Krahô

Origem do Fogo: 

 

Houve um tempo em que não havia fogo e os índios assavam os alimentos no sol. Um rapazinho do tamanho de Sorrão que tinha então uns 15 anos de idade] foi convidado pelo cunhado para tirar arara. Cortaram um pau para alcançar o buraco. A arara já estava empenada [emplumada] e queria morder, razão por que o rapazinho não a queria tirar do buraco. O cunhado insistiu para que ele a tirasse, mas, como ele não o fizesse, zangou-se e derrubou o pau.  

 

O rapazinho ficou lá em cima. Ficou magrinho. A onça veio beirando o pé da serra e, vendo a sombra do rapaz no chão, quis pegá-la. O rapaz então cuspiu no chão. A onça deu então com a causa de seu engano e perguntou:  

“O’, por onde você subiu?”  

“Foi o cunhado que me pôs aqui em cima e eu estou para morrer de fome.”  

 

A onça pediu-lhe araras; o rapaz jogou duas e ela comeu. Em seguida ela mandou que se jogasse. O rapaz teve medo que ela o devorasse. Como ela insistisse e o acalmasse, dizendo que não ia comê-lo, pois já tinha devorado as araras, ele se jogou. A onça segurou-o e levou-o nas costas.  

 

Estava magrinho, com sede, com fome. Passaram por uma fonte. A onça não o deixou beber, afirmando que aquela água fedia e era de urubu. Passaram por outra fonte. A onça novamente não o deixou beber, pois não era água de gente. Finalmente chegaram a um lugar onde havia água boa. Ela o aconselhou a beber pouco, pois senão morreria. O rapaz também se banhou, pois estava sujo de poeira.  

 

A onça então levou-o para a mulher dela. Disse à onça fêmea que ficasse com o rapazinho para não ficar sozinha. Na casa da onça havia fogo. A onça macho recomendou-lhe que ficasse com o rapazinho, pois ia caçar. Assim que o marido saiu, a mulher virou-se para o sobrinho e disse:  

“Sobrinho, olhe-me, o que é isso?” — pondo as unhas para fora. O menino chorou e foi atrás da onça macho. “Eu já estou cansado de dizer para sua tia para ficar quieta!” Voltou, sentou um bocado e saiu de novo. A onça fêmea continuou a pôr as unhas de fora. O menino outra vez correu atrás do macho. No outro dia, a mesma coisa.  

 

Aí a onça macho fez-lhe um arquinho, flechinhas e recomendou ao rapaz:  

“Quando ela lhe mostrar as unhas, flecha-a bem na mão e corre. A sua aldeia fica bem pertinho. Basta ultrapassar a serra e estará na aldeia.”  

 

Como a onça fêmea mostrasse novamente as unhas, o rapazinho flechou-lhe bem o centro da pata e correu. A onça estava grávida e não se esforçou em pegá-lo.  

Ao chegar à aldeia, o rapaz avisou:  

“Olhem, acolá há fogo.”  

 

Aí os rapazes que corriam bem foram apanhar o fogo. Foram matando bichinhos de pena, ratinhos e levaram. Chegando à casa da onça, entregaram-lhe a caça:  

“Olha, minha tia, olha o teu comer!”  

 

A onça pedia:  

“O’ meu sobrinho, tire uma brasa para mim.” 

Aí foram correndo até chegar em casa. E o povo começou a tirar brasas para fazer fogo em casa e aí começaram a fazer coisa assada. Assim apareceu o fogo.  

 

Fonte:

MELATTI, Julio Cezar. Outras Versões de Mitos Craôs – Recolhidas por Julio Cezar Melatti, de 1962 a 1971, com alguns comentários do mesmo pesquisador. Brasília, 2010. p. 19-20. 

 

 

Abaixo está a primeira versão do mito da Mulher-Estrela (Katxekhwoi, katxe = estrela, khwoi = sufixo que indica feminino), referente à origem da agricultura. A primeira versão acentua a existência de uma como que árvore do milho perto da “fonte”, o lugar onde os habitantes da aldeia tomam banho e se abastecem de água.  

 

A Mulher-Estrela: 

 

Havia um rapaz que não tinha casado nunca e os seus colegas já haviam casado todos. De vez em quando ele dormia no centro da aldeia, cantando toda a noite. Katxeré [katxe = estrela, ré = diminutivo] pensou lá em cima:  

“Ah, eu vou casar-me com esse rapaz, porque ele não arranjou mulher; vou descer.”  

 

Na outra noite ele estava deitado no pátio e Katxeré desceu. O rapaz já estava dormindo. Ela se transformou em sapinho e veio pulando. Sentou-se na goela dele. Ele pegou-a com a mão e atirou-a para longe de si. Ela tornou a vir sentar-se na goela dele. Ele a jogou outra vez. Ela veio de novo. Ele jogou. Então Katxeré lhe disse:  

“Sou eu quem estou vindo aqui e você me está jogando longe.”  

Ela já se tinha transformado numa mulher alva, na praça da aldeia. O rapaz lhe respondeu: “Ah, eu estava pensando que era um sapo!”  

“Agora nós vamos deitar.”  

 

Katxeré deitou e perguntou ao rapaz:  

“Você é rapaz solteiro?”  

“Sou solteiro.”  

“Você não tem noiva não?”  

“Está-me desgostando porque eu nunca achei noiva e estou solteiro todo o tempo.”  Katxeré disse:  

“Você é solteiro, eu sou também, eu não arranjei marido por lá, e toda a noite vejo você sozinho, então eu vim até você para conversar, saber se você me quer e então nós casaremos.”  

“É, dá certo para nós casarmos, porque, como você não arranjou, eu também não tenho, eu não faço questão, porque eu estou no tempo de casar, não acho mulher e agora estou achando.”  

“Bem, agora nós dormimos.” Dormiram. 

 

Quando já estava amanhecendo, Katxeré falou:  

“Agora, você tem uma cumbuquinha?”  

“Tenho.”  

 

O rapaz escondeu Katxeré na cumbuquinha, tampou-a, pendurou-a e foi para o mato. Quando voltou, destampou a cumbuca e Katxeré estava rindo para ele. Passaram-se muitos dias, ele sempre destampando a cumbuquinha e ela sempre rindo para ele e, quando à noite, ele a tirava da cumbuca e ia dormir com ela lá fora. Quando o dia vinha clareando, ele a colocava na combuquinha e ia banhar-se.  

 

A irmã do rapaz já estava cansada de ver ele tirar a tampa da cumbuca e rir:  

“Mas para quem é que meu irmão ri aí na combuquinha; quando dá fé tem alguém. Quando ele for para o mato, eu vou destampar a cumbuca. Sempre que volta para casa, destampa a combuca e ri; quando dá fé tem alguma coisa para ele.”  

Quando ele saiu para o mato, a irmã foi falar com a mãe.  

“O mãe, eu quero subir e tirar a cumbuquinha para ver o que é que tem, porque todo dia, quando ele chega do mato, destampa a cumbuca e ri.”  

 

A mãe respondeu:  

“Não, não mexa com os teréns de seu irmão; ele pode chegar e ver mal fechada a tampa e vai zangar-se.”  

 

A irmã do rapaz respondeu:  

“Não, não vou mexer em nada não, vou apenas ver.”  

 

Subiu, apanhou, destampou e Katxeré riu; era bonitinha mesmo! Aí a irmã tampou novamente, porém mal; desceu e foi contar para a mãe:  

“Oh, mãe, há uma coisa bonitinha mesmo, alvinha mesmo, destampei, ela riu para mim, conheceu, baixou o rosto; por isso é que seu filho destampa para rir para a cumbuca.”  

 

Aí o irmão chegou, viu a tampa da cumbuca e falou, zangado:  

“O mãe, quem mexeu na cumbuca?”  

“Foi sua irmã. Ela mexeu, eu briguei e ela foi embora.”  

 

Quando já ia escurecendo, Katxeré falou ao rapaz:  

“Agora você manda fazer cama e eu vou sair, porque sua irmã já me viu.”  

 

E o homem falou (com a mãe):  

“Agora você vai fazer cama aí mesmo para mim, porque eu não vou mais dormir no pátio.”  

Ela fez a cama. Ele tirou a cumbuca, desceu, destampou-a, saiu a moça. Ela conversou com a velha, com a cunhada. Não ia mais esconder-se não. O povo de outra casa viu e comentou: “Eta! Aquele rapaz casou com moça bonita mesmo.”  

 

Nesse tempo os índios comiam toda coisinha ruim do mato. Não havia mandioca, nem milho, nem arroz etc. Aí o rapaz já havia “mexido” [copulado] a moça [Katxeré], já a tinha emprenhado, e outro “ajudou” [a engravidá-la]. Então nasceu o menino. Havia pé de milho na fonte e os periquitos gritavam no pé de milho. Katxeré perguntou:  

“Onde é o banheiro aqui?”  

 

O rapaz levou-a para a fonte e ela viu o pé de milho, com os galhos cheios de espiga. Ela viu os caroços no chão, que periquito tirava. Katxeré falou:  

“Vá buscar fogo, porque eu quero fazer paparuto desse milho, porque é comida boa.”  

 

O marido foi até a casa e de lá trouxe o fogo. Ela acendeu, juntou milho, ralou no ralador de pedra, pisou, fez quatro paparutos grandes, moqueou e, quando estavam assados, tirou. Quebrou um pedaço e deu para o marido. Este não quis comer, com medo de morrer. Ela insistiu. O marido experimentou, comeu bem, bebeu. Levaram o paparuto para a casa. Mostraram-no aos outros e juntaram-se muitos para verem o paparuto. Comeram muito. A mulher falou:  

“Há muito (milho) aí, vão fazer paparuto, é comida boa, vocês estão comendo comida ruim, que não serve.”  

 

Ensinou aos outros a fazerem paparuto e todos acharam bom.  

 

Havia uma aldeia longe como o Canto Grande [um dos nomes anteriores da aldeia de Cachoeira] e Katxeré mandou buscar lá um machado. Mandou dois rapazes, do tamanho de Ponhutoro {144} e Pascoal {38} [dois rapazes da aldeia do narrador, então com cerca de 21 e 19 anos respectivamente]. No meio do caminho eles encontraram um velhinho (ficara velho porque tinha comido uma certa caça), na beira da estrada. Os rapazes lhe disseram:

“Como vai, kederé?”  

“Como vão?”  

“Que está assando?”  

“Eu estou assando uma caça.”  

“Nós queremos comer também!”  

“Não, sigam a viagem, se vocês comerem, ficarão velhos assim mesmo [como eu]!”  “Não, nós vamos comer porque estamos com fome.”  

“Então tirem uns paus, para depois poderem caminhar.”  

“Vamos tirar, nós não vamos ficar velhos não, é mentira.”  

 

Tiraram os paus, trouxeram e deixaram. Quando a caça estava assada, o velho a tirou da cinza, esfriou e repartiu, dando uma banda para os rapazes. Eles comeram. Deitaram para descansar. Dormiram. Quando acordaram já eram velhinhos, caducos, do tamanho de Pëtyaka {112} [velho da aldeia do narrador então com cerca de 70 anos], não prestando mais para caminhar ligeiro. O velho lhes disse:  

“O’, não estou dizendo? Vocês agora voltam para trás, vocês vão custar a chegar, não chegarão hoje, só daqui a três dias.”  

 

E eles voltaram. Passaram dois dias, veio outro [rapaz] e encontrou com eles, soube da história e foi buscar o ferro [machado]. No mesmo dia voltou, ainda passou de novo pelos dois velhos e chegou à aldeia antes deles. E lá disse:  

“Os dois velhos não chegam já não!”  

“Que velhos?”  

“Aqueles rapazes que foram, já estão velhinhos!”  

 

Mais tarde eles chegaram. Falaram-lhes:  

“O, por que fizeram isso! Foram comer a caça do velho, poderiam ter passado por ele sem parar; vocês não vão mais andar como antes!”  

De manhã o povo foi cortar pé de milho; quebraram muito milho. Fizeram paparuto, pão de milho. Katxeré falou ao marido:  

“Agora você fazer uma roça para você ver eu plantar.”  

 

Ele brocou, derrubou e, quando secou, queimou. Katxeré foi buscar semente lá em cima [no céu]. Subiu daqui mesmo. Trouxe amendoim, abóbora, melancia, batata [doce], inhame, mandioca, banana, fava, trouxe semente de tudo, arroz, olho de cana. Ela desceu e ensinou o marido a plantar tudo. A roça estava cheia de legumes.  

 

O filho de Katxeré nasceu e aquele que “ajudou” o marido dela [a fazer a criança] estava comendo coisa ruim, o que fez mal à barriga do menino. Katxeré se zangou. Foi fazer “remédio” para os dois “ajudantes” do marido. Tirou timbó (que mata peixe), machucou no cuião, tirou a água (suco) do timbó, água escura, chamou-os e lhes deu para beber. Eles beberam e o timbó lhes fez mal à barriga, que inchou. Eles morreram. O filho de Katxeré morreu.  

 

E ela voltou para o koikwá (céu). O marido ficou na terra solteiro. Ela ensinou o marido tudinho o que se fazia com a semente quando estivesse boa, e ele tomou conta da plantação até o tempo da colheita, e colheu os legumes todos. Colheu arroz, milho, amendoim, batata, inhame etc. Todos os anos, daí por diante, botava roça. Os outros começaram a fazer roça também, porque essa era comida boa. Agora os outros aprenderam, e já estão fazendo roça, e plantando aquelas coisas.  

 

MELATTI, Julio Cezar. Outras Versões de Mitos Craôs – Recolhidas por Julio Cezar Melatti, de 1962 a 1971, com alguns comentários do mesmo pesquisador. Brasília, 2010. p. 21-23. 

 

O machado de pedra semilunar, que os craôs chamam de Khöiré, está presente em várias narrativas. Duas contam sua origem. Uma delas é o mito da expedição ao pé do céu, perto do qual os viajantes recebem o machado de um personagem também chamado Khöiré, bem como aprendem os cânticos que ele entoava. A outra é o mito de uma aldeia habitada só por mulheres que faziam machados de pedra semilunares, do qual segue abaixo uma versão. A versão apinajé é mais longa (Nimuendaju, 1956, Apêndice I, mito 9), e a que me foi contada corresponde a sua parte final.  

 

As Amazonas e os Machados Semilunares: 

 

Khöiré  

 

Havia uma aldeia só de mulher (ĩtiayobre, ĩtiakahãikrĩ). Só havia dois homens para reproduzir. Aqueles que não eram bons para fazer abaini [copular] eram mortos. Aqueles que procuravam pouco as mulheres eram mortos.  

 

Aí dois rapazes craôs foram visitar a aldeia. Os rapazes chegaram quando as mulheres vinham correndo com tora. Tinham matado muita carne [caça]. Deram muito de comer para eles. Elas tinham muito legume. De manhã as mulheres estavam fazendo machado. Os rapazes chegaram em casa:  

“Como vai! Como vai! Senta aqui no tora! Estou chamando, nós queremos que vocês contem história para nós escutar!”  

“Eu não sei história, nem contar.”  

“Está certo. Você não precisa outra coisa não?”  

“Que é?”  

“Quem sabe é você.”  

“Eu quero.”  

“Péra aí, deixe estar. Mas ainda não tem estrada, estrada está fechada [sou virgem]. Você querendo roçar [copular], você pode fazer estrada [me desvirginar]. Você é bom de correr?”  

“Não, sou não, mas corro um pouco.”  

“Deixa que nós vamos para a fonte [local de banho].”  

Falou com a companheira: “Eu quero esse.”  

“Eu quero esse.”  

Foram as duas mulheres e os dois rapazes para a fonte. Pegaram os braços dos rapazes e disseram: “Vamos embora. Vamos correr! Se você me passar, você tem, se não passar, você não ganha [sexo].”  

 

O peitinho está durinho e primeiramente não tem pano. Chegaram no meio da aldeia e foram correndo para a fonte. O homem passou a frente. 

 

“Bem, agora já estou entregue. Não tem questão, não tem dono.”  

“Espera eu vou descansar que eu estou fraco.”  

Depois apanhou nos braços e foram para o mato. Os outros dois [rapaz e mulher] vieram e [ele] passou a mulher. O primeiro já entrou [penetrou], [a mulher] já está gritando.  

“Cala a boca, não grita não, aguenta.”  

 

Quebrou prato [desvirginou]. A outra já está gritando; acabou, fez estrago [desvirginou]. Foram embora. No outro dia correram de novo bem cedo. [Um deles] Mexeu [copulou] duas vezes e outro rapaz também duas. Os rapazes passaram uns três dias e resolveram ir embora, antes que uma mulher os passasse e os matasse. As mulheres deram muitas coisas para eles comerem na estrada. E um machado de pedra para cada um. E eles foram embora. E contaram na aldeia. Os outros não vieram, eram ruins de correr e tiveram medo. Mas uma nação brava demais veio e matou todas as mulheres, ficando só mesmo a tapera. Foram outros dois rapazes dos craôs e só viram os ossos. Voltaram e contaram.  

 

MELATTI, Julio Cezar. Outras Versões de Mitos Craôs – Recolhidas por Julio Cezar Melatti, de 1962 a 1971, com alguns comentários do mesmo pesquisador. Brasília, 2010. p. 37-38. 

 

Como os craôs praticam a corrida com assiduidade, carregando todas ou sem elas, não é de admirar que observem atentamente a maneira de os animais correrem. E há no mito a seguir também uma tese ecológica: a de que a corrida é uma adaptação ao ambiente. Os animais bons corredores, podem viver no cerrado, porque, quando vistos, podem escapar dopredador correndo. Os maus corredores, devem se esconder na mata.  

 

O termo “pensão”, na versão a seguir, se refere à casa materna da menina ou menino wïtï, que os craôs comparam às casas de pensão das pequenas cidades, porque nelas todo o mundo (os hóspedes) pode entrar. No mito a criança wïtï é um caititu, que abandona essa honraria, protesto contra a desavença que se arma entre os animais, ao ter seu corpo esfregado com cinza.  

 

Corrida dos Animais: 

 

Foi assim. A ema tomando conta de lugar limpinho. Diz que não pode entrar no limpo. Os bichos, veado do campo, mateiro, catingueiro está tudo no mato. Ema não quer deixar. Ela deixa atrás qualquer um bicho, veado, anta. Se deixá-la para trás fica fora, se não deixar fica no mato. Diz que fizeram pensão. Então o caititu fica na casa. Aí os bichos ajuntaram todinhos, veado, ema, sariema, todos esses bichos. Pegaram de correr. Começaram a correr anta com ema. A anta ficou para trás e aí ficou no mato. A ema mandou que ela ficasse no mato. Suçuapara correu com ema. Correu e ema passou. A ema mandou suçuapara ficar no mato. Catingueiro correu com ema. Mateiro correu com ema. Se passar fica fora, se não passar fica no mato. A ema passou e mandou-os ficar no mato. Queixada também. Não passou. A ema mandou que ele morasse no mato. Sariema. Ela não passou. Ela ficou no cantinho. Aí chegou o veado campeiro. Era um rapaz novo, bom. Ela disse: “Se você passar, você fica no meu lugar, se não passar, você fica no mato”. Pegaram a correr até chegarem juntos. O veado campeiro então ficou no limpo.  

 

Os bichinhos de pena fizeram pensão e ajuntaram e fizeram festa. Tinham aldeia grande mesmo. O governadorzinho é periquitinho (khedré) e o outro governador é yõ’krãiré. Estão mandando fazer festa boa mesmo. E chega qualquer de pena, papagaio ou outro mais, e pega de comer. A pomba pegou a frente da ema e não quer deixar ficar fora. Chegou um papagaio e a pomba. O papagaio disse que a perna estava doente e não podia correr muito, que tinha furado o pé. Ele tinha embrulhado a perna com embira, estava cachingando, mas estava enganando a pomba. Vamos ver agora. Pegaram a correr e a pomba deixou o papagaio atrás. Mas não deixou não. Daí a pedaço alcançou e deixou pomba atrás. Chegou mesmo cansadinho. A pomba, com vergonha, foi para o mato.  

 

O beija-flor (yunti) e kuventi. Yunti disse assim:  

“Papai que é aquilo, de cabelo comprido, papudo, é feio.”  

 

Aí yunti ficou com vergonha, correu ruim, perdeu. Foi embora para a casa. Aí chegou o caititu, saiu fora para o pátio. Apanhou cinza e passou no corpo do caititu, e não fizeram mais pensão. Acabou tudo. Os bichos foram embora para casa. Todos os bichos.  

 

Só dois ficaram na chapada: o veado e a ema. O papagaio também. Eram todos índios e homens.  

 

MELATTI, Julio Cezar. Outras Versões de Mitos Craôs – Recolhidas por Julio Cezar Melatti, de 1962 a 1971, com alguns comentários do mesmo pesquisador. Brasília, 2010. p. 45-46. 

 

A Vez da Caça – Arara: 

 

Um índio estava caçando e matou uma arara vermelha. A outra arara, porque todos os bichinhos de asa que andam por aí formam casais, voou e foi-se embora. A sobrevivente ficou procurando a outra nos lugares onde costumavam comer frutas. Estava esperando o matador.  

 

O homem foi caçar outra vez; a arara o viu e foi esperá-lo na passagem. Quando ele passou, a arara não disse nada. O homem matou veado e voltou. Enquanto ele voltava, a arara cantava mesmo como índio. E o homem pensou:  

“Eh, mas quem é que está cantando na passagem? Talvez o pessoal tenha cortado tora aí e esteja cantando, me esperando!”  

 

E o homem foi chegando perto. A arara veio baixando (ela estava no alto da árvore), continuando a cantiga. O homem pensou:  

“Não, não é gente não, talvez queira falar alguma coisa para mim”.  

A arara tocou o chão, transformou-se em índio e perguntou:  

“Como vai?”  

“Como vai? Como é que você vai?”  

“Eu cacei veadinho!”  

“Sim, está bom; agora vou-lhe perguntar uma coisa. Você pode me contar. Eu andava por aí com minha mulher, mas não sei quem foi que a matou. Eu já a procurei onde nós comíamos, onde nós descansávamos, por onde nós viajávamos. Quero que você me conte”.  

 

O homem desconfiou, e respondeu:  

“Eu não sei, porque há muitas aldeias, há muitas nações por aí, talvez outro a tenha matado”.  Mas a arara sabia e respondeu:  

“É, eu não sei não, você é quem sabe. Mas eu não vou procurar noutro lugar. Eu pergunto a você aqui mesmo, porque eu estou com saudade, já chorei muito, já gritei muito por aí assim”.  

 

O homem respondeu:  

“Eu não sei não, não sei contar”.  

Disse a arara:  

“É, não sei não; eu pergunto a você porque você é caçador, sabe andar; quando dá fé você viu alguém matando minha mulher”.  

“Não, não sei contar”.  

“É, eu pensava que você me daria uma notícia, mas você não sabe, eu vou procurar; mas eu quero que você pergunte lá [na aldeia] quem matou minha mulher”.  

“Eu perguntarei”.  

“Mas em tal dia eu te espero aqui para você me contar!”  

 

Mas a arara estava mentindo e ia matá-lo com feitiço. A arara disse:  

“Até logo!”  

“Até logo!”  

 

E voou logo.  

 

Porém, quando voou, empurrou com a perna a casca de pau [do galho, da árvore], que foi bater no peito do índio. Este caminhou um pedacinho e logo lhe deu uma quentura no corpo. Caminhou mais e já ia trocando pernas. Chegou fraco à aldeia. E disse para a mulher: “Agora você cuida do veado porque eu quero comer ligeiro. Porque outro dia você não vai mais me ver com esta cara, e nem eu vou te avexar com o de comer não”.  

 

Ela cuidou logo da comida. Sapecou no fogo o veado, pois antigamente não se tirava o couro, desfatou, tirou o espinhaço e botou na panela. Nesse tempo se usava panela de barro. A mulher atiçava o fogo. O homem já estava gemendo, e cantando mesmo a cantiga da arara. A mulher cozinhou depressa e botou a comida para ele. O marido comeu, bebeu água e falou:  

 

“Pronto, já comi; o resto é para você; vai comer só esta vez, porque depois você não vai comer carne de veado não, porque eu não vou viver não. Não é outra coisa que vai me matar não: é arara.”  

 

Contou tudo que a arara disse e depois pediu a todo o povo para se ajuntar e disse adeus para todos.  

 

“Fiquem na minha lembrança, porque eu vou-me acabar”.  

 

Logo ele morreu. A mulher dele chorou até enterrá-lo.  

 

MELATTI, Julio Cezar. Outras Versões de Mitos Craôs – Recolhidas por Julio Cezar Melatti, de 1962 a 1971, com alguns comentários do mesmo pesquisador. Brasília, 2010. p. 81-82. 

 

A Vez da Caça – Anta: 

 

Um índio foi caçar e não achou nada de caça; só achou mesmo espera (local onde bichos vêm  comer). Chegou a casa, comeu e falou com a mulher:  

“Agora vou fazer espera, que eu achei acolá uma espera boa”.  

 

Foi de tarde, fez uma rede de palha; mas a rede de palha não serviu e ele fez um jirau na árvore.  E ficou lá. Ficou até de noite. De primeiro não tinha espingarda, foi esperar de arco mesmo.  

 

Era noite. Veio a anta, veio chegando e falou:  

“Eh, quem está lá em cima me esperando? Eu não vou chegar lá não. Você desce e vá-se  embora”.  

 

O homem respondeu:  

“Eu não desço não, fico aqui mesmo”.  

“Então você me espera, eu vou lá na minha casa e depois nós conversamos; você não vai achar  bom”.  

 

A anta voltou na carreira para a casa dela, para buscar fogo. O homem desceu logo, pois sabia  que ela ia buscar fogo para sapecá-lo. E correu logo para a aldeia, correu mesmo porque a anta é  corredora. Quando virou [para trás], lá se vinha o fogo clareando mesmo. O homem tornou a correr. Quando virou-se para trás de novo, o fogo já vinha chegando perto. Tornou a correr. A aldeia já  estava perto. Ele ia chegando ao brejo e fogo já vinha perto mesmo. O homem entrou no brejo e o  sapinho (proré) gritou muito. O sapinho é compadre (hõpin) da anta. O homem entrou e saiu do  outro lado. A anta chegou ao brejo e o sapinho gritou muito. Ela parou e gritou para o homem:  

“Oh, se o caminho não tivesse nada atrás de você, você não iria bom não! Só porque eu respeito  o compadre”.  

 

O homem escutou e parou. E foi caminhando devagar, mas muito cansado. A anta voltou e foi-se  embora. E o homem chegou à aldeia e contou para a mulher:  

“Se eu ficasse lá na árvore, eu não tinha voltado não; a anta falou comigo e voltou para buscar  fogo e me sapecar. Não vou mais fazer espera”. 

 

MELATTI, Julio Cezar. Outras Versões de Mitos Craôs – Recolhidas por Julio Cezar Melatti, de 1962 a 1971, com alguns comentários do mesmo pesquisador. Brasília, 2010. p. 82. 

 

A Velha que Virou Tamanduá: 

 

Dizem, que uma índia ficou com seus netos, dando-lhes de comer; a filha sai para o mato e ela ficava tomando conta dos netos até que chega a filha. Mas quando ela abusou [se cansou], diz-se que saiu com os netos:  

“Vamos buscar puçá (krotot)! Todo o mundo vai até o pé de puçá e vocês vão sacudir os galhos para mim comer.”  

 

E os netos a levaram. Chegaram ao pé de puçá e todos os netos subiram, e ela ficou no chão. Tiravam os maduros e jogavam para ela. Jogavam e o puçá lhe batia nas costas.  

 

“Oh, meus netos, não brinquem comigo, eu quero encher o cofo e vai chegar a hora de ir embora!”  

Eles não se importaram. Então os mais velhos perguntaram:  

“O que vamos virar?”  

“Vamos virar periquito”, responderam.  

Então todo o mundo virou e ela ficou aí embaixo. Voaram todos. E ela gritando: “Oh, voltem meninos! Vamos embora!”  

Mas eles foram-se embora. Ela ficou. Falou para si mesma:  

“Agora como é que eu vou ficar? Vou virar um bicho, meus netos já foram embora, os pais vão brigar comigo!”  

 

Então ela virou bandeira e foi para o mato. Chegou num cupim, cavou, e foi comendo; até chegar no mato. Fez a cama e se deitou como bandeira. 

 

MELATTI, Julio Cezar. Outras Versões de Mitos Craôs – Recolhidas por Julio Cezar Melatti, de 1962 a 1971, com alguns comentários do mesmo pesquisador. Brasília, 2010. p. 87. 

 

Aldeia dos Mortos: 

 

Uma história para o lado do oeste  

 

Um índio morreu para as bandas do Araguaia. Seu irmão mandou que um homem e um rapaz  fossem atrás da ossada para colocar na sepultura. Foram indo até a beira do Araguaia. Era muita  gente. Era tudo defunto de índio. Uns cantavam, outros tomavam banho. Pegaram barca. Passaram a aldeia. Aí viram a sepultura. Tiraram os ossos. Fizeram um cofinho e puseram os ossos.  

 

De tarde resolveram passarem a noite num lugar. Puseram o cofo num pau [árvore]. Daí a pouco  os ossos estavam mexendo. A alma chegou aos viajantes, se coçando. E falou com o mais velho:  

 

“Se quiser dormir, pode dormir; não vou mexer nada não. Fiquei com muita pena de vocês; estão aqui com os civilizados”. Perguntou pelos parentes.  

 

Quando viajaram, a alma acompanhou. Chegaram perto da aldeia. Avisou para dar aviso para a  mãe não chorar não, porque ia andar lá á na casa dela. Mandou o recado, mas não deram. A mãe viu o mekarõ do filho e começou a chorar. De lá mesmo o … [palavra pouco legível; pode ser “outro”,  ou pode ser “vento”, que faz mais sentido] o levou.  

 

MELATTI, Julio Cezar. Outras Versões de Mitos Craôs – Recolhidas por Julio Cezar Melatti, de  1962 a 1971, com alguns comentários do mesmo pesquisador. Brasília, 2010. p. 92. 

 

Abaixo está a primeira versão do mito da Mulher-Estrela (Katxekhwoi, katxe = estrela, khwoi = sufixo que indica feminino), referente à origem da agricultura. A primeira versão acentua a existência de uma como que árvore do milho perto da “fonte”, o lugar onde os habitantes da aldeia tomam banho e se abastecem de água.  

 

A Mulher-Estrela: 

 

Havia um rapaz que não tinha casado nunca e os seus colegas já haviam casado todos. De vez em quando ele dormia no centro da aldeia, cantando toda a noite. Katxeré [katxe = estrela, ré = diminutivo] pensou lá em cima:  

“Ah, eu vou casar-me com esse rapaz, porque ele não arranjou mulher; vou descer.”  

 

Na outra noite ele estava deitado no pátio e Katxeré desceu. O rapaz já estava dormindo. Ela se transformou em sapinho e veio pulando. Sentou-se na goela dele. Ele pegou-a com a mão e atirou-a para longe de si. Ela tornou a vir sentar-se na goela dele. Ele a jogou outra vez. Ela veio de novo. Ele jogou. Então Katxeré lhe disse:  

“Sou eu quem estou vindo aqui e você me está jogando longe.”  

 

Ela já se tinha transformado numa mulher alva, na praça da aldeia. O rapaz lhe respondeu: “Ah, eu estava pensando que era um sapo!”  

“Agora nós vamos deitar.”  

 

Katxeré deitou e perguntou ao rapaz:  

“Você é rapaz solteiro?”  

“Sou solteiro.”  

“Você não tem noiva não?”  

“Está-me desgostando porque eu nunca achei noiva e estou solteiro todo o tempo.”  Katxeré disse:  

“Você é solteiro, eu sou também, eu não arranjei marido por lá, e toda a noite vejo você sozinho, então eu vim até você para conversar, saber se você me quer e então nós casaremos.”  

“É, dá certo para nós casarmos, porque, como você não arranjou, eu também não tenho, eu não faço questão, porque eu estou no tempo de casar, não acho mulher e agora estou achando.”  

“Bem, agora nós dormimos.” Dormiram.  

 

Quando já estava amanhecendo, Katxeré falou:  

“Agora, você tem uma cumbuquinha?”  

“Tenho.”  

 

O rapaz escondeu Katxeré na cumbuquinha, tampou-a, pendurou-a e foi para o mato. Quando voltou, destampou a cumbuca e Katxeré estava rindo para ele. Passaram-se muitos dias, ele sempre destampando a cumbuquinha e ela sempre rindo para ele e, quando à noite, ele a tirava da cumbuca e ia dormir com ela lá fora. Quando o dia vinha clareando, ele a colocava na combuquinha e ia banhar-se.  

 

A irmã do rapaz já estava cansada de ver ele tirar a tampa da cumbuca e rir:  

“Mas para quem é que meu irmão ri aí na combuquinha; quando dá fé tem alguém. Quando ele for para o mato, eu vou destampar a cumbuca. Sempre que volta para casa, destampa a combuca e ri; quando dá fé tem alguma coisa para ele.”  

 

Quando ele saiu para o mato, a irmã foi falar com a mãe.  

“O mãe, eu quero subir e tirar a cumbuquinha para ver o que é que tem, porque todo dia, quando ele chega do mato, destampa a cumbuca e ri.”  

 

A mãe respondeu:  

“Não, não mexa com os teréns de seu irmão; ele pode chegar e ver mal fechada a tampa e vai zangar-se.”  

 

A irmã do rapaz respondeu:  

“Não, não vou mexer em nada não, vou apenas ver.”  

Subiu, apanhou, destampou e Katxeré riu; era bonitinha mesmo! Aí a irmã tampou novamente, porém mal; desceu e foi contar para a mãe:  

“Oh, mãe, há uma coisa bonitinha mesmo, alvinha mesmo, destampei, ela riu para mim, conheceu, baixou o rosto; por isso é que seu filho destampa para rir para a cumbuca.”  

 

Aí o irmão chegou, viu a tampa da cumbuca e falou, zangado:  

“O mãe, quem mexeu na cumbuca?”  

“Foi sua irmã. Ela mexeu, eu briguei e ela foi embora.”  

 

Quando já ia escurecendo, Katxeré falou ao rapaz:  

“Agora você manda fazer cama e eu vou sair, porque sua irmã já me viu.”  

 

E o homem falou (com a mãe):  

“Agora você vai fazer cama aí mesmo para mim, porque eu não vou mais dormir no pátio.”  

Ela fez a cama. Ele tirou a cumbuca, desceu, destampou-a, saiu a moça. Ela conversou com a velha, com a cunhada. Não ia mais esconder-se não. O povo de outra casa viu e comentou: “Eta! Aquele rapaz casou com moça bonita mesmo.”  

 

Nesse tempo os índios comiam toda coisinha ruim do mato. Não havia mandioca, nem milho, nem arroz etc. Aí o rapaz já havia “mexido” [copulado] a moça [Katxeré], já a tinha emprenhado, e outro “ajudou” [a engravidá-la]. Então nasceu o menino. Havia pé de milho na fonte e os periquitos gritavam no pé de milho. Katxeré perguntou:  

“Onde é o banheiro aqui?”  

O rapaz levou-a para a fonte e ela viu o pé de milho, com os galhos cheios de espiga. Ela viu os caroços no chão, que periquito tirava. Katxeré falou:  

“Vá buscar fogo, porque eu quero fazer paparuto desse milho, porque é comida boa.”  

 

O marido foi até a casa e de lá trouxe o fogo. Ela acendeu, juntou milho, ralou no ralador de pedra, pisou, fez quatro paparutos grandes, moqueou e, quando estavam assados, tirou. Quebrou um pedaço e deu para o marido. Este não quis comer, com medo de morrer. Ela insistiu. O marido experimentou, comeu bem, bebeu. Levaram o paparuto para a casa. Mostraram-no aos outros e juntaram-se muitos para verem o paparuto. Comeram muito. A mulher falou:  

“Há muito (milho) aí, vão fazer paparuto, é comida boa, vocês estão comendo comida ruim, que não serve.”  

 

Ensinou aos outros a fazerem paparuto e todos acharam bom.  

 

Havia uma aldeia longe como o Canto Grande [um dos nomes anteriores da aldeia de Cachoeira] e Katxeré mandou buscar lá um machado. Mandou dois rapazes, do tamanho de Ponhutoro {144} e Pascoal {38} [dois rapazes da aldeia do narrador, então com cêrca de 21 e 19 anos respectivamente]. No meio do caminho eles encontraram um velhinho (ficara velho porque tinha comido uma certa caça), na beira da estrada. Os rapazes lhe disseram: “Como vai, kederé?”  

“Como vão?”  

“Que está assando?” 

“Eu estou assando uma caça.”  

“Nós queremos comer também!”  

“Não, sigam a viagem, se vocês comerem, ficarão velhos assim mesmo [como eu]!”  “Não, nós vamos comer porque estamos com fome.”  

“Então tirem uns paus, para depois poderem caminhar.”  

“Vamos tirar, nós não vamos ficar velhos não, é mentira.”  

 

Tiraram os paus, trouxeram e deixaram. Quando a caça estava assada, o velho a tirou da cinza, esfriou e repartiu, dando uma banda para os rapazes. Eles comeram. Deitaram para descansar. Dormiram. Quando acordaram já eram velhinhos, caducos, do tamanho de Pëtyaka {112} [velho da aldeia do narrador então com cerca de 70 anos], não prestando mais para caminhar ligeiro. O velho lhes disse:  

“O’, não estou dizendo? Vocês agora voltam para trás, vocês vão custar a chegar, não chegarão hoje, só daqui a três dias.”  

 

E eles voltaram. Passaram dois dias, veio outro [rapaz] e encontrou com eles, soube da história e foi buscar o ferro [machado]. No mesmo dia voltou, ainda passou de novo pelos dois velhos e chegou à aldeia antes deles. E lá disse:  

“Os dois velhos não chegam já não!”  

“Que velhos?”  

“Aqueles rapazes que foram, já estão velhinhos!”  

Mais tarde eles chegaram. Falaram-lhes:  

“O, por que fizeram isso! Foram comer a caça do velho, poderiam ter passado por ele sem parar; vocês não vão mais andar como antes!”  

De manhã o povo foi cortar pé de milho; quebraram muito milho. Fizeram paparuto, pão de milho. Katxeré falou ao marido:  

“Agora você fazer uma roça para você ver eu plantar.”  

 

Ele brocou, derrubou e, quando secou, queimou. Katxeré foi buscar semente lá em cima [no céu]. Subiu daqui mesmo. Trouxe amendoim, abóbora, melancia, batata [doce], inhame, mandioca, banana, fava, trouxe semente de tudo, arroz, olho de cana. Ela desceu e ensinou o marido a plantar tudo. A roça estava cheia de legumes.  

 

O filho de Katxeré nasceu e aquele que “ajudou” o marido dela [a fazer a criança] estava comendo coisa ruim, o que fez mal à barriga do menino. Katxeré se zangou. Foi fazer “remédio” para os dois “ajudantes” do marido. Tirou timbó (que mata peixe), machucou no cuião, tirou a água (suco) do timbó, água escura, chamou-os e lhes deu para beber. Eles beberam e o timbó lhes fez mal à barriga, que inchou. Eles morreram. O filho de Katxeré morreu.  

 

E ela voltou para o koikwá (céu). O marido ficou na terra solteiro. Ela ensinou o marido tudinho o que se fazia com a semente quando estivesse boa, e ele tomou conta da plantação até o tempo da colheita, e colheu os legumes todos. Colheu arroz, milho, amendoim, batata, inhame etc. Todos os anos, daí por diante, botava roça. Os outros começaram a fazer roça também, porque essa era comida boa. Agora os outros aprenderam, e já estão fazendo roça, e plantando aquelas coisas.  

 

MELATTI, Julio Cezar. Outras Versões de Mitos Craôs – Recolhidas por Julio Cezar Melatti, de 1962 a 1971, com alguns comentários do mesmo pesquisador. Brasília, 2010. p. 21-23. 

 

O machado de pedra semilunar, que os craôs chamam de Khöiré, está presente em várias narrativas. Duas contam sua origem. Uma delas é o mito da expedição ao pé do céu, perto do qual os viajantes recebem o machado de um personagem também chamado Khöiré, bem como aprendem os cânticos que ele entoava. A outra é o mito de uma aldeia habitada só por mulheres que faziam machados de pedra semilunares, do qual segue abaixo uma versão. A versão apinajé é mais longa (Nimuendaju, 1956, Apêndice I, mito 9), e a que me foi contada corresponde a sua parte final.  

 

As Amazonas e os Machados Semilunares: 

 

Khöiré  

Havia uma aldeia só de mulher (ĩtiayobre, ĩtiakahãikrĩ). Só havia dois homens para reproduzir. Aqueles que não eram bons para fazer abaini [copular] eram mortos. Aqueles que procuravam pouco as mulheres eram mortos.  

 

Aí dois rapazes craôs foram visitar a aldeia. Os rapazes chegaram quando as mulheres vinham correndo com tora. Tinham matado muita carne [caça]. Deram muito de comer para eles. Elas tinham muito legume. De manhã as mulheres estavam fazendo machado. Os rapazes chegaram em casa:  

 

“Como vai! Como vai! Senta aqui no tora! Estou chamando, nós queremos que vocês contem história para nós escutar!”  

“Eu não sei história, nem contar.”  

“Está certo. Você não precisa outra coisa não?”  

“Que é?”  

“Quem sabe é você.”  

“Eu quero.”  

“Péra aí, deixe estar. Mas ainda não tem estrada, estrada está fechada [sou virgem]. Você querendo roçar [copular], você pode fazer estrada [me desvirginar]. Você é bom de correr?”  

“Não, sou não, mas corro um pouco.”  

“Deixa que nós vamos para a fonte [local de banho].”  

Falou com a companheira: “Eu quero esse.”  

“Eu quero esse.”  

 

Foram as duas mulheres e os dois rapazes para a fonte. Pegaram os braços dos rapazes e disseram: “Vamos embora. Vamos correr! Se você me passar, você tem, se não passar, você não ganha [sexo].”  

 

O peitinho está durinho e primeiramente não tem pano. Chegaram no meio da aldeia e foram correndo para a fonte. O homem passou a frente.  

“Bem, agora já estou entregue. Não tem questão, não tem dono.”  

“Espera eu vou descansar que eu estou fraco.”  

 

Depois apanhou nos braços e foram para o mato. Os outros dois [rapaz e mulher] vieram e [ele] passou a mulher. O primeiro já entrou [penetrou], [a mulher] já está gritando.  

“Cala a boca, não grita não, aguenta.”  

 

Quebrou prato [desvirginou]. A outra já está gritando; acabou, fez estrago [desvirginou]. Foram embora. No outro dia correram de novo bem cedo. [Um deles] Mexeu [copulou] duas vezes e outro rapaz também duas. Os rapazes passaram uns três dias e resolveram ir embora, antes que uma mulher os passasse e os matasse. As mulheres deram muitas coisas para eles comerem na estrada. E um machado de pedra para cada um. E eles foram embora. E contaram na aldeia. Os outros não vieram, eram ruins de correr e tiveram medo. Mas uma nação brava demais veio e matou todas as mulheres, ficando só mesmo a tapera. Foram outros dois rapazes dos craôs e só viram os ossos. Voltaram e contaram.  

 

MELATTI, Julio Cezar. Outras Versões de Mitos Craôs – Recolhidas por Julio Cezar Melatti, de 1962 a 1971, com alguns comentários do mesmo pesquisador. Brasília, 2010. p. 37-38. 

 

Como os craôs praticam a corrida com assiduidade, carregando todas ou sem elas, não é de admirar que observem atentamente a maneira de os animais correrem. E há no mito a seguir também uma tese ecológica: a de que a corrida é uma adaptação ao ambiente. Os animais bons corredores, podem viver no cerrado, porque, quando vistos, podem escapar dopredador correndo. Os maus corredores, devem se esconder na mata.  

 

O termo “pensão”, na versão a seguir, se refere à casa materna da menina ou menino wïtï, que os craôs comparam às casas de pensão das pequenas cidades, porque nelas todo o mundo (os hóspedes) pode entrar. No mito a criança wïtï é um caititu, que abandona essa honraria, protesto contra a desavença que se arma entre os animais, ao ter seu corpo esfregado com cinza.  

 

Corrida dos Animais: 

 

Foi assim. A ema tomando conta de lugar limpinho. Diz que não pode entrar no limpo. Os bichos, veado do campo, mateiro, catingueiro está tudo no mato. Ema não quer deixar. Ela deixa atrás qualquer um bicho, veado, anta. Se deixá-la para trás fica fora, se não deixar fica no mato. Diz que fizeram pensão. Então o caititu fica na casa. Aí os bichos ajuntaram todinhos, veado, ema, sariema, todos esses bichos. Pegaram de correr. Começaram a correr anta com ema. A anta ficou para trás e aí ficou no mato. A ema mandou que ela ficasse no mato. Suçuapara correu com ema. Correu e ema passou. A ema mandou suçuapara ficar no mato. Catingueiro correu com ema. Mateiro correu com ema. Se passar fica fora, se não passar fica no mato. A ema passou e mandou-os ficar no mato. Queixada também. Não passou. A ema mandou que ele morasse no mato. Sariema. Ela não passou. Ela ficou no cantinho. Aí chegou o veado campeiro. Era um rapaz novo, bom. Ela disse: “Se você passar, você fica no meu lugar, se não passar, você fica no mato”. Pegaram a correr até chegarem juntos. O veado campeiro então ficou no limpo.  

 

Os bichinhos de pena fizeram pensão e ajuntaram e fizeram festa. Tinham aldeia grande mesmo. O governadorzinho é periquitinho (khedré) e o outro governador é yõ’krãiré. Estão mandando fazer festa boa mesmo. E chega qualquer de pena, papagaio ou outro mais, e pega de comer. A pomba pegou a frente da ema e não quer deixar ficar fora. Chegou um papagaio e a pomba. O papagaio disse que a perna estava doente e não podia correr muito, que tinha furado o pé. Ele tinha embrulhado a perna com embira, estava cachingando, mas estava enganando a pomba. Vamos ver agora. Pegaram a correr e a pomba deixou o papagaio atrás. Mas não deixou não. Daí a pedaço alcançou e deixou pomba atrás. Chegou mesmo cansadinho. A pomba, com vergonha, foi para o mato.  

 

O beija-flor (yunti) e kuventi. Yunti disse assim:  

“Papai que é aquilo, de cabelo comprido, papudo, é feio.”  

 

Aí yunti ficou com vergonha, correu ruim, perdeu. Foi embora para a casa. Aí chegou o caititu, saiu fora para o pátio. Apanhou cinza e passou no corpo do caititu, e não fizeram mais pensão. Acabou tudo. Os bichos foram embora para casa. Todos os bichos.  

Só dois ficaram na chapada: o veado e a ema. O papagaio também. Eram todos índios e homens.  

 

MELATTI, Julio Cezar. Outras Versões de Mitos Craôs – Recolhidas por Julio Cezar Melatti, de 1962 a 1971, com alguns comentários do mesmo pesquisador. Brasília, 2010. p. 45-46. 

 

A Vez da Caça – Arara: 

 

Um índio estava caçando e matou uma arara vermelha. A outra arara, porque todos os bichinhos de asa que andam por aí formam casais, voou e foi-se embora. A sobrevivente ficou procurando a outra nos lugares onde costumavam comer frutas. Estava esperando o matador.  

 

O homem foi caçar outra vez; a arara o viu e foi esperá-lo na passagem. Quando ele passou, a arara não disse nada. O homem matou veado e voltou. Enquanto ele voltava, a arara cantava mesmo como índio. E o homem pensou:  

“Eh, mas quem é que está cantando na passagem? Talvez o pessoal tenha cortado tora aí e esteja cantando, me esperando!”  

 

E o homem foi chegando perto. A arara veio baixando (ela estava no alto da árvore), continuando a cantiga. O homem pensou:  

“Não, não é gente não, talvez queira falar alguma coisa para mim”.  

 

A arara tocou o chão, transformou-se em índio e perguntou:  

“Como vai?”  

“Como vai? Como é que você vai?”  

“Eu cacei veadinho!”  

“Sim, está bom; agora vou-lhe perguntar uma coisa. Você pode me contar. Eu andava por aí com minha mulher, mas não sei quem foi que a matou. Eu já a procurei onde nós comíamos, onde nós descansávamos, por onde nós viajávamos. Quero que você me conte”.  

 

O homem desconfiou, e respondeu:  

“Eu não sei, porque há muitas aldeias, há muitas nações por aí, talvez outro a tenha matado”.  Mas a arara sabia e respondeu:  

“É, eu não sei não, você é quem sabe. Mas eu não vou procurar noutro lugar. Eu pergunto a você aqui mesmo, porque eu estou com saudade, já chorei muito, já gritei muito por aí assim”.  

 

O homem respondeu:  

“Eu não sei não, não sei contar”.  

 

Disse a arara:  

“É, não sei não; eu pergunto a você porque você é caçador, sabe andar; quando dá fé você viu alguém matando minha mulher”.  

“Não, não sei contar”.  

“É, eu pensava que você me daria uma notícia, mas você não sabe, eu vou procurar; mas eu quero que você pergunte lá [na aldeia] quem matou minha mulher”.  

“Eu perguntarei”.  

“Mas em tal dia eu te espero aqui para você me contar!”  

Mas a arara estava mentindo e ia matá-lo com feitiço. A arara disse:  

“Até logo!”  

“Até logo!”  

E voou logo.  

 

Porém, quando voou, empurrou com a perna a casca de pau [do galho, da árvore], que foi bater no peito do índio. Este caminhou um pedacinho e logo lhe deu uma quentura no corpo. Caminhou mais e já ia trocando pernas. Chegou fraco à aldeia. E disse para a mulher: “Agora você cuida do veado porque eu quero comer ligeiro. Porque outro dia você não vai mais me ver com esta cara, e nem eu vou te avexar com o de comer não”.  

 

Ela cuidou logo da comida. Sapecou no fogo o veado, pois antigamente não se tirava o couro, desfatou, tirou o espinhaço e botou na panela. Nesse tempo se usava panela de barro. A mulher atiçava o fogo. O homem já estava gemendo, e cantando mesmo a cantiga da arara. A mulher cozinhou depressa e botou a comida para ele. O marido comeu, bebeu água e falou:  

 

“Pronto, já comi; o resto é para você; vai comer só esta vez, porque depois você não vai comer carne de veado não, porque eu não vou viver não. Não é outra coisa que vai me matar não: é arara.”  

Contou tudo que a arara disse e depois pediu a todo o povo para se ajuntar e disse adeus para todos.  

“Fiquem na minha lembrança, porque eu vou-me acabar”.  

Logo ele morreu. A mulher dele chorou até enterrá-lo.  

 

MELATTI, Julio Cezar. Outras Versões de Mitos Craôs – Recolhidas por Julio Cezar Melatti, de 1962 a 1971, com alguns comentários do mesmo pesquisador. Brasília, 2010. p. 81-82.

 

A Vez da Caça – Anta: 

Um índio foi caçar e não achou nada de caça; só achou mesmo espera (local onde bichos vêm  comer). Chegou a casa, comeu e falou com a mulher:  

“Agora vou fazer espera, que eu achei acolá uma espera boa”.  

 

Foi de tarde, fez uma rede de palha; mas a rede de palha não serviu e ele fez um jirau na árvore.  E ficou lá. Ficou até de noite. De primeiro não tinha espingarda, foi esperar de arco mesmo.  

 

Era noite. Veio a anta, veio chegando e falou:  

“Eh, quem está lá em cima me esperando? Eu não vou chegar lá não. Você desce e vá-se  embora”.  

 

O homem respondeu:  

“Eu não desço não, fico aqui mesmo”.  

“Então você me espera, eu vou lá na minha casa e depois nós conversamos; você não vai achar  bom”.  

 

A anta voltou na carreira para a casa dela, para buscar fogo. O homem desceu logo, pois sabia  que ela ia buscar fogo para sapecá-lo. E correu logo para a aldeia, correu mesmo porque a anta é  corredora. Quando virou [para trás], lá se vinha o fogo clareando mesmo. O homem tornou a correr. Quando virou-se para trás de novo, o fogo já vinha chegando perto. Tornou a correr. A aldeia já  estava perto. Ele ia chegando ao brejo e fogo já vinha perto mesmo. O homem entrou no brejo e o  sapinho (proré) gritou muito. O sapinho é compadre (hõpin) da anta. O homem entrou e saiu do  outro lado. A anta chegou ao brejo e o sapinho gritou muito. Ela parou e gritou para o homem:  

“Oh, se o caminho não tivesse nada atrás de você, você não iria bom não! Só porque eu respeito  o compadre”.  

 

O homem escutou e parou. E foi caminhando devagar, mas muito cansado. A anta voltou e foi-se  embora. E o homem chegou à aldeia e contou para a mulher:  

“Se eu ficasse lá na árvore, eu não tinha voltado não; a anta falou comigo e voltou para buscar  fogo e me sapecar. Não vou mais fazer espera”. 

 

MELATTI, Julio Cezar. Outras Versões de Mitos Craôs – Recolhidas por Julio Cezar Melatti, de 1962 a 1971, com alguns comentários do mesmo pesquisador. Brasília, 2010. p. 82. 

 

A Velha que Virou Tamanduá: 

 

Dizem, que uma índia ficou com seus netos, dando-lhes de comer; a filha sai para o mato e ela ficava tomando conta dos netos até que chega a filha. Mas quando ela abusou [se cansou], diz-se que saiu com os netos:  

“Vamos buscar puçá (krotot)! Todo o mundo vai até o pé de puçá e vocês vão sacudir os galhos para mim comer.”  

 

E os netos a levaram. Chegaram ao pé de puçá e todos os netos subiram, e ela ficou no chão. Tiravam os maduros e jogavam para ela. Jogavam e o puçá lhe batia nas costas.  

“Oh, meus netos, não brinquem comigo, eu quero encher o cofo e vai chegar a hora de ir embora!”  

 

Eles não se importaram. Então os mais velhos perguntaram:  

“O que vamos virar?”  

“Vamos virar periquito”, responderam.  

Então todo o mundo virou e ela ficou aí embaixo. Voaram todos. E ela gritando: “Oh, voltem meninos! Vamos embora!”  

 

Mas eles foram-se embora. Ela ficou. Falou para si mesma:  

“Agora como é que eu vou ficar? Vou virar um bicho, meus netos já foram embora, os pais vão brigar comigo!”  

Então ela virou bandeira e foi para o mato. Chegou num cupim, cavou, e foi comendo; até chegar no mato. Fez a cama e se deitou como bandeira. 

 

MELATTI, Julio Cezar. Outras Versões de Mitos Craôs – Recolhidas por Julio Cezar Melatti, de 1962 a 1971, com alguns comentários do mesmo pesquisador. Brasília, 2010. p. 87. 

 

Aldeia dos Mortos: 

 

Uma história para o lado do oeste  

Um índio morreu para as bandas do Araguaia. Seu irmão mandou que um homem e um rapaz  fossem atrás da ossada para colocar na sepultura. Foram indo até a beira do Araguaia. Era muita  gente. Era tudo defunto de índio. Uns cantavam, outros tomavam banho. Pegaram barca. Passaram a aldeia. Aí viram a sepultura. Tiraram os ossos. Fizeram um cofinho e puseram os ossos.  

 

De tarde resolveram passarem a noite num lugar. Puseram o cofo num pau [árvore]. Daí a pouco  os ossos estavam mexendo. A alma chegou aos viajantes, se coçando. E falou com o mais velho:  

“Se quiser dormir, pode dormir; não vou mexer nada não. Fiquei com muita pena de vocês; estão aqui com os civilizados”. Perguntou pelos parentes.  

 

Quando viajaram, a alma acompanhou. Chegaram perto da aldeia. Avisou para dar aviso para a  mãe não chorar não, porque ia andar lá á na casa dela. Mandou o recado, mas não deram. A mãe viu o mekarõ do filho e começou a chorar. De lá mesmo o … [palavra pouco legível; pode ser “outro”,  ou pode ser “vento”, que faz mais sentido] o levou.  

 

MELATTI, Julio Cezar. Outras Versões de Mitos Craôs – Recolhidas por Julio Cezar Melatti, de  1962 a 1971, com alguns comentários do mesmo pesquisador. Brasília, 2010. p. 92.