Tembé

Origem do fogo: 


Depois da grande chuva o céu estava ainda muito baixo, e o sol esquentava tanto, que a gente podia assar a caça no calor dele. O calor queimava a pele da gente. Mas, quando o céu se separou da terra, aquele casal de irmão não pôde mais assar a carne, porque não tinha mais o calor do sol que assava tudo e também não tinha fogo. Naquele tempo, quem tinha o fogo era o urubu-de-cabeça vermelha. O homem então resolveu roubar o fogo do urubu. Porque era ele que tinha o pau de fazer o fogo, que o urubu guardava dentro de um estojo assim. ‘Nossa gente também usava’.  


Para roubar o fogo do urubu o homem decidiu fazer-se de morto, para atrair o urubu. Deixou o arco e flecha em casa e foi para o mato com a mulher que era irmã dele. Lá construiu um abrigo de folhas para abrigar a irmã, para que ela não fosse percebida pelos animais. Ele fez um apoio de madeira para a cabeça [espécie de travesseiro de madeira] e deitou-se, ficando imóvel, de olhos fechados, fingindo-se de morto. Ele vira carniça, aí vieram às moscas e puseram ovos nele, no couro cabeludo, nos olhos, em todo o corpo, ele virou uma carniça. Dos ovos saíram às varejeiras, que ficaram mexendo nele, mas o homem não se movia, estava morto. Então, veio o urubu, sobrevoou o lugar, foi baixando aos poucos, pousou numa árvore próxima. Vendo que o homem não se mexia, desceu para o chão e foi espiar ele de perto. Certo de que estava morto mesmo, voou então para ir chamar os outros. Pouco a pouco foi chegando uma porção de corvos e urubus, todas as espécies de urubu. A urubuzada toda veio, até o urubu de cabeça vermelha. Este queria assar o homem. Para isto trouxe o estojo em que guardava o pau de fazer fogo. Ele fez o fogo e passou a arrumar a fogueira. Nisto, o homem abriu um olho para poder ver como o urubu-de-cabeça-vermelha fazia fogo. O urubu-de-cabeça-vermelha aproximou-se então do homem para vê-lo bem de pertinho. Pegou no seu olho, mas viu que este estava cheio de bichos. Então ele disse:  


– Está morto mesmo!  


Aí todos os outros urubus foram aproximando-se e já estavam erguendo o homem para levá-lo ao fogo, quando este pegou o seu travesseiro-de-pau e com pauladas espalhou os urubus, que voaram assustados. O homem gritou para a mulher sair do esconderijo e pegar um tição que ele conseguiu pegar. Ela veio rápido, pegou o tição e correu com ele para dentro de casa. Como o urubu de cabeça vermelha voltou para pegar o estojo, ele não queria ir embora, ficou lá no alto da árvore, o homem deitou de novo e continuou lá se fingindo de morto, até que o homem joga o pau no urubu que foge deixando o fogo com o ancestral dos Xetá. O urubu deixa o estojo com o pau de fazer fogo. O homem pegou o estojo com o pau de fazer fogo e esconde no mato. Ele fedia tanto que a irmã pensou que ele estava morto mesmo. Aí eles foram para um rio, para o homem se lavar e tirar os bichos de seu corpo. Aí é que a mulher viu como ele estava cheio de varejeiras e pensou que já estivesse morto. Mas ele disse:  


– Ainda sou eu! E começou a tirar os bichinhos e a jogá-los no chão, na margem do rio. 


Fonte:

GRAZIELLE, P. NO HORIZONTE HÁ UMA COSMOPOLÍTICA INDÍGENA DIANTE DO ANTROPOCENO OU DO CAPITALOCENO? Iluminuras, Porto Alegre, v. 21, n. 53, agosto, 2020. p. 447. 


Roubo do fogo: 


Urubu era o dono do fogo. Nossos avós não tinham fogo. Cururu queria se aquentar. Urubu não queria. Cururu pulou perto. Urubu pegou-o no braço e pinchou-o fora. Cururu veio outra vez. Aí, Tupã ficou com dó do cururu. Daí combinou com êle para pegar o tiçãozinho. Tupã (que era um Guarani) , chegou perto do urubu e bateu palma para o urubu ficar assustado, porque Tupã queria pegar todo o fogo. O urubu se assustou e foi-se embora. Tupã pegou todo o fogo e deixou um tiçãozinho para o cururu. Aí Tupã e cururu deram fogo a todo o mundo.  


Fonte:

BALDUS, H. BREVE NOTICIA SOBRE OS lVIBYÁ-GUARANI DE GUARITA. Revista do Museu Paulista, Volume VI, 1952. p. 484-485. 

Tembé

Mulher com criança Tembé no Gurupi. Foto: Vincent Carelli, 1980.

Origem do nome

Os Tembé constituem o ramo ocidental dos Tenetehara. O grupo oriental é conhecido por Guajajara. Sua autodenominação é Tenetehara, que significa gente, índios em geral ou, mais especificamente, Tembé e Guajajara. Tembé, ou sua variante Timbé, constitui um nome que provavelmente lhes foi atribuído pelos regionais. De acordo com o lingüista Max Boudin, timbeb significaria “nariz chato”.

Localização do povo

De um modo geral, pode-se afirmar que os Guajajara, ramo oriental dos Tenetehara, se localizam no Estado do Maranhão, enquanto os Tembé, o ramo ocidental, no Estado do Pará. Entretanto, uma parte dos Tembé vive na margem direita do rio Gurupi, no estado maranhense.

Referência

Virgínia Valadão. Povos Indígenas no Brasil. Disponível em: <https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Temb%C3%A9>. Acesso em: 26 de ago. de 2020.

 

RODRIGUES, Aryon Dall’Igna. Línguas indígenas brasileiras. Brasília, DF: Laboratório de Línguas Indígenas da UnB, 2013. 29p. Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br/lali/PDF/L%C3%ADnguas_indigenas_brasiliras_RODRIGUES,Aryon_Dall%C2%B4Igna.pdf>. Acesso em: 26 de ago. de 2020.

 

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