Apinajés

OS APINAJE E AS RELAÇÕES ENTRE MUNDO VEGETAL, ANIMAL E MINERAL: MITO DE SOL E LUA. A CRIAÇÃO DO MUNDO E DA HUMANIDADE APINAJE POR MTI E MWRRE. 

 

Uma das formas de os Apinaje expressarem suas relações com o meio ambiente está colocada no principal ciclo mitológico que é o mito de Sol e Lua.

 

Mito de Sol e Lua: 

 

No princípio do mundo havia apenas a terra (pika) com o mundo vegetal. Ainda não existiam as caças e os vegetais eram pequenos, de um tamanho que se podia alcançar a copa dos buritis com as mãos. O céu também era mais baixo que atualmente, passando logo acima da copa das árvores mais altas. Mti (Sol) e M wr re (Lua) moravam no céu. Um dia Mti chamou Mwrre para descerem e habitar aquele outro mundo e transforma-lo num bom lugar para seus filhos viverem. Desceram e fizeram uma morada. Em seguida caminharam pelo mundo transformando-o.

  

Um dia, Mwrre morreu. Mti cantou a noite toda para ele. De manhã, Mti foi enterrar Mwrre. Fez uma cova rasa e foi embora. Quando foi pelo meio-dia, Mwrre viveu novamente. Voltou para onde estava Mti. Este gostou de seu companheiro ter ressuscitado e voltaram novamente a andar pelo mundo.  

 

Um dia Mti morreu. Mwrre cantou a noite toda para ele. Pela manhã foi sepultá-lo. Sepultou-o numa cova mais funda que aquela feita por Mwrre. Mas Mwrre não voltou para casa, ficando ao lado da sepultura. Quando Mti quis sair da sepultura, Mwrre correu e empurrou-o para dentro. Ficou observando. Quando a terra começou a estufar em outro lugar, Mwrre, o impediu que saísse.  

Mti viajou uma légua por debaixo da terra e conseguiu sair.  

 

Voltou para onde estava Mwrre, e queixou -se que ele não quisera sua ressurreição.  


Mwrre respondeu: “Assim é que está bom! Quando um morrer, ele será sepultado e não volta não. Seu corpo fica no chão e sua alma vai para o lado do sol poente. Vai morar lá. Assim, vai deixando lugar para os mais novos. Quando ele morre, já tem outro em seu lugar. Mas se morresse e revivesse, não morreria mais e aumentaria de tal maneira que faltaria comida para todos. Quando eles estivessem com fome, poderia ocorrer matarem-se e comerem-se uns aos outros. Feito desta maneira, vai se afastando, sendo que a comida se torna suficiente para todo mundo.”  

 

Mti consentiu: “Você está certo. Eu não estava pensando nisso.”  


Novamente voltaram a andar. Um dia Mti foi para o céu, sem avisar Mwrre, buscar ferramentas. Soltou o facão e o machado na roça. As ferramentas foram trabalhando e derrubando as árvores.  

Mwrre, que andava pelo mundo, ao passar perto da roça, ouviu o barulho e pensou: “ixkràmgêx deve ter achado alguns trabalhadores e colocou para trabalhar. Vou lá reparar o serviço deles.”  


Assim que chegou, o facão e o machado caíram no chão. Mwrre mandou que eles trabalhassem, mas as ferramentas não se mexeram. Mwrre apanhou o fac ão e roçou. Apanhou o machado e cortou. Após isso, as ferramentas não trabalharam mais.  

Mti foi para onde ficava a roça. Escutou que estava tudo quieto. Apanhou as ferramentas e foi deixá-las no céu. Ao voltar, falou com Mwrre: “pahkr àmre, foi você que foi olhar os trabalhadores?”  

 

Mwrre respondeu: “Sim. Eu escutei bater e fui reparar. Mas eles não trabalharam. Eu falei para eles trabalharem, mas não se mexeram. Eu peguei o facão, rocei o mato e o deixei lá. Apanhei o machado, cortei o pau e o deixei lá.”  

Mti retrucou: “Por que você fez isso? Quando nós descobrirmos nossos filhos, eles não trabalhariam. Ficariam quietos em casa, enquanto as ferramentas trabalhariam. Mas você foi empatar o trabalho deles.”  

 

Mwrre respondeu: “ixkràmgêx, assim é que é bom. Quando nós descobrirmos nossos filhos, eles vão trabalhar por eles mesmos. Vão plantar a roça no tamanho que podem cuidar. Mas se as ferramentas trabalhassem sozinhas, iriam derrubar muito mato. Sem coragem para plantar tanta roça, haveria desperdício. Que aconteceria com as matas? Elas poderiam se acabar. Onde os nossos filhos iriam trabalhar? Eles trabalhando por sua própria força, derrubam a quantidade de mata que podem plantar e cuidar. Assim sempre haverá mata para trabalhar.”  

Mti concordou.  

 

Então foram inventar a caça: veado, caititu, anta… As caças ficavam no terreiro da casa. As casas dos marimbondos ficavam grudadas nas paredes da casa e as cobras ficavam no “pé da parede”.  


Um dia Mwrre foi onde estava Mti . Haviam duas grandes cobras cascavel de guarda na porta da casa de Mti. Mwrre viu duas antas que estavam tendo relação sexual e não gostou. Apanhou um caroço de buriti, atirando-o na cabeça da anta macho. Com o golpe, a anta caiu. Assustada, levantou-se e saiu correndo. No barulho, todas as caças correram e espalharam-se.  


Mti ouviu o barulho. Chegou à porta e viu a debandada das caças.  


Falou com Mwrre: “ pahkràmre, por que você fez uma coisa dessas?  


Mwrre respondeu: “O anta estava fazendo sexo com a anta. Eu fiquei com vergonha e joguei um caroço na cara dele.”  

Mti disse: “Quando nós descobrirmos nossos filhos, se eles quiserem comer, pegam uma caça no terreiro, mata e come.”  

Mwrre retrucou: “Não é bom assim. É preciso ser bom caçador. Ele anda, mata a caça e come. Quem não é bom caçador, a sua mulher pede um pedaço e todos comem. Mas se todas as caças estivessem no terreiro, matariam muito de uma vez, podendo acabar com as caças. Se estas acabarem, nossos filhos podem vir a comerem-se uns aos outros. Então, assim, o caçador é que mata. Quem não for caçador, não mata. Assim não acabam as caças.”  

 

Mti concordou.  

 

Voltaram a andar.  

 

Um dia Mti foi para uma cabeceira onde achou um buriti com frutas maduras, comendo-as. Isto fez com que suas fezes ficassem com uma cor vermelha. Quando Mwrre observou isto, perguntou a  Mti o que ele tinha comido que deixou seu excremento vermelho pois gostaria que o seu também tivesse aquela cor.  


Mti disse -lhe que seu excremento tinha aquela cor porque comia flores de pau d’arco, recomendando-lhe que as comesse em jejum. Mwrre obedeceu, mas seu excremento ficou preto. Ao perceber que havia sido enganado, Mwrre seguiu Mti observando -o quando ele estava comendo frutas de buriti. Mwrre queixou -se do logro que Mti lhe pregava. Este, então, convidou-o para que comesse com ele. Mwrre aceitou. Mas quando foi comer, Mti sussurrou: “uma banda dura,” e todas as frutas que experimentava estavam maduras de um lado e tinha o outro duro e intragável. Mwrre zangou -se e atirou uma das frutas no tronco do buriti. Imediatamente a palmeira cresceu, juntamente com todos os troncos das demais árvores. Neste processo, o céu, que também era baixo, foi levantado, elevando-se até sua altura atual.  


Mti disse a Mwrre que não devia ter feito aquilo. Quando eles descobrissem os filhos, estes poderiam colher as frutas diretamente nos pés e não sentiriam fome. Mwrre discordou dizendo que assim era melhor. Quando os seus filhos estivessem andando na chapada, de longe avistariam um buriti alto e saberiam que ali poderiam encontrar água.  


E voltaram a andar.  


Um dia houve um grande incêndio no cerrado. Mti salvou -se escondendo-se numa casa de marimbondo feita de terra. Mwrre sofreu queimaduras porque se escondeu num casa de marimbondo feita de capim. Depois da queimada, saíram procurando as caças queimadas. Encontraram veados, tatus, emas, seriemas. Juntaram tudo e levaram à cabeceira de um riacho onde iriam limpar as caças e moquea-las. Mti tirou um pedaço de carne de veado campeiro. Mwrre tirou um pedaço de carne de veado. O pedaço de Mti estava gordo, pingando gordura sobre o fogo. A de Mwrre, não tinha gordura, nem pingava. 

 

Este foi falar com Mti: “ixkr àmgêx! Sua carne é gorda. Quando acabar de assar, você me dá um pedaço. Ou então nós trocaremos um pedaço.” Mti concordou: “Quando acabar de assar eu te dou.”  

Depois que as caças ficaram assadas, eles levaram embora. Mti disse; “agora, está no tempo de descobrirmos nossos filhos. Nós já ajeitamos a caça. Agora temos que descobrir nossos filhos.”  


As cabaças já estavam todas maduras. No outro dia, foram para a roça. Limparam a beira do ribeirão. Mti tirou cabaças para ele e Mwrre as dele. Fizeram uma ponte, com um pau atravessado sobre o ribeirão. Cada um tinha sua ponte.

  

As cabaças eram enormes. Tiraram todas as cabaças da roça e levaram para a beira do ribeirão.  Mti disse: “Agora você fica olhando para aprender de que maneira eu faço.”  


Mti rolou uma cabaça comprida. Esta bateu no pé da ponte, caindo na água. Quando se levantou, já era índio. Levantou-se e sentou na ponte. Em seguida rolou uma cabaça menor, que era para sair a mulher dele. Ela saiu e sentou-se na ponte.  


Mwrre foi fazer a sua vez. Este rolou algumas cabaças que se transformaram em índio. Numa das cabaças, Mti falou: “É para ser aleijado.” Quando o índio saiu do ribeirão, era aleijado. Mwrre soltou outra cabaça, que nasceu bom.  


Depois jogaram todas as cabaças no ribeirão e todos viraram índios.  


Em seguida, Mti disse: “Agora nós vamos levá-los e deixá-los na aldeia deles.” 

 

Mti já havia falado e uma aldeia grande já havia sido feita com casas na quantidade de casais de índios. Foram colocando um casal em cada casa até que completou o círculo. Não sobrou casa sem índios, nem índios sem casa.  


Esta aldeia, Mti dividiu -a no sentido leste / oeste, dizendo: “Os meus filhos [Koti] morarão na 11 parte norte!” “E os meus [Kore] na parte sul!”,14 disse Mwrre. Assim se formaram as duas metades Koti e Kore. Mti disse: “Quem tomará conta da aldeia?” e imediatamente Mwrre respondeu: “Deve ser Kore!” Mas Mti desta vez não concordou: “Não, deve ser Koti!” E assim ficou para sempre, pois [segundo Nimuendajú] os Koti sempre governam. Em seguida casaram os filhos entre si e deram-lhes muitos conselhos.  

No início da noite, Mti chamou todos os índios para a praça. Mwrre cantou noite toda com maracá. Ao amanhecer, Mti falou: “Agora que nós já descobrimos vocês, são vocês que devem tomar de conta do terreno, que é de vocês. Nós vamos embora para o céu.”  


Os índios falaram: “Não nos deixem. Quem vai nos dar conselhos?”  


Mti falou: “Nós não vamos para longe. Nós vamos ficar perto de vocês. Num dia quando vocês morrerem, vocês irão atrás de nós. Não serão apenas vocês que ficarão. Vai se descobrir irmãos de vocês, parentes de vocês. Vão sair já vestidos: os kup~e , os derradeiros. Vocês que são os primeiros, são os panh. Vocês vão ficar nu. Nós vamos para onde o sol se põe. Quando vocês ficarem cansados de morarem aqui, procurem o sol poente. Lá na frente tem um rio que é igual um céu. Quando chega na margem, você olha para a frente e somente vê céu e água. Lá vocês farão balsa de buriti e viajam sempre para o sol poente até atravessar o rio. Na outra margem é que vocês verão mata na frente.”  


Saíram e disseram: “De vez em quando nós faremos um sinal para vocês. Quando vocês estiverem viajando, ao encontrarem um sinal, saberão que passamos por ali e poderão viajar para frente.”  

Foram embora e desde então os índios andaram sós.  


GIRALDIN, O. OS FILHOS PLANTADOS: A RELAÇÃO APINAJÉ COM AS PLANTAS CULTIVADAS. II encontro regional de História. Universidade Federal de Tocantis, 2004. p.4-9.

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