Barranqueiros

O termo barranqueiro é utilizado por vários autores para designar as populações nas margens do Rio São Francisco. Para Mata-Machado (1991, p. 38), significa o “lavrador de vazante, conhecido como barranqueiro”. Para Pierson (1972, p. 305), o termo equivale ao lameiro, populações que plantam em áreas de lameiros e que serve para descrever: “pessoas que conhecem bem o rio e outros detalhes físicos da região e estão com eles intimamente associados”. Barranqueiro é caracterizado por Neves (1998) como termo da linguagem regional da região do Médio São Francisco. Já De Paula (2009) salienta que a partir da década de 1960 o barranqueiro “passou a designar indistintamente todos os habitantes da ribeira, sejam do campo ou das cidades”.

Especialmente Diegues e Arruda (2001, p. 51) utilizam o termo varjeiro para designar as populações tradicionais das margens do São Francisco: “Varjeiros ou varzeiros são aquelas populações tradicionais que vivem às margens dos rios e várzeas, sobretudo às margens do rio São Francisco”. Ressaltamos que em nenhum dos relatos, entrevistas ou contato com as comunidades e ilhas pesquisadas foi citado o termo varjeiro. Foi citado o termo agricultura de vazante para designar o plantio nas ilhas e beiras do rio.

Fonte: SOUZA, Angelafagna Gomes de; BRANDÃO, Carlos Rodrigues. PAISAGEM, IDENTIDADE E CULTURA SANFRANCISCANA: sujeitos e lugares das comunidades tradicionais localizadas no entorno e nas ilhas do médio rio são francisco. : sujeitos e lugares das comunidades tradicionais localizadas no entorno e nas ilhas do médio rio São Francisco. Geo Uerj, Rio de Janeiro, v. 1, n. 23, p. 77-98, jan. 2012.


As pessoas que nasceram em Pirapora e nas cidades vizinhas: Buritizeiro, Várzea da Palma e Guaicuí são também conhecidas como barranqueiras, por organizarem suas vidas nas barrancas do “Velho Chico”. Os músicos do lugar – Ivinho Lopes, Marku Ribas, Inácio Loyola, Fathyo Viana e tantos outros – inventaram um ritmo conhecido como a bossa nova barranqueira para cantar as coisas do lugar. Os poetas barranqueiros escrevem versos que lembram Neruda, mas que retrata o dia a dia da sua gente, os artistas pintam em aquarela utilizando a mesma água que as lavadeiras lavam as roupas. A vida se organizou assim porque as pessoas dali acreditam que a vida só é possível com o rio, por isso o reverenciam.

É esse rio que agora agoniza, carregado de silêncios. Nele já não pulam os peixes nem as crianças acostumadas a saltitar no passo das duchas (piscinas naturais). Nele não cantam as lavadeiras nem remam os canoeiros em busca da comida farta. Ferido pela grande obra de transposição – que busca mudar seu curso – ele procura novos caminhos pelas veredas do sertão. Nessa luta contra a ação do homem, ele muda, e se afasta das margens das velhas cidades. Talvez o São Francisco sobreviva. Mas, as barranqueiras e os barranqueiros não sabem se terão a mesma sorte. É o que se expressa no olhar vazio do homem que se debruça na ponte. Ele, tal qual o rio, já mais parece um fantasma.

Fonte: https://gentesinsurgentes.wordpress.com/barranqueiros-do-rio-sao-francisco/


Moram nas cidades, povoados e pequenas comunidades da beira do rio. Possuem as suas relações simbólicas e afetivas ligadas ao rio. Exercem atividades variadas.

Do ponto de vista do lugar onde vivem eles são barranqueiros, ribeirinhos e mais raro, beradeiros. Vivem em sua maioria nas ilhas, vazantes, comunidades ou cidade próximas do rio, como Pirapora, Buritizeiro, Januária dentre outras, ou ainda, em barracas improvisadas montadas no barranco do rio.

Nesta paisagem que envolve categorias da vida e do trabalho – ilhas e beira rio – Araújo (2009) trabalha com dois tipos distintos e complementares, “as comunidades negras vazanteiras”.
Neste caso, a autora considera as comunidades estudadas por ela, enquanto duas categorias: quilombolas e vazanteiras. Para Costa (2005) e Almeida (2008, p. 68), “nas ilhas e barrancas do rio São Francisco e nas margens de outros grandes rios que existem nos sertões, existem os barranqueiros ou vazanteiros”, considerando, portanto, a junção destes dois termos. Souza (2011, p. 81) esclarece alguns pontos desta junção, sobreposição e complementação de palavras e conceitos, chamando a atenção para o fato de que “existe uma certa diferença entre ser um morador de beira de rio e ser um morador de ilha”. Neste sentido, afirmamos que generalizar a categoria vazanteiro como sendo todos os moradores das margens e ilhas do rio São Francisco, homogeneíza populações com hábitos e saberes distintos, encobrindo especificidades de cada grupo sociocultural. E, mais ainda, qualificá-los enquanto quilombolas e barranqueiros apenas como uma categoria sobreposta, não reforça seus laços identitários. Podemos sim afirmar que são vazanteiros e quilombolas; vazanteiros e barranqueiros; vazanteiros e ilheiros; vazanteiros e ribeirinhos e não um ou outro.

De barranqueiros a quilombolas, o que observamos ao longo do curso do rio, são culturas partidas, fragmentadas, deslocadas de complexos sistemas de sentidos e de práticas de vida que antes teriam existido. Os ilimitados projetos capitalistas apareceram para destruir não apenas os frágeis ecossistemas próximos ao rio, mas também modos de vida e tradições de e entre comunidades que aos poucos se perdem.

Ao se auto-afirmarem como pescadores, lavradores, agricultores ribeirinhos, barranqueiros, ilheiros, vazanteiros, e quilombolas, estas comunidades de ilhas e beira rio, estão se diferenciando de outros povos e comunidades. Isto porque reafirmam seus laços de pertencimento e de enraizamento ao território e o
seu desdobramento social, o processo de territorialização e a sua identidade cultural.
Para Almeida (2008, p. 58) o território é “objeto de operações simbólicas e é nele que os sujeitos projetam suas concepções de mundo”. A autora afirma ainda que “o território é, antes de tudo, uma convivialidade, uma espécie de relação social, política e simbólica que liga o homem à sua terra e, simultaneamente, estabelece sua identidade cultural”. Esta relação de dependência destas pessoas com o território e o rio cria laços identitários que mantém viva as heranças culturais, os vínculos com o lugar de vida e trabalho.

Ao se auto-afirmarem como pescadores, lavradores, agricultores ribeirinhos, barranqueiros, ilheiros, vazanteiros, e quilombolas, estas comunidades de ilhas e beira rio, estão se diferenciando de outros povos e comunidades. Isto porque reafirmam seus laços de pertencimento e de enraizamento ao território e o seu desdobramento social, o processo de territorialização e a sua identidade cultural.

Souza, Angela Fagna Gomes de. Brandão, Carlos Rodrigues. SABERES LOCAIS, IDENTIDADE E DIVERSIDADE CULTURAL: sujeitos e lugares do médio rio São Francisco. In Marques, Luana.Geografias do Cerrado> sociedade, espaço e tempo no Brasil Central. Uberlândia: Edibrás, 2014.

 

Pierson (1972, p. 50) retrata que em função das barrancas baixas e do extenso terreno plano ao redor, “o rio, quando da cheia, muitas vezes as águas ultrapassam suas barrancas e se estendem de modo a atingir, em alguns lugares até 10 quilômetros de largura”. Este autor lembra ainda que nessas circunstâncias os moradores das barrancas “refugiam-se nas elevações da circunvizinhança e, até que as águas baixem, só podem chegar a suas casas por meio de canoas e outras pequenas embarcações”.
Com estes relatos fica evidente que as pessoas que vivem próximas ao rio criam estratégias e adaptações para lidar com as enchentes e continuarem morando em um espaço que antes de ser “sua propriedade”, é um lugar do rio. Os moradores das ilhas e barrancas possuem uma relação muito próxima com a natureza, sabem respeitar os seus ciclos e utilizam seus recursos de acordo com as regras do rio.
Apesar das grandes perdas e das incertezas, as enchentes deixam por onde passam também a fertilidade. A medida que as águas baixam as margens e ilhas ficam cobertas de sedimentos onde os barranqueiros praticam a agricultura conhecida como “lavoura de lameiro” e a pesca, atividades altamente produtivas que garantem o sustento das famílias que vivem as margens do rio.
Segundo Pierson (1972, p. 51), “para muitas pessoas que vivem ao longo do rio, então, a enchente do São Francisco é ocasião mais de prazer do que de temor ou apreensão de perda”. As chuvas e as secas são o aporte das gentes do rio e beira rio. Elas não são apenas ciclos da natureza, são também ciclos sociais que se projetam a partir da existência de um modo de vida próprio dos lugares do rio. São relações que se propagam de forma complementar, porém, com estratégias distintas de acordo com cada localidade.

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