Fogo no Cerrado!

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No Cerrado, um dos fatores abióticos que influenciam na fenologia das plantas é o fogo, o qual é um distúrbio natural que interfere em diversos ecossistemas do mundo. O fogo altera as condições do habitat podendo afetar a floração, frutificação, atributos das sementes e germinação. O foco no Cerrado se justifica por ser a savana tropical mais biodiversa do mundo, considerado um dos “hotspots” para conservação da biodiversidade no planeta (Klink & Machado, 2005). Sua área ocupa 2 milhões de km2 no Brasil central, equivalente a 22% do território nacional. Contando com distintas fitofisionomias vegetais e ecossistemas singulares (Ribeiro e Walter, 1998), sua diversidade interna também é resultado do modo como o fogo contribuiu para a evolução do bioma (Nascimento, 2001). Há milhões de anos queimas ocasionadas por raios atuam como fator de seleção de espécies e constituição de ambientes pirofíticos, isto é, que evoluíram com distúrbios ocasionados pelo fogo (Miranda 2010).

O Manejo Integrado do Fogo (MIF) é uma abordagem holística que considera aspectos ecológicos, socioculturais e técnicos, e propõe o uso de queimadas controladas no início do período de seca com vistas a garantir a conservação e o uso sustentável de ecossistemas. O objetivo é mostrar que o fogo pode ter impactos negativos e positivos a depender de como, onde, quando e porque é utilizado, apresentando-se como uma estratégia para a redução de incêndios e para a redução de emissões de gases de efeito estufa.

O MIF é uma abordagem que, apesar de ter sido adotada institucionalmente há menos de dez anos pelo ICMBIO nas Unidades de Conservação Federais, remonta a técnicas muito antigas de usos do fogo pelo homem. Em outras palavras, o fogo faz parte do cotidiano humano há milhares de anos, além de ser um elemento natural em diversos ecossistemas do mundo, inclusive em algumas paisagens do bioma Cerrado (como os ambientes campestres e savânicos), onde está inserido o PNCV. O curta-metragem “o fogo aliado” contextualiza o MIF no PNCV para mostrar um dia de trabalho em campo, onde algumas queimas prescritas feitas pela equipe de brigadistas do Parque foram medidas para acessarmos o comportamento do fogo durante essas queimas, que é um dos aspectos muito importante das pesquisas com MIF no Cerrado. Direção: Nádia Malena e Ana Carla dos Santos Edição: Nádia Malena Consultoria Geral: Isabel Belloni Schmidt e Luís Henrique Neves

Vídeos:

O Fogo Aliado - Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros
O que é manejo integrado de fogo?

O fogo vem sendo utilizado há milhares de anos pelas populações residentes nas savanas de todo o mundo. No Brasil, existem relatos antigos sobre a utilização intensiva do fogo pelas comunidades indígenas, muitos desses carregados de preconceito, atribuindo aos indígenas adjetivos como “incendiários contumazes” (Leonel 2000). Essa visão não foi alterada com as evidências de que as Terras Indígenas estão entre as áreas mais bem conservadas (Welch 2013) e onde são verificados os menores índices de desmatamento no país (Funai 2014).

O avanço das pesquisas científicas relacionadas aos efeitos ecológicos do fogo, realizadas ao redor do mundo (Lehmann 2014; William & Bond 2005) e no Brasil (Miranda 2010), demonstraram o papel fundamental do fogo no manejo e conservação das savanas. Desde então, começou-se a enxergar as práticas tradicionais de outra maneira. De “incendiários contumazes” os indígenas passaram a ser considerados, muitas vezes, especialistas em manejo e ecologia do fogo. Recentemente, pesquisadores e gestores vêm procurando resgatar esses conhecimentos tradicionais sobre os efeitos do fogo no Cerrado, seus objetivos, princípios, regimes e aplicações atuais, a exemplo de Melo (2007), Falleiro (2011) e Santana (2015), no caso brasileiro.

MIF nas Terras Indígenas possibilitou a integração das realidades socioculturais e das necessidades ecológicas com abordagens tecnológicas, proporcionando o resgate de práticas e conhecimentos tradicionais e o desenvolvimento de uma metodologia de planejamento e aplicação que respeita e valoriza as comunidades locais.

Fonte:

FALLEIRO, R. M. Resgate do Manejo Tradicional do Cerrado com Fogo para Proteção das Terras Indígenas do Oeste do Mato Grosso: um Estudo de Caso. Biodiversidade Brasileira, [s. l.], v. 2, p. 86–96, 2011. FALLEIRO, R. M.; SANTANA, M. T.; BERNI, C. R. As contribuições do manejo integrado do fogo para o controle dos incêndios florestais nas Terras Indígenas do Brasil. Biodiversidade Brasileira, [s. l.], v. 6, n. 2, p. 88–105, 2016.

FALLEIRO, R. Produção de frutos do cerrado utilizando o manejo tradicional do fogo. Anais do 3o Congresso Internacional Povos da América Latina (CIPIAL), 2019.

Vídeo:

Queimando o Bananal

Nos últimos anos, o Ministério do Meio Ambiente do Brasil vem trabalhando em parceria com comunidades indígenas. Eles estão aprendendo com os indivíduos mais velhos práticas de manejo do fogo, empregando indígenas no combate a incêndios e investindo na aplicação dessas práticas em larga escala. Essa abordagem evoluiu até se tornar a estratégia Manejo Integrado do Fogo, que utiliza queimadas planejadas em épocas específicas do ano para evitar a destruição de grandes áreas na temporada de calor e seca, quando costumam ocorrer grandes incêndios sem controle. Os conhecimentos tradicionais são a base de todo o trabalho das queimadas planejadas em territórios indígenas e já vêm sendo empregados em sete estados brasileiros (Mato Grosso, Roraima, Mato Grosso do Sul, Goiás, Maranhão, Tocantins e Amazonas) sobre mais de 11 milhões de hectares de territórios indígenas.

O Manejo do Fogo de Base Comunitária (MIFBC) busca promover a responsabilidade e o protagonismo das comunidades residentes em unidades de conservação e seu entorno no processo de tomada de decisão sobre o uso do fogo, visando minimizar a ocorrência e a extensão de incêndios.


O Manejo do Fogo de Base Comunitária é uma forma de gestão territorial que promove a efetiva participação das comunidades locais no planejamento e implementação conjunta de queimas controladas. Com isso, possibilita: (i) proteger a infraestrutura das comunidades; (ii) proteger áreas de recursos naturais importantes, como pastos, terras agrícolas e florestas sensíveis ao fogo; (iii) melhorar as práticas agropecuárias de subsistência; e (iv) assegurar que as queimas sejam realizadas de maneira mais benéfica para a conservação da biodiversidade e proteção do clima.

Um exemplo de Manejo do Fogo de Base Comunitária é o trabalho feito na Área de Proteção Ambiental do Jalapão que abrange parte dos municípios de Mateiros, Ponte Alta do Tocantins e Novo Acordo, coincide como zona de amortecimento do Parque Estadual do Jalapão (PEJ). Também faz limite com a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins e o Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba. Parte dos incêndios que atingem as UCs de Proteção Integral do Jalapão começa em propriedades inseridas na Área de Proteção Ambiental do Jalapão que possui mais de 460 mil hectares. Desde o ano de 2015, foram estabelecidas 11 zonas de manejo do fogo no Jalapão e o MIF é uma das estratégias de gestão do território. O Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins), por meio da equipe da Área de Proteção Ambiental (APA) do Jalapão, estabelece as ações de queimas prescritas na região. Um desses locais é a comunidade vizinha da Cachoeira da Velha, que é uma área do Estado, onde foi praticado o Manejo do Fogo de Base Comunitária.

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) relacionados:

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