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Para preservar a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos do Cerrado são necessárias ações urgentes. 

No Cerrado, existem povos indígenas e comunidades tradicionais que há décadas utilizam seus recursos como o pequi, o babaçu e o baru, entre muitas outras árvores frutíferas, para produção de polpa, óleo, cosméticos e artesanatos para geração de renda. Não precisa destruir o Cerrado para servir-se de todo o seu potencial. De pé, o Cerrado vale mais. Proteger as áreas de Cerrado que ainda existem é garantia de água, alimentos, medicamentos e tantos outros benefícios, não só para aqueles que aqui vivem mas para o Brasil todo.  

Das atividades mais danosas ao Cerrado, a principal tem sido a agricultura, especialmente o cultivo de soja. A solução para evitarmos a perda de uma quantia significativa de vegetação nativa e, ao mesmo tempo, bater metas de produção de soja seria a moratória da soja, ou seja, um pacto ambiental selado entre sociedade civil, indústria e governo para proibir a compra de grãos plantados em terrenos com desmatamento recente.  

A primeira análise quantitativa da expansão da Moratória da Soja (soja) da Amazônia brasileira para o bioma Cerrado foi feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e publicado em 2019, onde mostram que a expansão da soja para o Cerrado impediria a conversão direta de 3,6 milhões de ha de vegetação nativa em soja até 2050. Nacionalmente, seria uma redução na área de soja de aproximadamente 2%; isso equivale a mais de 5 milhões de campos de futebol. Para conciliar a preservação ambiental com o aumento da produtividade agrícola é só usar melhor a terra. De acordo com o estudo, já existem pelo menos 25,4 milhões de hectares de área desmatada na região, usada principalmente como pasto para pecuária extensiva de baixa eficiência.

"A responsabilidade desse problema é compartilhada por todos os atores da cadeia produtiva, do produtor ao consumidor, incluindo traders, frigoríficos, empresas do varejo, investidores, indústria de insumos agrícolas e companhias de terras. 

A busca por soluções capazes de frear rapidamente a destruição do Cerrado também é uma responsabilidade que precisa ser assumida por esses mesmos atores. E vale ressaltar que, embora importante, a aplicação da legislação ambiental, por si só, não será suficiente para garantir a conservação do bioma, já que permite a conversão legal de até 80% dos imóveis rurais. 

O setor privado aprendeu que é possível produzir sem provocar novos desmatamentos diretamente associados à sua cadeia produtiva, como é o caso de sucesso da Moratória da Soja na Amazônia. A articulação e o trabalho colaborativo entre os diferentes elos da cadeia produtiva, contando com o apoio do governo e o acompanhamento da sociedade civil, foi o caminho trilhado na Moratória da Soja, e agora deve inspirar as ações no Cerrado.  

  As Organizações da Sociedade Civil, abaixo assinadas, pedem uma medida imediata em defesa do Cerrado a ser tomada pelas empresas que compram soja e carne desse bioma, assim como os investidores que atuam nesses setores, no sentido de adotarem políticas e compromissos eficazes para eliminar o desmatamento e desvincular suas cadeias produtivas de áreas naturais recentemente convertidas. 

O governo brasileiro também precisa garantir que a lei e os compromissos internacionais assumidos sejam cumpridos, e espera-se que sejam criados instrumentos e políticas necessários para a melhor ordenação da atividade produtiva no Cerrado. Nesse sentido, a criação de áreas protegidas é primordial, bem como a garantia do direito à terra para povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos agricultores da região. É fundamental também que os dados oficiais de desmatamento do Cerrado sejam publicados anualmente, assim como já ocorre na Amazônia. 

Incentivos e instrumentos econômicos devem ser desenvolvidos, tanto pelo governo como pelo setor privado, no sentido de recompensar o esforço de produtores em conservar áreas de vegetação nativa mesmo que elegíveis ao desmatamento legal. 

Esse esforço coletivo e multissetorial possibilitará a conciliação da continuidade da produção, com o desenvolvimento de uma economia diversificada na região, garantindo direitos e renda a comunidades locais e a devida proteção dos valiosos ecossistemas naturais do Cerrado".   

Fonte: Nas mãos do mercado, o futuro do cerrado: é preciso interromper o desmatamento, 11 de setembro de 2017. Disponível em:<https://d3nehc6yl9qzo4.cloudfront.net/downloads/manifestodocerrado_11setembro2017_atualizadooutubro.pdf>. Acessado em: 14 de jun. de 2020.

Grupo de trabalho do Cerrado