As Palmeiras dos Kalungas

Esta galeria “As Palmeiras dos Kalungas” está baseada no trabalho da Dra Renata Corrêa Martins que escreveu uma cartilha com o objetivo de divulgar o conhecimento sobre as palmeiras entre os quilombolas Kalungas da comunidade Engenho II, em Cavalcante, Goiás.
 
 Palmeiras nativas da região 
Dezesseis espécies de palmeiras foram reconhecidas na região da comunidade Kalunga Engenho II, as quais pertencem a nove gêneros botânicos. Para designar as 16 espécies registradas, os entrevistados citaram cerca de 51 nomes locais.
A lista abaixo registra os nomes das palmeiras mais citados entre os Kalungas, seguido do nome científico em itálico:
Buriti — Mauritia flexuosa L.f.
Buritirana — Mauritiella armata (Mart.) Burret
Cabeçudo — Butia purpurascens (Mart.) Becc.
Catolezinho — Syagrus rupicola Noblick & Lorenzi
Coco-palmeira — Attalea speciosa Mart. ex Spreng.
Gariroba-catolé — Syagrus comosa (Mart.) Mart.
Gariroba-verdadeira — Syagrus oleracea (Mart.) Becc.
Indaiá — Attalea brasiliensis Glassman
Jarobá — Syagrus romanzoffiana (Cham.) Glassman
Licuri-rasteiro-da-mata — Allagoptera leucocalyx (Drude) Kuntze
Licurizinho-do-cerrado — Allagoptera campestris (Mart.) Kuntze
Licuri-da-serra — Syagrus deflexa Noblibk & Lorenzi
Macaúba — Acrocomia aculeata (Jacq.) Lodd. ex Mart. Palmito — Euterpe edulis Mart.
Palmito-mirim — Geonoma pohliana subsp. weddelliana (H. Wendl.) A.J. Hend.
Pindoba — Attalea eichleri (Drude) A.J.Hend.
 
 Como as palmeiras são usadas 
 
Alimento 
As palmeiras são fornecedoras de diferentes fontes de alimento para as comunidades rurais. Todas as espécies de palmeiras da região fornecem algum tipo de alimento para os Kalungas. Na comunidade Engenho II, muitas vezes aparecem citadas como “alimento de emergência”, em referência ao consumo dos cocos e sementes durante os períodos de plantio e nos longos trechos de caminhada entre as áreas de lavoura e a moradia. Alguns usos alimentares são citados entre os mais velhos, como “uso de outra era”, com referência aos tempos em que a comida era pouca e as palmeiras forneciam recursos alternativos para enganar a fome. Os frutos de todas as espécies são utilizados para alimentação. Das sementes de algumas espécies, os Kalungas extraem óleo após a fervura ou produzem “leite” quando estão frescas. O palmito de 13 espécies faz parte, ocasionalmente, da dieta local, entretanto com a preferência pelos palmitos amargos.
 
  Artesanato 
As 16 espécies de palmeiras da região foram citadas como úteis para o artesanato. As folhas são muito importantes nessa categoria de uso e podem ser usadas de forma direta (como vassoura) ou como matéria prima para a fabricação de outros objetos (sofá, estante, peneira, tapiti, quibano e vassoura). O buriti foi a palmeira que apresentou o maior número de partes para o artesanato. Quase todas as casas possuem utensílios fabricados com a tala do braço do buriti (epiderme do pecíolo), retirada das folhas caídas e sem qualquer prejuízo à planta. O uso da seda extraída das folhas jovens do buriti para fazer corda ou linha, também foi citado. Entre os utensílios domésticos fabricados com as talas do buriti estão os tapitis, usados para espremer a mandioca ralada; o quibano é um tipo de peneira que não apresenta espaço entre as talas e é usado para limpar o arroz; as peneiras são trançadas como o quibano, porém com espaços entre as talas. A vassoura fabricada pelos Kalungas é feita com as folhas do coco-cabeçudo ou de buriti.
 
  Construção 
Onze tipos de palmeiras são utilizados para a construção. O buriti e o indaiá estão entre os mais citados nessa categoria, seguidos da pindoba, do palmito, do coco-palmeira e da buritirana. As folhas do buriti e do indaiá são utilizadas, ao mesmo tempo, para a cobertura de casas. A coleta das folhas acontece na lua minguante, nunca na lua nova. Segundo a tradição local, para que as folhas se mantenham sem infestações de insetos e mofo, essa é a melhor época de coleta.
 
  Medicinal 
O uso medicinal foi citado para oito espécies de palmeiras. As partes citadas foram o tronco, as folhas, a raiz e o palmito. A principal indicação terapêutica das palmeiras foi para o tratamento de doenças respiratórias, tais como gripes e pneumonias. Em segundo lugar, aparece o uso contra picadas de cobra. Duas espécies são usadas para este tratamento, o buriti e a macaúba. O uso para dor de dente foi citado para duas espécies, a macaúba e o indaiá.
 
  Outros usos 
Quatro espécies foram citadas para usos em cerimônias. O palmito, o palmito-mirim e o buriti foram citados como decorativos da “lapinha”, que é um arco de folhas colocado em frente a igreja para o encerramento das festas religiosas da comunidade. Do braço (pecíolo) do buriti se faz o cruzeiro, também usado na decoração das casas que arrematam (encerram) as folias. As folhas queimadas do cabeçudo foram citadas como defumadoras por um entrevistado. O uso do miolo (medula) e do tronco (estipe) do buriti em decomposição foi citado como adubo. As folhas do cabeçudo, licuri-da-serra e gariroba-verdadeira são utilizadas para acender fogo e os cocos secos do indaiá como carvão. Três espécies de palmeiras foram citadas como tóxicas (venenosas). O consumo da polpa e das sementes do licuri-rasteiro-da-mata, do cabeçudo e do licuri-da-serra foram contra-indicados por causarem dor de barriga. A polpa do licuri-da-serra também é contra-indicada para pessoas com doenças respiratórias.
 
Fonte: Martins, Renata Corrêa. As palmeiras dos kalungas: guia de identificação e etnobotânica. Brasília: Ed. Rede de Sementes do Cerrado, 2015. Disponível em:
https://museucerrado.com.br/wp-content/uploads/2020/03/Livro_palmeiras_cerrado_renata.pdf
 
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