“‘Miguel Arara’ (Miguel da Costa Torres) é um homem forte, de riso fácil, que gosta de conversar, contar histórias e principalmente ajudar. Nascido em 22 de dezembro de 1962 na Fazenda Bom Sucesso, município de Alto Paraíso, é um raizeiro filho de um baiano (pai nascido em Barreiras) com uma goiana (também nascida na Fazenda Bom Sucesso). Está casado com Maria Lídia, há 36 anos, com quem teve seis filhos e adotou mais três. Têm grande amor pelos filhos e muito orgulho de sua família.

                Desde pequeno teve interesse em aprender com todos aqueles que quisessem ensinar. Seu Miguel não lembra com que idade começou, mas se recorda que foi desde criança, quando a avó lhe pedia para coletar os remédios no campo.

                Como não teve muito estudo, sempre gostou de ficar próximo dos mais velhos, com quem muito aprendeu. Tem esse dom que Deus lhe ofertou e o aceitou de coração aberto. “Gostaria de poder se dedicar só às plantas, mas precisava ter apoio e estrutura para fazer tudo conforme se pede…” (rótulo, manuseio, embalagem). A tradição com as plantas vem dos avós, do pai, da esposa, dos amigos e dos idosos, assim como muitas das simpatias que ele aprendeu. Como ele diz: – ‘O que vale é a mente, nunca que você esquece … O homem do campo aprende coisa boa … Eu sô de uma linhagem forte. Meu avô era forte, meu pai era forte e sou forte, coisa ruim não mexe comigo não’.

                É um amplo conhecedor das plantas, além de raizeiro, também é agricultor e trabalha com poda de árvores e jardinagem. Trabalho que faz com muita desenvoltura. Sempre atento e disposto, às vezes atende ligações de cima de árvores, pendurado por cordas.

                Se orgulha dos filhos terem estudo, oportunidade que ele não teve. Com satisfação, relata o quanto seus filhos são muito atarefados, trabalhando e estudando, mas que devido a tantos afazeres “acabou que nenhum aprendeu sobre as plantas medicinais”. O raizeiro reconhece a importância da transmissão desses saberes para as próximas gerações. Ele costuma dizer que ‘as farmácias e os médicos ganham muito dinheiro com remédio, sendo que tem os remédios no campo que Deus deixou pra nóis’. Se orgulha de contar que até os 53 anos de idade, só precisou ir ao médico uma única vez, quando foi detectado com dengue. Em geral, quando precisa de auxílio de um raizeiro mais sábio, ele recorre aos kalungas do Vão das Almas, em Cavalcante.

                Segundo ele, seus familiares e amigos usam muito das plantas medicinais do Cerrado que ele mesmo prepara. Nos revela que “para a coleta precisa de muita ciência”, e que prefere fazer na quinta ou sexta-feira porque “são dias fortes”. Realiza todo um preparo para a saída de campo, ficando em jejum e saindo bem cedinho. Dessa forma, “a mente fica mais clara para alcançar os objetivos” – diz ele. Gosta de mostrar as plantas coletadas, porém na hora de ir para o campo prefere ir sozinho: ‘quina rasteira pra fígado e vesícula, velame branco é depurativo, jurubeba amargosa pra vesícula, copaíba é anti-inflamatório, capim pubo contra pressão alta, espinheira santa pro estômago, sangra d’água é anti-inflamatória e depurativa, basta três pingos por dia ou um dedo na garrafada…’. Pra relaxar, ele toma chá e arniquinha com cidreira (Lippia alba).

                Explica que as raízes não podem ser coletadas na lua nova: ‘nova é bom só pra plantar, pra você ver, se plantar mandioca na lua nova ela amarga e o polvilho não presta… cheia é bom pra plantar horta. Na crescente eu também planto, tiro copaíba e vinho de jatobá que é depurativo…’.

                Dona Maria Lídia, esposa de Seu Miguel, é sua grande companheira e entendedora dos saberes de curas naturais. Faz questão de nos ensinar uma receita sobre uma plantinha comum nos quintais e calçadas aqui da Chapada, o carro ou cardo santo de flor amarela: ‘você pega as sementes na lua crescente, antes de nascer o sol, torra e depois pila e coloca na água pra ferver. A medida que o sol vai saindo (nascendo), o óleo vai subindo. Aí você vai tirando com a colher e passando pra outra panela pra apurar. Depois quando esfriar põe num vidro limpo pra guardar. Aí então você pega dois caroço (duas sementes) de imburana e torra, amassa e põe num copo d’água pra ferver até reduzir pelo meio. Quando a água tiver na metade, apaga e coloca três pingo de óleo de cardo santo e dá pra pessoa que tivé com bronquite beber. Pode ser até bebezinho de seis meses. Pode usar até uma semana, mas se parar de tossir antes, para. Cardo santo é fino, não pode tomar nem friagem e nem vento, então é melhor tomá a noite quando vai deitar’.

                Tem muita simpatia pelas pessoas espíritas e explica que tem um espírito que o acompanha e que esclarece a mente dele sobre o que ele tem que fazer. Nos, como ele diz: “Eu não tenho medo das minhas costas, pois eu tenho um anjo de guarda que eu confio. A fé, oração boa e simpatia vão me permitir que eu viva mais de 80 anos pela frente”, conta ele sorridente. Gosta de contar piadas e ver as pessoas sorrindo. Quando indagado se já foi perseguido, ele tem uma postura curiosa, diferente da maioria dos raizeiros da região, afirma entre gargalhadas: ‘acho é bom quando uma pessoa fica falando que eu sou macumbeiro, que assim pelo menos elas fica com medo e não mexe comigo’… e ainda brinca: ‘olha, se você ficar falando de mim eu uma hora ainda vou te por sentado sem sair do lugar, vou fazer você rir sem parar o dia inteiro’.

                Seu Miguel, nos conta que em suas andanças pelo cerrado, a procura de ervas, encontrou muitos objetos que se arrepende por não tê-los guardado, como espadas de ferro, santos de bronze, esporas antigas e até pedras vulcânicas que segundo ele, brincava com bodoque. Diz ter jogado tudo fora, sem saber do valor e importância que poderiam ter agora.

                Miguel da Costa Torres já participou e foi vencedor de diversas maratonas de corrida. Possui diversas medalhas e troféus que guarda em sua estante. Relata que tudo isso ‘a custa de pau de gemada, suco de acerola e água de coco, foi os energéticos naturais que eu usei’. Chegou a percorrer 11 km correndo, do Moinho até Alto Paraíso. Correu durante 20 anos. Segundo ele, desde que parou com as maratonas, só anda de bicicleta. Hoje, com 56 anos, se julga uma pessoa feliz e grata”.

 

Fonte: Ribeiro, Daniela. et al. Raizeiros de Alto Paraíso : Saberes Ameaçados. Alto Paraíso de Goiás: Fundo de Arte e Cultura do Estado de Goiás, SEDUCE, 2017. v. 1, p. 80-84.  

 

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