II Feira de Sementes e Mudas da Chapada dos Veadeiros

II Feira de Sementes e Mudas da Chapada dos Veadeiros, promovida pelo Centro UnB Cerrado, em parceria com a Cooper Frutos do Paraíso aconteceu nos dias 15 e 16 de dezembro em 2012 em Alto Paraíso de Goiás. A segunda edição do evento oportunizou o encontro entre saberes tradicionais, conhecimento científico, políticas de incentivo e defesa da agrobiodiversidade, bem como o relato de experiências que têm protagonizado e fortalecido o movimento de resistência à crescente pressão do agronegócio no país.

Sob a perspectiva da soberania e segurança alimentar, a abertura do ciclo de palestras que deu início à programação da feira trouxe a reflexão sobre o papel da sociedade no enfretamento do modelo hegemônico de produção agrícola, em que o uso de agrotóxicos é colocado na condição sine qua non entre as estratégias de faturamento das grandes empresas. “A soberania alimentar só será de fato uma conquista a medida em que a sociedade civil, por meio dos seus diferentes segmentos, e um deles é a constituição das redes de trocas de sementes e saberes,  caminhar segundo o mesmo princípio rumo à efetivação dessa proposta. Portanto é importantíssimo que os sindicatos dos trabalhadores rurais, os quilombolas, os extrativistas, os seringueiros, indígenas, camponeses, se agreguem a esse movimento de resgate e conservação das sementes crioulas, que é a garantia da continuidade da vida”, expôs o professor do Instituto Federal Goiano de Rio Verde, responsável pela abordagem do tema.

Algumas das iniciativas desenvolvidas nos diferentes estados brasileiros, a fim de preservar e legitimar ações de manejo sustentável, foram apresentadas no debate como referências a serem adotadas no ensejo da criação de uma rede que intenciona, entre outros resultados, a independência da classe produtora da região e o desenvolvimento rural sustentável. É o caso do trabalho de ‘Resgate, avaliação, conservação e multiplicação de variedades crioulas’, que intitulou a palestra ministrada pelo representante da AS-PTA do Paraná, André Jantara. Ele exibiu dados, métodos e observações sobre práticas bem sucedidas de agricultura familiar no sul do país.

 

A discussão foi reforçada com a exploração da temática ‘Produção de sementes agroecológicas e autonomia dos agricultores’, a partir de outro exemplo que tem sido atestado em comunidades de Planaltina, no Distrito Federal, onde  experimentos de adubação verde e preservação da agrobiodiversidade, acompanhados de estudos e análises dos indicadores de sustentabilidade do cultivo da lavoura, autenticam ano a ano os moldes da agroecologia para o sistema produtivo. Segundo o professor do Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Agroecologia e Sustentabilidade – NEPEAS/FUP/UnB, Flávio Costa, da equipe de pesquisadores, o desafio maior é contar com a sensibilização dos agricultores até que surjam os efeitos esperados com a mudança nas práticas de plantio. “No terceiro ano que o produtor começa a ver os primeiros resultados. No entanto, pensar em autonomia supõe antes a manutenção da biodiversidade, porque quando se trabalha com várias espécies, não só de plantas, mas de insetos, fungos e outros inimigos, que eu chamo de amigos do agricultor no combate de ovos, lagartas e outras pragas, vai sendo reconhecida a importância dessa interação no contexto de produção agroecológica’, justificou o professor da UnB.

 

Sobre as oportunidades e adversidades que permeiam o resgate de variedades agroecológicas no Brasil, falaram representantes dos Ministérios do Meio Ambiente (MMA) e do Desenvolvimento Agrário (MDA). De acordo com o consultor do MDA, Gilles Ferment, o momento requer a organização por parte dos agricultores no sentido de se prevenirem contra os riscos e ameaças causadas pelo plantio de sementes transgênicas, já liberadas no país. “O feijão transgênico, por exemplo, será liberado em pouco tempo, o que certamente dará problema de co-existência, ou seja, de contaminação. Antes de ser lançado no mercado e plantado nas diversas regiões do país é importante levantar a discussão sobre a necessidade e se queremos ou não esse feijão para contaminar variedades crioulas. Além de compor a base alimentar do brasileiro, ele é consumido in natura, o que oferece riscos ainda maiores para a saúde”, exemplificou.

 

O debate sobre sementes florestais também ganhou espaço na rodada de palestras realizada no auditório do Polo da Universidade Aberta do Brasil (UAB) de Alto Paraíso. O diretor do Departamento de Florestas do MMA, Fernando Tatagiba, expôs prioridades do órgão em 2013, que apontam para a regulamentação do Código Florestal e a recuperação de áreas degradadas no país. “Para conseguir recuperar milhões de hectares vamos precisar de sementes. Portanto, quem produz vai ter para quem ofertar e vender. O Código traz uma série de artigos que orientam essa demanda por sementes florestais e prevê que o governo federal deverá lançar um programa de incentivo aos pequenos produtores, especialmente”, pontuou Tatagiba. Ao público presente, formado por estudantes e professores da Universidade de Brasília e do Centro UnB Cerrado, agricultores, representantes de comunidades tradicionais e do poder público, também de entidades de classe, movimentos sociais e demais convidados, Terezinha Dias, da Embrapa, compartilhou a experiência com o apoio na organização de feiras de sementes de povos indígenas. “Esses eventos são sobretudo um método de promoção da conservação local por meio do manejo comunitário. A Embrapa é parceira na estruturação dessas redes, inclusive no que diz respeito ao armazenamento das sementes a baixa temperatura e umidade, com vistas à implantação de um banco ativo de germoplasma”, ressaltou. “Trata-se de um movimento do  campesinato mundial. Eu vejo como um acordar do agricultor tradicional e está relacionado à postura de resgate dos seus direitos enquanto conservadores da agrobiodiversidade. Coisas importantes para a humanidade, elas acontecem ao mesmo tempo em vários locais do planeta”, finalizou.

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