Umutina

Mito de Origem: 

 

Primeira versão:  

Primeiro não tinha povo e Haipukú andava triste, sozinho. Ele foi pensando na vida, foi inventar e experimentar juntar fruta de bacaba do campo. E juntava fruta macho e fruta fêmea. Foi juntando, juntando, emendando até ter dois pés de comprimento aí deixa de lado. Quando chegou de noite ele ficou assustado com conversa. Foi ver e era gente que as frutas viraram. E ele ficou satisfeito com os companheiro. Eles ficaram com ele e fez família logo. Foi indo, foi indo, experimentou juntar fruta de figueira de folha larga. Juntou e botou debaixo da esteira. De noite assustou de conversa de gente. Aí foi ver que virou gente outra vez e ficou satisfeito que já tinha muita gente para companheiros dele. Depois de algum tempo achou que era pouco e experimentou juntar fruta de bacaba do mato. Juntou até um palmo de comprimento e saiu tudo gente de cabelo comprido, dois homens e duas mulheres, dois casais. Experimentou com mel de tata e também saiu um casal com a cabeça mais pelada. Quando já tinha bastante povo dele, criou barriga de perna por dois lados. Haipukú ficou apurado com a dor de criança, procurou um pé de figueira. Aí racharam as duas pernas e nasceram quatro crianças: dois meninos e duas meninas. 

 

Da perna direita saíram dois Habusé, índio e índia, e do lado esquerdo saíram os pais dos civilizados. Mas as crianças não quiseram ficar morando na casa do pai. Ele, quando teve os dois casais de crianças foi em casa dizer a mulher e a mulher disse: – Por que não trouxe as crianças? Haipukú respondeu: – As crianças não querem vir! Aí ele mandou fazer dois ametá (saias) para as meninas e dois arcos para os meninos. A menina civilizada não ajeitou com a sainha, mas a Habusé ajeitou. O menino civilizado também não ajeitou com o arco, mas o Habusé ajeitou! Haipukú falou para eles ir com ele em casa dele. Mas eles não queriam. Queriam ir embora. Ele então perguntou: – Para onde vocês vão? Eles falaram: – Os civilizados para mando do Paraguai para baixo, e os Habusé para mando do rio dos Bugres para cima. Haipukú disse que podia ficar com ele, que ele teve o trabalho de carregar bruto de barriga de perna, e assim mesmo eles iam se esparramar no mundo. Mas não há notícias destes índios, que dizem parece se acabou. Ficaram só os filhos de fruteira junto com ele mesmo. 


Segunda versão:  

Haipukú é o criador do mundo! Quando estava Haipukú não tinha mundo nem cousa alguma. Os civilizados nasceram da barriga da perna, um rapaz e uma menina, um de cada lado da perna esquerda. Da perna direita saíram Habusé, índia e índio. Quando Haipukú ficou apurado com a dor de criança. Procurou um pé de figueira. Aí racharam as duas pernas e nasceram os pais dos civilizados e dos índios Habusé. As crianças não queriam ficar morando na casa do pai. Aí ele mandou fazer duas ametá e dois arcos, e foi levá-los no tronco da figueira para as crianças. Mas as crianças tinham saído, foram para o lado esquerdo do rio Paraguai os civilizados, e os índios para o lado direito. Mas não há notícia destes índios, que disse parece que acabou! Haipukú juntou fruta de figueira e a fruta virou gente, para companheiro deles. Ele não tinha nem companheiros. Ele foi estudar e aí juntou tudo que é fruta, também macava do campo, daí também saiu gente. Aí juntou também fruta de macava do mato e também virou gente. Aí pegou mel de tatá e virou gente! E fez cidades grandes no mundo inteiro. Ele emendou fruta junto, até atingir dois pés, aí deixa longe dele um tempo. Depois foi ver, ai virou companheiro dele.  

Nos primeiros tempos apanhavam nas brigas os civilizados, pois não tinham armas, só porrete, facão e jogavam frutas de jenipapo nos Barbados. Eles tinham arcos e flechas e espadas de ‘siriva’ e davam nos civilizados. Depois os civilizados inventaram as armas de fogo. Aí nas primeiras lutas com os Barbados mataram tudo quanto é índio, pois estes não sabiam o que estalava, pensando que eram faíscas. Em lutas seguidas mataram todos menos um Barbado, um homem e uma mulher. Este que é o pai dos Umutina de hoje, chamado Tumóniepá. Aí acabaram os filhos de Haipukú e as fruteiras. Tumóniepá escapou e a outra mulher procurou até achar este homem, e casou e aí tiveram filhas e filhos. Aí o pai mandou eles casar com as próprias irmãs para aumentar a casa, e aí fez mais e mais malocas e muitas aldeias dos Umutina. 

 

Fonte:

MONZILAR, M. NARRATIVA DE ORIGEM DO POVO INDÍGENA BALATIPONÉ-UMUTINA – RESSIGNIFICAÇÃO E TRAÇOS DE HIBRIDISMO. Revista Ecos vol.23, Ano 14, n° 02, p. 59-60.

Umutina

Origem do nome

Os Umutina foram inicialmente denominados pelos não-índios de ‘Barbados’, devido ao uso, por parte dos homens, de barbas confeccionadas a partir do cabelo de suas mulheres ou do pelo do macaco bugio. O grupo se autodenominava Balotiponé, cujo significado é ‘gente nova’. Somente após o contato e convivência com os índios Paresí e Nambikwara, em 1930, passaram a ser conhecidos por ‘Umotina’, ‘Omotina’, ou ‘Umutina’ (grafia utilizada desde a década de 40), que significa ‘índio branco’.

Localização do povo

Mato Grosso

Referência

Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil. Povos Indígenas no Brasil. Disponível em: <https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Umutina>. Acesso em: 26 de ago. de 2020.

 

RODRIGUES, Aryon Dall’Igna. Línguas indígenas brasileiras. Brasília, DF: Laboratório de Línguas Indígenas da UnB, 2013. 29p. Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br/lali/PDF/L%C3%ADnguas_indigenas_brasiliras_RODRIGUES,Aryon_Dall%C2%B4Igna.pdf>. Acesso em: 26 de ago. de 2020.

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