Fabiana Mongeli

Em novembro de 2011, Fabiana começou a restauração da propriedade, iniciando pelo alargamento da mata ciliar como forma de restaurar e proteger o riacho presente. Dessa forma, pode colocar em prática tudo o que havia estudado sobre os sistemas agroflorestais.

 

É preciso desenvolver um desenho para cada sistema agroflorestal pensando na necessidade de cada agricultor. Por isso, ao assistirmos o documentário “Regeneração, produção e manejo agroflorestal com Fabi Peneireiro”, no canal de Youtube de Eurico Vianna, produzido em 2020, percebemos que os desenhos dos SAFs vão mudando conforme a necessidade de cada local dentro da propriedade.


Próximo ao riacho a ser restaurado, o desenho do SAF foi desenvolvido pelo plantio das árvores em linha, e nas entrelinhas, o uso do Capim-mombaça para que fosse roçado e acumulado nas linhas, mantendo a produção de matéria orgânica no solo. Os canteiros foram espaçados em 5 metros para que pudessem passar com o maquinário, com o intuito de diminuir a necessidade de mão de obra e os custos de insumos com a adubação e irrigação.

 

Foi também pensando em um sistema que não precisasse de manejos intensivos, sendo o ideal de 3 a 4 manejos por ano. No início, como o solo era muito compactado, por ser local de pasto, para recuperar e devolver vida para o solo, foram plantadas, por sementes, linhas de milho, mamão e mandioca, junto com as árvores associadas. Durante a escolha das espécies que seriam plantadas nas linhas, Fabiana optou por aquelas que melhor se desenvolvem no clima e no tipo de solo cerratense, trazendo a biodiversidade de plantas nativas e não nativas do cerrado.

 

 

Por isso, é possível encontrar no sistema espécies como jaca, jatobá, cajá-mirim, pupunha, landim, jabuticaba, copaíba, ingazeira, urucum, guapuruvu, margaridão, mogno, andiroba, entre outras. Nas entrelinhas foram plantados Capim-mombaça, para ser roçado e utilizado nas linhas de plantio das árvores.


Além disso, à medida que se afasta da margem do rio, algumas árvores nativas dispostas arbitrariamente impedem a passagem de mecanização. Por isso, Fabiana optou pelo cultivo em ilhas (em formato circular), para aproveitar o local entre as árvores. Nestes locais foram plantadas mandioca, banana, mamão, abacate, tomate, entre outras espécies.


Ainda, nos locais com grande incidência de vento, principalmente durante a seca, foram plantadas linhas de quebra vento, com o intuito de reduzir a força dos ventos na propriedade e, ainda, gerar biomassa para o sistema. Entre as espécies escolhidas para essa região estão a leucena, capim-elefante e margaridão.


Dessa forma, vimos como cada região de uma mesma propriedade responderá melhor quando adotado um sistema agroflorestal desenvolvido com as suas necessidades. Assim, tanto a natureza, quanto o agricultor podem se beneficiar da prática agrícola.

 

Fabiana relata a grande presença de formigas próximas à vegetação do rio e afirma que viu a oportunidade de aprender com elas, tendo um grande respeito pela presença delas no ambiente da agrofloresta. A presença das formigas indica que a terra daquele local está mais porosa, além de garantir o manejo das espécies que estão em tensão, sem condições de se desenvolver plenamente. Por isso, o diálogo com a natureza e a observação local é muito importante!

 

Além de identificar quais são as necessidades para cada ambiente de um sistema agroflorestal, é preciso adaptar a plantação com os ciclos da própria natureza. Em uma área da propriedade, Fabiana Peneireiro plantou linhas de árvores cítricas e nas entrelinhas planta periodicamente hortaliças, que também mantém o solo coberto, conservando e devolvendo a matéria orgânica para o solo. Mas, nas épocas de chuva, e pelo solo ser argiloso, após colher as hortaliças, ela substitui por roça (espécies de porte baixo mas que não são rasteiras). Desse jeito, evita que as hortaliças muito perto do solo fiquem sujas de lama, mas mantém a produção de alimentos do sistema. Algumas espécies de roça que Fabiana planta nos períodos chuvosos são inhame, mandioca e berinjela.
Vale também alertar que, no período de chuva, é evitado que passem com máquinas pesadas no solo argiloso, para que o solo não fique compactado e perca a sua capacidade de reter a água das chuvas.

Desenvolver um sistema de produção agroflorestal é muito mais do que plantar árvores para recuperar um ecossistema. É preciso entender sobre o ciclo de vida das espécies escolhidas, o desenho que irá ser melhor para a área a ser restaurada, e plantar árvores que garantam o sustento dos agricultores, tendo a possibilidade de vender o que sobra, além de espécies que possam ser podadas com frequência para proteger o solo e devolver biomassa para a terra. Na propriedade de Fabiana, existe um local que foi aterrado com 3 mil caminhões de resto de construção, no início da restauração da área. Resto de telhas, rochas, tijolos, cimento, cascalhos… tudo isso poderia dificultar o plantio de uma floresta, mas não foi isso que aconteceu na propriedade.

 

Fabiana plantou árvores com uma boa resposta a poda para que fosse devolvido matéria orgânica para o solo, como a mutamba e a junteira.
Além disso, pesquisou espécies que devolvem em maior quantidade a água para o solo, como é o caso da jaracatiá, que tem raízes que liberam água para o solo, mesmo que pouca irrigação. E por fim, desenhou uma floresta com uma alta diversidade de espécies como limão, cajá-mirim, mamão, banana, pitanga, acerola, manga, ponkan, entre outras.
Dessa maneira, além de restaurar e devolver vida para um solo empobrecido, é possível também que haja produção de alimentos variados dentro do sistema agroflorestal.