Fogo no Cerrado!

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Não se pode levar adiante qualquer estudo sobre os cerrados, se não se tomar em consideração o fogo, elemento intimamente associado a esta paisagem. Apesar de sua importância para o entendimento da ecologia desse ambiente, enquanto conjunto biogeográfico, a ação do fogo nos cerrados é ainda mal conhecida e, geralmente, marcada por questões mais ideológicas que científicas. Também não se pode conduzir seu estudo com base apenas nas comunidades vegetais. O estudo do fogo como agente será mais completo se também se observar a comunidade faunística e os hábitos que certos animais desenvolveram e que estão intimamente associados à ação, cuja assimilação, sem dúvida, necessita de arranjos evolutivos caracterizados por tempo relativamente longo. Diante dessas observações, constata-se, por exemplo, que a perdiz Rhynchotus rufescens só faz seu ninho em “macegas”, tufos de gramíneas queimados no ano anterior. Da visita a várias áreas de cerrado imediatamente após grande queimada, tem-se constatado que, apesar de as árvores e arbustos se mostrarem enegrecidos superficialmente, estes continuam com vida, ostentando ainda, entre a casca enegrecida e o tronco, intensa microfauna. Fenómeno semelhante acontece com o estrado gramíneo: poucos dias após a queimada, mostra sinais de rebrota que constitui elemento fundamental para concentração de certas espécies animais.

O fogo é um elemento extremamente comum no cerrado, de tal forma antigo, que a maioria das plantas parece estar adaptada a ele.

Ferri, comentando trabalho de Rachid Edwards sobre a ação do fogo em áreas de campo limpo e cerrado, informa que a autora estudou especialmente as gramíneas, grupo que constitui a massa da vegetação baixa dos campos, e no qual existe grande número de espécies tunicadas. Entre elas destacam-se Aristida pallens, Imperata brasilienses, Tristachya leiotachya e Paspalurn carimatum, Flugge. Informa ainda que a autora estudou duas espécies de Schizacaceae (Filicinae) — Anemia anthrisifolia e A. fulva. Rachid Edwards indica, neste mesmo trabalho, que as formações túnicas são encontradas em plantas da vegetação baixa dos campos, como Graminae, Cyperaceae, Iridaceae, Filicinae etc. Designa ainda que, segundo Bouillene, ocorrem também em Velloziaceae, pontos vegetativos e, em função, comparam-se aos catafilos que protegem as gemas dormentes. Tais elementos, além de protegerem contra a perda da água, são eficazes na proteção contra o fogo e contra o forte aquecimento por ele produzido.

A autora ainda trata dos sistemas subterrâneos (bulbos, rizomas, tubérculos e xilopódios), que também proporcionam resistência às condições adversas.

Arens afirma que o fogo é um fator que acentua o oligotrofismo, influindo dessa maneira sobre conservação ou propagação do cerrado, e Goodiand sugere que a ação do fogo sobre microorganismos do solo é muito importante no cerrado, porém pouco conhecida. A produtividade primária é aumentada, pois há uma aceleração da ciclagem dos nutrientes minerais.

Na mesma linha de raciocínio, Coutinho informa que a ação do fogo no cerrado aumenta o vigor da vegetação herbáceo – subarbustiva, enquanto a arbustivo — arbórea o tem diminuído. Isso significa, de acordo com o autor, um aumento progressivo das áreas de campo sobre as áreas de cerrado e áreas de cerradão.

Outro dado importante a destacar, quando se procura entender a ação do fogo ao longo da história, é que a ação do homem pré-histórico brasileiro não funcionou como elemento perturbador dessa paisagem porque, além da ocupação do interior do Brasil ser um fato relativamente recente, era insignificante em termos populacionais para produzir perturbações em amplas escalas; suas ações revestem-se de caráter puramente local.

Ao longo do tempo, a ação do fogo no cerrado deve ser buscada em causas naturais. O calor e as variações do albedo sempre alto nas áreas provocam intensos movimentos convectivos na atmosfera, em que a concentração da umidade e o forte gradiente térmico atmosférico montam, rapidamente, tempestades magnéticas caracterizadas pela intensidade dos trovões, relâmpagos e raios.

Atualmente, a forma descontrolada de utilização do fogo pelo homem vem provocando sérios desequilíbrios nesse Sistema Biogeográfico.

O Fogo e o Cerrado. Yana Marull Drews, Angela Barbara Garda, João Paulo Morita, Christi an Niel Berlinck. Brasília, 2015, 30p, il.

Cientistas descobriram que o fogo estava presente no Cerrado muito tempo antes da chegada da espécie humana, sendo, naquela época, causado por raios durante o período das chuvas. No longo período de convivência com o fogo, muitas plantas dessa região desenvolveram características que as protegem das altas temperaturas durante os incêndios e permitem que elas se recuperem após a passagem do fogo.

Atualmente, o fogo é provocado também pelo homem e utilizado durante a estação seca para preparar novas áreas para o cultivo, para a renovação de pasto ou para estimular a floração de algumas espécies. É comum que este fogo se espalhe pela vegetação nativa provocando incêndios que alteram os ambientais naturais, o ciclo de vida dos seres vivos, e os recursos naturais, como água, e o clima.

Compreender as relações entre o fogo e o Cerrado é importante para que se possa utilizá-lo de forma ecologicamente sustentável. O livro O Fogo e o Cerrado, lindamente ilustrado, aborda de forma simples e didática conceitos da história e ecologia do fogo no Cerrado, assim como princípios de uso controlado do fogo para atender às necessidades de produção de alimento e conservação da natureza. Assim, “o nosso céu continuará a chover, as águas continuarão a fluir, animais e plantas continuarão a existir, e todos nós poderemos viver melhor no Cerrado” como concluem os autores.

Heloisa Sinátora Miranda

“O presente trabalho foi desenvolvido no âmbito do Projeto Prevenção, Controle e Monitoramento de Queimadas Irregulares e Incêndios Florestais no Cerrado. O Projeto é uma realização do governo brasileiro, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, no contexto da Cooperação para o Desenvolvimento Sustentável Brasil-Alemanha, parte da Iniciativa Internacional de Proteção do Clima do Ministério Federal do Meio Ambiente, Proteção da Natureza, Construção e Segurança Nuclear da Alemanha. O projeto conta com apoio técnico da Deutsche Gesellschaft für Internati onale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH e apoio financeiro do Banco Alemão para o Desenvolvimento (KfW)”.

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Almanaque do Fogo 2017: prevenção e combate ao incêndio florestal. Organização: Equipe de Educação Ambiental do Instituto Brasília Ambiental – IBRAM; Coleção: Almanaque do Fogo. – Ano 2, 2. ed. atual (nov/2017) – Brasília: IBRAM, 2017.

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