Exposição Fotográfica

Brasília Antes de Brasília

Viajantes
Os relatos dos viajantes compõem um precioso conjunto documental sobre os séculos XVIII e XIX e tomados no conjunto das impressões sobre as paisagens naturais e humanas possibilitaram ampliar o entendimento geográfico e a perspectiva histórica da região do atual Distrito Federal.
A diversidade dos relatos, que abrangeram mais de 150 anos e a riqueza de detalhes permitiram tecer raciocínios sobre um território conhecido erroneamente por ser “sem história”.
1º diário a relatar a passagem de um viajante / tropeiro no território do atual Distrito Federal já assinalava o topônimo SOBRADINHO.
1734 - Percurso de José da Costa Diogo
O tropeiro nos deixa a certeza que essa região não era um deserto, pelo contrário, seu diário de viagem nos permite afirmar que, na primeira metade do século XVIII, já era uma passagem importante de ligação entre o litoral e as minas de Goiás e Mato Grosso.
1778 - Percurso de Luís da Cunha Menezes
O governador de Goiás Cunha Menezes chegou pela Estrada Real que vinha da Bahia e seguiu pela porção norte do território do atual Distrito Federal. A toponímia dos sítios e acidentes naturais descritos ao longo de sua jornada nos permitiram desvendar o percurso do viajante.
“Da Bandeirinha a Contage de São João das Três Barras [...] ao Sítio Novo [...] ao Pipiripao [...] ao D’Armas [...] ao Sobradinho [...] a São João das Três Barras, sítio tão frio que no mês de junho que é a maior forma de inverno chega a cair neve, tem muito boas frutas principalmente de coquinho (?), um nascimento de água excelente, as fazendas a maior parte delas são roças e engenhos de sertão”.
Afinal, quem eram os viajantes do Planalto Central nos séculos XVIII e XIX? Não podemos nos esquecer que naquele tempo viajar significava passar semanas a fio no lombo de um cavalo, muitas vezes por trilhas íngremes; enfrentar condições meteorológicas adversas; dormir ao relento ou depender da hospitalidade de moradas extremamente modestas.
Os viajantes produziram registro de suas viagens, por meio de diários ou de relatórios. Entre os principais objetivos de viagem destacam-se: participar de expedições exploratórias do Planalto Central; documentar e organizar informações sobre o território e cruzar a região para assumir cargos no governo de Goiás ou Mato Grosso.
Diversos mapas dos séculos XVIII e XIX assinalaram o itinerário das antigas vias de comunicação do Brasil colonial que cruzavam os limites do atual DF.
Desde 1750, foram registrados nomes de locais e cursos d’água existentes nos atuais limites do DF e, a partir de 1778, foram assinaladas cartograficamente estradas que atravessavam a região.
1º mapa da capitania de Goyaz já assinalava o topônimo SOBRADINHO no território do atual Distrito Federal.
Muitos dos nomes dos lugares e dos marcos naturais registrados na área aonde foi demarcado o Quadrilátero Cruls repetem referências utilizadas por viajantes que antecederam a publicação dos trabalhos da Missão Cruls: Lagoa Formosa, Lagoa Feia, Rio Maranhão, Santa Luzia, Corumbá e Mestre d’Armas.
Bacias Hidrográficas Principais do Brasil
Centro de gravidade do mapa político do Brasil e também um ponto simbólico, pois dele fluem as águas que se vão repartir pelas três grandes bacias brasileiras – a franciscana, a do Tocantins-Amazonas e a platina.
Planaltina de Goiás é o ponto de encontro dos espigões secundários, que seguem para o Norte e o Sudeste do país com o espigão mestre, que, ao Norte do DF, corta o território de Leste para Oeste, chapadões elevados mais de mil e cem metros sobre o mar, por onde corriam antigas estradas coloniais.
Depois de cruzar imagens de satélite, modelos de topografia digital e mapas históricos, conseguimos traçar o trecho da Estrada Real que cortava o Norte do território do atual Distrito Federal.
A análise do mapa ambiental do DF de 2006 não permite dúvidas: é incontestável que estradas coloniais atravessaram essa região, nos limites do atual Distrito Federal. As características da paisagem e o grande movimento do relevo influenciaram o direcionamento dos caminhos.
Cadastro das Fazendas Goianas Desapropriadas
A delimitação do Distrito Federal incorporou terras de três municípios goianos: Formosa, Planaltina e Luziânia e, além de um número significativo de fazendas, foram englobados dois assentamentos urbanos: Brazlândia e Planaltina.
Moradas Rurais
Considerando que as moradas rurais localizavam-se de preferência nas encostas e as estradas estendiam-se em seu maior percurso pelos chapadões, aos olhos dos viajantes a região apresentava-se mais deserta do que realmente era, pois percorriam dezenas de quilômetros sem ver uma só casa.
Fazenda Sobradinho I
A construção da Nova Capital se deparou com uma ocupação tradicional na forma de vida e produção, onde os antigos moradores tinham a pecuária extensiva como sua principal atividade econômica. As atividades agrícolas eram voltadas sobretudo para o autoabastecimento, em especial por causa do isolamento e das comunicações árduas que dificultavam as trocas comerciais.
Estrada Real a Goyazes e moradas rurais assinaladas na Planta da Fazenda Sobradinho registrada no Cartório de Planaltina de Goiás.
Fazenda Sobradinho II
As moradas rurais inventariadas são exemplares centenários, remanescentes da cultura agropecuária anterior à construção de Brasília. São basicamente edificações térreas, compactas, com poucos cômodos, construídas de adobe entre armações de madeira e recobertas de telhas de barro. As moradas revestiam-se de feição utilitária, sem preocupações estéticas.
Fazenda Curralinho
Os quintais, uma extensão do espaço domiciliar, eram lugares para a criação de animais, a pequena horta, as árvores frutíferas, e plantas medicinais. Constituíam um recurso de importância fundamental para o abastecimento alimentar. As moradias antigas não ficavam à beira das estradas, mas às margens de córregos ou regos d’água, para facilitar as lides domésticas.
Fazenda Gama
A casa da Fazenda Gama, uma das fazendas desapropriadas a partir de 1955 para dar origem ao Distrito Federal, abrigou o presidente Juscelino Kubistchek e sua comitiva quando estiveram pela primeira vez no Planalto Central, em 1956.
Catetinho
A morada da Fazenda Gama fica a 300 metros do Museu Catetinho, projetado por Oscar Niemeyer e construído em dez dias para abrigar Juscelino Kubistchek e os engenheiros da Novacap e, simbolicamente, é o marco da transferência da Capital Federal para Brasília.
O Museu Histórico e Artístico de Planaltina foi moradia de pioneiros da ocupação do Planalto Central. Os Monteiro Guimarães, que doaram o imóvel ao poder público, têm presença na região desde o século XVIII.
Fazenda Velha
Ainda nos dias de hoje, essas moradas rurais conservam suas características tradicionais e deixam patente o contraste entre esse patrimônio vernacular e as manifestações arquitetônicas modernistas de Brasília, demonstrando que o acervo patrimonial da capital federal extrapola os limites do Plano Piloto.
Apesar da importância do seu passado, o território do Planalto Central, nos atuais limites do Distrito Federal, a partir da implantação da Nova Capital teve sua história ofuscada pela história de Brasília.
Lenora de Castro Barbo
Doutora e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília. Arquiteta e urbanista pela Universidade Católica de Goiás. Recebeu Menção Honrosa no âmbito do II Prêmio José Aparecido de Oliveira, concedido pela Secretaria de Estado de Cultura do Distrito Federal, pela monografia sobre as Estradas Coloniais do Planalto Central (2009). Esta exposição é fruto da dissertação BARBO, Lenora de Castro. Preexistências de Brasília: reconstruir o território para construir a memória. 2010. 373 f., il. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade de Brasília, Brasília, 2010. Esta dissertação recebeu Menção Honrosa no âmbito do Prêmio Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo – Anparq 2010.
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