IV Feira de Sementes e Mudas da Chapada dos Veadeiros

IV Feira de Sementes e Mudas, que acontece essa semana, dos dias 25 a 28 de setembro, em Alto Paraíso de Goiás.

 

 

algumas sementes da coleção de base da Embrapa

Dos dias 25 a 28 de setembro, acontece em Alto Paraíso de Goiás a IV Feira de Sementes e Mudas da Chapada dos Veadeiros, uma realização do Centro UnB Cerrado em parceria com a Cooperativa Frutos do Paraíso. Desde a sua primeira edição em 2011, a Feira de Sementes e Mudas vem reunindo agricultores familiares, assentados da reforma agrária, pequenos produtores e a comunidade local, além de representantes do poder público, ONGs, estudantes e pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), proporcionando um rico ambiente de intercâmbio de experiências e saberes.

 

 

 

2014 é o Ano Internacional da Agricultura Familiar, assim declarado pela ONU em reconhecimento à contribuição da agricultura familiar para a segurança alimentar e para a erradicação da pobreza no mundo; além disso, a Feira de Sementes e Mudas da Chapada dos Veadeiros integra a programação internacional do Mês de Ação Global em Defesa das Sementes Livres, Soberania Alimentar e Democracia da Terra, que vai dos dias 20 de setembro a 20 de outubro. Nesse período, movimentos e organizações do mundo inteiro estarão se manifestando para reafirmar o compromisso com uma agricultura mais justa e sustentável, de liberdade para as sementes crioulas, nativas e tradicionais.

 

Hoje, a perda de variedades locais e tradicionais de sementes, e o consequente declínio da diversidade genética, representa uma ameaça real para agricultura e a soberania alimentar no campo. Esse processo é conhecido como erosão genética, e será o tema da primeira roda de prosa da Feira, no dia 25 à tarde: “Onde Estão Nossas Sementes? Erosão Genética, Tecnologias e Poder”. À noite, um forrózinho com Conrado Pera e Quarteto Buriti, para celebrar a chegada da primavera e a abertura da quarta edição da Feira de Sementes e Mudas da Chapada dos Veadeiros.

 

A programação inclui também as oficinas “Sementes Silvestres do Cerrado”, “Extrativismo e Valorização da Sabedoria Tradicional para a Autonomia Alimentar”, e “Gestão de Bancos Comunitários de Sementes Crioulas”, no dia 26 pela manhã. Na parte da tarde, 4 opções de visitas a campo para conhecer experiências locais de agrofloresta e produção agroecológica, viveiros de mudas, extrativismo e plantas medicinais; e uma vivência de reflorestamento com plantio direto de sementes nativas no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.

A troca de sementes é um momento privilegiado para a constituição de redes de reciprocidade e para a transmissão de conhecimentos. A Feira de Sementes e Mudas é um valioso espaço de interação, integração e transformação socioeconômica para a região da Chapada dos Veadeiros. 

Diálogos agroecológicos sobre conservação e promoção do uso sustentável da biodiversidade na Chapada dos Veadeiros

Representantes das instituições realizadoras da IV Feira de Semente e Mudas da Chapada dos Veadeiros estiveram esta semana em Brasília, participando dos Diálogos agroecológicos sobre conservação e promoção do uso sustentável da biodiversidade. A convite da Embrapa e com apoio da Secretaria de Agricultura de Alto Paraíso, diretores da Cooperativa Frutos do Paraíso, alunos bolsistas do curso de “Agricultores protagonistas de segurança alimentar e nutricional: produção e abastecimento de alimentos” do Centro UnB Cerrado e agricultores familiares da região da Chapada dos Veadeiros participaram de palestras e rodas de prosa sobre agricultura familiar, extrativismo sustentável e valorização da identidade territorial dos produtos da Chapada, com foco nos casos do trigo Veadeiros e Café da Chapada.

O resgate do trigo Veadeiros

A variedade crioula de trigo conhecido como “Veadeiros” era cultivada em Alto Paraíso de Goiás há mais de 200 anos, o que a tornou extremamente adaptada às condições climáticas e ambientais da Chapada dos Veadeiros. Mais tarde, com a introdução de novas variedades comerciais, o trigo Veadeiros acabou desaparecendo da região. O desejo e a necessidade de reintroduzí-lo nas lavouras da Chapada levaram produtores da Cidade da Fraternidade, uma comunidade de Alto Paraíso de Goiás, a procurarem a Embrapa em 2005 em busca da variedade perdida. 

Graças às ações de coleta e conservação de recursos genéticos desenvolvidas pela empresa, as sementes de trigo Veadeiros foram encontradas, armazenadas a 20ºC abaixo de zero nas câmaras geladas de conservação da Embrapa, em Brasília, DF. As sementes foram identificadas pela pesquisadora Clara Goedert, multiplicadas e entregues a dois produtores da Cidade da Fraternidade, Sinomar Machado e Fernando Trindade. Na época, eles receberam 200 sementes do trigo Veadeiros.

Agricultores da Chapada dos Veadeiros e alunos de agroecologia do Centro UnB Cerrado visitaram as câmaras geladas de armazenamento de sementes de onde foram resgatadas as sementes do trigo Veadeiros em 2005.

Sinomar e Fernando tinham interesse em produzir novamente essa variedade crioula, pelas informações que obtiveram sobre sua produtividade e alta qualidade alimentar. “O trigo veadeiros se readaptou muito bem às condições climáticas e ambientais da região, como já era de se esperar. As 200 sementes que plantamos em 2005 chegaram a resultar na colheita de 100 quilos de sementes em 2012”, explica Sinomar.

 

A Cooperativa Frutos do Paraíso

 

De lá pra cá, Sinomar e Fernando fundaram, junto com outros produtores da Cidade da Fraternidade, a Cooper Frutos do Paraíso, que hoje reúne mais de 300 cooperados de quatro municípios da região da Chapada dos Veadeiros: São João da Aliança, Colinas do Sul, Teresina de Goiás e Alto Paraíso.

 

Atualmente, a cooperativa atende cerca de 10 mil crianças dos municípios citados e, por isso, busca ampliar e diversificar os cultivos para garantir a segurança alimentar das comunidades da Chapada. Segundo Sinomar, o crescimento da região aponta hoje para outras necessidades. “Os produtores precisam de investimentos em infraestrutura para aumentar o seu cultivo e mais do que isso: precisam diversificar os plantios”, ressalta. “Queremos estreitar a cooperação com a Embrapa para diversificar as sementes usadas nos nossos plantios. Além do trigo Veadeiros, precisamos também de arroz, feijão, milho, frutas, hortaliças.”, afirma. Aliás, expandir horizontes é uma característica marcante na personalidade desses produtores. Mesmo com mais de 300 cooperados, eles ainda consideram esse número insuficiente. “Não é nem 10% dos quatro mil agricultores da região da Chapada dos Veadeiros, que hoje conta com 60 mil habitantes. Queremos conquistar muito mais cooperados para atuarem como multiplicadores de sementes”, enfatizam.


Diálogos agroecológicos em prol da segurança alimentar

 

A pesquisadora Terezinha Dias coordenou o evento “Diálogos Agroecológicos sobre Conservação e Promoção do Uso da Biodiversidade na Chapada dos Veadeiros”, nos dias 27 e 28 de agosto, em Brasília, com o objetivo de estreitar a parceria entre a Cooperativa e a Embrapa em prol da segurança alimentar da população daquela região. Também participaram do evento pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e alunos do Centro UnB Cerrado.

Sinomar Machado apresentou o trabalho da Cooperativa Frutos do Paraíso no evento Diálogos agroecológicos sobre conservação e promoção do uso sustentável da biodiversidade.

Durante a abertura do evento, o chefe da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, José Manuel Cabral, garantiu o apoio aos cooperados de Alto Paraíso, o que deverá ser feito a partir de contratos de cooperação e da criação de uma rede para distribuição de sementes. “Queremos apoiar os guardiões da agrobiodiversidade brasileira na manutenção de suas coleções”.

Feiras de sementes e a conservação da agrobiodiversidade

O Brasil é o país com a maior biodiversidade do mundo. São 55 mil espécies de plantas, o que corresponde a aproximadamente 22% das 250 mil existentes no planeta. Ainda assim, grande parte de nossas atividades agrícolas está baseada em espécies exóticas. Os produtos processados encontrados nos supermercados são quase totalmente baseados em apenas quatro espécies de grãos.

A domesticação de plantas nativas e variedades crioulas, incluindo aquelas já conhecidas e comercializadas por populações locais, porém com pouca penetração no mercado nacional ou internacional (como as hortaliças tradicionais, também conhecidas como hortaliças “não-convencionais”), é uma grande oportunidade a ser explorada. No Brasil essa riqueza permanece sub-utilizada, particularmente em razão da imposição de padrões culturais que privilegiam produtos e cultivos exóticos. No entanto, os mercados mais expressivos, tanto nacionais como internacionais, estão ávidos por novas opções de produtos, razão pela qual os recursos biológicos e genéticos do Brasil apresentam enorme potencial.

 

Neste contexto, as feiras de sementes vêm ganhando destaque ao promover a conservação da agrobiodiversidade e contribuir para atender às demandas de mercado por novos produtos. As sementes tradicionais e crioulas são resultado de um trabalho sistemático e altamente elaborado de domesticação: seleção, conservação e melhoramento de cultivares, de acordo com os gostos, o clima e a dinâmica de cada região. Assim, o movimento criado pelas feiras de sementes contribui para a valorização e resgate de variedades tradicionais e para a formação de novos guardiões de sementes.


Dos dias 25 a 28 de setembro, o Centro UnB Cerrado e a Cooper Frutos do Paraíso realiza a IV Feira de Sementes e Mudas da Chapada dos Veadeiros, em Alto Paraíso de Goiás. Entre outras atividades, está previsto na programação da feira um dia de campo para participar da colheita do trigo Veadeiros.

 

Fonte: http://feiradesementesemudas.blogspot.com/2014/

 

 

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