Eu sempre tive vergonha de falar o que eu era, o que eu sabia. Me livrei desse medo. Não sou feiticeiro, não sou charlatão. Eu sou defensor da vida”, afirma seu João Vicente da Costa, raizeiro e benzedeiro da região de Sanclerlândia, Goiás.

Na verdade em meio à excessivamente numerosa espécie humana, por merecimento desta ou não, em todos os tempos surgiram e surgem aqueles indivíduos que se tornam especiais por pautarem sua vida pela disponibilidade para estar atento ao processo de sofrimento de seus semelhantes. Estes, ricos ou pobres, jovens ou velhos, acadêmicos ou não, são sempre tidos como os sábios que buscam na tradição, na experiência e no extremo cuidado com a dor do outro reunir uma quantidade de ferramentas que lhes permita alcançar o que afinal se torna o propósito de suas vidas: exercitar uma medicina extremamente humana e que verdadeiramente esteja ao alcance de todos, sem distinção.

Este é o “Seu” João Vicente da Costa, ou João Chifrin, como é conhecido pelo povo sofrido de muitas dores e que faz fila diante de sua porta. O “Chifrin” vem de chifre, um apelido dado por um padrinho que percebeu com espanto o quanto aquele menino mirrado podia agüentar das tarefas e maus tratos da vida. Era mesmo como um chifre de boi, que é tão forte e resistente que nem água ou fogo consome. Fruto da união de representantes de duas nações indígenas, Seu João é um caboclo que só poderia dar no que deu: um ser humano tão ligado aos poderes da natureza que se tornou extensão deles. Um mediador que coloca ao alcance das pessoas os maravilhosos recursos medicinais guardados no seio das plantas, dos animais e dos minerais.

Nascido a 62 anos em um canto de Minas Gerais, foi um menino típico do interior do Brasil. Pobre, lutando pela vida desde o primeiro momento e sem acesso a quase tudo que entendemos hoje como direitos básicos de qualquer pessoa. Cresceu como um lavrador tímido, que mesmo já homem feito encontrava dificuldades para expressar o quanto sabia da vida e das coisas do mato. Mas como era mesmo a sua sina, aqui e ali foi encontrando jeito e oportunidade para ensinar um chá, um ungüento ou mesmo uma garrafada. E como eram sempre coisas que ajudavam as pessoas, as vezes em situações graves onde  nada tinha efeito, o povo foi falando e sua fama de curador só cresceu ao longo do tempo. Cansado das limitações de quem não lê a letras, e mesmo já entrado em trinta e tantos anos, decidiu aprender a ler e a escrever… e aí a mente e as mãos inquietas não pararam mais!

Hoje em dia Seu João é conhecido e reconhecido até mesmo pelos “doutores” estudados da cidade grande. Dá palestras nas universidades, nos grupos escolares, nos eventos que acontecem longe ou perto, sempre ensinando o que sabe para quem quer aprender. Mas é consciente da importância de sua arte. Não entrega tudo assim tão fácil não.  A pessoa que quer o conhecimento primeiro tem que mostrar que sabe o que fazer com ele, pois “esta coisa de fazer e prescrever remédios é muito séria. Não é para qualquer um não!”. Esta é a fala muito justa mesmo que mansa  de  Seu João, um homem que vem da terra para nos mostrar os caminhos dela.