Agroecologia

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Agroecologia é uma disciplina científica que usa a teoria ecológica para avaliar e gerir os sistemas agrícolas para que eles sejam produtivos, sustentáveis e que otimizem o uso dos recursos locais, cultivando a fertilidade do solo de maneira biológica e a regulação natural de pragas, através da promoção da biodiversidade, enquanto minimizam os impactos ambientais e socioeconômicos negativos das tecnologias modernas.

Ela se caracteriza também como um movimento sociopolítico e socioambiental, de empoderamento do agricultor familiar em busca de sua identidade e de raízes culturais e principalmente de sua autonomia, poder de decisão e participação ativa no processo produtivo, além das suas preocupações ambientais.

A agroecologia é, portanto, uma ciência integradora, que agrega conhecimentos de outras ciências, além de agregar também saberes populares e tradicionais, sempre visando uma agricultura ambientalmente sustentável, economicamente eficiente e socialmente justa.

As técnicas de agricultura orgânica, agrofloresta e permacultura podem em vários aspectos ser associadas e usadas na abordagem agroecológica.

• Visão do todo e sistêmica (paisagem, microbacia…)
• Valorização dos recursos localmente disponíveis
• Conservação (e aumento) dos recursos naturais
• Produção de alimentos em quantidade, qualidade e diversidade (soberania alimentar)
• Construção do conhecimento
• Diálogo de saberes: conhecimento científico e tradicional
• Conservação e revitalização das culturas locais
• Dinamização econômica do mundo rural  

 

 

Fundamentos para agroflorestas sucessionais, a partir das bases teóricas desenvolvidas por E. Götsch.
COMO É NA NATUREZA ANALOGIA COM A AGROFLORESTA

1. a teimosia da vida em predominar – numa área desmatada, a tendência é sempre a ocupação com mais e mais vida, de diferentes formas (plantas e animais), com grande variedade de espécies;

– Que nossas intervenções sejam no sentido de sempre aumentar a vida no local (em quantidade e qualidade)

2. adaptação das espécies ao local – as espécies recrutadas numa determinada área é função das condições principalmente de substrato. Se se trata de um solo pobre em matéria orgânica e nutrientes, as espécies a se estabelecerem serão mais rústicas, menos exigentes.

– devemos escolher as espécies de acordo com as condições do local (solo, clima). Para isso, é importante conhecer as espécies da região e observar as plantas indicadoras;
– o lugar (clima e relevo) e condições de solo (em solos degradados, com pouca matéria orgânica, utilizar plantas menos exigentes; em ambientes onde já houve bastante concentração, como as baixadas, por exemplo, as plantas mais exigentes se desenvolverão bem. Alem disso, é importante observar se o solo encharca ou não, para que as espécies sejam escolhidas também em função da tolerância ao encharcamento);

3. sistema completo desde o inicio – as espécies de futuro (aquelas de vida mais longa) já estão presentes desde o inicio, junto com aquelas que não vão durar tanto quanto elas mas que são importantíssimas para prepararem as condições para as de futuro se desenvolverem (melhorando a terra e criando um ambiente de sombra satisfatório);

– devemos semear todas as espécies (de vida curta, media e longa) de uma só vez.

4. simultaneidade e adensamento dos consórcios – podemos observar diferentes combinações de espécies que dominam o sistema numa determinada fase. Esses consórcios, cujos componentes apresentam ciclo de vida semelhante, vão se sucedendo uns ao outros. Cada consorcio, caracterizado pelo tempo de vida, ou período no qual chega a dominar no sistema, é composto por diferentes espécies, que ocupam diferentes estratos. Cada espécie do consorcio aparece em alta densidade no estado juvenil, mesmo quando observamos que nem todos os indivíduos chegam a se estabelecer e frutificar quando adultas, pois vão sendo selecionadas e aquelas mais adaptadas ao micro-lugar. Porem, a ocupação do espaço por muitos indivíduos é imprescindível para que alguns indivíduos adultos possam chegar vigorosos a idade madura, e a presença de todos os indivíduos de todas as espécies de todos os consórcios é fundamental para o desenvolvimento de todo o sistema.

– devemos semear todas as espécies em alta densidade e, depois, ir selecionando aquelas mais vigorosas.
– as espécies deverão ter ciclos de vida curto, médio e longo. As de ciclo curto vão criar condições para as de ciclo médio e longo e as de ciclo médio para as suas sucessoras.
– o espaço deve ser aproveitado da melhor maneira possível. Assim, alem do plantio adensado, como foi explicado anteriormente, todos o estratos (alturas diferentes) devem ser ocupados. Assim, para as plantas de vida curta, podemos escolher as de porte alto médio e baixo, da mesma forma para as de vida media e longa. Dessa maneira o espaço vertical, tanto para aproveitamento da luz, quando da terra, pelas raízes de diferentes tamanhos e formas, é bem aproveitado.

5. dinâmica – Constantemente no ecossistema natural podemos observar os agentes que dinamizam o sistema, como o vento, as pragas (formigas cortadeiras, lagartas, etc.), que transformam a matéria orgânica e rejuvenesce o sistema, melhorando o solo, criando condições de luz para o crescimento das outras plantas e revitalizando as plantas naturalmente “podadas”. Numa floresta, as pragas e doenças existem, mas de forma equilibrada, sem causar danos severos, pois sua função é importante como dinamizadora do sistema.

– devemos fazer papel do vento e das pragas, manejando o sistema através da capina seletiva e da poda.
– as pragas e doenças deverão ser vistas como nossos professores, que nos mostram os pontos frágeis do sistema. A biodiversidade é um fator importante para manter esse equilíbrio, assim como a interação entre as espécies (que geram condições de iluminação, solo, etc). Se esses pontos forem observados, notaremos que não teremos danos severos nos sistemas agroflorestais sucessionais.

6. cooperação x competição – as plantas da floresta vivem muito bem, umas bem próximas às outras, mostrando que, desde que a combinação das plantas esteja adequada, não ha problema com competição.

– ao escolher as espécies para comporem os consórcios, é importante considerar a estratificação e o ciclo de vida e, desde que não pertençam ao mesmo grupo, de mesmas características, pode-se efetuar o plantio como se fossem monocultivos sobrepostos, obedecendo aos espaçamentos convencionais (no caso das plantas de ciclo curto). No caso das árvores frutíferas, elas devem ser plantadas por sementes, em alta densidade, para depois então serem selecionadas as de maior vigor.

Fonte: Peneireiro, 2002. IV CBSAF, Ilhéus/BA

• Biodiversos
• Resilientes (ciclagem de nutrientes, equilíbrio ecológico, interações entre espécies)
• Eficientes do ponto de vista energético
• Socialmente justos
• Base para a soberania alimentar
• Agroecossistemas com dependência mínima de insumos externos (incluindo energia)

Dimensão econômica
– redução de custos de produção (reduziu utilização de insumos externos, aproveitamento dos recursos)
– integração das atividades (otimização dos recursos, ciclagem dos nutrientes, otimização da energia)
– otimização de rendimento da produção (produção
escalonada no tempo, aproveitamento do espaço, utilização de espécies/variedades/raças adaptadas)
– planejamento da produção (otimização dos recursos, da mão –de-obra, época apropriada, não saturação do mercado)
– comercialização (distância do local, perecibilidade dos produtos, estratégia utilizada)
– agregação de valor
 
Dimensão social
– conforto (trabalha na sombra, sem necessidade de EPI, etc)
– segurança e soberania alimentar (alimento de qualidade,
em quantidade e compatível com a cultura)
– redução do uso de agrotóxicos (menor probabilidade de intoxicação)
– redução de estresse
– todas as pessoas da família participam
 
Dimensão ambiental
– manutenção e aumento da biodiversidade
– quebra-ventos e microclima
– conservação e melhoria da qualidade do solo e da água
– redução de contaminação
 
BIODIVERSIDADE
• A preservação e ampliação da biodiversidade é o primeiro
princípio para a auto-regulação e sustentabilidade, no
agroecossistema e na paisagem
• Fauna e flora em equilíbrio dinâmico
• Variedades adaptadas à eco-região
• Considerar a ecofisiologia das espécies
• Otimização dos processos de vida: ocupação de nichos variados 
 
 
Fonte: 
PENEIREIRO, Fabiana Mongeli; RODRIGUES, Ricardo Ribeiro; GÖTSCH, Ernst. Sistemas agroflorestais dirigidos pela sucessão natural: um estudo de caso. 1999.Universidade de São Paulo, Piracicaba, 1999.