Viola Caipira

Caipira: a música e a viola 

Toco viola de noite, aprecio o firmamento,

viola tem som de bicho, quando traz um guizo dentro,

é coruja que arrepia quando solta o seu lamento.

Viola vem lá do mato, lá do meio da quiçaça,

de cocho, de buriti, de madeira ou de cabaça […]

A viola é companheira, de caminhos e atalhos,

rio abaixo, rio acima, folia, farra e trabalho […] 

Machado cortou madeira, “dirrubou” ela no chão,

um pedaço virou casa / e o outro foi pro fogão,

meu pedaço é a viola / que chora na minha mão

(Ramiro 2013).

 

A música caipira está carregada de significados da relação do ser humano com o meio ambiente, ainda que seja como uma nostálgica ou triste lembrança de suas raízes de origens. Em entrevista com o violeiro e compositor mineiro Chico Lobo, fica marcante o entendimento de que “a música caipira vem do interior do Brasil e do interior de nossa alma. Do sertão geográfico e do sertão coração e metafísico” (Corrêa 2014: 57).

E fazendo parte essencial na música caipira, a Viola Caipira é um instrumento que sempre esteve presente desde sua formação. No Brasil, a viola está presente em diversas manifestações tradicionais da cultura popular, como a dança de São Gonçalo, as Folias de Reis, a festa do Divino, os desafios, o fandango, a catira, o samba de roda e, com mais frequência, nas diferentes modalidades de músicas sertanejas, desde o Sul até o Nordeste do Brasil, compondo uma riqueza de diversidade de estilos e sotaques (Souza 2005). Existe uma variedade de ponteados e ritmos abarcados pela viola na música caipira: cururu, cateretê, moda de viola, querumama, pagode, recortado, guarânia, polca, batuque, cipó-preto, lundu, congada, folia, jaca, toada, samba rural, chamamé e valsa, estão entre os principais.

A Viola Caipira é considerada, por excelência, um instrumento musical do meio rural, difundido em todo país, e que traduz formas lúdicas de socialização (Mestres da Viola 2011), assim como também nos informa Oliveira (2004: 16), que “na literatura sobre música brasileira, a viola é remetida ao espaço do rural: ela é o símbolo das musicalidades praticadas no meio rural brasileiro.” Foi muito tocada na região centro-sul do Brasil para dar ritmo aos que estavam colhendo ou carpindo, participando dos cantos de trabalho que acompanhavam colheitas e mutirões (Vilela 2013).

Em depoimento o violeiro Paulo Freire[1] lembra que a criação na viola carrega tudo que existe no sertão, a natureza e a lida do ser humano, sendo impossível dissociar a viola do sertão ou do sertanejo. E ele complementa: “quem quer ser violeiro tem que conhecer a roça. Os toques de viola falam da natureza, da relação do homem com sua terra, então como é possível aprender a música sem conhecer o homem e a terra?” (Marchi, et al. 2002: 28).

Não só no meio rural, como nas cidades, a viola vem ampliando sua atuação, e segundo nos fala Corrêa (2014: 41) “o seu avivamento a partir da segunda década do século XX vem resgatar sua importância como instrumento identitário e, também, como instrumento libertário.” Percebe-se no século XXI, cada vez mais a difusão da viola.

Na diversidade musical de nosso país, nessa segunda década do século XXI, temos uma notável presença da viola. Mais que um ressurgimento, já que a viola sempre esteve presente nas práticas musicais da vida rural, podemos falar de um avivamento, uma expansão de seu uso e até mesmo da criação de uma nova música (Corrêa 2014: 14).

Capim dourado / Dourado pelo Cerrado

Dourado pra todo lado / Dourado quer me dourar.

Capim dourado / Dourado pelo Cerrado

Dourado pra todo lado / Dourado que é pra durar.

 

Capim dourado / Não doura antes do tempo

Tem a hora e o momento / De colher que é de plantar.

Capim dourado / Nos dá tudo do sustento

Quem faz dele o seu talento / Tá cuidando pra ganhar.

 

Capim dourado / Douradinho de beleza

Pelas mãos da natureza / A riqueza: O pão já lá.

Capim dourado / É um fruto do Cerrado /

E o Cerrado se serrado / Se queimado

 

O que será da gente

Que vive e que sonha / Ser contente

Qual fruto e futuro pela frente

Quem sente é que sabe cuidar.

 

Catando coco, menino / Catando coco, menina

Catando coco enquanto doura o capim.

Catando coco, menino / Catando coco, menina

Catando coco enquanto doura o capim (Medina 2011).

 

Fonte:

Corrêa, Jussânia. Ecomusiologia no Cerrado. uma relação de violeiros e meio ambiente no interior do Brasil. Entrevista, 2017.

Corrêa, Roberto Nunes. “Viola Caipira: das práticas populares à escritura da arte.” Tese de doutorado, Universidade de São Paulo, 2014.

______.  A Arte de Pontear Viola. Ministério da Cultura. Projeto Três Américas – Associação Cultural. Brasília – Curitiba: Ed. Autor, 2000.

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