. Nesse caso, a água é perdida apenas por meio da cutícula e essa perda-transpiração cuticular na caatinga geralmente é muito baixa, mas até isso pode pôr a planta em perigo, então um dos meios mais eficientes de proteção contra a seca é reduzir consideravelmente a superfície transpirante pela queda das folhas. Isso é o que realmente ocorre, e planta após planta se despoja de suas folhas. Alguns indivíduos das espécies mais resistentes persistem enfolhados, porém até eles derrubam suas folhas quando a seca é realmente severa.

Em contraste com as plantas permanentes do cerrado, as árvores e arbustos da caatinga têm estômatos de reações muito rápidas. A Spondias tuberosa, Arruda, por exemplo, reduz mais de 50% do valor inicial de sua transpiração em apenas dois minutos após cessar o suprimento de água e completa fechamento estomático em cinco minutos.

A transpiração cuticular indica, geralmente, valores muito baixos na caatinga, apesar de não serem espessas as cutículas.

O autor considerou ainda que a caatinga vive em condições de seca muito mais pronunciada que o cerrado e é fisiologicamente adaptada a essas condições, embora não tenha um xeromorfismo tão acentuado quanto o cerrado, o qual, no entanto, não apresenta adaptação fisiológica a ambiente seco, o que induz à conclusão de que o que importa realmente é a adaptação fisiológica, mas o autor considerou que duas questões importantes devem ser resolvidas: l) se a vegetação do cerrado não vive, em geral, em ambiente seco, por que é xeromorfa? 2) porque não se desenvolveram na caatinga, com maior frequência, caracteres xeromorfos, ao lado dos mecanismos fisiológicos de proteção contra a seca? Não dariam eles proteção adicional às plantas contra a perda de água?

O autor tentou responder a primeira questão por meio de duas formas:

a) O xeromorfismo do cerrado nada tem a ver com proteção contra a seca, tendo-se originado por qualquer outra razão;


b) A vegetação do cerrado pode, eventualmente, estar sujeita a secas pouco severas, contra as quais basta a proteção de pêlos, cutículas espessas, estômatos aprofundados etc. A vegetação do cerrado não teria estado sujeita a um estímulo bastante forte, durante seu processo evolutivo, para desenvolver e selecionar mecanismos fisiológicos de proteção contra a seca. Tal seleção teria ocorrido, entretanto, no ambiente mais seco da caatinga.
Com respeito à segunda questão, o autor considerou que, durante a evolução da vegetação da caatinga, sempre que o xeromorfismo aparece isolado não pode ser fixado, pois, não dando proteção satisfatória contra a perda de água, permitiu que morressem as espécies às quais isso sucedeu. Quando surgiram apenas os mecanismos fisiológicos de proteção contra a seca, eles puderam ser selecionados, pois, dando suficiente proteção às espécies que os envolveram, permitiram-lhes a sobrevivência.

 

Por que, entretanto, não pode ser selecionado um número maior de espécies em que os dois grupos de mecanismos de proteção apareceram reunidos? Para explicar tal fato, o autor admitiu que o xeromorfismo deve ser, de qualquer forma, prejudicial às plantas no ambiente seco da caatinga. Supôs que, devido à falta de água, a possibilidade de realizar fotossíntese ficasse restrita a um período curto. Quando o período da seca ameaça, os estômatos se fecham rapidamente, mas assim que o perigo se afasta, eles se abrem depressa e então nada deve dificultar o acesso de luz e de gás carbônico. Assim, os estômatos não devem estar em depressões, nem cobertos por pêlos, mas, ao contrário, devem estar bem expostos como, de fato, geralmente acontece.

O autor admitiu que se deveria pensar em valor adaptativo de caracteres combinados, em relação a conjuntos de processos, e não em valor adaptativo de um caráter isolado, em relação a um processo único. No presente caso, o xeromorfismo combinado com mecanismos fisiológicos de proteção contra a seca teria, na caatinga, um valor adaptativo menor que a proteção fisiológica, somente porque a proteção adicional contra a perda de água que o xeromorfismo daria à planta, não compensaria o prejuízo causado a sua fotossíntese.

No cerrado, o xeromorfismo não seria prejudicial, pois, devido à abundância d’água, os estômatos mantêm-se abertos, em geral, o dia todo.

Do estudo feito sobre a transpiração e o comportamento estomático, Ferri e Coutinho concluem:

“A análise do andamento diário da transpiração de diferentes espécies, na época, revela não existir uma diferença fundamental de comportamento nas três regiões consideradas. Revelam ainda não haver, em qualquer dessas localidades, necessidade de apreciável restrição do consumo hídrico. O estudo do comportamento estomático, mostrando estômatos abertos durante o dia, em quase todas as plantas nos três locais, confirma a conclusão acima.”

Pelo que se pode concluir, a água não é fator limitante do desenvolvimento da vegetação do cerrado nas três localidades consideradas. Posteriormente, Ferri e outros pesquisadores realizaram pesquisas similares em outras áreas de cerrado, em Goiana, Pernambuco.