Reposição florestal: mecanismo econômico para a conservação do bioma cerrado?

Reposição florestal: mecanismo econômico para a conservação do bioma cerrado?

Autor(a):

Roberto Gonçalves Freire

Resumo:

O bioma cerrado, com cerca de 2 milhões de km2, compreende um dos maiores biomas da América do Sul e o segundo maior bioma do Brasil. O cerrado figura entre os 25 locais de alta biodiversidade mais ameaçados do planeta sendo incisivamente apregoado que poderá ser extinto, se a forma de ocupação não seguir novas tendências, nos próximos 21 anos, ou seja, nos idos de 2030. Por isso mesmo o cerrado é considerado, juntamente com a Mata Atlântica, como um “hotspot”, áreas de maior riqueza em biodiversidade e onde ações de conservação são mais urgentes. Em todo o planeta são reconhecidos 34 hotspots. Estimativas recentes mostram que cerca de 50% da cobertura vegetal nativa do cerrado já foi destruída. Dentre as causas apontadas como responsável pela devastação do cerrado emergem o desmatamento para produção de carvão vegetal e a expansão na produção de commodities agrícolas, que em geral provocam intricados problemas ambientais os quais se manifestam na forma de externalidades negativas. A ação governamental para conservação do bioma cerrado tem se pautado em políticas públicas de comando e controle. Porém, um mecanismo de mercado, previsto no Código Florestal, denominado reposição florestal,vem se firmando como um instrumento robusto de política pública eficaz para atingir as metas de conservação estipuladas para o bioma. Esta dissertação realiza uma análise do instrumento, tomando como exemplo de caso o Estado de Goiás, onde a taxa de conversão no período de 1980 a 2004 situou-se em 1,14% ao ano, sendo autorizados 0,77% ao ano, de 2000 a 2004 a taxa de conversão anual foi de 0,46% e destes, 0,35% autorizados. A diferença para mais em relação ao que é autorizado representa o nível de não cumprimento (violação) da norma ambiental reguladora, ou seja, os degradadores não se sentem suficientemente incentivados (por prêmios ou punição) a adotarem mudanças no comportamento degradante.

Referência:

FREIRE, Roberto Gonçalves. Reposição florestal: mecanismo econômico para a conservação do bioma cerrado? 2009. 77 f., il. Dissertação (Mestrado em Gestão Economica de meio Ambiente)—Universidade de Brasília, Brasília, 2009.

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Contribuições econômicas e financeiras do turismo no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros

Contribuições econômicas e financeiras do turismo no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros

Autor(a):

Paula Oliveira Gomes

Resumo:

O objetivo da pesquisa foi estimar os impactos econômicos e financeiros do turismo no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (PNCV), visando subsidiar o desenvolvimento sustentável do Cerrado brasileiro. Observa-se que o turismo de natureza e o número de visitantes nos Parques Nacionais e na região da Chapada dos Veadeiros vêm aumentando, o que contribui para as economias locais, por meio dos gastos dos visitantes na viagem e também para o reconhecimento dos valores da natureza, por meio da valoração contingente dos atributos naturais e culturais. A área de estudo, reconhecida como Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO, é formada por ecossistemas únicos, sendo importante também para o abastecimento de água na região e no Brasil, além de manter o hábitat de espécies ameaçadas de extinção, endêmicas e outras ainda não conhecidas pela ciência. Os dados da pesquisa foram coletados em 19 dias de pesquisa de campo, entre 30/12/2015 e 11/07/2016, no Centro de Visitantes do Parque, totalizando 591 entrevistados, baseados nos métodos de: (1) custo de viagem, e (2) disposição a pagar. A entrevista abrangeu questões do perfil sociodemográfico, gastos efetivos na viagem, disposição a pagar pelo valor de uso, por meio de uma taxa de ingresso no PNCV, disposição a pagar pelos valores de legado e existência, preocupação ambiental; e também, um bloco complementar sobre a demanda dos visitantes por atividades ou serviços mais diversificados ou sofisticados na região; sugestão para melhoria dos serviços do PNCV, e motivo da visita ao PNCV. Do total de pesquisados, 46% dos visitantes procedem do Distrito Federal e Goiás, 52% de outros estados brasileiros e 2% são estrangeiros. O gasto total na viagem apresenta relação direta com idade, renda, duração da viagem e ainda, gastam mais os visitantes brasileiros de estados mais distantes, que não DF e Goiás, e os estrangeiros. O impacto financeiro gerado pelo turismo na região da Chapada dos Veadeiros é estimado em R$92 milhões por ano (DP ±R$38 milhões). A disposição a pagar por uma taxa de ingresso (valor de uso) é aceita por 91% dos visitantes. Há relação inversa com idade e número de visitas e relação direta com renda, assim como, têm disposição a pagar um valor de ingresso maior os visitantes dos estados brasileiros (exceto DF e Goiás) e os estrangeiros. Por fim, 42% dos visitantes afirmaram disposição a pagar um valor mensal para a conservação dos atributos naturais e culturais do PNCV (valores de legado e existência). A única variável significativa para explicar esse valor foi a escolaridade do visitante. O perfil dos visitantes do PNCV está de acordo com as características dos visitantes de outras áreas naturais, tratam-se de pessoas com escolaridade média, superior ou pós-graduação, renda média à elevada e ambientalmente preocupados. Os gastos dos visitantes na viagem geram um incremento significativo na economia local. Portanto, é ainda mais importante considerar as características dos visitantes, e seus interesses quantos às atividades e serviços do turismo. O impacto econômico gerado pela visitação no PNCV mostra que o uso sustentável dessa área natural para o turismo é a melhor opção em termos de desenvolvimento econômico para a região, sendo mais lucrativo que o uso convencional para agroindústria e pecuária. O potencial de arrecadação a partir da cobrança de uma taxa de ingresso é superior ao orçamento repassado pelo governo e, portanto, importante para complementar as necessidades dessa área protegida. A disposição a pagar de 42% dos visitantes para os valores de legado e existência, sugere que é importante aproveitar mais o interesse e potencial engajamento das pessoas em atividades direcionadas para o consumo consciente, a conservação e uso sustentável dos recursos naturais. O elevado nível de preocupação ambiental dos visitantes do PNCV é uma informação importante para a gestão particularmente no planejamento e implantação de ações que minimizem os impactos socioambientais negativos e maximizem os potenciais impacto positivos.

Referência:

GOMES, Paula Oliveira. Contribuições econômicas e financeiras do turismo no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. 2017. 110 f., il. Dissertação (Mestrado Profissional em Turismo)—Universidade de Brasília, Brasília, 2017.

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A trajetória social da baunilha do Cerrado na cidade de Goiás/GO

A trajetória social da baunilha do Cerrado na cidade de Goiás/GO

Autor(a):

Cláudia Nasser Brumano

Resumo:

Sabe-se que a Baunilha é uma das especiarias mais utilizadas no mundo devido ao seu inconfundível sabor e aroma. Figura como o segundo ingrediente mais caro do mundo e diferentemente do que se conhece da sua origem como francesa, ela é encontrada também no Brasil. Conhecida no cenário gastronômico brasileiro como Baunilha do Cerrado, nessa pesquisa será analisada no recorte espacial da cidade de Goiás/GO, onde se encontrou uma distinta relação da comunidade que a tem em diferentes usos. Dentro deste contexto vem sendo usada também por chefs na alta gastronomia em preparações inusitadas. Dessa forma pretende-se através da análise da Trajetória Social desse ingrediente em Goiás, avaliar se houve ressignificação de seu uso a partir de sua participação no cenário gastronômico. Para tanto, seguiu-se a Trajetória do Ingrediente que durante a sua vida social foi sofrendo modificações na forma de uso que provocaram mudanças em sua rota. A pesquisa de abordagem qualitativa, de cunho exploratório, foi feita através de um estudo de caso na cidade de Goiás, onde se entrevistou em profundidade atores sociais das classes: catadores, guardiões de memória, intermediários, chefs, cozinheiros locais e empresários. Realizou-se pesquisa documental em livros e cadernos de receitas, observação participante no Mercado Municipal, Feiras Livres e Restaurantes com registros em diário de campo. Os dados coletados foram analisados pelo método qualitativo de análise de conteúdo e os principais pontos analisados revelaram o seu uso: como medicamento, em doces tradicionais da cultura alimentar local – diferente do uso habitual da confeitaria – e na atualidade sendo utilizada em preparos e finalizações de pratos à base de carnes e outros. Considera-se por fim que diferentemente do que tinha-se imaginado, para os locais, ela tem um significado que vai além do uso culinário quando é generosamente usada como remédio, porém na Gastronomia de vanguarda ela está com um potencial de visibilidade maior, apesar de não ser utilizada nos Restaurantes locais.

Referência:

BRUMANO, Cláudia Nasser. A trajetória social da baunilha do Cerrado na cidade de Goiás/GO. 2019. 186 f., il. Dissertação (Mestrado Profissional em Turismo)—Universidade de Brasília, Brasília, 2019.

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Comunidade nikkei de Paracatu-MG e suas experiências de desenvolvimento no contexto do PRODECER

Comunidade nikkei de Paracatu-MG e suas experiências de desenvolvimento no contexto do PRODECER

Autor(a):

Nanahira de Rabelo Sant’anna

Resumo:

A tese apresenta outras possíveis leituras e perspectivas sobre processos de desenvolvimento, relativamente ao arcabouço teórico existente e tendências recentes no pensamento sobre desenvolvimento, obtidas a partir da trajetória da comunidade nikkei de Paracatu-MG, composta de pessoas e grupos que migraram para o Município na segunda metade do Século XX, no contexto da abertura de novas fronteiras agrícolas em regiões de Cerrado, proporcionada por programas como o PRODECER. A trajetória dessa comunidade foi acessada por relatos orais de nikkeis residentes em Paracatu, externados em entrevistas com a participação de 23 pessoas, durante trabalho de campo realizado em duas etapas. A aplicação de métodos e técnicas de história oral foi facilitada por um processo de familiarização desenvolvido com os entrevistados. Um entendimento sobre processos de desenvolvimento como experiências que emergem de subjetividades em sua diversidade e complexidade, agrupadas nas dimensões de migração, trabalho, educação, comunidade e cultura, foi obtido com a aplicação de conceitos e abordagens chave dos estudos pós-coloniais, especialmente diáspora, hibridismo, entre-lugar, colonialismo, imperialismo e orientalismo, na análise das aspirações, valores e expectativas de desenvolvimento dos nikkeis ao longo de suas trajetórias de vida, considerando os contextos políticos, econômicos, sociais e culturais em que viveram e vivem desde as origens no Japão. Nesse sentido, são feitas referências à imigração japonesa para o Brasil, a repercussões da Segunda Guerra Mundial sobre comunidades nikkeis, a políticas econômicas brasileiras no período de realização do PRODECER, ao movimento decasségui, e a aspectos da história recente do município de Paracatu. A pesquisa também contribuiu para abrir possibilidades de reflexão, reconstrução e ressignificação da trajetória da comunidade estudada em seus processos de desenvolvimento.

Referência:

SANT’ANNA, Nanahira de Rabelo e. Comunidade nikkei de Paracatu-MG e suas experiências de desenvolvimento no contexto do PRODECER. 2018. 360 f., il. Tese (Doutorado em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional)—Universidade de Brasília, Brasília, 2018.

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Utilização de drones para preservação da biodiversidade do Cerrado no Jardim Botânico de Brasília

Utilização de drones para preservação da biodiversidade do Cerrado no Jardim Botânico de Brasília

Autor(a):

Fábio Quezado Soares

Resumo:

Este projeto envolve o emprego de novas tecnologias, como o uso de veículos aéreos não tripulados (drones), para proteção da biodiversidade e gestão ambiental do Cerrado, visando à prevenção de agravos e doenças à saúde humana e animal. O uso do drone, como foco deste trabalho, foi escolhido devido à precisão e alta definição das imagens obtidas com uma câmera acoplada, permitindo monitorar grandes áreas em tempo real e com baixo custo, o que o torna uma ferramenta atrativa para o monitoramento, em especial do Jardim Botânico de Brasília e sua Estação Ecológica, áreas de grande interesse de preservação para o Distrito Federal. Através de controles que permitem um voo autônomo estável, o drone é capaz de obter dados e imagens em tempo real de determinada área que poderão auxiliar na preservação do meio ambiente, como o controle do plantio, da erosão, de invasões, além da prevenção e combate a incêndios. Como área de estudo e de aplicação prática, o Jardim Botânico de Brasília, com cerca de cinco mil hectares, foi escolhido por ser uma área protegida de diversidade biológica significante, de referência para atividades de pesquisa em áreas como botânica, zoologia, ecologia e recuperação de áreas degradadas, que dependem essencialmente de trabalho de campo. Neste trabalho, além da construção de um drone com características apropriadas para voo em área de vegetação e de difícil acesso, foram definidos procedimentos para elaboração de um plano de voo com adaptações às regras estabelecidas pelas autoridades competentes do setor aeronáutico com vistas à obtenção dos resultados esperados. Os mosaicos construídos com imagens de diferentes modos de voo apresentaram resultados satisfatórios que permitiram estabelecer um padrão de monitoramento das áreas pesquisadas.

Referência:

SOARES, Fábio Quezado. Utilização de drones para preservação da biodiversidade do Cerrado no Jardim Botânico de Brasília. 2018. xi, 61 f., il. Dissertação (Mestrado em Engenharia Biomédica)—Brasília, 2018.

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Lobeira

Lobeira

Nome popular: Lobeira, fruta-do-lobo

 

Família: Solanaceae

 

Forma de vida: Arvoreta ou arbusto

 

Frutificação no Cerrado: ao longo do ano

 

Dispersão: mamíferos terrestres

 

Polinização: abelhas

 

Habitat e distribuição: Savânico, campestre e florestal, em Cerrado Típico, Vereda, Campo Sujo e Cerradão. Domínio: Cerrado.

 

Características da espécie: Arbusto ou arvoreta de 2 a 5 metros de altura. Suas folhas são simples, alternadas, coriáceas, apresentando tricomas. As flores são roxas, em forma de estrela (Kuhlmann, 2018).

 

Características dos frutos: Os frutos são do tipo baga, verde, globosos, carnosos, amarelado e com odor forte quando maduro, com sementes numerosas, cinza-escuras, reniformes e achatadas. A maturação dos frutos ocorre ao longo do ano, com pico no começo das chuvas.

Aproveitamento

Os frutos são comestíveis na forma de geleias depois de serem bem cozidos. São usados também com ação diurética, calmante e no tratamento de diabetes, na medicina popular. No lobo-guará, seu principal consumidor e dispersor, possui efeito vermífugo (Kuhlmann, 2018).

Referências

KUHLMANN, Marcelo. Frutos e sementes do Cerrado: espécies atrativas para a fauna. 2ª ed., Brasília, 2018.

Cagaita

Cagaita

Nome científico: Eugenia dysenterica

 

Nome popular: Cagaita

 

Família: Myrtaceae

 

Forma de vida: Árvore

 

Frutificação: estação chuvosa

 

Dispersão: mamíferos (mastocoria) e morcegos

 

Habitat e distribuição: Cerrado e Cerradão

 

Características da espécie: Árvore de porte médio que pode atingir até 10 metros de altura. A casca do tronco é profundamente sulcada e os ramos são tortuosos, característicos de espécies do cerrado. As folhas são opostas, ovais e elípticas, com consistência cartácea e ausente na floração (Nietsche et al., 2004). Apresenta inflorescência ramificada com flores brancas e aromáticas.

 

Características dos frutos: Frutos de coloração amarelo pálida na maturidade, carnosos, com 1 a 4 sementes brancas envoltas em polpa de coloração creme, de sabor acidulado. Seu período de frutificação ocorre entre outubro e dezembro (Silva et al., 1994).

Aproveitamento

É considerada uma espécie de grande interesse econômico principalmente devido ao uso dessa fruta na culinária (Cardoso et al., 2011). Esta prática é difundida entre os moradores da região que utilizam a polpa da cagaita para a produção de doces, compotas, sorvetes, licores, refrigerantes e sucos beneficiando-se do seu alto teor de proteínas, lipídeos, carboidratos e fibras alimentares (Assumpção, 2013). A cagaita também apresenta vitamina B2 e alta quantidade de vitamina C, cálcio, ferro e magnésio. O óleo de sua polpa tem ácidos graxos saturados e monoinsaturados.

 

Referências

ASSUMPÇÃO, Carolina Fagundes et al. Néctar misto de mangaba e cagaita: Perfil sensorial e características físico-químicas. Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campinas, v. 15, n. 3, p. 219-224, 2013.

 

 

AVIDOS, Maria Fernanda Diniz; FERREIRA, Lucas Tadeu. Frutos do Cerrado: preservação gera muitos frutos. Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento, 2000.

 

 

Cardoso, L. M.; Martino, H. S. D.; Moreira, A. V. B.; Ribeiro, S. M. R.; Pinheiro-Sant’Ana, H. M. Cagaita (Eugenia dysenterica DC.) of the Cerrado of Minas Gerais, Brazil: Physical and chemical characterization, carotenoids and vitamins. Food Research International. Viçosa – MG. v.44, p.2151–2154, 2011.

 

 

NIETSCHE, Silvia; GONÇALVES, Valdeir Dias; PEREIRA, Marlon Cristian Toledo; SANTOS, Fernando Almeida; ABREU, Samuel Campos de; MOTA, Wagner Ferreira da. Tamanho da semente e substratos na germinação e crescimento inicial de mudas de cagaiteira. Ciência e Agrotecnologia, Lavras, v. 28, n. 6, p. 1321-1325, dez. 2004. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/s1413-70542004000600014.

 

 

Silva, J. A.; Silva, D. B.; Junqueira, N. J.; Andrade, L. R. M. Frutas Nativas dos Cerrados. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária do Brasil (EMBRAPA), Brasil. 1994, p. 50-149

 

LULKIN, Claudia Isabel. Do cerrado para a mesa: articulando agricultura familiar com alimentação escolar pelas frutas nativas. 2018. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Sociobiodiversidade e Sustentabilidade no Cerrado) —Universidade de Brasília, Alto Paraíso de Goiás – GO, 2018. Disponível em: https://bdm.unb.br/bitstream/10483/22281/1/2018_ClaudiaIsabelLulkin_tcc.pdf

 

 

 

Sertão, Lugar Desertado: o Cerrado na cultura de Minas Gerais

Sertão, Lugar Desertado: o Cerrado na cultura de Minas Gerais

Autor

Ricardo Ribeiro

Título

Sertão, Lugar Desertado: o Cerrado na cultura de Minas Gerais

Editora

Autêntica

Ano

2006

Assuntos

Cerrado, Minas Gerais, Ambiente.

Síntese

Este livro investiga as relações entre a sociedade do sertão mineiro e o seu ambiente natural, o cerrado, dando continuidade ao trabalho iniciado em Florestas anãs do Sertão – O cerrado na história de Minas Gerais. Neste segundo volume, utilizando as ferramentas do etnoecologia, o patrimônio cultural sertanejo é examinado por meio de uma pesquisa de campo, realizada em comunidades escolhidas pela sua identidade indígena ou negra e pela porte presença de lavradores, vaqueiros e artesãos de quatro regiões do cerrado mineiro: Alto Jequitinhonha, Norte, Noroeste e Triângulo.Durante mais de dois anos, o autor foi esmiuçando essa gente sertaneja e descobriu, sobretudo, que o cerrado é mais do que uma paisagem, mais do que a “casa” onde vive o sertanejo: ele é a sua vida.

Referência

RIBEIRO, Ricardo. Sertão, Lugar Desertado: o Cerrado na cultura de Minas Gerais. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

 

Florestas Anãs do Sertão: o Cerrado na história de Minas Gerais

Florestas Anãs do Sertão: o Cerrado na história de Minas Gerais

Autor

Ricardo Ferreira Ribeiro

Título

Florestas Anãs do Sertão: o Cerrado na história de Minas Gerais

Editora

Autêntica

Ano

2005

Assuntos

Cerrado, História, História Ambiental.

Síntese

Partindo da região da Mata Atlântica, a paisagem do Brasil Central pareceu, aos colonizadores, mais densa que as larguezas campestres e mais aberta que as florestas. Referida como “campos fechados”, ou “campos cerrados”, passou a ser chamada, nos dias de hoje, simplesmente de Cerrado. Sua vegetação foi descrita, pelos naturalistas europeus do século XIX, como formada por árvores tortuosas, enfezadas, esparsas aqui e ali, e as chapadas cobertas por arbustos foram designadas como carrascos ou florestas anãs. Desde então, o Cerrado, assim como a Caatinga, é visto como uma espécie de “primo pobre” da ecologia brasileira, destinado a ser objeto de rápida destruição. Visão que é retratada na Constituição de 1988, em que não receberam a condição de patrimônio nacional, como a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica, o Pantanal Mato-Grossense e outros biomas. Nos vastos espaços do Brasil de dentro, o Sertão Mineiro, área dominada pelo Cerrado, se diferencia tanto da região leste do Estado como também dos outros sertões do Nordeste e do Centro-Oeste. Eternizado pela obra de Guimarães Rosa, sua história ambiental é aqui contada desde a sua ocupação, há mais de 12 mil anos, até as primeiras décadas do século XX, em uma longa trajetória de formação do “ser tão mineiro.”

Referência

RIBEIRO, Ricardo Ferreira. Florestas Anãs do Sertão: o Cerrado na história de Minas Gerais. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. 

O PIAR DA JURITI PEPENA: narrativa ecológica da ocupação humana do cerrado

O PIAR DA JURITI PEPENA: narrativa ecológica da ocupação humana do cerrado

Autor

Altair Sales Barbosa

Título

O PIAR DA JURITI PEPENA: narrativa ecológica da ocupação humana do cerrado

Editora

PUC Goiás

Ano

2014

Assuntos

 Anhanguera, História, Indígena.

Síntese

Dahy era um índio Uru-eu-wau-wau que habitava as cabeceiras do rio Jamari, no Planalto de Alta Lídia, na serra dos Pakaás-Novos, e era um hábil caçador que abastecia com carne seu povo. Numa certa noite, esse jovem índio teve um pesadelo que acordou toda a aldeia. Indagado sobre o que sonhara, disse que,  no meio da noite, por três vezes, ouvira o piar da Juriti Pepena e, em meio a uma cortina de fumaça que se formava, vislumbrou homens estranhos invadindo suas terras para roubar os últimos carocinhos de açaí.

A CHEGADA DOS CARAÍBAS E O TRUQUE DO FOGO

Os primeiros colonizadores de origem europeia que chegaram ao Cerrado eram representados pelos agrupamentos de bandeirantes.

A primeira bandeira sem dúvida foi a comandada por Bartolomeu Bueno (o pai), no final do século XVII, embora, conforme relatos do historiador Paulo Bertram, ele tenha se fixado mais em terras que hoje compreendem o noroeste e centro de Minas Gerais, entre os rios Paracatu e Carinhanha, já no limite atual com a Bahia.

Entretanto, quando seu filho Bartolomeu Bueno da Silva Junior, o Anhanguera, chegou até os sopés da Serra Dourada, no Rio Vermelho, e encontrou o que sobrou dos conhecidos índios Goyá, eles lhe mostraram os vestígios do acampamento onde seu pai estivera há pelo menos 50 anos. Portanto, embora o povoado de Vila Boa tenha sido fruto de Bartolomeu Bueno, o filho, a “descoberta” daquele local e primeiro contato com os índios Goyá podem ser atribuídos a Bartolomeu Bueno, o pai.

Segundo Bertram, Bartolomeu Bueno era bugreiro, ou seja, caçador de índios para escravizá-los, e também grande matador dos povos indígenas. Ainda de acordo com os registros de Bertram, a esse bandeirante se atribui erroneamente a história de enganar os índios ateando fogo em álcool ou cachaça. Entretanto, convém salientar que essa tática era comum entre os portugueses. Há relatos de que outros bandeirantes a usaram. E mesmo que esses meios não tenham sido utilizados por Bartolomeu Bueno, o pai, para enganar os índios Goyá, certamente era do cabedal de táticas enganosas conhecidas por Bartolomeu Bueno, o Júnior.

O padre Luiz Antônio da Silva e Souza, em “O descobrimento da capitania de Goyaz”, publicado em 1812, relata uma história dessas:

O nome Serra do Ramalho é porque João Ramalho esteve por aqui, entre 1510 e 1512, aquele mesmo português foragido que se casou com a filha de Tibiriçá, a índia Bartira. Depois que ameaçou secar as águas dos índios, botando fogo no álcool, os índios ficaram amigos dele e o ajudaram a fazer muitas viagens de descoberta, inclusive a que fez nesta Serra da Carinhanha para procurar ouro.”

 

Título: CICLO DA CAÇA AO ÍNDIO, de BERNARDELLI, HENRIQUE -1925
Foto: José Rosael-Hélio Nobre-Museu Paulista da USP

Acervo: Museu Paulista da USP

 

COMO TUDO COMEÇOU 

É conhecido que Goiás nasceu com a descoberta de ouro pelos bandeirantes, mas cresceu e se desenvolveu com a pecuária e com a agricultura. Dizem até mesmo que a pecuária teria precedido a mineração.

Embora essa afirmação se refira ao povoamento de Goiás, esse modelo de ocupação do espaço por populações não indígenas pode ser encontrado por todo o Brasil Central. E isso é bem possível, porque um dos nossos primeiros historiadores, o padre Silva e Souza, dá-nos notícia de que os bandeirantes do Anhanguera teriam se deparado com cabeças de gado bravio que já pastavam naturalmente na região do Vão do Paranã.

Esse gado teria vindo desgarrado dos Gerais da Bahia, onde, desde meados do século XVII, a pecuária – como já vinha acontecendo em todo o grande sertão nordestino – se tornava a principal atividade econômica e social.

Quaisquer que sejam as histórias contadas, em um ponto historiadores e geógrafos são unânimes: a atividade pastoril surgiu inicialmente para abastecer as minas; depois, já como atividade permanente, introduziu a mobilidade em um território até então enclausurado pelas grandes distâncias e pelo isolamento geográfico, e isso proporcionou o desenvolvimento de um mercado interno e, consequentemente, serviu de base para a ascensão plena da atividade agrícola.

Quando as minas de ouro, ainda no século XVIII, entram em decadência, fazendo com que boa parte dos que para cá vieram debandasse para outras regiões do país, a região e sua diminuta população permaneceram ilhadas, como náufragos, no coração do Brasil. Foram esses o estado de ânimo e a realidade retratadas pelos historiadores. Acrescente-se a isso as dificuldades enfrentadas pela agricultura no seu começo.

Durante os primeiros cinquenta anos de Goiás, os administradores coloniais – inclusive o primeiro governador, D. Marcos de Noronha, que governou de 1749 a 1753 – relegaram a agricultura ao patamar mais baixo das atividades produtivas.

Goiás produzia muito ouro e os produtos de que necessitava a população mineira – todos ou quase todos – vinham de fora e eram pagos, literalmente, a peso de ouro. Foi necessário que as minas se esvaziassem de vez para que não apenas a administração, mas também toda a população acordasse para a única saída econômica capaz de tirar a população do estado de letargia coletiva em que se encontrava: a agricultura.

Não havia outra saída, porque, fora da roça e da criação de gado como formas permanentes de atividade, Goiás se transformaria em breve em uma imensa tapera, abandonado que seria por seus moradores.

Muitos estudiosos da história, senão a maioria, ao comparar a época de fausto – que teria sido o ciclo do ouro – com o estado de desânimo – que de um modo geral tomou conta da população quando as minas secaram – classificaram essa fase da história como a da decadência. Qualquer que seja o nome que se lhe dê, ela foi, sobretudo, a fase das décadas perdidas.

Mas, como de todo revés – seja histórico ou não – pode-se tirar lições, lentamente os habitantes que aqui se enraizaram descobriram que o verdadeiro tesouro que procuravam se descortinava à vista de todos: esse grande ambiente natural, que é o Cerrado. As lições foram logo aprendidas.

Uma delas, que perdura até hoje, foi perceber que diante de um meio geográfico rico, em que dominam as imensas chapadas cobertas de pastos naturais a perder de vista, entrecortadas aqui e ali por placas de solos férteis próprios para a roça tradicional – o “Mato Grosso” Goiano e os  vales de importantes rios como o Paranaíba, Corumbá, Meia Ponte, Turvo-Bois, Maranhão, Crixás-Açu, Claro, Caiapó, Santa Tereza, Paranã… –,  a verdadeira vocação social e econômica do seu imenso território não era cavoucar a terra à procura do ouro incerto,  mas nela plantar e criar para se produzir alimentos, nem que fosse para a sobrevivência das pessoas.

Como um rio que não secara de vez, lentamente, os que permaneceram na região souberam reencontrar o leito natural de sua história e de sua vocação social e econômica: ser vaqueiro e lavrador.

Ao dar início a outra fase econômica, social e, sobretudo, política, na qual se acham indistintamente envolvidos todos os habitantes do centro do Brasil, descobriram o caminho da roça, ou melhor, tomaram consciência de que, fora da atividade agropastoril, a área continuaria trilhando pelos caminhos da desilusão que o ouro abrira.

A CORRIDA DO OURO

Durante a Corrida do Ouro – no Brasil Central, período que, de forma geral, vai, a grosso modo, de 1722 a 1822, e conhecido como período colonial – todo garimpo, em princípio, transformava-se em um núcleo de povoamento urbano, cuja duração no tempo dependia exclusivamente da fartura com que a terra respondia às expectativas dos garimpeiros.

Assim, no começo, segundo afirmam os historiadores, Goiás povoou-se e despovoou-se com o ouro. Um dos presidentes da então Província de Goiás – José Martins Pereira de Alencastre, que governou pouco mais de um ano, entre abril de 1861 e junho de 1862 – resume, em seus Anais da Província de Goyaz, o que foi a saga da corrida do ouro nos sertões goianos e tocantinenses no período colonial:

Um imenso lençol de ouro se desenrolava às vistas ávidas do mineiro ambicioso, e suas esperanças eram satisfeitas, no princípio sem quase trabalho e sacrifício. Mas foram poucos os anos de grandeza e prosperidade. O meteoro passou à luz fugaz dessa transitória grandeza e sucedeu o quadro mais constritador [sic] o deslumbramento, porém, continuou por muito tempo ainda [… A mineração era uma espécie de Saturno a devorar seus próprios filhos, era um simulacro desse louco trabalhar das Denaides, sem fim e sem resultado, porque sempre estava em começo.”

Todos nós sabemos hoje o que representaram, em prejuízo para a natureza e para as pessoas, os estragos materiais e psicológicos que os garimpos, os antigos e os atuais, deixaram e deixam pra trás.

Nem tudo, porém, é tristeza e constrangimento, porque, da atividade mineradora, nasceram alguns de nossos ricos patrimônios arquitetônicos e urbanos – Vila Boa, a cidade de Goiás; Meya-Ponte, hoje Pirenópolis. No seu rastro, vieram outras relíquias, que tiveram vida longa ou efêmera – Santa  Cruz, Pilar, Chapéo (atual Monte Alegre de Goiás), Flores (de Goiás), Crixás, São Domingos, Bom Fim,  atual Silvânia, Santa Luzia, hoje Luziânia, São José do Tocantins, rebatizada como o nome de Niquelândia, Corumbá de Goiás, Caldas Novas (que nasceu ao lado de fontes termais), Santo Antônio do Descoberto (que se chamava Montes Claros), Trayras (que hoje não passa de ruínas abandonadas e até trocou de nome, conhecida atualmente por Tupiraçaba, hoje um mero distrito quase despovoado de Niquelândia), São Felix, cujos testemunhos de sua existência não resistiram ao tempo, apesar de ter existido ali uma casa de fundição, o que lhe conferia um status de arraial importante, Jaraguá, e certamente muitos outros que tiveram vida curta para durar no tempo, como os arraiais do Maranhão, em Goiás, e Pontal, no Tocantins.

Do lado tocantinense sobreviveram ao tempo, dentre outras cidades, Arrayas, Barra da Palma – atual Paranã, Conceição (do Tocantins), Natividade, Chapada da Natividade, Príncipe (hoje Chapada de Areia), Dianópolis (ex-Duro) – que não nasceu propriamente do ouro, mas sim de um aldeamento de índios que atormentavam os garimpos –, Monte do Carmo e Porto Nacional (antigo Porto Real), esta última funcionando como cabeça-de-ponte de navegação e controle de passagem de pessoas que buscavam as minas do norte da capitania.

A ILUSÃO DO ENRIQUECIMENTO FÁCIL

A saga era contada de muitas maneiras, e as histórias de decepções e frustrações são muito mais trágicas e mais numerosas que as de alegria proporcionada pela ilusão do enriquecimento fácil. Como dizíamos, os lugarejos iam surgindo, mas a maioria não passava de simples aglomeração de palhoças sem nenhum conforto, em o que o nome “urbano” também não passava de um eufemismo, dada a falta sistemática do que se poderia chamar de “equipamentos urbanos”: arruamentos regulares, construções mais sólidas, administração, serviços urbanos banais etc.

Anta, Curriola, Pontal (provavelmente o primeiro sítio do que seria o Arraial de Porto Real, à margem esquerda do Rio Tocantins), Pontal da Natividade (próximo à confluência do Rio Manoel Alves com o Tocantins). Outros não passam de lugares abandonados ou em completa ruína – Trayras, que foi, ao lado de Vila Boa e Meya-Ponte, um dos  mais importantes arraiais do ouro de Goiás, Ouro Fino   (Itaiú), Ferreiro, Cocal, Água Quente, Lavrinhas, Amaro Leite (cuja sede foi transferida para a atual cidade de Mara Rosa, às margens da rodovia Belém-Brasília), Santa Rita, hoje  chamada de Jeroaquara, distrito de Faina, a outra Santa Rita, distrito de Niquelândia, Muquém, lugar de peregrinação em homenagem à padroeira de Goiás,  Nossa Senhora d´Abadia, e muitos outros, cujos nomes e lembranças desapareceram para sempre do imaginário popular no Centro-Oeste brasileiro.

“SÍTIOS IMPOSSÍVEIS”

Apesar dos problemas existentes – o isolamento geográfico, os “Sítios Impossíveis” em que esses arraiais se erguiam, por razões óbvias, próximos às minas – no interior do Brasil – nas capitanias de Minas (Minas Gerais, Goiás-Tocantins e Mato Grosso-Mato Grosso do Sul), a mineração foi a atividade que maior influência exerceu sobre o aparecimento das cidades no período colonial.

A fisionomia urbana das cidades nessas áreas era praticamente a mesma, principalmente em Goiás-Tocantins e em Mato Grosso: uma grande praça no centro, com uma igreja matriz ocupando o lugar de destaque, para onde convergiam as ruas, geralmente tortuosas, decorrentes do relevo acidentado, predominante nas regiões auríferas.

Do lado goiano-tocantinense, excetuando-se Vila Boa (a Goiás Velho, antiga capital), e a Meya-Ponte de outrora – a atual Pirenópolis – os arraiais não passavam de pequenas aglomerações com mais de uma centena de casas. O elemento que mais os diferenciava das outras cidades modernas é a sua arquitetura colonial.

Geralmente, ao redor da grande praça, eram construídos, além da igreja matriz, os edifícios públicos e as casas burguesas, sobretudo na forma de sobrados. As casas de classe, digamos, média, ficavam mais distantes; eram baixas, normalmente geminadas, cobertas com telhas comuns de argila, pintadas a cal, com janelas enfeitadas com folhas de malacacheta (mica).

Mais afastado do centro da cidade, o habitat deixava de ser arquitetural para transformar-se em miseráveis habitações de taipa e de terra batida cobertas com folhas de palmeiras o com sapé, que abrigavam as classes pobres ou escravos alforriados. Eram as autênticas favelas coloniais.

Naquela época, a ocupação do espaço urbano obedecia à mesma lógica da segregação espacial presente nas cidades atuais. Tomemos o exemplo de Goiânia: ao redor da Praça do Bandeirante fica o centro comercial e financeiro; um pouco mais afastados, formando anéis urbanos, estão os bairros burgueses e ricos; mais distantes, brotam e multiplicam-se os bairros e conjuntos populares; constituindo a periferia proletária.

Aliás, praticamente toda cidade hoje, tanto no Brasil como no mundo inteiro, tem esse arranjo espacial, apesar da existência de numerosos condomínios fechados de luxo disputando os espaços urbanos periféricos com as populações proletárias.

Ao se observarem os mapas das cidades goiano-tocantinenses surgidas no século XVII, verificam-se que as que nasceram do ouro, paradoxalmente, estão, em sua maioria, situadas nas regiões mais pobres e mais despovoadas de Goiás e Tocantins, no vale do Rio Tocantins e de seus principais afluentes – Rio Paranã, sobretudo – e aos pés da Serra Dourada, em volta de Vila Boa.  Após o esgotamento do ouro das minas, muitas delas passaram de relativamente prósperas a decadentes.

Em Minas Gerais, como se sabe, o barroco da arquitetura das cidades coloniais era bem mais exuberante e mais rico, porque o ouro foi aí também mais abundante.  Ali nasceram as mais expressivas joias da arquitetura barroca que ouro pôde construir: Ouro Preto, a antiga Vila Rica, capital da capitania; São João Del-Rey, Sabará, Mariana, Caetés, Diamantina (a cidade da lendária Xica da Silva e que produziu mais diamantes que ouro), Tiradentes, Congonhas, para citar apenas as mais importante

CATEQUESE

Desde o período colonial, a questão indígena vem sendo tratada de maneira apenas para camuflar um problema crucial: a relação de forças entre índios e brancos que sempre pendeu para o lado do branco.

Na opinião da professora Marivone Matos, os aldeamentos e missões religiosas, principalmente os estabelecidos pelos jesuítas, traziam em seu bojo uma grande contradição: não atuaram como instrumentos de integração da população indígena no processo de colonização, mas quase que tão-somente como meios de propagação da fé e defesa dos interesses da Igreja ou das respectivas ordens religiosas.

Seus objetivos eram bem mais amplos do que os do elemento leigo, visto que as suas perspectivas quanto ao índio se lançavam rumo ao intemporal, contrapondo-se aos interesses da colonização leiga, para a qual o “silvícola” se apresentava apenas numa dimensão biológica e econômica.

Além do mais, ao mesmo tempo em que a Coroa portuguesa procurava proteger o índio contra a ação dos colonizadores, ela fechava os olhos aos massacres e à escravidão a que ele era submetido. Não conseguiram, como costumeiramente declaravam querer, que o índio se constituísse também num elemento povoador do território.

REAÇÃO E DESTINO INDÍGENA

Essa correlação de forças se apresentava como algo inevitável e o que mais se lamenta em todo o tempo é a forma como ela se deu: o aniquilamento físico sistemático do indivíduo indígena por meio de todo tipo de “guerra suja” comandada por capitães-do-mato, eufemisticamente chamados de bandeirantes ou sertanistas.

Do lado do índio, as ações mais comuns eram as razzias, que não passavam de ataques pontuais a pequenos arraiais e povoados ou a fazendas, principalmente por parte dos índios Canoeiro e Xavante. Outros, como os Kayapó, que habitavam os sertões à entrada da capitania, com a chegada dos brancos, simplesmente desapareceram porque foram massacrados no início ou porque refluíram para regiões mais distantes do eixo da mineração, como única alternativa para não desaparecer como grupos humanos.

Os Karajá, hiptnotizados por uma profecia maldita, ou melhor, por um destino trágico que lhes parecia inelutável, renderam-se às armadilhas do homem branco – catequese, aldeamentos – e praticamente se desmantelaram como forma de organização tribal. Hoje tentam resistir em um pequeno agrupamento que não reúne mais de 150 pessoas às portas da cidade de Aruanã, em terras que são constantemente invadidas por proprietários de mansões de luxo ou por fazendeiros poderosos.

Os Javaé se refugiaram na Ilha do Bananal. Como eles, outros povos reunidos em tribos e nações menores – Xambioá, Akroá, Tapuia, Canoeiro – perderam a autoconsciência que tinham enquanto índios, cedo desapareceram do mundo, como os Goyá, ou então se renderam ao poder do Estado e da Igreja e lentamente se aculturaram, não mais opondo resistência ao que seria um desígnio dos deuses: a  ocupação e o povoamento irresistíveis de seus territórios por forças incontroláveis.

Os Tapuia, que surgiram da miscigenação dos índios Karajá, Xavante e Kayapó confinados no antigo aldeamento Carretão de Pedro III – hoje denominado de Carretão I e Carretão II, com negros quilombolas e situado entre os municípios de Rubiataba e Nova América, em Goiás – como os Karajá, não passam de 150 pessoas.

Os Canoeiro se desenraizaram da terra onde viviam – no vale do Rio Maranhão-Tocantins – e ainda continuam procurando um território para abrigar meia dúzia de remanescentes dos grandes guerreiros que foram no passado.

No Tocantins, uns poucos Xambioá ainda persistem em volta da cidade do mesmo nome. Os Apinagé e os Xerente preservaram uma parte do seu antigo território e vivem em suas reservas às portas das cidades de Tocantinópolis e Tocantínea, respectivamente. Os Krahô têm seu território situado entre os municípios de Goiatins e Itacajá.

RESULTADOS DA GUERRA SEM TRÉGUA

Os avanços de uns (os brancos) ou recuos de outros (os indígenas) se constituíram, então, na dinâmica que caracterizou a formação territorial, o povoamento e a urbanização de Goiás e Tocantins, em que, numa relação de forças, conforme enfatiza o sociólogo Norbert Elias, em seu fabuloso livro “A sociedade dos indivíduos”, uma “ordem social de nível de organização superior – a estatal – substitui, inelutavelmente, a uma outra, menos equipada e de nível de organização inferior – a ordem ‘social tribal’”.

Os aldeamentos foram apenas episódios dessa guerra sem tréguas. Mas muitos deles se constituíram nos primeiros núcleos populacionais de algumas cidades goiano-tocantinenses: Mossâmedes e, talvez, porque não confirmado em documentos oficiais, Porangatu, em Goiás; Dianópolis, antiga São José do Duro, Pedro Afonso, Tocantínea e Itacajá, no Tocantins.  E nos municípios dessas duas últimas cidades, bem como nas vizinhanças de Tocantinópolis, encontram-se as importantes reservas indígenas dos Xerente, Krahô e Apinajé, respectivamente.

Em outras regiões em que, por causa das condições peculiares do meio ambiente, a população branca não conseguiu se fixar – caso da Ilha do Bananal –, foram criados, respectivamente, dois parques: o Parque Nacional e o Parque Indígena do Araguaia. O aldeamento do Carretão, no vale do São Patrício, próximo à atual cidade de Rubiataba, não evoluiu como cidade.

Referência

BARBOSA, Altair Sales.  O PIAR DA JURITI PEPENA: narrativa ecológica da ocupação humana do cerrado.Goiânia: Editora Puc Goiás, 2014.