“Páscoa Neris Bispo, mais conhecida como Dona Páscoa, nasceu dia 08 de fevereiro de 1958, na região de Caribinha, perto de Nova Roma, mas ainda município de Alto Paraíso de Goiás. É referência de benzimento na região de Alto Paraíso de Goiás. Casou-se aos 18 anos com João Pereira dos Santos, na época, já viúvo, com 60 anos de idade. Famoso raizeiro e benzedor, mais conhecido popularmente como ‘João Dourado’, com Dona Páscoa constituiu nova família e juntos tiveram 7 filhos e 12 netos, dos quais uma boa parte ainda mora com ela, em sua humilde residência, onde diariamente é procurada por pessoas de todas as classes sociais em busca de benzimentos diversos.

                Há cerca de treze anos falecido, seu companheiro, lembra a benzedeira, ‘ele se preparava pra benzer, tomava uma garrafada que ele mesmo fazia, pra fechar o corpo e não pegar as coisa ruim’. Dona Páscoa se lembra dele com muita saudade e conta que às vezes até sente o cheiro das ervas que ele preparava.

                Páscoa é uma mulher que já passou por grandes desafios na vida, em várias esferas. Há cerca de 30 anos sabe benzer e entende de remédios da natureza, mas foi depois que seu esposo faleceu, que ela resolveu então atender as pessoas com seu benzimento, como ela diz: ‘Dois benzedor em uma casa, um sozinho tem que benzer, ele morreu, agora eu fiquei benzendo’. Na época do finado marido, conta que não se preocupava muito em se proteger. Hoje, usa um dente de alho na boca durante as benzições, que, segundo ela: ‘é pra se proteger das energia ruim’… ‘tem pessoa que chega muito carregada’.

                Revela que ambos já sofreram perseguição em algum momento, mas explica que nunca aconteceu de alguém voltar para reclamar dos remédios que fizeram. Dona Páscoa lembra que já chegaram até a colocar cobra no batente da porta de sua casa; que já foram chamados de ‘macumbeiros’ e ela de fazer bruxaria. Mas um fato curioso nos conta, é que uma das pessoas que os perseguiram e acusaram, depois veio pedir para ser benzido por ela.

                Segundo a benzedeira, seu marido tinha aprendido tudo que sabia com parentes que moravam no Vão das Almas, município de Cavalcante-GO, especialmente com o avô kalunga, enquanto ela, diz ter aprendido muito com sua prima Maria Bispo e sua comadre Iracema Cândido.

                Dona Páscoa lembra do caso de um rapaz de Teresina que veio procurar Seu João Dourado: ‘Ele não conseguia vestir mais a camisa, atrás dele tinha uma bolha horrorosa com um rego de água saindo… depois da benzição ele melhorou e voltou para agradecer’ ‘Meu marido não arrancava remédio nem sábado e nem domingo. Só arrancava quarta, quinta e sexta, e tampava. Nem sábado, nem domingo nem terça porque é dia fraco’.

                Explica que tem cobreiro espiritual e também de animais que encostam na pele, como lagartixa, cobra, sapo e aranha. ‘Cobreiro benze com folha de mamona’. Hoje as pessoas mais a procuram para benzer de ‘arca caída, espinhela, quebranto e mal olhado’, contudo também conhece reza para picada de cobra, engasgo, dor no estômago, cisco no olho, dor de dente, entre outras.

                Ainda nos revela que, sempre, ao adentrar em qualquer mata ou campo de cerrado para colher as plantas a serem utilizadas em suas práticas espirituais ou garrafas e chás, ela pede proteção e reza da seguinte forma: ‘São Jorge o cavaleiro montado em seu belo cavalo, rebatendo as feras que tiver nesse mato. Nunca ai de me ver e nem eu de ver elas, se ela me ver elas não tem boca para abrir ou zói pra me enxergar. Eu passo junto delas e elas num hão de fazer nada comigo. Faz o nome do pai e passa que num acontece nada. Pra entrar no mato eu faço a oração de São Jorge, a oração de São Bento por mode cobra’. E conta que nunca aconteceu nada de mal com ela em suas andanças, e que se sente sempre muito protegida. Às vezes vai acompanhada de amiga, netos, e nunca aconteceu nenhum mal com ela ou com as pessoas que a acompanham.

                Em relação a coleta das plantas ela ensina: ‘quinta bem cedinho ou sexta bem cedinho, porque elas tão na natureza, porque depois que o sol nasce, levanta toda a humanidade delas, então quando é cedinho tá toda molhadinha de orvalho, que é melhor. Não pode deixar o buraco aberto, se não a planta não vale nada, não presta, a pessoa não melhora. Eu ranco na pricisão na lua minguante, mas na lua nova que eu gosto pra crescer, e deixo um fiapinho de planta para ela crescer’.

                 Hoje em dia quase não coleta mais devido às dores no pé. Contudo, dentre as plantas que mais usava estão a douradinha, o capim rei, o tipi, a batatinha de cigano, o capim urubu e o manacá. Lembra com pesar que algumas plantas que eram comuns estão bem difíceis de serem encontradas: o carrapicho barra de saia, o elame branco e roxo e o manacá. ‘As pessoa não sabe coletar, ranca tudo e não deixa nenhum fiapinho para ficar, aí num nasce mais, tem que deixar um fiotim pra trás pra crescê’‘Perto da Pontizinha tinha muita erva que pode pegar boa pra remédio, mas o povo tá acabando com o cerrado tudo, pouco lugar tem planta, antigamente eu panhava muita planta lá, agora tá acabando…’.

                Filha de mãe baiana e pai goiano, de origem muito humilde, Páscoa não teve muita oportunidade de estudo, mas é detentora de diversos saberes que tem vontade de repassar.

                Lembra com satisfação que na família já curou a bronquite asmática do neto com óleo de pau e também curou com remédio natural as pedras nos rins do filho e sua amiga.

                Dona Páscoa explica que nenhum dos filhos ou filhas tiveram interesse em exercer o ofício de raizeiro(a) ou benzedor, de acordo com ela, ‘eles confiam só na farmácia, ou acham mais fácil pegar pronto, parece que não está acreditando mais nas ervas’, mas lembra com alegria que sua neta Akysya de cinco anos brinca de benzer pegando as plantinhas do quintal. Maísa, sua netinha de 12 anos é a única que a acompanha. ‘Vando’, seu filho mais velho, aprendeu muito sobre as plantas medicinais com o pai, mas não trabalha na área.

                ‘Nenhum filho aprendeu comigo sobre benzição. Se entrar um cisco no zói ele não sabe o quê que faz, acho que não sabe nem fazer o nome do Pai. Dizem que benzimento é muito antigo, hoje não precisa. Então por que vocêis pede? Benzimento, quem tem fé sara. Deus me deu esse benzimento e esse aqui eu vô carregar comigo, se não quiser aprendê não aprende. Mas eles me procura para benzer. Eu sou católica, meu marido era católico, mas eu tenho um filho que é crente, graças a Deus, a igreja foi muito bom pra ele, mas esse não me pede pra benzer’.

                Segundo ela, vai ao hospital apenas para averiguar a pressão, ‘o resto’, tira do quintal. Relata que a tireoide foi tratado com remédio do mato e a chagas está controlada, assim como a pressão. Diz que vai ao hospital fazer exames para descobrir

o que tem, mas ‘tratar, é com remédios da natureza’”.

 

Fonte: Ribeiro, Daniela. et al. Raizeiros de Alto Paraíso : Saberes Ameaçados. Alto Paraíso de Goiás: Fundo de Arte e Cultura do Estado de Goiás, SEDUCE, 2017. v. 1, p. 88-92.  

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