Comunidade Geraizeira de Água Boa II - MG

Foto: Valdir Dias/Embrapa

“Geraizeiros são chamados os camponeses da porção de Cerrado no Norte de Minas Gerais – bem como noutras localidades, sobre as quais se estendem os Gerais, destacadamente o Noroeste do Estado de Minas Gerais e o Oeste da Bahia” (Nogueira 2009, p.15) (…) constituindo uma identidade própria, marcada pela forte dependência do Cerrado e de seus recursos, íntima ligação com as unidades que o compõe (os gerais, os tabuleiros e as veredas) e grande conhecimento de seus ciclos e biodiversidade, além de formas coletivas de uso e apropriação desses” (Brito, 2006; Dayell, 1998; Magalhães; Amorim, 2015; Mazzetto Silva, 1999).   

 

Fonte: TEIXEIRA, Thaís Helena. “O gerais é de quem nele mora, não de quem o explora”: a ação coletiva pela terra comum dos geraizeiros do norte de Minas Gerais. 2017. 120 f. Dissertação (Mestrado em Extensão Rural) – Universidade Federal de Viçosa, Viçosa. 2017. 

 

“As comunidades geraizeiras têm unidades privadas de moradia e agricultura familiar, enquanto a criação do gado e a coleta de frutos são realizadas coletivamente em terras de uso comum (gerais): as chapadas de Cerrado” (Eidt; Udry, 2019, p. 260). 

“A produção agrícola constitui a base para alimentação e, quando excedente, é comercializada na feira livre do município, que fica a 18 km da comunidade. Nos quintais próximos às moradias, os moradores cultivam espécies e variedades de frutas, café, plantas medicinais, flores, ervas para chás, bem como preservam árvores nativas frutíferas do Cerrado. Além disso, criam alguns animais, como aves, suínos, equinos e bovinos. Estes últimos, principalmente, são criados para utilização no arado e transporte de lenha, frutos do extrativismo, madeira para cercas, etc” (Ibid, p. 261). 

“(…) o SAT é desenvolvido há pelo menos 150 anos e atualmente  tem sua produção em pequenas áreas de roças familiares e individuais responsáveis pela produção de culturas alimentares básicas, como feijão, milho, andu, mandioca e arroz. Nos quintais produtivos, sistemas agroecológicos são responsáveis por abastecer as famílias de café, frutas cultivadas (laranja, mamão, banana, caju, goiaba, manga, acerola), frutas nativas, hortaliças (verduras e legumes), além de fornecerem plantas medicinais” (Ibid, p. 262-263). 

“A comunidade trabalha em sistema agroecológico, sem o uso de agrotóxicos ou fertilizantes convencionais. Observam atentamente as fases da lua, porque acreditam que ela interfere diretamente nas plantações. Utilizam alternativas de plantios com adubação verde, cobertura morta, compostagem e biofertilizantes naturais produzidos a partir de recursos encontrados na própria comunidade. Os defensivos orgânicos como caldas e outros para o controle de pragas são produzidos na própria comunidade. As famílias possuem quintais em sistemas agroflorestais com chácaras de café sombreado, frutíferas e mantêm algumas árvores nativas” (Ibid, p. 264).

 

Fonte: EIDT, J. S.; UDRY, C. (editoras técnicas). Sistemas Agrícolas Tradicionais no Brasil. Brasília: Embrapa, v. 3, 2019.

 

“Boa parte dos membros da comunidade mantém hábitos de guardar suas sementes tradicionais. Porém, o processo da migração temporária tem contribuído para enfraquecer essa prática: quando o morador resolve cultivar a terra e realizar algum plantio, vai ao mercado para comprar sementes, o que se torna um desafio para os agricultores que querem preservar suas sementes de algum contaminante transgênico. Em razão disso, são comuns na comunidade as relações de reciprocidade: o morador que detém a semente no momento do plantio empresta ou troca com aquele que não tem. Mais recentemente, esse cuidado na preservação das sementes tradicionais tem se fortalecido, ao ponto de moradores doarem sementes para os vizinhos mais próximos com o intuito de evitar a entrada de sementes desconhecidas, principalmente do milho, que requer maior cuidado por ser de fácil cruzamento e perder sua origem genética facilmente. A comunidade possui uma casa de sementes, onde os agricultores que trabalham de forma agroecológica armazenam suas sementes. Desse estoque, emprestam para aqueles que não têm as espécies de interesse para o cultivo como também realizam trocas” (Eidt; Udry, 2019, p. 264-265).

 

Fonte: EIDT, J. S.; UDRY, C. (editoras técnicas). Sistemas Agrícolas Tradicionais no Brasil. Brasília: Embrapa, v. 3, 2019.

 

 

“Os moradores extraem palhas de palmeiras para a confecção de chapéus e argila para a produção de peças artesanais, como, por exemplo, panelas, filtros, chaminés, botijas, vasos, cofres, e ainda constituem outras atividades marcantes na comunidade” (Eidt; Udry, 2019, p. 261). 

“A coleta é realizada nas chapadas, áreas mais altas, e seu uso é coletivo. Apesar da chegada da monocultura do eucalipto na região, com esforço das comunidades ainda há chapadas de vegetação nativa, uma das quais é conhecida como Areião, por ter um solo muito arenoso, mas de grande biodiversidade, além de contar com boa variedade de frutos comestíveis e ser berço de várias nascentes(Ibid, p. 261-262). 

“(…) são coletados frutos nativos do Cerrado, tais como: cagaita, mangaba, araticum, pequi, rufão, murici, araçá e maracujá-do-mato. Os frutos do Cerrado e as frutas cultivadas são consumidos in natura ou na forma de polpa, que é produzida pela Cooperativa de Agricultores Familiares Agroextrativistas de Água Boa II (Coopaab). Parte do pequi também é processada na cooperativa. Além disso, são extraídas matérias-primas para a produção de artesanato familiar, como argila, palha de licuri e cipó de maracujá nativo” (Ibid, p. 263).

 

 

Fonte: EIDT, J. S.; UDRY, C. (editoras técnicas). Sistemas Agrícolas Tradicionais no Brasil. Brasília: Embrapa, v. 3, 2019.

 

 

“A comunidade conta com uma cooperativa de produção de polpas de frutos nativos e cultivados que têm agregado valor aos recursos do Cerrado. Possui um viveiro de mudas nativas destinadas à comercialização e à recuperação de áreas degradadas, bem como ao fortalecimento e à reposição da mata ciliar dos córregos da comunidade” (Eidt; Udry, 2019, p. 261).

 

Fonte: EIDT, J. S.; UDRY, C. (editoras técnicas). Sistemas Agrícolas Tradicionais no Brasil. Brasília: Embrapa, v. 3, 2019.

 

 

A missão do Movimento Geraizeiro é a luta pelo reconhecimento e valorização social dos geraizeiros enquanto guardiões do Cerrado contra os interesses do capital, por meio da reconquista, ocupação, defesa e gestão de seus territórios, do fortalecimento da identidade, educação e cultura geraizeira em toda a sua diversidade, de modo a garantir vida digna, o desenvolvimento e a autonomia de suas comunidades, no pleno exercício dos direitos humanos. Nessa perspectiva, tem ainda por intuito promover a solidariedade e união entre as comunidades geraizeiras, na luta por seus territórios e culturas, bem como estimular a produção sustentável de alimentos saudáveis e fomentar a medicina popular geraizeira, por meio do manejo agroecológico e agroextrativista. 

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