Monoculturas

“As principais culturas cultivadas no Cerrado são a soja, cana-de-açúcar, milho, algodão, café e árvores. Os dados sobre hectares, toneladas e valores dessas culturas estão disponíveis apenas para os estados e municípios, seguindo a divisão político-administrativa, e não para o recorte do bioma, mas podem ser feitas algumas estimativas de magnitudes relativas.” 

“No Cerrado, os grãos são normalmente plantados como monocultura, uma vez que a topografia relativamente plana permite a mecanização das etapas de preparação do solo, cultivo e colheita. Mesmo as colheitas de cana-de-açúcar e café, que até recentemente eram ainda inteiramente manuais, utilizando mão de obra migrante, estão agora sendo mecanizadas (Silva, J. F. G., 1981; Ortega, Jesus e Mouro, 2009).” 

 

Fonte: SAWYER, D. et al. Perfil Do Ecossistema: Hotspot De Biodiversidade Do Cerrado. Brasília: Supernova Design, 2018, p. 140.

“Em geral, qualquer plantio homogêneo causa problemas que já são bem conhecidos. Estes problemas são ambientais (práticas agrícolas inadequadas que causam erosão, perda de biodiversidade, contaminação de mananciais e de pessoas com agrotóxicos, emissão de gases de efeito estufa) e sociais (expulsão de comunidades de seus territórios, concentração de renda, destruição de recursos naturais amplamente utilizados pelas comunidades locais).

Especificamente no caso da cana-de-açúcar, com o aumento das áreas plantadas, é cada vez mais frequente a constatação de problemas que envolvem a não observância das áreas de preservação permanente e a prática de trabalho escravo ou similar ao escravo. Na maioria dos casos, os trabalhadores são horistas e ganham por produtividade, trabalhando à exaustão, sob más condições de alojamento e alimentação. Tais questões precisam ser devidamente consideradas na discussão da estratégia do governo federal de promoção em larga escala do uso de biocombustíveis”.


Fonte: INSTITUTO HUMANISTAS UNISINOS. Cerrado, mera fonte para aumentar o PIB brasileiro. Entrevista especial com Lara Montenegro. Instituto Humanistas Unisinos, 2012. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/514233-cerrado-e-visto-como-fonte-para-aumentar-o-pib-brasileiro-entrevista-especial-com-lara-montenegro>. Acesso em: 06 de maio de 2020.

“A soja é a principal nova cultura no Cerrado. A expansão no sul do Brasil foi ativada por investimentos públicos em tecnologia agrícola na década de 1970, principalmente pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), muitas vezes em associação com empresas como a Monsanto e a Bunge, especialmente para a soja geneticamente modificada (Christoffoli, 2010).” 

O Cerrado tem sido responsável por 35% de toda a produção agrícola no Brasil, incluindo 58% da produção total de soja do país. A produção de soja, sem dúvida, continua a crescer, porque os grãos têm muitos usos para alimentos, rações e indústria no Brasil e no exterior. É inútil lutar contra a presença da soja no Cerrado (Pufal, 1999).

Em resposta às críticas sobre os impactos sociais e ambientais negativos, uma Mesa Redonda sobre Soja Responsável foi organizada em 2004, com o forte apoio dos Países Baixos, um grande importador (Dros e Van Gelder, 2002). As associações de plantadores participaram, mas têm sido relutantes sobre a implementação. A moratória associada à expansão da soja, limitada principalmente à Amazônia, tem em certa medida intensificado a pressão sobre o Cerrado”.

 

Fonte: SAWYER, D. et al. Perfil Do Ecossistema: Hotspot De Biodiversidade Do Cerrado. Brasília: Supernova Design, 2018, p. 141.

 

“A cana-de-açúcar é usada para produzir etanol (Sawyer, 2014), em um esforço destinado a reduzir as emissões de gases de efeito estufa geradas pelo uso de combustíveis fósseis. Há também benefícios para a saúde humana, devido à menor poluição do ar nas áreas urbanas. Por outro lado, a expansão dos canaviais gera impactos negativos sobre a biodiversidade”.

 

Impactos Ambientais:

 

“A cana-de-açúcar geralmente não constitui uma causa direta de desmatamento, mas, como mencionado acima, a expansão em áreas de soja ou pecuária pode provocar a mudança indireta no uso da terra, ou seja, o desmatamento em outros locais, se os proprietários que vendem sua terra deslocam-se para áreas de fronteira, onde a terra também é muito mais barata”.

 

Fonte: SAWYER, D. Perfil Do Ecossistema: Hotspot De Biodiversidade Do Cerrado. Brasília: Supernova Design, 2018, p. 141-142.

 

“Os impactos ambientais gerados a partir do intenso cultivo da cana-de-açúcar para suprir, sobretudo, à demanda por etanol podem ser reversíveis ou não e apresentar efeitos positivos ou negativos. A cultura da cana, assim como toda atividade agrícola, gera sempre algum impacto no meio ambiente, na medida em que emprega recursos naturais como água e solo e faz uso de insumos e defensivos químicos, como fertilizantes e praguicidas. Dentre os principais impactos ambientais negativos gerados a partir do cultivo de cana-de-açúcar podemos citar:

 

∙ Redução da biodiversidade, causada pelo desmatamento e pela implantação da monocultura;

∙ Expansão da fronteira agrícola para áreas de proteção ambiental;

∙ Contaminação do solo e das águas superficiais e subterrâneas por efluentes, devido à prática de adubação química, aplicação de corretivos minerais e de agrotóxicos, herbicidas e defensivos agrícolas;

∙ Comprometimento da qualidade e disponibilidade de água para abastecimento;

∙ Compactação e desgaste do solo, sobretudo, devido ao tráfego de máquinas pesadas durante o plantio, tratos culturais e colheita;

∙ Assoreamento de corpos d’água devido à erosão do solo e desmate ilegal de matas ciliares;

∙ Alteração da qualidade do ar e clima da região pela prática das queimadas;

∙ Emissão de fuligem e gases de efeito estufa (GEE) pela queima de palha ao ar livre durante o período de colheita;

∙ Danos à flora e fauna causados, sobretudo, por perda de habitat e queimadas fora de controle;

∙ Aumento da poluição devido ao consumo intenso de óleo diesel nas etapas de plantio, colheita e transporte; entre outros”.

 

Fonte: RODRIGUES, L. A Cana-de-Açúcar como Matéria-Prima para a Produção de Biocombustíveis: Impactos Ambientais e o Zoneamento Agroecológico como Ferramenta para Mitigação. Juiz de Fora: Universidade Federal de Juiz de Fora, 2010, p. 23.

“O algodão para uso na produção de têxteis no Brasil e no exterior também está sendo cada vez mais cultivado em vastas áreas do oeste da Bahia e partes de Goiás. O algodão é notório pela dependência do uso intensivo de agrotóxicos e seus impactos sobre a saúde humana e o meio ambiente. Os principais consumidores industriais de algodão do Brasil são empresas têxteis, lideradas pela Coats Corrente, Coteminas, Santista, Bezerra de Menezes, Canatiba e Vicunha Nordeste”.

 

Fonte: SAWYER, D. et al.  Perfil Do Ecossistema: Hotspot De Biodiversidade Do Cerrado. Brasília: Supernova Design, 2018, p. 142.

 

“Existem hoje grandes monoculturas de milho sobre as terras planas do Cerrado e a oferta abundante atrai a avicultura e a suinocultura. O milho pode ter rotatividade com a soja, algodão e o sorgo, e pode haver uma segunda colheita no mesmo ano. Além de ração para animais, suinocultores do sul do Brasil e da Europa são atraídos para a região pela falta de restrições severas quanto à disposição de resíduos, o que tem causado sérios problemas de poluição na Holanda e em Santa Catarina (Lazaretti, 2013). Atualmente, cerca de 90% de todo o milho cultivado no Brasil é transgênico”.

 

Fonte: SAWYER, D. et al. Perfil Do Ecossistema: Hotspot De Biodiversidade Do Cerrado. Brasília: Supernova Design, 2018, p. 142.

 

“A produção de café deslocou-se de São Paulo e Paraná para a região do Cerrado de Minas Gerais, grande parte da qual é montanhosa. A cafeicultura fugiu das geadas, mas pode ter que se deslocar de volta para o sul para latitudes mais frias. Algumas culturas de café no Cerrado são de variedades gourmet com todos os tipos de certificação, em vez da produção em grandes quantidades para a exportação (Motta, T., 2015). O crescimento é muito descentralizado entre os agricultores, mas o processamento é feito por grandes empresas tais como Três Corações, Melitta, Cacique, Nescafé e Nespresso. O café raramente é sombreado por árvores nativas, como em alguns outros países, mas oferece algum abrigo e conectividade para a fauna nativa e os fluxos gênicos”.

 

Fonte: SAWYER, D. et al. Perfil Do Ecossistema: Hotspot De Biodiversidade Do Cerrado. Brasília: Supernova Design, 2018, p. 142.