Povo Kayapó

Mulheres indígenas do povo Kayapó durante atividade extrativista — Foto: Cléber Oliveira de Araújo/Instituto Kabu.

“Os Kayapó vivem em aldeias dispersas ao longo do curso superior dos rios Iriri, Bacajá, Fresco e de outros afluentes do caudaloso rio Xingu, desenhando no Brasil Central um território quase tão grande quanto a Áustria. É praticamente recoberto pela floresta equatorial, com exceção da porção oriental, preenchida por algumas áreas de cerrado.  

O território kayapó está situado sobre o planalto do Brasil Central, a aproximadamente 300 ou 400 metros acima do nível do mar. Trata-se de uma região preenchida por vales. Pequenas colinas com altitude máxima de 400 metros, freqüentemente isoladas e dispersas sobre todo o território, espalham-se pelo planalto. Os grandes rios são alimentados por inúmeras calhetas e igarapés que, de tão pequenos, alguns se quer foram descobertos pelos brasileiros e tampouco receberam nomes” (Verswijver; Gordon 2018).


Fonte: Verswijver,  Gustaaf. Gordon,  Cesar. Mebêngôkre (Kayapó). Site Povos Indígenas no Brasil. Disponível em: <https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Meb%C3%AAng%C3%B4kre_(Kayap%C3%B3)>. Acesso em: 02 jul, 2020.  

 

“Em Tekrejarôti-re são reconhecidas 17 formações vegetais diferentes. Entre estas, duas grandes formações como o Kapot (Cerrado) e (floresta), estas por sua vez são classificadas dependendo do tipo de vegetação presente, os recursos que oferecem (babaçual, buritizal, pequizal) e segundo a intervenção antrópica (roças, capoeiras, quintais, aldeia, caminhos, estradas e fazendas) (González-Pérez, Pereira, De Robert, Mitja, 2018, p. 4).

Os princípios de repartição, conservação, reprodução e fabricação da biodiversidade Mebêngôkre estão associados ao conceito de ‘beleza’ (mex), que valoriza, muito além de paisagens e técnicas agrícolas, o bom estado das redes sociais de trocas dentro e fora da aldeia, assim como valores essenciais dos Mebêngôkre (Robert, López Garcés, Laques, Coelho-Ferreira, 2012, p. 339).

Os Kayapó consideram e tratam a floresta com atenção comparável, sendo que certas plantas da mata são cuidadas com a atenção habitualmente dispensada às plantas da roça (ibidem, p. 346).

Na bà’tyk (equivalente à floresta tropical de terra firme sempre verde), por exemplo, os Mebêngôkre distinguem categorias de florestas reconhecidas e manejadas (Balée, 1989), como é o caso do pi’y-kô (castanhal, Bertholletia excelsa Bonpl.), e nas zonas de cerrado (kapôt), do apêtê (ilhas florestais ricas em espécies úteis). Para qualquer estudo da agricultura Mebêngôkre, é necessário situar as roças nas dinâmicas espaciais e temporais numa escala maior, associando, então, três grandes conjuntos que se organizariam teoricamente de maneira concêntrica e sem fronteira rígida no entorno das aldeias: o cinturão das roças ou espaço cultivado, as florestas das caminhadas diárias para caça e coleta, e os espaços florestais mais distantes e frequentados ocasionalmente com os caminhos de treck” (ibidem, p. 346-347).

Fonte: Gonzáles-Pérez, S.; Pereira, B.; De Robert, P.; Mitja, D., Atividades produtivas dos Mẽbêngôkre-Kayapó de Tekrejarôti-re, Terra Indígena Las Casas Sudeste do Pará, Cadernos de Agroecologia – ISSN 2236-7934 – Anais do VI CLAA, X CBA e V SEMDF – Vol. 13, N° 1, Jul. 2018.

De Robert, P.; López Garcés, C.; Elisabeth Laques, A. Coelho-Ferreira, M. A beleza das roças: agrobiodiversidade Mebêngôkre-Kayapó em tempos de globalização. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 7, n. 2, p. 339-369, maio-ago. 2012

“(…) no estabelecimento das roças, são os homens que derrubam as árvores para iniciar o plantio, já o cuidado e a colheita na roça é trabalho exclusivo das mulheres. No entanto, a caça e a pesca são atividades consideradas do universo masculino, mas em ocasiões de saídas familiares, as mulheres participam.

Nas roças (puru) de Tekrejarôti-re é cultivada uma grande variedade de espécies como, batata doce Jàt (Ipomoea batatas L.), macaxeira kwýrý (Maniot esculenta Crantz), inhame môp (Dioscorea sp.) banana Tyryti (Musa X paradisiaca L.), variedades de milho bá-y (Zea mays L.), arroz bày-gogo (Oryza sativa L.), abóbora (Cucurbita sp.), amendoim kaire’y (Arachis hypogaea L.), cana de açúcar kadjy ati (Saccharum officinale L.) e frutíferas como manga pidjôkranheti (Mangifera indica L), goiaba (Psidium guajava L.), mamão katembàri (Carica papaya L.), jenipapo mrôti (Genipa americana L.), melancia katentàpuru (Citrullus lanatus (Thunb.) Matsum & Nakai), abacaxi akranhiti (Ananas sativus Schult. & Schult. f.) e urucum pý (Bixa orellana L.). O trabalho na roça pode ser compartilhado entre mulheres de famílias diferentes, mas que pertencem à mesma categoria de idade. Desta maneira há uma cooperação mutua nas atividades desenvolvidas, tanto para o cultivo quanto para a colheita (González-Pérez, 2016). Nos quintais (kikre bunum) plantam algumas espécies frutíferas como banana, goiaba, jenipapo, e algumas plantas medicinais. No campo coletam uma ampla variedade de frutíferas como o pequi prin (Caryocar brasiliense A.St.-Hil.), murici kuten (Byrsonima crassifolia (L.) Kunth), buriti ngrwa (Mauritia flexuosa L.f.) bacaba kamere (Oenocarpus distichus Mart), catolé wore (Syagrus comosa (Mart.) Mart), guriri Ngrãdjware (Allagoptera leucocalyx (Drude) Kuntze), entre outros (González-Pérez, Pereira, De Robert, Mitja, 2018, p. 3).

Em relação às roças tradicionais Mẽbêngôkre, a importância que tem para este povo a diversidade de variedades das espécies que cultivam, garantindo assim um “puru mex” ou roça bonita. Para os Mẽbêngôkre uma roça bonita deve ter espécies e variedades diferentes, garantindo por um lado o sucesso da agricultura, que por sua vez está relacionado às relações sociais entre a comunidade da aldeia e entre aldeias (…) o fato de manejarem diferentes variedades, garante a existência de alimentos o ano todo, pois algumas variedades têm ciclos mais curtos do que as outras, diversificando assim as comidas preparadas e a segurança alimentar tanto dentro da comunidade, quanto em outras aldeias que participam da rede de troca entre parentes e amigos (ibidem, p. 4).

Os Mebêngôkre-Kayapó cultivam uma grande diversidade de plantas em dois espaços principais: nas roças (puru), espalhadas em torno das aldeias, e nos quintais (kikre bunun). Ainda que a maioria das plantas utilizadas no dia a dia esteja crescendo nessas duas categorias de lugares, o restante do território da aldeia, isto é, lugares de antigas roças e aldeias, caminhos, florestas e campos, também deve ser entendido como elemento de um mesmo sistema de cultivo, manejo ou cuidado com as plantas” (Robert, López Garcés, Laques, Coelho-Ferreira, 2012, p. 346).

Fonte: Gonzáles-Pérez, S.; Pereira, B.; De Robert, P.; Mitja, D., Atividades produtivas dos Mẽbêngôkre-Kayapó de Tekrejarôti-re, Terra Indígena Las Casas Sudeste do Pará, Cadernos de Agroecologia – ISSN 2236-7934 – Anais do VI CLAA, X CBA e V SEMDF – Vol. 13, N° 1, Jul. 2018.

De Robert, P.; López Garcés, C.; Elisabeth Laques, A. Coelho-Ferreira, M. A beleza das roças: agrobiodiversidade Mebêngôkre-Kayapó em tempos de globalização. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 7, n. 2, p. 339-369, maio-ago. 2012