Paleoecologia do Cerrado

Antes de tudo, é necessário entender o que é ecologia. A ecologia nada mais é do que o estudo de interação de organismos com outros e com seus ambientes. Portanto, a paleoecologia estuda a interação dos organismos extintos entre si em seus ambientes da época.

O Cerrado é o bioma mais antigo do Brasil. Ele começou a se formar na Era Cenozoica há cerca de 60 milhões de anos em uma época denominada paleoceno, mas foi no Eoceno (época posterior ao Paleoceno), há mais ou menos 45 milhões de anos, que ele começou a tomar a linda forma que conhecemos hoje.

“A origem e o desenvolvimento da área “core” de cerrado nos baixos chapadões da Amazônia está vinculado à ocorrência de climas mais secos, que favoreceram a permanência do cerrado nos platôs e da caatinga nas depressões. Este tipo de formação vegetal, que ainda no Pleistoceno Superior ocorria na região amazônica, não surgiu por expansão ou difusão de outras áreas nucleares, mas sim, possivelmente, através de um banco genético que desenvolveu e aperfeiçoou formas que deram origem à vegetação típica de ambientes de cerrado. 

O final do Pleistoceno e início do Holoceno (11.000 a 10.000 anos) é marcado pela retração das correntes frias para a posição atual. O afastamento climático favoreceu o aumento da umidificação pelo interior do continente. Esses eventos associados a outros fatores naturais contribuíram para a colonização das antigas ilhas de mata sobre os cerrados e caatingas existentes nos baixos chapadões da Amazônia. Esse período influenciou também no adensamento das caatingas, transformando em formações umbrófilas. Os cerrados dos chapadões centrais do planalto brasileiro expandiram sobre as áreas que se encontram em seu entorno, estabelecendo os seus limites atuais, assim como os demais domínios naturais da América do Sul ordenaram os seus espaços” (AB’SABER,1973). 

 

Referência bibliográfica:

Como já foi dito na introdução de Paleoecologia, é necessário entender o que vem depois do sufixo “paleo”. E com o Paleoambiente não é diferente. É o ramo da paleontologia que estuda os ambientes em um passado geológico. Mas como é possível saber qual era o ambiente de determinada região? Rochas. As rochas são para os geólogos, o mesmo que livros são para historiadores. Mas como uma rocha pode contar a história de determinado local? As rochas utilizadas na identificação de determinado paleoambiente são as sedimentares que por sua vez são compostas por grãos. Esses grãos variam desde uma granulometria muito fina (argila) até os matacões com muitos centímetros de diâmetro. Um lugar onde tem predominância de argilitos e siltitos (rochas de argila e silte) é sinal de que esses grãos foram depositados em um lugar com baixa energia como um lago, um mangue, um pântano ou até o mar (depende da profundidade). Usando apenas Goiás como exemplo: No Grupo Paranoá (deposição de sedimentos), que data do mesoproterozoico (1,5 bilhão de ano) a presença de ardósia (rocha metamórfica proveniente do argilito) indica uma calmaria nesse período, e também pela extensão, sugere que a região já esteve de baixo do mar (cerca de 200 metros). Ou seja, GOIÁS JÁ FOI MAR!

Porém o Cerrado é bem mais recente que isso,  e não houve grandes eventos como a presença de uma mar. Alguns milhares de anos para a geologia é como alguns segundos para nós seres humanos. E foi em alguns milhares de anos que aconteceram os maiores eventos ambientais e climáticos do Cerrado, como é evidenciado um ressecamento entre 18 mil e 22 mil anos no Cerrado a partir de levantamentos feitos em um lago no Sítio Águas Emendadas – GO (Barbieri et. al, 2000). Nesse lago é possível observar a presença de uma fina camada de areia, o que indica o tal ressecamento, já que em lagos, a deposição é de argila e silte.

Referências bibliográficas:

  • Mudanças paleoambientais na região dos Cerrados do Planalto Central durante o Quaternário Tardio – o estudo da Lagoa Bonita

“A presente pesquisa versa sobre a evolução paeloambiental, principlamente paleoclimática, no decorrer do Pleistoceno tardio – Holoceno, de uma área atualmente recoberta por cerrados, localizada no Planalto Central Brasileiro, a nordeste do Distrito Federal. As interpretações paleoecológicas foram baseadas nas análises palinológica e mineralógica do sedimento contido em um testemunho de sondagem obtido na seqüência estratigráfica depositada na Lagoa Bonita, DF.”

  • BARBIERI, Maira. Mudanças paleoambientais na região dos cerrados do Planalto Central durante o Quaternário tardio: o estudo da Lagoa Bonita, DF. Tese (Doutorado em Geologia Sedimentar) – Instituto de Geociências, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001.

 

O paleoclima está intimamente relacionado ao paleoambiente, uma vez que o clima é uma característica de um ambiente. Como foi dito no tópico anterior, é possível saber qual era o ambiente que existia no local há alguns milhares ou milhões de anos. Mas e sobre o clima, como é possível saber qual era o clima de alguns milhares ou milhões de anos? Assim como hoje, cada bioma tem seus respectivos tipos de plantas que se adaptam ao clima local. Então a melhor maneira de se determinar um paleoclima, é observar e analisar o registro fóssil de plantas. Isso envolve desde analisar a própria planta em si como também estudar os grãos de pólen e esporos fossilizados (área conhecida como palinologia). Esses registros fósseis dizem muito sobre o clima de determinada região. 

“No Cerrado é possível observar algumas mudanças ao longo de alguns milhares de anos. Um estudo feito sobre a época denominada de pleistoceno – entre 2,58 milhões e 10 mil anos – mostra que o clima do Cerrado variou bastante. Em Cromínia (GO), entre 32.390 e 28.300 anos atrás ocorreu uma diminuição de grãos de pólen arbóreos, incluindo Mauritia (gênero de flora onde o principal representante é o Buriti), porque não houve umidade suficiente para o estabelecimento de uma vegetação arbórea. O predomínio de ervas, principalmente Poaceae e Cyperaceae, e a presença de algas indicaram que o pântano estava circundado por vegetação de campo. As condições climáticas durante este intervalo de tempo foram mais úmidas e frias do que as atuais, provavelmente semelhantes às encontradas atualmente nas montanhas do Brasil Central” (Ferraz-Vicentini & Salgado-Labouriau, 1996; Salgado-Labouriau et al., 1998).

“O final do Pleistoceno, caracterizado pelo fim do último período glacial, é marcado por grandes mudanças climáticas em nível global. O impacto desta última glaciação e das mudanças relacionadas ao início do período interglacial (o Holoceno) na vegetação e na paisagem dos biomas brasileiros ainda é pouco conhecido. Estudos palinológicos de sedimentos quaternários constituem uma das mais importantes ferramentas utilizadas para a reconstituição da paleo-vegetação e são, portanto, de grande valia para o entendimento dos padrões climáticos que atuaram no Brasil neste período.  

Correlacionando os dados obtidos neste trabalho com os resultados obtidos em outros registros fósseis do cerrado é possível afirmar que a transição climática constatada que ocorreu no final Pleistoceno – início do Holoceno não ocorreu de forma uniforme em todas as localidades de ocorrência do cerrado. Observa-se a instalação de microclimas, que possivelmente estão associados a altitude e condições de umidade local. O que de fato pode-se afirmar é que em um curto intervalo de tempo, em torno de 2.000 anos, foram observadas variações na umidade que influenciaram muito as mudanças climáticas e a evolução da vegetação e a formação de brejos, turfeiras e veredas”.  

 

Referência bibliográfica:

  • PESSOA, Luana Koscky Gangana. Paleo-vegetação e paleo-clima do final do Pleistoceno no Cerrado do norte de Minas Gerais, Brasil. 2017. 81 f. Monografia. (Graduação em Engenharia Geológica) – Escola de Minas, Universidade Federal de Ouro Preto, Ouro Preto, 2017. Disponível em http://www.monografias.ufop.br/handle/35400000/1276 

  • Meyer, Karin & Cassino, Raquel & Lima Lorente, Flávio & Raczka, Marco & Parizzi, Maria. Paleoclima e paleoambiente do Cerrado durante o Quaternário com base em análises palinológicas. Livro Paleontologia: Cenários de Vida  – Paleoclimas,  Rio de Janeiro, ed. 1, v. 5, p. 397-414, mar. 2014. Disponível: Paleoclima e paleoambiente do Cerrado durante o Quaternario

É o ramo da Paleontologia que lida com a distribuição de grupos de organismos representados exclusivamente por fósseis. A base conceitual é derivada da Biogeografia Histórica que, por sua vez, é a ciência que busca reconstruir os padrões de distribuição geográfica dos seres vivos e explicá-los segundo processos históricos subjacentes.

“Restos de fósseis de Eremotherium – gênero extinto em mamíferos placentários com distribuição intertropical, e cujo maior exemplo é a preguiça gigante – e de Stegomastodon – outro gênero extinto de mamíferos, de proboscídeos (família correspondente aos elefantes, mamutes e mastodontes. No caso do cerrado, mastodontes) foram coletados nas escavações das obras de reforma e canalização do córrego no córrego Botafogo, região central da cidade de Goiânia, e correspondem a elementos bastante fragmentados. Eles foram identificados por Cástor Cartelle, do Museu de Ciências Naturais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, onde se encontram atualmente depositados” (PAULO & BERTINI, 2015).

Mas como e por que animais tão grandes habitavam a região dos cerrados? “A presença desses animais imensos sugere que o Cerrado possa ter apresentado vegetação mais aberta do que nos dias atuais, em decorrência das variações de temperatura e umidade que caracterizaram esta época. Os ambientes sob influência de condições mais secas e frias, mesmo com sazonalidade marcante, associado à vegetação esparsa e mais aberta, poderiam permitir a existência de animais de grande porte, em oposição aos mais arborizados” (DE VIVO & CARMIGNOTTO, 2008).

Restos de fragmentos de úmeros de Eremotherium da região de Jaupaci-GO, datados pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA/USP) exibiam evidências de carbonização, atestando que o fogo é um elemento importante na história evolutiva do Bioma Cerrado, pelo menos desde 15.700 anos AP (antes do presente), além de confirmar a presença de condições secas, propícias para a ocorrência natural deste fenômeno. Esta evidência constitui, portanto, o primeiro registro da ação do fogo de origem natural no Cerrado da região de Jaupaci durante o Neo-Pleistoceno (PAULO, Pedro Oliveira, 2014).

Referências bibliográficas: 

  • PAULO, Pedro Oliveira; BERTINI, Reinaldo José. Mamíferos fósseis do limite Pleistoceno/holoceno do estado de Goiás. Revista do Instituto Geológico, São Paulo, v. 36, n. 2, p. 61-75, jan. 2015. Instituto Geológico. http://dx.doi.org/10.5935/0100-929x.20150008. Disponível em: <ppegeo.igc.usp.br/index.php/rig/article/view/10022>. Acesso em: 30 jun. 2020.

  • Para a definição de paleobiogeografia: LAPA (Laboratório de paleontologia da Amazônia). Subdivisões  da paleontologia. Disponível em: ufrr.br/lapa/Subdivisoes_subdivisoes_da_paleontologia. Acesso em 16 de jul. de 2020.

);