Plantas Carnívoras do Cerrado

A primeira coisa que vem em mente quando algumas pessoas escutam as palavras “plantas carnívoras”, são plantas enormes que parecem monstros, com tentáculos e bocas cheias de espinhos, prontas para agarrar e devorar os desavisados e desatentos que exploram regiões de uma natureza tropical, desconhecida, sinistra e mortal. A origem desse tipo de preconceito surge normalmente de histórias fantasiosas, como do filme “Viagem ao centro da terra”, mas a verdade é que não existe sequer uma espécie de planta carnívora no mundo que ofereça risco à vida humana, suas dietas são compostas de insetos na grande maioria das espécies, algumas porém podem ser capazes de digerir pequenos anfíbios, mamíferos e répteis, caso esses caiam por acidente em suas armadilhas.
Pelo fato das plantas carnívoras estarem sempre associadas na mídia do entretenimento em regiões tropicais, de vegetação extremamente densa e húmida, com uma biodiversidade rápida e voraz, não passa pela nossa cabeça que as plantas carnívoras podem existir em uma savana como é o caso do Cerrado.

Na cadeia alimentar, todos os seres vivos são classificados em 3 níveis (SANTOS 2013):

  1. Produtores: Seres autotróficos, ou seja, produzem a sua própria fonte de energia a partir da luz do sol ou moléculas inorgânicas, como as plantas, algas e fitoplânctons, e bactérias nitrificantes.

  2. Consumidores: animais que se alimentam de produtores e/ou outros consumidores.

  3. Decompositores: decompõem e consomem a matéria orgânica proveniente de organismos em processo de mortificação, como os urubus, moscas e fungos.

Se dividem entre os predadores que consomem totalmente a presa; os parasitóides que matam lentamente suas presas, de acordo com o desenvolvimento da larvas inseridas nos corpos das presas; os parasitos e Pastadores que consomem partes das presas (animais ou vegetais), mantendo-os vivos. Os exemplos são: onça-pintada, anta, tamanduá-bandeira, Formigas.

 

 As plantas carnívoras têm a principal característica de complementar a sua nutrição de caráter produtor, consumindo pequenos animais, na sua maioria insetos e raramente pequenos mamíferos, anfíbios e répteis, se transformando em consumidoras. Sendo assim, as plantas carnívoras são produtores e consumidores; algumas espécies acabam dependendo mais do predatismo do que outras, podendo sobreviver até mesmo sem raízes.


Outros fatores importantes que definem a carnivoria dessas plantas é a capacidade delas por atraírem as suas presas a partir das cores, néctar, água e substâncias voláteis e absorver seus nutrientes, seja pela liberação de enzimas digestivas ou pela ação de organismos associados como bactérias e fungos.

Mecanismos ativos que elaboram movimentos:

  1. Sugadoras: por um processo ativo, as plantas carnívoras sugam o animal para o interior da armadilha (aquáticas ou ambiente extremamente úmido).

  2. Mordedoras: as plantas carnívoras se fecham ativamente, prendendo o animal

Mecanismos passivos, que não elaboram movimentos:

  1. Urnas ou Jarros (Ascídios): quando as folhas possuem a forma de jarros que mantém as presas em seu interior

  2. Adesivas: Quando produzem alguma substância que prende o animal às folhas.

Fonte: MELLO, Heber Odahyr de Oliveira et al. Interação entre insetos e plantas: Plantas Carnívoras. 1999.

De acordo com os estudos filogenéticos - técnica de datação que funciona a partir da análise comparativa entre fósseis e genomas de plantas - da Universidade Estadual de São Paulo, é possível afirmar que as plantas carnívoras do gênero Utricularia já existiam no Brasil há 39 milhões de anos, sendo esse o gênero de plantas carnívoras mais biodiverso e bem distribuído, agrupando 30% de todas as espécies de plantas carnívoras do mundo. Esse gênero teve a sua primeira dispersão intercontinental a 17 milhões de anos atrás na Austrália e atualmente está presente em todos os continentes não polares (SILVA 2018).

 

O que é ainda mais interessante é que a família de plantas Lentibulariaceae agrupa além do gênero Utricularia, outros dois gêneros de plantas carnívoras como Pinguicula e Genlisea. Esses 3 gêneros possuem sistemas de captura de presas totalmente diferentes, formando em torno de 353 espécies.


Cada gênero de planta carnívora tem a sua história evolutiva, portanto, o que as levou a desenvolverem a carnivoria pode ter muitas respostas.


A resposta mais generalizada é que a carnivoria surgiu a partir de um mecanismo de plantas que capturavam parasitas para se defenderem e não digeri-los, como no caso da flor do Plumbago, da família Plumbaginaceae.

 

O próximo passo da evolução da carnivoria é um benefício nutritivo da morte desses animais decorrente do desenvolvimento de tecidos especializados na absorção de nutrientes (MELLO 1999).

Porque, afinal de contas, essas plantas não continuaram a absorver somente a energia do sol e viver uma vida normal como a de qualquer outra planta? Para explicar isso, observe o processo químico de fotossíntese que resulta na seguinte reação:
Luz solar + 12H2O Água + 6CO2 Dióxido de carbono           → 6O2 Oxigênio + 6H2O Água + C6H12O6 Glicose.

 

É possível notar que ainda faltam muitos elementos extremamente necessários para a vida nessa equação química como o fósforo, nitrogênio e potássio. Esses elementos são absorvidos do solo regularmente em todas as espécies de plantas por suas raízes para que as funções mais fundamentais do metabolismo da planta sejam sucedidas.

 

Algumas espécies de plantas carnívoras aquáticas do gênero Utricularia desenvolveram tamanha eficiência neste método de adquirir nutrientes que perderam totalmente suas raízes.

O Cerrado é o segundo bioma do país com a maior biodiversidade de plantas carnívoras no mundo, aproximadamente 80 das 680 espécies existentes, ficando atrás apenas da Austrália que possui entre 187 e 250 espécies. Existem 20 géneros de plantas carnívoras no mundo, sete estão presentes no Brasil, elas são: Brocchinia, Catopsis, Drosera, Genlisea, Heliamphora, Philcoxia, e Utricularia,sendo que quatro delas estão distribuídos pelo cerrado.

 

MELLO, Heber Odahyr de Oliveira et al. Interação entre insetos e plantas: Plantas Carnívoras. 1999.

SOBRE A DROSERA.
GONELLA, Paulo Minatel. Revisão taxonômica do clado tetraploide-brasileiro de Drosera L.(Droseraceae). 2012. Tese de Doutorado. Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo. 222p.

Gonella, P.M. Droseraceae in Flora e Funga do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro.Available at: <https://floradobrasil.jbrj.gov.br/FB7420>. Accessed on: 04 Apr. 2022

SOBRE UTRICULARIA
SOUZA, Paulo Cesar Baleeiro. Diversidade do Gênero Utricularia L.(Lentibulariaceae) no Cerrado-Goiás e Tocantins. 2011

SILVA, Saura R. et al. Molecular phylogeny of bladderworts: A wide approach of Utricularia (Lentibulariaceae) species relationships based on six plastidial and nuclear DNA sequences. Molecular Phylogenetics and Evolution, v. 118, p. 244-264, 2018.

SOBRE GENLISEA

TAYLOR, Peter. The genus Genlisea. Carnivorous Plant Newsletter, v. 20, n. 1-2, p. 20-26, 1991.

FLEISCHMANN, Andreas et al. Phylogenetics and character evolution in the carnivorous plant genus Genlisea A. St.-Hil.(Lentibulariaceae). Molecular Phylogenetics and Evolution, v. 56, n. 2, p. 768-783, 2010.

 

SOBRE PHILCOXIA
SCATIGNA, André Vito et al. The rediscovery of Philcoxia goiasensis (Plantaginaceae): Lectotypification and notes on morphology, distribution and conservation of a threatened carnivorous species from the Serra Geral de Goiás, Brazil. Kew Bulletin, v. 71, n. 3, p. 1-7, 2016.
PEREIRA, Caio G. et al. Underground leaves of Philcoxia trap and digest nematodes. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 109, n. 4, p. 1154-1158, 2012.
DEODATA, Yara Rodrigues Souza. Revisão integrativa sobre o gênero philcoxia. 2021.


Solo do cerrado
RAMOS, Lucélia Alves et al. Reatividade de corretivos da acidez e condicionadores de solo em colunas de lixiviação. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v. 30, p. 849-857, 2006.

 

Carta de Darwin para a Charles Lyell em 24 de novembro de 1860
https://www.darwinproject.ac.uk/letter/DCP-LETT-2996.xml



Cadeia alimentar
SANTOS, Selma; MACIEL, Maria Delourdes. As interações CTSA no ensino de Ecologia: um estudo sobre cadeia alimentar. Enseñanza de las ciencias: revista de investigación y experiencias didácticas, n. Extra, p. 1096-1110, 2013.

DESCRIÇÃO MORFOLÓGICA.
GUIMARÃES, Elsie Franklin; PILIACKAS, José Mauricio; NOTARE, Marcelo. Plantas carnívoras. Revista Habitat, v. 74, 2003.