Povo Krahô

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Povo Krahô. Foto: Eliane Franco/Cimi GO-TO.

“Os Krahô vivem no nordeste do Estado do Tocantins, na Terra Indígena Kraolândia, situada nos municípios de Goiatins e Itacajá. Fica entre os rios Manoel Alves Grande e Manoel Alves Pequeno, afluentes da margem direita do Tocantins. O cerrado predomina, cortado por estreitas florestas que acompanham os cursos d’água. É mais larga a floresta que acompanha o rio Vermelho, que faz o limite nordeste do território indígena” (Melatti 2018).


Fonte: Melatti, Julio Cezar. Krahô. Site Povos Indígenas no Brasil. Disponível em:  <https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Krah%C3%B4>. Acesso em: 02 jul, 2020.  



“Roça de toco”, que consiste na derrubada e queima de uma área para o cultivo, que após dois ou três anos de plantio é deixada em pousio para que recomponha, naturalmente, a sua fertilidade.

Modelo tradicional de agricultura itinerante acaba sendo limitado pela proliferação de aldeias conjugada à fixação do povo em uma área restrita. Com o passar dos anos, as roças vão se tornando cada vez mais distantes das moradias (Londres [et al], 2014, p. 11).

É importante ter em conta que o uso do fogo (e da rotação de áreas) na agricultura Krahô não constitui apenas uma técnica de manejo: ele está profundamente arraigado na cultura, presente nas lendas, na sabedoria dos mais velhos, nos rituais. As práticas agrícolas tradicionais estão relacionadas a um modo de viver mehim: foram ensinadas por uma entidade divina, a estrela Catxêkwy, e os alimentos assim produzidos são compartidos entre membros da família e, por ocasião de diversos rituais, festas e cerimônias, também partilhados com toda a aldeia. Além disso, entre outros aspectos da cultura tradicional, o fogo é entendido pelos Krahô como um meio divino para a transformação – no caso, a transformação do terreno em roça (ibidem, p. 15-16).

O saber indígena, que a partir de séculos de observação, experimentação e prática defende que seu sistema tradicional garante maior segurança aos sistemas produtivos.

É relevante também observar que a agricultura tradicional de corte-e-queima não tem mostrado ameaçar, ao menos de maneira significativa, a conservação do Cerrado, dado que a Terra Indígena Krahô constitui atualmente a maior área contínua do bioma preservada no Brasil habitada por um único povo” (ibidem, p. 16).

Fonte: Flavia Londres … [et al.]. As sementes tradicionais dos Krahô: uma experiência de integração das estratégias on farm e ex situ de conservação de recursos genéticos. Rio de Janeiro: AS-PTA, 2014.

“Para os Krahô uma roça bonita é uma roça diversificada, bem cuidada e plantada com sementes antigas, vindas dos antepassados. Essa roça bonita é capaz de produzir alimentos ‘de verdade’, que irão suprir as famílias e assim constituir sua própria carne, produzindo gente bonita (Londres [et al], 2014, p. 14).

A agricultura Krahô é praticada em unidades produtivas familiares. As famílias, entretanto, não assumem de maneira individual a responsabilidade pela conservação de suas sementes, nem tampouco plantam todos os anos as mesmas variedades. Elas sabem que contam com um conjunto mais amplo – a própria aldeia e também outras aldeias parentes, com as quais mantêm relações – de circulação e conservação desses materiais. Assim, uma variedade de mandioca que foi cultivada há dois ou três anos, e já não se tenha, pode ser obtida com uma família vizinha. Do mesmo modo, a fava que se guarda na cabaça para o plantio na próxima estação pode ser compartilhada com parentes visitantes, possivelmente em troca de uma nova variedade de batata-doce” (ibidem, p. 28-29).

Fonte: Flavia Londres … [et al.]. As sementes tradicionais dos Krahô: uma experiência de integração das estratégias on farm e ex situ de conservação de recursos genéticos. Rio de Janeiro: AS-PTA, 2014.

“Para os índios Krahô as sementes antigas guardam um valor muito especial, são consideradas como membros da família. Os processos de conservação de materiais genéticos, em realidade, envolvem não apenas cada unidade familiar (e produtiva), mas também a aldeia onde se vive e outras aldeias com cujos membros se mantenham relações. Uma determinada variedade pode ser plantada por uma família mehim em um ano, não ser plantada em anos seguintes e depois retornar ao roçado através de práticas de troca ou partilha. Esses materiais circulam e são considerados um bem coletivo” (Londres [et al], p. 19, 2014).

Uma questão vista ainda como um grande gargalo à conservação das variedades locais pelos Krahô é o armazenamento. Comumente as sementes são guardadas em abrigos provisórios construídos nas roças, que não raro distam 8 a 10 km das aldeias. Nos abrigos, as sementes ficam vulneráveis ao fogo que periodicamente queima o Cerrado e ao furto por passantes de outras aldeias. Quando guardadas dentro de casa, nas épocas mais críticas do ano as sementes viram objeto de forte tentação, sendo muitas vezes consumidas como alimento (ibidem, p. 34).

Lideranças da aldeia Morro do Boi, justamente a que mais se destaca na agricultura entre os Krahô, têm manifestado o interesse em experimentar mecanismos que proporcionem maior segurança no armazenamento das sementes. Através da participação em eventos (como a própria Feira Krahô de Sementes) e debates, souberam da existência dos Bancos de Sementes Comunitários, ou Casas de Sementes. Inspirados nesse modelo, estão solicitando o apoio da Funai para a construção de uma casa para o armazenamento coletivo das sementes – seguindo-se, entretanto, a lógica mehim familiar: cada família teria a “sua” semente armazenada na casa coletiva (ibidem, p. 34-35).

Outra questão identificada como importante para investigação e experimentação junto aos Krahô são as próprias técnicas de armazenamento, pois tradicionalmente as sementes são guardadas penduradas sob o telhado das casas e dentro de cabaças – em ambos os casos, expostas às variações de umidade do ar e ao ataque de insetos. É também preciso investir junto aos indígenas no trabalho de seleção das melhores plantas para a retirada de sementes – uma prática antiga dos Krahô mas que, assim como outros aspectos da cultura tradicional, foi perdida. Segundo relatam técnicos da Funai, não se percebe uma atenção especial dirigida à seleção das sementes, sendo em alguns casos até mesmo praticada a chamada “seleção negativa”, quando as melhores plantas são consumidas, ficando apenas as piores para semente” (ibidem, p. 35).

Fonte: As sementes tradicionais dos Krahô: uma experiência de integração das estratégias on farm e ex situ de conservação de recursos genéticos / Flavia Londres … [et al.]. – Rio de Janeiro: AS-PTA, 2014.

“Segundo a cultura do povo Krahô, as sementes das inúmeras espécies alimentares que conhecemos hoje foram trazidas ao mundo por uma estrela chamada Catxêkwy. Transformada em uma rã, a estrela desceu ao pátio central da aldeia Krahô onde, ao relento, dormia um jovem mehim (que na língua Jê pronuncia-se “merrim” e significa “índio”). A estrela então transformou-se em uma bonita mulher, casou-se com o mehim e deu a ele sementes de milho, mandioca, batata-doce, inhame e outros alimentos. Catxêkwy ensinou ao mehim a prática da agricultura, bem como o preparo de alimentos como o paparuto, uma receita tradicional a base de milho ou mandioca e muito utilizada em festas e rituais.

Enquanto esteve na terra, Catxêkwy escondia-se dentro de uma cabaça – a mesma utilizada até hoje pelos indígenas para guardar suas sementes. Ela teve que voltar ao céu quando sua presença na aldeia foi descoberta pelos outros mehim, mas deixou para os Krahô as sementes e os conhecimentos sobre como utilizá-las. Entre as sementes deixadas, estavam variedades do pohumpéy: ‘milho bom’. Essas variedades são consumidas pelos homens nos dois últimos meses da gestação de suas esposas e, assim, garantem a saúde dos bebês. São dadas também às mães no período de resguardo e têm o poder de deixar os Krahô mais fortes” (Londres [et al], 2014, p. 9).

 

 

Fonte: Flavia Londres … [et al.]. As sementes tradicionais dos Krahô: uma experiência de integração das estratégias on farm e ex situ de conservação de recursos genéticos. Rio de Janeiro: AS-PTA, 2014.

“Inspirados na tradição da reunião e da partilha, e também nos processos relativos ao associativismo no âmbito da Kapéy, que os líderes Krahô idealizaram a Feira de Sementes: um espaço onde as aldeias se reuniriam para trocar sementes e conhecimentos a elas associados. É importante ressaltar que esse método de promoção da circulação de materiais genéticos, hoje tão utilizado pelo campesinato nacional, não existia então no Brasil (Londres [et al], 2014, p. 27).

Indígenas que buscavam sementes de batata, mandioca ou fava há tempos perdidas as encontraram com “parentes” de outras aldeias. Sementes valiosas que não se desejavam perder foram cedidas a habitantes de outras aldeias para que fossem multiplicadas e conservadas, reduzindo assim o risco de desaparecimento. A reprodução desses espaços de intercâmbio foi vista pelos Krahô como uma estratégia fundamental para a permanente circulação, multiplicação e conservação dos recursos genéticos locais.

Iniciativa de ampliar seu público, convidando para compartilhar sementes os “parentes de língua” (outros povos Timbira), como os Gavião, do Tocantins, e os Krikati e os Apinajé, do Maranhão. Pouco depois vieram os Xerente (TO), e então os Paresí (MT e RO), os Kayapó (PA), os Guarani (MS), os Guató (MS e MT), e a cada nova feira, mais parentes, provenientes das mais diferentes regiões do país.

Além de trocarem sementes, os povos apresentam suas danças, cantos, histórias, artesanato, pinturas corporais e conhecimentos – o evento constitui, assim, um importante espaço de in tercâmbio, valorização cultural e discussão das questões indígenas” (ibidem, p. 28).

Fonte: Flavia Londres … [et al.]. As sementes tradicionais dos Krahô: uma experiência de integração das estratégias on farm e ex situ de conservação de recursos genéticos. Rio de Janeiro: AS-PTA, 2014.

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