Vera – Parteira kalunga aprendiz (Cavalcante-GO)

Vera – Parteira kalunga aprendiz (Cavalcante-GO)

Vera é filha de raizeira e neta de parteira, ambas da Comunidade kalunga do Vão de Almas. Já ajudou em alguns partos e é entendida das plantas medicinais do Cerrado e de horta. Trilha seu caminho no universo da parteria, mesclando conhecimentos ancestrais e de um curso técnico de enfermagem.

Disponível em:Quintal RAÍZESA: Vera – Parteira kalunga aprendiz

Entrevista: Fiota Kalunga, Raizeira (Vão de Almas, Cavalcante-GO)

Entrevista: Fiota Kalunga, Raizeira (Vão de Almas, Cavalcante-GO)

 

Deuzami, mãe e avó, que carinhosamente chamamos de “Fiota”, é raizeira kalunga de descendência. Filha de raizeira e neta de parteira muito comentada, Fiota já “pegou menino”, mas não se considera ainda, como ela mesma diz, “parteira legítima” como sua avó foi, mas segue seu caminho, como muita humildade e procurando aprender sempre mais.

Assim como sua avó e sua mãe, ela é agricultora e extrativista. Juntamente com seu marido, produz arroz de pilão, farinhas, óleos, muitas polpas de frutos do Cerrado, além de xarope de vinagreira, polvilhos de algodãozinho do campo, etc.

Encomende pelos telefones: (62) 99639-2372 e (62)99628-6742

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Dona Antonia – Benzedeira (Taguatinga-DF)

Dona Antonia – Benzedeira (Taguatinga-DF)

Antonia Alves do Santos é moradora de Taguatinga-DF, tem 92 anos. Benzedeira com muita fé e força. Antes da pandemia, atendia em sua casa três vezes por semana centenas de desconhecidos que recorriam à ela em busca de ajuda para mal olhado, quebranto, inveja, más energias, dores no corpo e espinhela caída.

Mãe de cinco filhas, avó de sete netos e bisavó de 10, Dona Antonia viveu a infância com um tio benzedor que à aproximou desse trabalho. Descobriu o dom para a reza aos 12 anos, após aprender inúmeras orações enquanto crescia sob os cuidados do tio. Um dia teve uma visão: “estava deitada em um campo com mato alto e vi Nossa Senhora Aparecida passando sobre a água e entregando uma carta em minhas mãos. Ela disse que aquilo seria minha salvação”. A partir de então, se tornou devota da santa e começou a trabalhar rezando por outras pessoas, mesmo à distância, sempre na frente de seu altar.
Texto: Maria Bezerra (Escola de Almas Benzedeiras de Brasília)

Purnima – Parteira (Alto Paraíso de Goiás)

Purnima – Parteira (Alto Paraíso de Goiás)

Marcia Purnima é carioca de nascença, mas escolheu o Nordeste goiano como local do coração para viver, plantar, colher e acolher. Fisioterapeuta de formação, Parteira na Tradição, ele recebeu o bastão publicamente de Dona Flor do Moinho em 2015, mas antes mesmo disso, há décadas ela vem acompanhando partos, além da sua experiência enquanto mãe, parindo da forma mais natural possível.

Purnima ainda é Acupunturista de mão cheia e Professora de Medicina Tradicional Chinesa. Muito querida e “mestrona”, já formou diversos aprendizes que atendem em diversos lugares, além de Alto Paraíso de Goiás.

Neste vídeo, ela passeia pelo seu quintal nos ensinando sobre uma erva que facilita o trabalho de parto, conhecida popularmente como artemísia (Artemisia vulgaris).


Disponível em: Quintal RAÍZES: Purnima – Parteira

Entrevista: Tom das Ervas – Raizeiro (Alto Paraíso de Goiás)

Entrevista: Tom das Ervas – Raizeiro (Alto Paraíso de Goiás)

Tom das Ervas, de outras eras, outros tempos.
Preparando cremes, xaropes, unguentos
O dia amanhece, a natureza dá o tom
Ele caminha pelo cerrado
e escolhe as ervas
Agradece reverencia
manipula, prepara
Uma fórmula pura
que cura, que sara
Arte de índio, caboclo
Serviço de raizeiro, Pajé
Se quiser encontrá-lo é fácil:
Em Alto Paraíso todos sabem quem ele é!


Poesia: Ivan Anjo Diniz

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Seu Joaquim “Momboca” – Raizeiro e Benzedor (Alto Paraíso do Goiás)

Seu Joaquim "Momboca" - Raizeiro e Benzedor (Alto Paraíso do Goiás)

SEU JOAQUIM
Raizeiro, amigo das folhas
Pesquisador das plantas
Catador de medicinas
Amante das ervas santas
Com seus olhinhos pequenos
Esse mago do cerrado
Enxerga um mundo enorme
Vivendo aqui desse lado
Dos guerreiros desse solo
Um caminho de saúde e pureza
Em sua alma reside
A força da natureza.

Poesia: Ivan Anjo Diniz

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Dona Maria Chefe (In memoriam) Parteira, Raizeira e Benzedeira-Vila de São Jorge/GO

Dona Maria Chefe (In memoriam) Parteira, Raizeira e Benzedeira-Vila de São Jorge/GO

De dia panhando pedra, de noite panhando menino! Foi assim durante muito tempo a vida de Maria Ferreira da Mota, mais conhecida como “Maria Chefe”.

Diferentes de muitas garimpeiras, ele nos contava que tinha saudade do garimpo de cristal. O trabalho não era fácil e nem dava muito dinheiro, mas a saudade maior era da alegria das companheiras e companheiros de jornada. Carregava peso, machucava as mãos, muitas vezes não recebia o que deveria, mas tinha amigos e gostava de ajudar ao próximo. Às vezes mal chegava do trabalho e era o tempo de tomar um banho correndo e já tinha que sair pra acudir uma mulher em trabalho de parto, às vezes duas em menos de um dia e logo já estava ela cuidando dos seus próprios filhos, da casa e de volta ao garimpo. Conseguia ser séria e muito doce ao mesmo tempo.

Conseguia te olhar e ver e sentir coisas que não é qualquer cristão que tem o dom de perceber.

Pegou muito menino (fez muitos partos), benzeu e fez remédio pra muita gente e ensinou quem quis aprender.

Pessoa simples, muito humilde, não há quem não tenha vivido na Vila de São Jorge até 2017, quando ela fez a passagem, que não saiba que ela era.

Se hoje tomo banho de ervas, foi porque ela me sensibilizou para isto.

Uma homenagem à ela e, nosso muito obrigado à toda equipe e aos familiares que contribuíram para a realização desta entrevista concedida em maio de 2017.
Texto: Daniela Ribeiro

Disponível em: RAÍZES Homenageia: D. Maria Chefe (In memoriam) Parteira, Raizeira e Benzedeira – Vila de São Jorge/GO

Entrevista: Wilson – Raizeiro do povoado do Moinho – Alto do Paraíso de Goiás

Entrevista: Wilson - Raizeiro do povoado do Moinho - Alto do Paraíso de Goiás

Joaquim Wilson é filho do Raizeiro Donato e da Parteira e Raizeira “Dona Flor do Moinho”. Pai e avô, homem muito esforçado e trabalhador, de sorriso largo, Wilson ainda arruma tempo pra se dedicar a coletar plantas medicinais do Cerrado, a cultivar plantas de horta e a fazer remédios caseiros para pessoas que o procuram de várias cidades. Wilson traz na genética o ofício de raizeiro, mas para além disso, ele gosta muito de ler sobre Fitoterapia. Se debruça e se deleita sobre as páginas de livros que tem adquirido ao longo da vida sobre as plantas medicinais.

Neste final da nossa temporada, último dia do “RAÍZES: 5º Grande Encontro de Raizeiros, Parteiras, Benzedeiras e Pajés na Chapada dos Veadeiros – versão web, separamos, entre outras surpresas, esta filmagem onde nosso querido irmão Wilson dá o recado.
Texto: Daniela Ribeiro

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Causo do Rádio, 2003

Causo do Rádio, 2003

Quando ela chegô [a esposa do seu Enoque] naquele caixotinho lá em riba da mesa e eu assim perto oiano aquilo, quando ela pegô no uimbigo dele que torceu, eu vi que tinha um palitinho lá dentro que rolô, mais ele tá campeando os caipira… Rapaz! Ele desviou dos caipira e engarupou numa missa. E o véio era daqueles devoto antigo, quando o padre raiou lá dentro daquele caixote, ele barreu os joelhos no chão lá adiante, e aí nóis foi obrigado a jogá o chapéu de costas i ajoelhá também; i eu não sei o que tinha enfezado esse padre esse dia, rapaz… ele tirava uma meia hora pra rezar e uma meia hora pra daná cum nóis, rapaz… i eu fui enfezando com aquilo: _ I eu nunca vi esse omi i ele dana cum nóis desse jeito, sô. Esse omi tá loco!  

[…] Uma ocasião nessa época que apareceu esse ricurso, e eu fui trabaiá prum cumpanheirim meu lá […] quando foi sábado, eu juntano minhas quissassinha pra ir’imbora, aí ele falô pra mim: “Não, Geraldim! Posa aí q’amanhã cedo nóis vai iscutá uns caipira”. Aí eu danei cum ele: “Cê tá ficano lôco, rapáiz? Onde cê vai arrumá caipira aqui amanhã cedo?”. Aí ele falô: “Não, ali num veím nosso tem um rádio”. Aí falei: “Uai, já tem?”, “Tem! Tá c’uns oito dia que chegô”. Aí falei: “Uai, intão vô posá q’eu fico conheceno essa ferramenta”. Aí cedim […], era perto, nóis chegô logo, quando nóis chegô já tinha umas quinze pessoa lá, rapáiz. O povo num cunhicia, aquilo frivia lá pra iscutá. Aí o véi viu que o povo tava bobo c’aquilo, pegô a cobrar, era quinhentos réis procê iscutá. […] Aí nóis chegô e o cumpanhêro falô: “Ó seu Enoque, nóis vêi iscutá uns caipira”. Aí ele levantô, ispriguiçô e falô […] “Vô lá dentro chamá a Maria, eu num sei mexê cum isso não”. Aí eu oiei, rapáiz, tinha um caixotim em riba de uma mesinha, tava pertim, pra mim era um caixotim deles pô alguma imundície . […] Quando ela chegô naquele caixotim lá em riba da mesa, […] quando ela pegô no imbigo dele que torceu, eu vi que tinha um palitim lá dentro… rolô! Ele tava campiano uns caipira… Rapáiz, e ele [o botão de rolagem das estações de rádio], e ele dislizô dos caipira e engarupô numa missa, rapáiz. E o véi era daqueles devoto antigo, quando o padre raiou lá dentro daquele caixote, ele barreu o joêio no chão lá diante, e aí nóis foi obrigado a jogá o chapéu de costa e jueiá tamém. E eu não sei o que foi q’esse enfezado desse padre esse dia, e ele tirava uma meia hora pra rezá, uma meia hora pra daná cum nóis, rapáiz! E eu fui infezano c’aquilo: “eu nunca vi esse hômi, e ele daná cum nóis desse jeito sô! Esse hômi tá é lôco” [risos]. E aí o pau quebrô e ele num parava e os juêio num guentô […]. Levantá num podia! […] Eu manei: “Agora num tem ricurso, vô deitá purque num pode levantá”. Quando eu já tava caçano um jeito de deitá, o padre liberô nóis e eu mão no chapéu e avoei pra banda de fora. Aí o cumpanhêro: “Vamo dá mais um prazo, às vêiz os caipira vem!”. Eu falei: “Ó rapáiz, o dia q’eu rumá um ricurso pra vedá meu juêio, eu posso vortá”  

Causo do Porquinho, 2003

Causo do Porquinho, 2003

Um dia de tardizinha, o sol já lá ia amoitano por trais da cacunda da serra, eu saí na porta, oiêi… rapáiz!, um porquim deu de vazá na vara do chiquêro e desceu pru lado duma horta. E aí eu pensei: “tem que pegá, si não ele vai dá prejuízo”. Eu sipiei em cima desse caboquim. I é aqui, i é aculá, eu fui coieno ele, fui cheganu pra perto. E ele era um animarzim bem arisco [risada], quando ele viu que eu tava pra chegá, ele tampô a bufá e a pulá. E quando eu já tava pra tarracá nas cadêrinha dele, ele tafuiô dibaxo duma cerca de arame, rapáiz! E naquele imbalo qui eu invinha, eu morguei pra passá no vão do arame, eu gachei dimais, uma ferpa veio e pregô, rapáiz! Aí eu fiquei marrado ali, quereno puxá, mas tava pregado. Eu levava a mão lá pra tirá, estrepava o dedo. E eu fiquei ali naquele trem, e lá ia cheganu um caboquim assim perto, quando viu eu naquela maçaroca ali, ele resorveu me dá uma mão, mais eu já tava infezado demais. Quando ele falô: “Para aí, sô!”. Eu falei: “Não!”. I foi BUM!