O PIAR DA JURITI PEPENA: narrativa ecológica da ocupação humana do cerrado

O PIAR DA JURITI PEPENA: narrativa ecológica da ocupação humana do cerrado

Autor

Altair Sales Barbosa

Título

O PIAR DA JURITI PEPENA: narrativa ecológica da ocupação humana do cerrado

Editora

PUC Goiás

Ano

2014

Assuntos

 Anhanguera, História, Indígena.

Síntese

Dahy era um índio Uru-eu-wau-wau que habitava as cabeceiras do rio Jamari, no Planalto de Alta Lídia, na serra dos Pakaás-Novos, e era um hábil caçador que abastecia com carne seu povo. Numa certa noite, esse jovem índio teve um pesadelo que acordou toda a aldeia. Indagado sobre o que sonhara, disse que,  no meio da noite, por três vezes, ouvira o piar da Juriti Pepena e, em meio a uma cortina de fumaça que se formava, vislumbrou homens estranhos invadindo suas terras para roubar os últimos carocinhos de açaí.

A CHEGADA DOS CARAÍBAS E O TRUQUE DO FOGO

Os primeiros colonizadores de origem europeia que chegaram ao Cerrado eram representados pelos agrupamentos de bandeirantes.

A primeira bandeira sem dúvida foi a comandada por Bartolomeu Bueno (o pai), no final do século XVII, embora, conforme relatos do historiador Paulo Bertram, ele tenha se fixado mais em terras que hoje compreendem o noroeste e centro de Minas Gerais, entre os rios Paracatu e Carinhanha, já no limite atual com a Bahia.

Entretanto, quando seu filho Bartolomeu Bueno da Silva Junior, o Anhanguera, chegou até os sopés da Serra Dourada, no Rio Vermelho, e encontrou o que sobrou dos conhecidos índios Goyá, eles lhe mostraram os vestígios do acampamento onde seu pai estivera há pelo menos 50 anos. Portanto, embora o povoado de Vila Boa tenha sido fruto de Bartolomeu Bueno, o filho, a “descoberta” daquele local e primeiro contato com os índios Goyá podem ser atribuídos a Bartolomeu Bueno, o pai.

Segundo Bertram, Bartolomeu Bueno era bugreiro, ou seja, caçador de índios para escravizá-los, e também grande matador dos povos indígenas. Ainda de acordo com os registros de Bertram, a esse bandeirante se atribui erroneamente a história de enganar os índios ateando fogo em álcool ou cachaça. Entretanto, convém salientar que essa tática era comum entre os portugueses. Há relatos de que outros bandeirantes a usaram. E mesmo que esses meios não tenham sido utilizados por Bartolomeu Bueno, o pai, para enganar os índios Goyá, certamente era do cabedal de táticas enganosas conhecidas por Bartolomeu Bueno, o Júnior.

O padre Luiz Antônio da Silva e Souza, em “O descobrimento da capitania de Goyaz”, publicado em 1812, relata uma história dessas:

O nome Serra do Ramalho é porque João Ramalho esteve por aqui, entre 1510 e 1512, aquele mesmo português foragido que se casou com a filha de Tibiriçá, a índia Bartira. Depois que ameaçou secar as águas dos índios, botando fogo no álcool, os índios ficaram amigos dele e o ajudaram a fazer muitas viagens de descoberta, inclusive a que fez nesta Serra da Carinhanha para procurar ouro.”

 

Título: CICLO DA CAÇA AO ÍNDIO, de BERNARDELLI, HENRIQUE -1925
Foto: José Rosael-Hélio Nobre-Museu Paulista da USP

Acervo: Museu Paulista da USP

 

COMO TUDO COMEÇOU 

É conhecido que Goiás nasceu com a descoberta de ouro pelos bandeirantes, mas cresceu e se desenvolveu com a pecuária e com a agricultura. Dizem até mesmo que a pecuária teria precedido a mineração.

Embora essa afirmação se refira ao povoamento de Goiás, esse modelo de ocupação do espaço por populações não indígenas pode ser encontrado por todo o Brasil Central. E isso é bem possível, porque um dos nossos primeiros historiadores, o padre Silva e Souza, dá-nos notícia de que os bandeirantes do Anhanguera teriam se deparado com cabeças de gado bravio que já pastavam naturalmente na região do Vão do Paranã.

Esse gado teria vindo desgarrado dos Gerais da Bahia, onde, desde meados do século XVII, a pecuária – como já vinha acontecendo em todo o grande sertão nordestino – se tornava a principal atividade econômica e social.

Quaisquer que sejam as histórias contadas, em um ponto historiadores e geógrafos são unânimes: a atividade pastoril surgiu inicialmente para abastecer as minas; depois, já como atividade permanente, introduziu a mobilidade em um território até então enclausurado pelas grandes distâncias e pelo isolamento geográfico, e isso proporcionou o desenvolvimento de um mercado interno e, consequentemente, serviu de base para a ascensão plena da atividade agrícola.

Quando as minas de ouro, ainda no século XVIII, entram em decadência, fazendo com que boa parte dos que para cá vieram debandasse para outras regiões do país, a região e sua diminuta população permaneceram ilhadas, como náufragos, no coração do Brasil. Foram esses o estado de ânimo e a realidade retratadas pelos historiadores. Acrescente-se a isso as dificuldades enfrentadas pela agricultura no seu começo.

Durante os primeiros cinquenta anos de Goiás, os administradores coloniais – inclusive o primeiro governador, D. Marcos de Noronha, que governou de 1749 a 1753 – relegaram a agricultura ao patamar mais baixo das atividades produtivas.

Goiás produzia muito ouro e os produtos de que necessitava a população mineira – todos ou quase todos – vinham de fora e eram pagos, literalmente, a peso de ouro. Foi necessário que as minas se esvaziassem de vez para que não apenas a administração, mas também toda a população acordasse para a única saída econômica capaz de tirar a população do estado de letargia coletiva em que se encontrava: a agricultura.

Não havia outra saída, porque, fora da roça e da criação de gado como formas permanentes de atividade, Goiás se transformaria em breve em uma imensa tapera, abandonado que seria por seus moradores.

Muitos estudiosos da história, senão a maioria, ao comparar a época de fausto – que teria sido o ciclo do ouro – com o estado de desânimo – que de um modo geral tomou conta da população quando as minas secaram – classificaram essa fase da história como a da decadência. Qualquer que seja o nome que se lhe dê, ela foi, sobretudo, a fase das décadas perdidas.

Mas, como de todo revés – seja histórico ou não – pode-se tirar lições, lentamente os habitantes que aqui se enraizaram descobriram que o verdadeiro tesouro que procuravam se descortinava à vista de todos: esse grande ambiente natural, que é o Cerrado. As lições foram logo aprendidas.

Uma delas, que perdura até hoje, foi perceber que diante de um meio geográfico rico, em que dominam as imensas chapadas cobertas de pastos naturais a perder de vista, entrecortadas aqui e ali por placas de solos férteis próprios para a roça tradicional – o “Mato Grosso” Goiano e os  vales de importantes rios como o Paranaíba, Corumbá, Meia Ponte, Turvo-Bois, Maranhão, Crixás-Açu, Claro, Caiapó, Santa Tereza, Paranã… –,  a verdadeira vocação social e econômica do seu imenso território não era cavoucar a terra à procura do ouro incerto,  mas nela plantar e criar para se produzir alimentos, nem que fosse para a sobrevivência das pessoas.

Como um rio que não secara de vez, lentamente, os que permaneceram na região souberam reencontrar o leito natural de sua história e de sua vocação social e econômica: ser vaqueiro e lavrador.

Ao dar início a outra fase econômica, social e, sobretudo, política, na qual se acham indistintamente envolvidos todos os habitantes do centro do Brasil, descobriram o caminho da roça, ou melhor, tomaram consciência de que, fora da atividade agropastoril, a área continuaria trilhando pelos caminhos da desilusão que o ouro abrira.

A CORRIDA DO OURO

Durante a Corrida do Ouro – no Brasil Central, período que, de forma geral, vai, a grosso modo, de 1722 a 1822, e conhecido como período colonial – todo garimpo, em princípio, transformava-se em um núcleo de povoamento urbano, cuja duração no tempo dependia exclusivamente da fartura com que a terra respondia às expectativas dos garimpeiros.

Assim, no começo, segundo afirmam os historiadores, Goiás povoou-se e despovoou-se com o ouro. Um dos presidentes da então Província de Goiás – José Martins Pereira de Alencastre, que governou pouco mais de um ano, entre abril de 1861 e junho de 1862 – resume, em seus Anais da Província de Goyaz, o que foi a saga da corrida do ouro nos sertões goianos e tocantinenses no período colonial:

Um imenso lençol de ouro se desenrolava às vistas ávidas do mineiro ambicioso, e suas esperanças eram satisfeitas, no princípio sem quase trabalho e sacrifício. Mas foram poucos os anos de grandeza e prosperidade. O meteoro passou à luz fugaz dessa transitória grandeza e sucedeu o quadro mais constritador [sic] o deslumbramento, porém, continuou por muito tempo ainda [… A mineração era uma espécie de Saturno a devorar seus próprios filhos, era um simulacro desse louco trabalhar das Denaides, sem fim e sem resultado, porque sempre estava em começo.”

Todos nós sabemos hoje o que representaram, em prejuízo para a natureza e para as pessoas, os estragos materiais e psicológicos que os garimpos, os antigos e os atuais, deixaram e deixam pra trás.

Nem tudo, porém, é tristeza e constrangimento, porque, da atividade mineradora, nasceram alguns de nossos ricos patrimônios arquitetônicos e urbanos – Vila Boa, a cidade de Goiás; Meya-Ponte, hoje Pirenópolis. No seu rastro, vieram outras relíquias, que tiveram vida longa ou efêmera – Santa  Cruz, Pilar, Chapéo (atual Monte Alegre de Goiás), Flores (de Goiás), Crixás, São Domingos, Bom Fim,  atual Silvânia, Santa Luzia, hoje Luziânia, São José do Tocantins, rebatizada como o nome de Niquelândia, Corumbá de Goiás, Caldas Novas (que nasceu ao lado de fontes termais), Santo Antônio do Descoberto (que se chamava Montes Claros), Trayras (que hoje não passa de ruínas abandonadas e até trocou de nome, conhecida atualmente por Tupiraçaba, hoje um mero distrito quase despovoado de Niquelândia), São Felix, cujos testemunhos de sua existência não resistiram ao tempo, apesar de ter existido ali uma casa de fundição, o que lhe conferia um status de arraial importante, Jaraguá, e certamente muitos outros que tiveram vida curta para durar no tempo, como os arraiais do Maranhão, em Goiás, e Pontal, no Tocantins.

Do lado tocantinense sobreviveram ao tempo, dentre outras cidades, Arrayas, Barra da Palma – atual Paranã, Conceição (do Tocantins), Natividade, Chapada da Natividade, Príncipe (hoje Chapada de Areia), Dianópolis (ex-Duro) – que não nasceu propriamente do ouro, mas sim de um aldeamento de índios que atormentavam os garimpos –, Monte do Carmo e Porto Nacional (antigo Porto Real), esta última funcionando como cabeça-de-ponte de navegação e controle de passagem de pessoas que buscavam as minas do norte da capitania.

A ILUSÃO DO ENRIQUECIMENTO FÁCIL

A saga era contada de muitas maneiras, e as histórias de decepções e frustrações são muito mais trágicas e mais numerosas que as de alegria proporcionada pela ilusão do enriquecimento fácil. Como dizíamos, os lugarejos iam surgindo, mas a maioria não passava de simples aglomeração de palhoças sem nenhum conforto, em o que o nome “urbano” também não passava de um eufemismo, dada a falta sistemática do que se poderia chamar de “equipamentos urbanos”: arruamentos regulares, construções mais sólidas, administração, serviços urbanos banais etc.

Anta, Curriola, Pontal (provavelmente o primeiro sítio do que seria o Arraial de Porto Real, à margem esquerda do Rio Tocantins), Pontal da Natividade (próximo à confluência do Rio Manoel Alves com o Tocantins). Outros não passam de lugares abandonados ou em completa ruína – Trayras, que foi, ao lado de Vila Boa e Meya-Ponte, um dos  mais importantes arraiais do ouro de Goiás, Ouro Fino   (Itaiú), Ferreiro, Cocal, Água Quente, Lavrinhas, Amaro Leite (cuja sede foi transferida para a atual cidade de Mara Rosa, às margens da rodovia Belém-Brasília), Santa Rita, hoje  chamada de Jeroaquara, distrito de Faina, a outra Santa Rita, distrito de Niquelândia, Muquém, lugar de peregrinação em homenagem à padroeira de Goiás,  Nossa Senhora d´Abadia, e muitos outros, cujos nomes e lembranças desapareceram para sempre do imaginário popular no Centro-Oeste brasileiro.

“SÍTIOS IMPOSSÍVEIS”

Apesar dos problemas existentes – o isolamento geográfico, os “Sítios Impossíveis” em que esses arraiais se erguiam, por razões óbvias, próximos às minas – no interior do Brasil – nas capitanias de Minas (Minas Gerais, Goiás-Tocantins e Mato Grosso-Mato Grosso do Sul), a mineração foi a atividade que maior influência exerceu sobre o aparecimento das cidades no período colonial.

A fisionomia urbana das cidades nessas áreas era praticamente a mesma, principalmente em Goiás-Tocantins e em Mato Grosso: uma grande praça no centro, com uma igreja matriz ocupando o lugar de destaque, para onde convergiam as ruas, geralmente tortuosas, decorrentes do relevo acidentado, predominante nas regiões auríferas.

Do lado goiano-tocantinense, excetuando-se Vila Boa (a Goiás Velho, antiga capital), e a Meya-Ponte de outrora – a atual Pirenópolis – os arraiais não passavam de pequenas aglomerações com mais de uma centena de casas. O elemento que mais os diferenciava das outras cidades modernas é a sua arquitetura colonial.

Geralmente, ao redor da grande praça, eram construídos, além da igreja matriz, os edifícios públicos e as casas burguesas, sobretudo na forma de sobrados. As casas de classe, digamos, média, ficavam mais distantes; eram baixas, normalmente geminadas, cobertas com telhas comuns de argila, pintadas a cal, com janelas enfeitadas com folhas de malacacheta (mica).

Mais afastado do centro da cidade, o habitat deixava de ser arquitetural para transformar-se em miseráveis habitações de taipa e de terra batida cobertas com folhas de palmeiras o com sapé, que abrigavam as classes pobres ou escravos alforriados. Eram as autênticas favelas coloniais.

Naquela época, a ocupação do espaço urbano obedecia à mesma lógica da segregação espacial presente nas cidades atuais. Tomemos o exemplo de Goiânia: ao redor da Praça do Bandeirante fica o centro comercial e financeiro; um pouco mais afastados, formando anéis urbanos, estão os bairros burgueses e ricos; mais distantes, brotam e multiplicam-se os bairros e conjuntos populares; constituindo a periferia proletária.

Aliás, praticamente toda cidade hoje, tanto no Brasil como no mundo inteiro, tem esse arranjo espacial, apesar da existência de numerosos condomínios fechados de luxo disputando os espaços urbanos periféricos com as populações proletárias.

Ao se observarem os mapas das cidades goiano-tocantinenses surgidas no século XVII, verificam-se que as que nasceram do ouro, paradoxalmente, estão, em sua maioria, situadas nas regiões mais pobres e mais despovoadas de Goiás e Tocantins, no vale do Rio Tocantins e de seus principais afluentes – Rio Paranã, sobretudo – e aos pés da Serra Dourada, em volta de Vila Boa.  Após o esgotamento do ouro das minas, muitas delas passaram de relativamente prósperas a decadentes.

Em Minas Gerais, como se sabe, o barroco da arquitetura das cidades coloniais era bem mais exuberante e mais rico, porque o ouro foi aí também mais abundante.  Ali nasceram as mais expressivas joias da arquitetura barroca que ouro pôde construir: Ouro Preto, a antiga Vila Rica, capital da capitania; São João Del-Rey, Sabará, Mariana, Caetés, Diamantina (a cidade da lendária Xica da Silva e que produziu mais diamantes que ouro), Tiradentes, Congonhas, para citar apenas as mais importante

CATEQUESE

Desde o período colonial, a questão indígena vem sendo tratada de maneira apenas para camuflar um problema crucial: a relação de forças entre índios e brancos que sempre pendeu para o lado do branco.

Na opinião da professora Marivone Matos, os aldeamentos e missões religiosas, principalmente os estabelecidos pelos jesuítas, traziam em seu bojo uma grande contradição: não atuaram como instrumentos de integração da população indígena no processo de colonização, mas quase que tão-somente como meios de propagação da fé e defesa dos interesses da Igreja ou das respectivas ordens religiosas.

Seus objetivos eram bem mais amplos do que os do elemento leigo, visto que as suas perspectivas quanto ao índio se lançavam rumo ao intemporal, contrapondo-se aos interesses da colonização leiga, para a qual o “silvícola” se apresentava apenas numa dimensão biológica e econômica.

Além do mais, ao mesmo tempo em que a Coroa portuguesa procurava proteger o índio contra a ação dos colonizadores, ela fechava os olhos aos massacres e à escravidão a que ele era submetido. Não conseguiram, como costumeiramente declaravam querer, que o índio se constituísse também num elemento povoador do território.

REAÇÃO E DESTINO INDÍGENA

Essa correlação de forças se apresentava como algo inevitável e o que mais se lamenta em todo o tempo é a forma como ela se deu: o aniquilamento físico sistemático do indivíduo indígena por meio de todo tipo de “guerra suja” comandada por capitães-do-mato, eufemisticamente chamados de bandeirantes ou sertanistas.

Do lado do índio, as ações mais comuns eram as razzias, que não passavam de ataques pontuais a pequenos arraiais e povoados ou a fazendas, principalmente por parte dos índios Canoeiro e Xavante. Outros, como os Kayapó, que habitavam os sertões à entrada da capitania, com a chegada dos brancos, simplesmente desapareceram porque foram massacrados no início ou porque refluíram para regiões mais distantes do eixo da mineração, como única alternativa para não desaparecer como grupos humanos.

Os Karajá, hiptnotizados por uma profecia maldita, ou melhor, por um destino trágico que lhes parecia inelutável, renderam-se às armadilhas do homem branco – catequese, aldeamentos – e praticamente se desmantelaram como forma de organização tribal. Hoje tentam resistir em um pequeno agrupamento que não reúne mais de 150 pessoas às portas da cidade de Aruanã, em terras que são constantemente invadidas por proprietários de mansões de luxo ou por fazendeiros poderosos.

Os Javaé se refugiaram na Ilha do Bananal. Como eles, outros povos reunidos em tribos e nações menores – Xambioá, Akroá, Tapuia, Canoeiro – perderam a autoconsciência que tinham enquanto índios, cedo desapareceram do mundo, como os Goyá, ou então se renderam ao poder do Estado e da Igreja e lentamente se aculturaram, não mais opondo resistência ao que seria um desígnio dos deuses: a  ocupação e o povoamento irresistíveis de seus territórios por forças incontroláveis.

Os Tapuia, que surgiram da miscigenação dos índios Karajá, Xavante e Kayapó confinados no antigo aldeamento Carretão de Pedro III – hoje denominado de Carretão I e Carretão II, com negros quilombolas e situado entre os municípios de Rubiataba e Nova América, em Goiás – como os Karajá, não passam de 150 pessoas.

Os Canoeiro se desenraizaram da terra onde viviam – no vale do Rio Maranhão-Tocantins – e ainda continuam procurando um território para abrigar meia dúzia de remanescentes dos grandes guerreiros que foram no passado.

No Tocantins, uns poucos Xambioá ainda persistem em volta da cidade do mesmo nome. Os Apinagé e os Xerente preservaram uma parte do seu antigo território e vivem em suas reservas às portas das cidades de Tocantinópolis e Tocantínea, respectivamente. Os Krahô têm seu território situado entre os municípios de Goiatins e Itacajá.

RESULTADOS DA GUERRA SEM TRÉGUA

Os avanços de uns (os brancos) ou recuos de outros (os indígenas) se constituíram, então, na dinâmica que caracterizou a formação territorial, o povoamento e a urbanização de Goiás e Tocantins, em que, numa relação de forças, conforme enfatiza o sociólogo Norbert Elias, em seu fabuloso livro “A sociedade dos indivíduos”, uma “ordem social de nível de organização superior – a estatal – substitui, inelutavelmente, a uma outra, menos equipada e de nível de organização inferior – a ordem ‘social tribal’”.

Os aldeamentos foram apenas episódios dessa guerra sem tréguas. Mas muitos deles se constituíram nos primeiros núcleos populacionais de algumas cidades goiano-tocantinenses: Mossâmedes e, talvez, porque não confirmado em documentos oficiais, Porangatu, em Goiás; Dianópolis, antiga São José do Duro, Pedro Afonso, Tocantínea e Itacajá, no Tocantins.  E nos municípios dessas duas últimas cidades, bem como nas vizinhanças de Tocantinópolis, encontram-se as importantes reservas indígenas dos Xerente, Krahô e Apinajé, respectivamente.

Em outras regiões em que, por causa das condições peculiares do meio ambiente, a população branca não conseguiu se fixar – caso da Ilha do Bananal –, foram criados, respectivamente, dois parques: o Parque Nacional e o Parque Indígena do Araguaia. O aldeamento do Carretão, no vale do São Patrício, próximo à atual cidade de Rubiataba, não evoluiu como cidade.

Referência

BARBOSA, Altair Sales.  O PIAR DA JURITI PEPENA: narrativa ecológica da ocupação humana do cerrado.Goiânia: Editora Puc Goiás, 2014.

História da terra e do homem no Planalto Central: eco-história do Distrito Federal – do indígena ao colonizador

História da terra e do homem no Planalto Central: eco-história do Distrito Federal – do indígena ao colonizador

Link para o livro

Autor

Paulo Bertran

Título

História da terra e do homem no Planalto Central: eco-história do Distrito Federal – do indígena ao colonizador

Editora

Solo

Ano

1994

Assuntos

História, Eco-história, Distrito Federal

Síntese

A construção de Brasília no Planalto Central invisibilizou a história dos grupos pré-históricos, dos indígenas, dos quilombolas, dos bandeirantes paulistas, dosjesuitas, dos criadores de gado, dos goianos. Invisibilizou as Estradas Reais que atravessaram o Brasil Central no período colonial, inclusive as duas que cortavem o território do atual Distrito Federal. Uma delas seguia em direção a Salvador, cruzando Brazlândia, Sobradinho e Planaltina. A outra, rumo ao Rio deJaneiro, passava pela Ponte Alta, no Gama. Invisibilizou o Planalto aurífero e as minas de ouro encontradas nas cidaes de Goiás, Pirenópolis, Corumbá, Luziânia, Santo Antônio do Descoberto, Jaraguá, Cavalcante. Invisibilizou as antigas fazendas centenárias goianas, que tiveram suas terras desapropriadas para a construção da nova capital. Fazendas, aliás, dentro do Distrito Federal , que pertenciam a Luziânia, Planaltina e Formosa. Isso mesmo! Luziânia, Planaltina, Formosa, Brazlândia, Pirenópolis, Corumbá, Cristalina já existiam. Brasília chegou depois… Bem depois… Depois de algumas dessas cidades já comemoravam 200 anos de idade. O andarilho cerratense Paulo Bertran visibilizou tudo iusso ao escrever esta “História da Terra e do Homem no Planalto Central – A Eco-história do Distrito Federal, do indígena ao colonizador”.

Referência

BERTRAN, P. História da terra e do homem no Planalto Central: eco-história do Distrito Federal – do indígena ao colonizador. Brasília: Solo, 1994.

Meiaponte: história e meio ambiente em Goiás

Meiaponte: história e meio ambiente em Goiás

Autor

Kelerson Semerene Costa

Título

Meiaponte: história e meio ambiente em Goiás

Editora

Paralelo 15

Ano

2001

Assuntos

História, Meio Ambiente, Mineração

Síntese

‘Meiaponte – História e meio ambiente em Goiás’ é um livro que participa do recente contexto da história ambiental brasileira. O autor toma como objeto de estudos a cidade de Meiaponte (atual Pirenópolis), no final do século XIX. O ponto de partida é a poluição das águas do rio das Almas, provocada pela Companhia de Mineração Goyana e a reação enérgica da população local. Esse episódio conduz à exploração de um amplo conjunto de problemas, entre os quais o de saber que atitudes e relações mantinham os homens daquele tempo com o ambiente à sua volta – as ações violentas do ano de 1887 não podem ser consideradas precursoras diretas das sensibilidades ambientais deste nosso século XXI, ou como ‘o início de uma vocação ecologista do povo pirenopolino’, como observa o autor deste livro, porém constituem, sem dúvida, um caso bem documentado da maneira pela qual os homens daquele tempo e daquele lugar enfrentaram o gravíssimo problema da poluição das águas que garantiam sua sobrevivência e qualidade de vida. Ao investigar o conflito, o livro revela a trajetória, ao longo do século XIX, daquele que foi, ao lado da antiga Vila Boa (atual Cidade de Goiás), o principal núcleo urbano da província, ao buscar os nexos entre relações sociais, estruturas de poder, sensibilidades ambientais e uso e controle dos recursos naturais. Além disso, o livro apresenta um quadro bem delineado do processo de reordenamento das forças produtivas em Goiás após o declínio da sociedade mineradora, aborda o esquecido tema da mineração no século XIX e oferece relevantes contribuições para a história das técnicas e a história cultural. A pesquisa foi feita com base em inventários post mortem, documentos oficiais da Câmara Municipal, do governo provincial e de ministérios, jornais e estudos técnicos, e também recorreu à fotografia e à literatura de caráter regionalista.

Referência

Semerene Costa, Kelerson. Meiaponte: história e meio ambiente em Goiás. Brasília: Editora Paralelo 15, 2013.

Cerrado em Cores e Tramas na obra de Mário Salluz e Juão de Fibra

Cerrado em Cores e Tramas na obra de Mário Salluz e Juão de Fibra

Autor

Êrika Fernandes Cruvinel 

Título

Cerrado em Cores e Tramas na obra de Mário Salluz e Juão de Fibra

Editora

Viva

Ano

2018

Assuntos

Cerrado, Artes

Síntese

O livro apresenta o Cerrado através das obras de dois artistas que migraram ainda criança, na década de 70, do nordeste para a região do Gama-DF, onde suas trajetórias de vida e artísticas foram construídas, tendo como referência a natureza em uma relação de integração profunda em que o homem, o artista, a obra e o Cerrado se confundem.

Referência

Fernandes Cruvinel, Êrika. Cerrado em Cores e Tramas na obra de Mário Salluz e Juão de Fibra. Brasília: Viva Editora, 2018.

Alternativas para o bioma Cerrado: agroextrativismo e uso sustentável da sociobiodiversidade

Alternativas para o bioma Cerrado: agroextrativismo e uso sustentável da sociobiodiversidade

Link para o livro

Autores

Stéphane Guéneau, Janaína Deane de Abreu Sá Diniz e Carlos José Sousa Passos

Título

Alternativas para o bioma Cerrado: agroextrativismo e uso sustentável da sociobiodiversidade

Editora

 Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB)

Ano

2020

Assuntos

Agroextrativismo, Cerrado e Sociobiodiversidades

Síntese

Este livro tem como objetivo proporcionar um panorama de diversas pesquisas que se interessa ao desenvolvimento sustentável do bioma Cerrado. Os 12 capítulos abordam as práticas agroextrativistas baseadas no uso sustentável da biodiversidade, como alternativas possíveis ao modelo agroexportador dominante que gera danos sociais e ambientais significativos. No entanto, procuramos oferecer uma obra que trata várias dimensões do desafio da elaboração e da implementação de uma alternativa viável no Cerrado: organização territorial, sistemas de produção, valorização dos saberes tradicionais, comercialização e organização das cadeias produtivas, políticas públicas, e tecnologias alternativas e adaptadas. As pesquisas apresentadas neste livro mostram que, embora frequentemente apresentados como “arcaicos”, os sistemas agroextrativistas são, pelo contrário, extremamente complexos e inovadores. As técnicas de conservação da agrobiodiversidade, os sistemas agroflorestais ou a capacidade de resiliência e adaptação ao avanço do agronegócio são evidências que mostram que tais sistemas deveriam ser integrados nos cenários de desenvolvimento sustentável do Cerrado.

Referência

Diniz, Janaína Deane de Abreu Sá; Passos, Carlos José Sousa. (Org.). Alternativas para o bioma Cerrado: agroextrativismo e uso sustentável da sociobiodiversidade. Stéphane Guéneau. Brasília, DF. Editora IEB Mil Folhas, 2020.

Dos Cerrados e de suas Riquezas: de saberes vernaculares e de conhecimento científico

Dos Cerrados e de suas riquezas: de saberes vernaculares e de conhecimento científico

Link para o livro

Autor

Carlos Walter Porto-Gonçalves 

Título

Dos Cerrados e de suas riquezas: de saberes vernaculares e de conhecimento científico

Editora

FASE e CPT

Ano

2019

Assuntos

Cerrado, Povos do Cerrado, Desenvolvimento

Síntese

A publicação organizada por Diana Aguiar, da FASE, e Valéria Pereira Santos, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), traz as análises acumuladas pelo professor Carlos Walter Porto-Gonçalves, da Universidade Federal Fluminense (UFF), em cerca de vinte anos de andanças pelos territórios dos Cerrados e diálogo com seus povos. O próprio Cerrado é, em si mesmo, uma ode ao diálogo na diversidade. Bioma dominante no Brasil Central, o Cerrado faz contato com quase todos os outros biomas brasileiros e, nessas variadas tensões ecológicas, multiplica suas riquezas em interação com as riquezas da Amazônia, da Caatinga e da Mata Atlântica. 

Ademais, como berço das águas que é, o Cerrado presenteia não somente seus povos, como também os povos que vivem nesses outros biomas, com fundamentais rios e aquíferos, desde vários afluentes do Madeira ao Velho Chico, do rio Paraná ao Parnaíba, do Doce ao rio Paraguai.

Referência

Aguiar, Diana; Santos, Valéria Pereira (Org.). Dos Cerrados e de suas Riquezas: de saberes vernaculares e de conhecimento científico. Carlos Walter Porto-Gonçalves. Rio de Janeiro-Goiânia: FASE, CPT, 2019. 

Magnastigma julia

Magnastigma julia, Nicolay, 1977

Nome(s) popular(es):

Fadinha.

História natural:

Magnastigma julia se reproduz várias vezes por ano, com principal ocorrência entre os meses de abril e julho, durante a estação seca. Encontrada em cerrados arbustivos, fisionomias abertas, campestres, rente a declividades pedregosas e úmidas, acima de 900 m de altitude. Populações restritas e com poucos indivíduos, normalmente relacionada à presença de sua planta hospedeira, trepadeira parasita Cassytha filiformis (Lauraceae). As fêmeas colocam seus ovos nas manchas da trepadeira, mesmo local onde as lagartas são encontradas e os machos defendem territórios.

Descrição:

Magnastigma julia é uma borboleta muito pequena (asa anterior 9mm), marrom escura, com mancha androconial negra muito grande na margem costal da face dorsal e pequenos pontos vermelhos submarginais na face ventral da asa posterior; as franjas e caudas brancas. Representa a menor espécie e a menos colorida dentro do gênero; é quase invisível quando voa rapidamente entre hastes de plantas arbustivas ou gramíneas” (CASAGRANDE; MIELKE; BROWN, 1998, p. 257).

Distribuição:

Endêmica do Brasil, “é encontrada em Brasília (DF), no município de Alto Paraíso de Goiás, nas proximidades do PARNA da Chapada dos Veadeiros e em Pirenópolis e Cocalzinho de Goiás, próximo à Serra dos Pireneus (GO) e nos municípios de Barbacena e Santana do Riacho (MG)” (ICMBIO, 2018, p. 169; EMERY; BROWN JR; PINHEIRO, 2006; SILVA et al., 2016)

Conservação:

Espécie categorizada como Em Perigo (EN) e Ameaçada (IUCN e ICMBio).

É rara, existem poucos dados sobre a espécie e é conhecida no Cerrado porção central em poucos locais próximos entre si. A perda e fragmentação de habitat, consequência dos impactos causados pelas atividades agropecuárias no Cerrado geram severo isolamento das populações. As queimadas, ocupação urbana e uso de agrotóxicos também representam ameaças à espécie.

“É necessária a proteção das áreas em que a espécie ocorre” (ICMBIO, 2018, p. 169) e “localização de novas colônias, preservação de seus hábitats, estudos ecológicos e biológicos” (FREITAS; MARINI-FILHO, 2011, p. 46).

Referências

CASAGRANDE, Mirna M; MIELKE, Olaf H.H; BROWN JR, Keith S. Borboletas (Lepidoptera) ameaçadas de extinção em Minas Gerais, Brasil. Rev. Bras. Zool., Curitiba, v.15, n.1, p. 241-259, 1998. https://doi.org/10.1590/S0101-81751998000100021.

 

EMERY, Eduardo de Oliveira; BROWN JR, Keith S.; PINHEIRO, Carlos E. G.. As borboletas (Lepidoptera, Papilionoidea) do Distrito Federal, Brasil. Rev. Bras. entomol., São Paulo, v. 50, n. 1, p. 85-92, Mar. 2006. https://doi.org/10.1590/S0085-56262006000100013.

 

FREITAS, A. V. L.; MARINI-FILHO, O. J. Plano de Ação Nacional para Conservação dos Lepidópteros Ameaçados de Extinção. Brasília: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, ICMBio, 2011. 124 p. (Série Espécies Ameaçadas; 13).

 

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Gavião Pedrês

Buteo nitidus (Latham, 1790)

Nome(s) popular(es)

Gavião Pedrês, Gavião Cinza, Gavião Pintado.

História Natural

O Gavião Pedrês é um gavião relativamente comum, encontrado em bordas de matas, savanas e áreas abertas com árvores. Não costuma ocupar o interior de florestas densas, e pode habitar matas alteradas ou fragmentadas, sendo relativamente adaptável. No Cerrado, pode ser visto em matas de galeria, matas secas, cerradões, cerrados típicos e campos sujos. Fica muito tempo empoleirado, atento ao solo para caso alguma presa apareça, e pode ser visto planando, se sustentando nas correntes térmicas das horas mais quentes das manhãs, embora não plane muito alto ou por muito tempo. Seus hábitos são semelhantes ao do Gavião Carijó, embora seja menos comum, mais ágil e poderoso que ele. Caça atacando diretamente de um poleiro, mas pode manobrar entre as árvores para perseguir suas presas, que incluem lagartos, como o Bico Doce, cobras, aves, como o Saí de Perna Amarela e alguns periquitos (família Psittacidae), roedores, e insetos grandes, como gafanhotos e besouros. Faz seu ninho com gravetos e galhos secos no alto das árvores, geralmente na borda da mata, onde põe de 2 a 3 ovos. O macho costuma trazer alimento para a fêmea e filhotes durante as primeiras semanas de vida destes, e após esse período a fêmea passa a colaborar mais nesta tarefa. Durante a reprodução se torna territorialista, podendo atacar outros rapinantes que se aproximem da área de seu ninho, como o Falcão Peregrino.

Descrição

Mede de 38 a 46 cm de comprimento. Sua coloração geral é cinza claro, com as costas levemente mais escuras, e um fino padrão barrado claro do peito pra baixo, inclusive nas costas. Sua cauda é preta com duas a três barras brancas, além de uma fina faixa clara na extremidade. Suas patas e a base de seu bico são amarelas, e seu olho é castanho escuro.

Distribuição

Ocorre do sul da Costa Rica até o Paraguai e o norte da Argentina, principalmente a leste dos Andes, com uma área de ocorrência no oeste do Equador. No Brasil está presente nas regiões Norte, Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste.

Conservação

Pouco preocupante: não é considerado ameaçado (ICMBio e IUCN), porém suas populações podem estar declinando (IUCN).

Referências

Bierregaard, R. O., P. F. D. Boesman, and J. S. Marks (2020). Gray-lined Hawk (Buteo nitidus), version 1.0. In Birds of the World (J. del Hoyo, A. Elliott, J. Sargatal, D. A. Christie, and E. de Juana, Editors). Cornell Lab of Ornithology, Ithaca, NY, USA. https://doi.org/10.2173/bow.gryhaw3.01

 

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Gavião de Rabo Branco

Geranoaetus albicaudatus (Vieillot, 1816)

Nome(s) popular(es)

Gavião de Rabo Branco, Curucuturi, Gavião Branco, Gavião de Cauda Branca, Gavião Fumaça.

História Natural

O Gavião de Rabo Branco é um gavião imponente e robusto. Relativamente comum, é típico de áreas mais abertas, habitando campos, savanas, regiões montanhosas e locais com árvores espaçadas, incluindo pastos, plantações e proximidades urbanas. No Cerrado, pode ser encontrado nos cerrados típicos, veredas, cerradões, campos sujos e campos limpos. Pode ser visto empoleirado em árvores baixas ou até postes na beira de estradas, mas costuma planar bastante nas correntes térmicas, em círculos e a grandes alturas, ou pode pairar a menor altura, usando as asas e caudas habilmente contra o vento para se manter parado no ar enquanto vasculha o solo. Esse comportamento, parecido com o “peneirar” do Gavião Peneira, mas que usa a força do vento a favor e com batidas de asas mínimas, é típico do Gavião de Rabo Branco. É um caçador astuto e oportunista, se alimentando de uma diversidade de pequenos animais, como cobras e lagartos, anfíbios, pequenos roedores e marsupiais, outras aves, como o Martim Pescador, insetos maiores, até morcegos. Caça de diferentes formas, podendo espreitar e investir a partir de um poleiro, procurar presas pelos campos enquanto plana alto, ou pairando contra o vento mais próximo do solo. Pode se aproximar de estradas em busca de animais atropelados, e de queimadas, em busca de animais espantados pelo fogo e pela fumaça, os capturando no chão ou em pleno ar. Faz seus volumosos ninhos com gravetos, sobre árvores isoladas e não muito altas, onde põe de 1 a 3 ovos, e pode reutilizá-los em diferentes ninhadas.

Descrição

Mede entre 51 e 61 cm de comprimento. Possui a cabeça, garganta, laterais do pescoço e do peito cinza escuro, assim como as costas e o dorso das asas. Seu ventre é branco, incluindo o peito. Possui uma larga mancha castanho avermelhado na região dos ombros. Por baixo, suas asas são brancas com bordas negras, e um fino padrão barrado que pode se estender até as laterais da barriga. Sua cauda é branca com uma faixa preta próxima da ponta. Alguns indivíduos, embora seja menos comum, possuem uma coloração totalmente negra no dorso e no ventre, preservando porém os padrões sob a cauda e a asa. Os padrões sob a cauda, além de seu tamanho geral, ajudam a diferenciá-lo de outros gaviões e águias (família Accipitridae) que se assemelham quando em voo, como o Gavião de Cauda Curta, menor e com mais faixas na cauda, e a Águia Chilena, maior e com a cauda toda cinza.

Distribuição

Ocorre largamente pelas Américas, estando presente em diversas regiões da América Central e do Norte, até o extremo sul dos Estados Unidos, e de forma ampla na América do Sul, incluindo Colômbia, Venezuela, Guianas e Suriname, Brasil, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Argentina. No Brasil está presente em todo o território.

Conservação

Pouco preocupante: não é considerado ameaçado (ICMBio e IUCN), e suas populações podem estar aumentando (IUCN). Sua preferência por áreas abertas e sua alimentação generalista contribuem para que se adapte bem à áreas agrícolas e urbanas.

Referências

BirdLife International. 2016. Geranoaetus albicaudatus. The IUCN Red List of Threatened Species 2016: e.T22695906A93533542. https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2016-3.RLTS.T22695906A93533542.en. Downloaded on 28 June 2020.

 

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Gavião Carijó

Rupornis magnirostris (Gmelin, 1788)

Nome(s) popular(es)

Gavião Carijó, Anajé, Gavião Indaié, Gavião Pinhel, Gavião Pega Pinto, Pega Pinto, Papa Pinto, Inajé, Gavião Pinhé, Indaié.

História Natural

Ave muito comum, é encontrado em uma grande diversidade de ambientes, sendo menos abundante no interior de áreas densamente florestadas. Normalmente é o gavião (família Accipitridae) mais comum pelo Brasil, principalmente em áreas urbanas. Habita bordas de matas, savanas, florestas menos densas, campos permeados por árvores e arvoredos urbanos. No Cerrado pode ser encontrado em matas de galeria, matas ciliares, matas secas, cerradões, cerrados típicos, veredas e campos sujos. Costuma planar em círculos, aproveitando as correntes térmicas para se sustentar no ar. Também fica muito tempo pousado em árvores, postes, cercas, e costuma ser visto nas margens de rodovias. Vive solitário ou mais frequentemente em pares, e costuma vocalizar bastante, com um chamado bem característico, agudo e anasalado, motivo de alguns de seus nomes populares. Seu chamado lembra o do Carrapateiro, porém o deste é mais estridente e arranhado. Usa o chamado constantemente para manter domínio sobre seu território, e costuma utilizar o mesmo poleiro repetidamente. É um caçador oportunista com uma dieta bem variada, o que contribui para sua abundância e facilidade de se adaptar a ambientes urbanos ou levemente alterados. Se alimenta de insetos (besouros, lagartas, gafanhotos, abelhas, formigas, cigarras, etc.), aranhas e escorpiões, lagartos, cobras, anfíbios, aves (tanto adultos quanto jovens e ovos em ninhos), e pequenos mamíferos, como roedores, marsupiais e morcegos. Costuma caçar a partir de um poleiro, se atirando sobre a presa quando a avista. Pode seguir grupos de formiga de correição para capturar os pequenos animais espantados por elas, e se aproximar de queimadas interessado nos animais mortos pelo fogo. Pode ser predado pela Jiboia. Faz seus ninhos com gravetos sobre árvores, entre 3 e 15 metros de altura, pondo de 1 a 2 ovos. A fêmea se responsabiliza pela incubação enquanto o macho traz alimento para ela, e enquanto não caça se mantém vigilante próximo ao ninho, vocalizando muito e podendo se tornar agressivo contra intrusos, atacando até mesmo humanos que se aproximem.

Descrição

Mede entre 33 e 41 cm de comprimento. Possui uma grande variedade de coloração, que no geral possuem tons cinzentos e pardos, com cabeça e dorso mais escuros se contrastando com peito e barriga barrados. A cor da cabeça, costas e partes superiores das asas varia entre um tom cinza pardo a um castanho escuro. O peito, barriga e coxas são esbranquiçados, com um barrado creme claro alaranjado. As penas das extremidades das asas são castanhas avermelhadas, podendo ser vistas quando em voo. Sua cauda é barrada, com três barras negras e três brancas, além das extremidades brancas. A base de seu bico e as patas são amarelas, com olho amarelo claro.

Distribuição

Possui uma ampla distribuição pelas Américas, ocorrendo do norte do México à Argentina central, incluindo todos os países sul americanos com exceção do Chile. No Brasil está presente em todo o território.

Conservação

Pouco preocupante: não é considerado ameaçado (ICMBio e IUCN), e suas populações estão aumentando (IUCN). Graças a sua boa adaptação a ambientes modificados e preferência por áreas não densamente florestadas, pode acabar se beneficiando com um pouco de desflorestamento, sendo o gavião mais comum em áreas urbanas e alteradas.

Referências

Beltzer, A. H. (1990). Biología alimentaria del Gavilán Comun Buteo magnirostris saturatus (Aves: Accipitridae) en el valle aluvial del Rio Paraná medio, Argentina. Ornitología Neotropical, 1(1,2), 3-8.

 

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