Fitossociologia, diversidade e sua relação com variáveis ambientais em florestas estacionais do bioma cerrado no planalto central e nordeste do Brasil

Autor(a):

Ricardo Flores Haidar

Resumo:

Na matriz de formações abertas que predominam no bioma Cerrado, as florestas estacionais merecem destaque por ocuparam cerca de 30% de sua área territorial e constituírem a fitofisionomia mais ameaçada pela ação antrópica no bioma. A boa qualidade da madeira de algumas de suas árvores, a alta fertilidade de suas terras, além da mineração de rochas calcárias em algumas áreas são os principais fatores de degradação destas florestas. A ampla distribuição destas formações, nas distintas unidades de terra do bioma Cerrado, sob diferentes regimes de temperatura, precipitação e períodos de seca e, ainda, sobre características edáficas e topográficas distintas, propiciam variações florísticas e estruturais do componente arbóreo. O presente estudo foi desenvolvido em três florestas estacionais do bioma Cerrado, duas no setor do Planalto Central (Goiás e Distrito Federal) e uma no seu Setor Parnaibano (Piauí), às margens do bioma. Em Goiás, a amostragem foi conduzida no Parque Estadual Altamiro de Moura Pacheco (PEAMP), em fragmentos remanescentes da ação antrópica anterior à sua criação. No Distrito Federal, a amostragem foi realizada em uma encosta coberta continuamente por floresta na região de solos calcários da Fercal. No Piauí a amostragem foi conduzida nas manchas naturais desta fisionomia distribuídas de forma disjunta na matriz savânica do Parque Nacional de Sete Cidades (PNSC). O objetivo foi estudar a diversidade e a estrutura da comunidade arbórea (DAP > 5 cm), além de tentar relacionar as variações do substrato e relevo com a distribuição de suas espécies arbóreas. Realizou-se uma caracterização das variáveis ambientais (temperatura, precipitação, duração do período seco, aspectos físicos e químicos dos solos) e uma comparação florística e estrutural, entre as três florestas estacionais estudadas, para testar a hipótese de que mesmo submetidas a um largo espectro de variações ambientais estas florestas possuem em seu estrato arbóreo similaridades florísticas e estruturais. Foi utilizada metodologia padronizada na coleta de dados do componente arbóreo, através de amostragem aleatória em duas etapas sendo que em cada área foram amostradas 25 parcelas de 400 m² e mensurados todos os indivíduos lenhosos a partir de 5 cm de diâmetro a 1,30 metros a partir da altura do solo. A coleta e análise padronizada dos solos foram realizadas seguindo as recomendações da EMBRAPA. Apesar da amplitude de valores de riqueza (78 a 115 espécies).), densidade (1.059 a 1.840 ind.ha-1), dominância (18,08 a 22,72 m².ha-1) e diversidade alfa (3,36 a 4,05 nats.ind.-1) encontrada para as três florestas, os mesmos estão dentro do gradiente de valores obtidos em outras florestas estacionais brasileiras. As comunidades apresentaram estrutura de caráter auto-regenerativo, com distribuição de diâmetros apresentando a forma de J-reverso. Foi verificado um gradiente consistente de fertilidade e textura dos solos sob as três florestas e fortes variações de temperatura e duração da estação de seca entre os dois setores do bioma Cerrado, onde se inserem as áreas de estudo (setor do Planalto Central e da Bacia do rio Parnaíba). Os solos da região da Fercal são de textura franco-argilosa e os mais férteis relativamente, os do PNCS são extremamente arenosos e pobres em nutrientes, enquanto os solos do PEAMP são argilo-arenosos e possuem níveis intermediários nesse gradiente de fertilidade. Os resultados da classificação e ordenação da vegetação mostram alta diversidade beta entre as florestas estacionais, até mesmo ao longo dos remanescentes de floresta estacional do PEAMP e das manchas naturais do PNSC, em função das variações na textura e fertilidade do substrato e das mudanças na topografia do terreno, denotando uma elevada heterogeneidade florística e estrutural da vegetação em nível local. Na floresta estacional da Fercal a diversidade beta foi baixa em função a alta densidade de espécies edafo-especialistas que possuem ampla distribuição na amostra produzindo maior homogeneidade florística e estrutural. Ao se comparar as três amostras em termos florísticos e estruturais, a maior similaridade dá-se entre as florestas estacionais do Planalto Central, refletindo a maior proximidade geográfica das áreas em nível regional. Mesmo assim, a floresta estacional do Piauí é mais similar à floresta do PEAMP (Goiânia), em relação à da Fercal (Distrito Federal) indicando uma relação inversa ao gradiente de proximidade entre as florestas, que pode ser remetido às significativas variações de textura e fertilidade (PEAMP e PNSC) exercendo maior influência na estrutura e composição da vegetação do que o posicionamento geográfico das florestas estacionais em nível regional. São comuns as três florestas estacionais doze espécies, Agonandra brasiliensis, Machaerium acutifolium, Guettarda viburnoides, Aspidosperma subincanum, Anadenanthera colubrina, Myracrodruon urundeuva, Astronium fraxinifolium, Hymenaea courbaril, Matayba guianensis, Tabebuia serratifolia, Tabebuia impetiginosa e Sterculia striata. Destas, as quatro primeiras se destacam por possuírem populações com tamanhos similares nas três florestas o que indica serem tolerantes a uma ampla variação de condições ambientais no bioma Cerrado, pois ocorrem, de forma geral, em áreas de cerrado sensu stricto, matas de galeria e ciliares, assim como em florestas estacionais condição que realça a importância da vegetação matriz do bioma na manutenção das formações florestais. Os resultados podem subsidiar projetos de sivilcultura e recuperação ambiental nas áreas de estudo e em nível regional uma vez que foram obtidas relações espécie-ambiente com padrões comuns entre as matas do setor do Planalto Central e do setor Paranaibano do bioma Cerrado, apesar das distâncias e do posicionamento ecotonal do PNSC.

Referência:

HAIDAR, Ricardo Flores. Fitossociologia, diversidade e sua relação com variáveis ambientais em florestas estacionais do bioma cerrado no planalto central e nordeste do Brasil. 2007. 254 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Florestais)-Universidade de Brasília, Brasília, 2007.

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