“Domingas Mariano de Souza, raizeira, parteira e benzedeira, nasceu na fazenda Bom Sucesso (Povoado do Moinho), município de Alto Paraíso de Goiás em 22 de novembro de 1949. Filha de Seu José Mariano e Dona Bilú, foi a única dos cinco irmãos que se interessou em herdar o ofício de parteira e benzedeira de sua mãe.

                Mãe de cinco filhos, católica, desde menina sentia a necessidade de fazer “alguma coisa na vida”, algo que pudesse ajudar as pessoas. Quando moça, não se sentia com responsabilidade suficiente para tamanha missão, esperou ficar mais madura para se dedicar. Então, por volta dos 20 anos, quando se casou, começou de fato a exercer o ofício de raizeira, dando início também ao benzimento.

                Segundo ela, “Deus tocou na minha mente que eu continuasse as orações, que eu tinha um dom muito grande pra ajudar”. Dona Domingas então passou a acolher crianças e adultos com suas orações, garrafadas, chás, mãos e coração de parteira.

                A força de sua fé e de sua intuição é direcionada para ‘enxergar’ o que cada um busca e precisa quando chega até ela. No entanto, Dona Domingas faz questão de deixar claro que ela não faz nada “quem faz é Deus”, tudo é encaminhado pela “providência divina”. Cuida de seu quintal com esmero, local que escolheu com amor para receber as pessoas e fazer as benzições: banquinhos sobre um chão de terra bem varrido; sob a sombra de árvores que margeiam um pequeno leito efêmero; vento gostoso que sopra. ‘Vai ali naquele ramo minha filha (e Dona Domingas aponta para o pequeno arbusto na mata), pega três folhas e traz aqui pra mim’ – diz ela antes de começar a benzer.

                Para benzer os adultos, ela diz ser necessário se preparar, tendo sempre a proteção divina como guia, porque criança é inocente, adulto não. ‘Criança benze não tem hora do dia ou da noite, porque elas são puras’. Ela ainda conta que para benzer, não é apenas repetir palavras decoradas, mas, ‘é preciso passar por um batismo, onde a pessoa prepara uma cama toda branca, com lençol branco e se veste toda de branco, com um pano na cabeça. Essa é a cama da levantação de Deus. Daí eu vou falando as palavras, a pessoa vai respondendo e no final eu digo: Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, você está batizada para começar os seus trabalhos de cura’. Aprendeu a reconhecer algumas plantas medicinais com sua mãe, contudo usou muito da sua intuição para ampliar seus conhecimentos. Trabalha com amor, devoção e consciência, com as raízes do cerrado e as plantas do quintal. Nunca retira um remédio da terra sem antes pedir licença – ‘eu peço licença pra Deus, eu oro pra que nasça outra logo, assim que a próxima chuva cair’. Sempre tem cuidado para que a planta possa rebrotar, não arrancando raízes inteiras.

                Toda vez que alguém recorre aos seus cuidados, Dona Domingas ouve atentamente, observa, estuda as plantas que são úteis e pede a benção divina para que elas funcionem – ‘para a fé, nada é impossível’.

                Equilibra a força das raízes (plantas fortes e plantas fracas) em suas garrafadas-feitas especificamente para cada pessoa que a procura. Mama cadela, carobinha, sangue de cristo, velame branco, café de bugre, barbatimão, e tantas que são até difícil de lembrar. Sal grosso benzido na Sexta feira na paixão. Arruda, Guiné, Mastruz e a folha do Algodão. Tudo isso faz parte do universo de ajudar de Dona Domingas.

                Fez o primeiro parto com a mãe, aos 33 anos, e até perdeu as contas de quantos partos já fez até hoje. Recomenda para o momento em que as dores se iniciam tomar banho com a folha de pequi (para acelerar o parto), beber o chá de canela e comer ovo cozido mole com uma pitada de pimenta do reino. ‘Quem bem soubesse comeria mesmo um pedacinho da placenta, pois é uma força para a mulher’. Já sofreu preconceito devido ao seu oficio: ‘Minha filha, já fui chamada de feiticeira na rua’. Mas também já foi convidada por um médico para trabalhar em São Paulo com as plantas medicinais. Vez ou outra chegam em sua porta pessoas de outras cidades para benzer (Goiânia, Brasília, São João da Aliança).

                No ‘I Encontro de Raizeiros e Pajés na Chapada dos Veadeiros’ Dona Domingas, junto com Dona Páscoa, foi exemplo de dedicação e disposição, benzeu filas e filas de pessoas, sempre embaixo de alguma árvore. Na Aldeia Multiétnica ou na Associação dos Moradores de São Jorge, elas ficaram horas seguidas, de pé, inspiradas pela missão recebida e acolhida em seu coração. Ela benze, conta o que vê, o que está a atrapalhar o caminho e indica a direção para firmar o bem e a saúde.

                Tem o sonho de ter uma casinha de oração e benzimento no seu quintal. O sonho segue com a vontade de ensinar, de passar para frente os seus conhecimentos e aprendizados para que mais pessoas possam fazer o bem umas as outras. Segundo ela o mundo está do jeito que está, porque o homem se preocupa mais com dinheiro, orgulho, e vontade de ser melhor do que os outros. E diz – ‘Deus não quer isso, Deus vê o que está no seu coração’. O seu filho caçula quer aprender a benzer, mas em geral, vê que o interesse das pessoas é muito pouco. ‘Se o povo da Terra toda se interessasse pelo benzimento, a vida de todos seria diferente’”.

 

Fonte: Ribeiro, Daniela. et al. Raizeiros de Alto Paraíso : Saberes Ameaçados. Alto Paraíso de Goiás: Fundo de Arte e Cultura do Estado de Goiás, SEDUCE, 2017. v. 1, p. 44-47

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