“Florentina Pereira Santos, mais conhecida como Dona Flor, é referência tanto pelo seu trabalho de raizeira, como de parteira. Nasceu no dia 2 de fevereiro de 1938, na fazenda Santa Rita à 4 km do Moinho, localizado no município de Alto Paraíso de Goiás. É descendente de quilombola, ciganos e indígenas.

                Foi aos nove anos de idade que Dona Flor realizou sua primeira atividade como raizeira, quando sentiu que deveria visitar sua tia, a quem chamava de “Mamãe Moura” e a encontrou sozinha em casa, sofrendo de um ataque epilético. Dona Flor, com a inocência de uma garotinha, cuidou de sua tia sozinha, dando remédios naturais que ela intuía ser o melhor.

                ‘Na hora da emergência sempre eu tava junto. Mas é como diz né, Deus dá dom pra nóis tudo, nóis temo é que desenvolver’.

                A partir daí, Dona Flor passou a aprender cada vez mais sobre as plantas medicinais e a ajudar quem necessitava. Seu aprendizado se deu muito pela intuição, observação da natureza e da conexão que ela tem com as plantas.

                Desde os seus 11 anos de idade começou a trabalhar para ajudar no sustento dos seus sete irmãos e de sua mãe. Seu pai tinha abandonado a família não lhe deixando a opção de estudo. O sustento de sua família passou a depender então de seu trabalho.

                Sua conexão com o mundo das crianças vem desde muito nova, quando ajudava sua mãe com seus irmãos menores Sua primeira experiência com o parto foi por intuição, aos 18 anos de idade, auxiliando sua própria mãe a dar a luz. Passados dois dias em trabalho de parto, Dona Flor já angustiada e com medo que sua mãe morresse, encontrou forças e seguiu ‘a voz’ que a instruía. Foi então que se iniciou a sua extensa trajetória como parteira. Através de suas cuidadosas mãos, trouxe ao mundo mais de 329 crianças, destreza que aprendeu sozinha, e como ela mesma diz: ‘foi eu e Deus’.

                Aos 19 anos quando se casou com Seu Donato, parou de trabalhar na casa dos outros. Ele também era um grande raizeiro e juntos saíam no Cerrado para coletar as plantas medicinais. Tiveram 18 filhos, sendo que ela mesma fez todos os seus próprios partos. Sempre disposta a ajudar, também adotou 27 filhos e amamentou 56 crianças, além das que pariu. “Minha mãe nunca foi escrava. Meu pai era, minha vó era e eu também fui escrava. Fui não, sou. Eu sou escrava até hoje. Eu não tenho hora pra deitar, não tenho hora pra levantar, eu não tenho hora certa pra atender ninguém, a hora que chegou, pra mim tá bom, mas eu fui escrava. Eu saí da casa dos meus pais eu tinha 11 anos de idade, e parei de trabalhar na casa dos outros eu tinha 19, saí pra casar. Aí teve a escravidão de família, tive que cuidar de marido, que cuidar de filho, dos meus e dos outros. É uma escravidão, só que eu sou alforriada, só faço quando eu quero, quando eu não quero ninguém manda eu fazer que eu não faço’.

                Dona Flor comercializa seus produtos em uma pequena loja na frente de sua casa no povoado do Moinho, a 12 km de Alto Paraíso de Goiás: doces, geleias, garrafadas, vermífugos naturais, rapadura, farinha, ovos e artesanato.

                E seguindo esse caminho de curas naturais, Dona Flor acredita que devemos carregar essa expectativa de trabalhar com a natureza, com as plantas, com as tradições e a alimentação natural e, a partir disso, ela possui um vasto conhecimento sobre como respeitar o tempo da natureza, pois, segundo ela: ‘há um momento pra plantar e pra colher, e se você respeitar ela (a natureza), ela vai te respeitar também. ‘A gente tem que jejuar, tem que orar, tem que chegar no lugar e pedir licença, procurar a hora certa de chegar, a hora certa de sair, a hora certa de colher as ervas’.

                Foi a primeira moradora a receber o título de ‘Celebridade do Alto’, em 2015. Seu discurso foi sobre as melhorias no qual a cidade necessita, dentre elas, a conservação da natureza e das tradições que estão se perdendo, como o parto em casa de forma tradicional com parteiras. Ressaltou a importância da preservação das águas, da manutenção dos rios limpos, sem estações de tratamento de esgoto que possam o poluir… ‘a água é a mãe da cura, por isso que eles (os governantes) querem sujar ela. Como é que vai jogar cocô no rio, e depois vai querer jogar produto dizendo que vai limpar? Limpa é do jeito que Deus deixou pra nóis…’.

                Dona Flor, com seu olhar penetrante consegue olhar muito mais que o físico. Relata ser guiada por uma voz que a orienta sobre as plantas, suas funções terapêuticas, assim como a instruía durante os partos. Construiu sua vida em um lindo caminho de espiritualidade, humildade e ajuda ao próximo. Hoje, aos 79 anos, o que não lhe falta são histórias e conhecimentos para repassar.

                ‘Não me vejo melhor que os outros. O que engrandece a gente não é a gente, é o que a gente faz, é o amor da gente, é a educação da gente, é a recepção da gente, é a gente não ser racista, não discriminar ninguém, não ter escolhas de pessoas pra servir, pra conversar. Pra mim, minha religião é Deus, eu não olho religião’ (falando sobre a discriminação religiosa)”.

 

Fonte: Ribeiro, Daniela. et al. Raizeiros de Alto Paraíso : Saberes Ameaçados. Alto Paraíso de Goiás: Fundo de Arte e Cultura do Estado de Goiás, SEDUCE, 2017. v. 1, p. 52-55. 

 

Bibliografia sobre Dona Flor:

ATTUCH, Iara Monteiro. Conhecimentos tradicionais do cerrado sobre memória de Dona Flor, raizeira e parteira. Dissertação de Mestrado apresentada ao Departamento de Antropologia Social, 2006. Disponível em < http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/2549/1/2006_IaraMonteiroAttuch.pdf> acesso em agosto de 2016.

CAMPOS, Tamara Correia Alves. Conhecimento Popular de Dona Flor, Raizeira e Parteira: Efetivando a perspectiva integralizadora do cuidado ao sujeito. Monografia apresentada ao curso de Bacharelado em Saúde Coletiva.- Universidade de Brasília, 2013. Disponível em < http://bdm.unb.br/bitstream/10483/6928/1/2013_TamaraCorreiaAlvesCampos.pdf> acesso em janeiro de 2016.

FEITOSA, Eliana Aparecida Silva Santos. Identidade e cultura: estudo etnogeográfico da comunidade tradicional do MOINHO em Alto Paraíso de
Goiás. 2017. xviii, 160 f., il. Dissertação (Mestrado em Geografia)—Universidade de Brasília, Brasília, 2017.

SARAIVA, Regina Coelly Fernandes; RODRIGUES, Livia Penna Firma; NOGUEIRA, Mônica Celeida Rabelo. Saberes e Fazeres tradicionais do Cerrado: A experiência de Dona Flor. Decanato de Extensão, Universidade de Brasília, 2011.

 

Documentário que dá protagonismo a Dona Flor (Florentina Pereira dos Santos), raizeira e parteira que vive no Povoado do Moinho, próximo a Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros, Goiás, constituído de entrevistas com a personagem, seus familiares e moradores da comunidade, e de imagens do local, situado em um vale maravilhoso com sua natureza quase intocada. Dona Flor exemplifica a mulher sábia do interior do Brasil, matriz e fonte de uma riqueza sociocultural que não se pode perder, cuja experiência no manuseio das plantas e na execução de partos tornaram-na uma referência no Brasil central. 

Produção Executiva: Flor dos Santos, Luz & Filmes e Decifra TV WEB 

Érika Bauer

2016