A paisagem rochosa e árida da Serra dos Cristais, que emoldura a cidade de Diamantina, é parte da Cordilheira do Espinhaço, cadeia montanhosa que corta de norte a sul Bahia e Minas Gerais, em linha quase reta.
Pavimentado em pedra por negros cativos, o “Caminho dos escravos” ligava o Distrito de Mendanha a Diamantina, sendo usado pelos tropeiros no transporte de diamantes e de outras cargas.
O casario de influência portuguesa e a Serra dos Cristais formam a composição indissociável de cultura e natureza que caracteriza o conjunto paisagístico de Diamantina.
O espaço urbano remanescente dos séculos XVIII e XIX é marcado por edificações regularmente alinhadas, com um ou dois pavimentos, pintadas com cores vivas sobre fundo branco
O casario simples e homogêneo, que forma uma estrutura contínua, dá o aspecto dessa rua de Diamantina, de onde se vê a Igreja de Nossa Senhora do Amparo (1756) com torre única centralizada e tendência à verticalização.
A conformação estreita e tortuosa desse beco é típica do centro histórico de Diamantina, que sobe cento e cinquenta metros pela encosta da Serra dos Cristais, com ruas sinuosas e irregulares seguindo a topografia natural.
A pavimentação em lajes de pedra cinzenta completa o espaço urbano de Diamantina, contrastando com as cores vivas dos edifícios.
A capistrana é uma técnica de calçamento encontrada em cidades do período colonial, consistindo de uma faixa contínua de lajes no meio da via pública.
Ruas estreitas se abrem para grandes espaços públicos, como a Praça Barão de Guaicuí e o Mercado Velho construído em 1889, que substituiu antigo rancho de tropeiros. As montarias dos tropeiros eram amarradas nos esteios de madeira espalhados na praça.
O espaço interno do Mercado Velho é estruturado em madeira e possui piso em laje de pedra cinzenta, mesmo material utilizado no calçamento de ruas e praças de Diamantina.
O Mercado Velho abriga feira de artesanato e gêneros alimentícios, incluindo iguarias típicas do Vale do Jequitinhonha, como o cobu (bolo de fubá enrolado e assado em folha de bananeira).
A homogeneidade do conjunto arquitetônico é favorecida pelo emprego das mesmas cores e materiais construtivos, no mercado, no casario e na igreja; azul, branco e amarelo predominam no colorido sóbrio da praça reproduzido sistematicamente na cidade.
A homogeneidade do conjunto arquitetônico também alcança espaços internos, como o pátio do sobrado de Chica da Silva, com fundo branco dominante combinado com elementos estruturais e decorativos de madeira geométricos e sóbrios, em cores fortes.
Em 1796, Francisca da Silva de Oliveira (Chica da Silva) foi sepultada na Igreja de São Francisco de Assis (1762). O telhado em forma de pagode – chinesismo da arquitetura colonial brasileira – é herança da presença de Portugal no Extremo Oriente.
A Igreja do Senhor do Bonfim (ca. 1771) apresenta características do partido de composição das igrejas mineiras mais antigas: fachada sem profundidade, com linhas retas, porta única, poucas aberturas superiores e desequilíbrio entre cheios e vãos.
Integrada à paisagem rochosa da Serra dos Cristais, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário (1731) possui torre única, diferenciando as igrejas do Arraial do Tejuco das igrejas de outras cidades coloniais mineiras, como Mariana e Ouro Preto.
Frontão em madeira da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, “endemismo” que distingue as igrejas de Diamantina das igrejas de outras cidades coloniais mineiras que utilizam cantaria nos frontispícios.
Casa e igreja utilizam a mesma composição cromática, sobressaindo-se paredes caiadas de branco e esquadrias nas cores reveladas por prospecções pictóricas, conferindo homogeneidade ao conjunto.
Traço da casa-grande colonial brasileira, a capela particular era privilégio de poucos. A porta de acesso e o frontão arrematado por cruz latina, da Capela de Santa Quitéria, foram reconstruídos em 1951, no pátio do sobrado de Chica da Silva.
O Passadiço da Casa da Glória foi símbolo da campanha de candidatura de Diamantina ao Programa Patrimônio Mundial da UNESCO.
Interior do Passadiço da Casa da Glória, construído no século XIX para ligar os prédios fronteiros do então educandário e orfanato feminino dirigido por religiosas da ordem de São Vicente de Paulo.
Na Praça Conselheiro Matta, a antiga Casa da Intendência dos Diamantes e a agência bancária destacam-se pelos arcos sobrebaixados das janelas e portas extensamente utilizados na arquitetura colonial brasileira.
Fachada simétrica e janelas envidraçadas dispostas em intervalos regulares definem esse sobrado na Praça Juscelino Kubitschek. O plano geral ainda permite distinguir as torres da Catedral de Santo Antônio.
Pavimento superior da Biblioteca Antônio Torres, que possui o único muxarabi inteiro remanescente do Brasil Colonial, balcão de origem mourisca inteiramente vedado em treliças de madeira para garantir privacidade às mulheres.
A varanda do sobrado de Chica da Silva, com balaústres, na parte superior, painéis de treliças, na parte inferior, e rótulas que se abrem para fora, no parapeito, também documenta a influência mourisca na arquitetura colonial local e nacional.
Aspecto interno do painel de treliças do sobrado de Chica da Silva, que esconde a varanda, protege o interior e garante a ventilação.
O revestimento de telhas coloniais, que protege a parede externa da água da chuva, é criação nacional também encontrada em outros Estados do país, como São Paulo e Bahia.
Em 1787, a pedra cinzenta da serra foi utilizada na construção desse chafariz com mascarões de traços negroides, parte do antigo sistema de abastecimento de água do Arraial do Tejuco.
No século XXI, o aumento da frota de veículos é desafio para a conservação das estruturas de adobe e pau a pique e das vias coloniais antes ocupadas por cavalos e carroças.
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