Dormência dos frutos do Cerrado

A dormência é o fenômeno em que as sementes de determinada espécie, mesmo sendo viáveis e possuindo todas as condições ambientais para iniciar o processo germinativo, não germinam devido alguns fatores como a imaturidade do embrião, presença de substâncias inibidoras ou impermeabilidade do tegumento a água e/ou oxigênio. A dormência em frutos do Cerrado é um tema pouco estudado levando em consideração a riqueza de espécies e o tamanho deste bioma. Apesar disso, é um assunto muito importante para entender-se as interações das plantas com os animais e seus processos de germinação e restauração. Muitas espécies de plantas do Cerrado só germinam após passar pelo trato digestório de certos animais, isso porque a zoocoria, síndrome de dispersão por animais, é predominante nas diferentes fisionomias do Cerrado, revelando a importância desse estudo para as relações ecológicas deste ecossistema.

 

Antes de falar sobre a dormência propriamente dita é importante conhecer as definições de germinação e quiescência. De maneira geral, uma semente é considerada germinada quando uma parte do embrião (em geral a radícula), emerge através dos envoltórios (Labouriau, 1983; Cardoso, 2009). Uma semente quiescente é aquela que só inicia o processo de germinação quando há disponíveis fatores do ambiente físico, impostos pelo seu genótipo, como água, calor e oxigênio (Baskin & Baskin 2004; Cardoso, 2009). Já a semente dormente não tem capacidade de germinar num período de tempo específico, mesmo em condições ambientais favoráveis para cada tipo de semente. Há várias causas possíveis para a dormência, como imaturidade do embrião, presença de substâncias inibidoras, impermeabilidade do tegumento a água e/ou oxigênio ou resistência mecânica dos tecidos externos ao embrião, por exemplo.

 

BASKIN, C.C. & BASKIN, J.M. 2004. A classification system for seed dormancy. Seed Science Research, 14: 1-16.

 

CARDOSO, Victo José Mendes. Conceito e classificação da dormência em sementes. Oecologia Australis, São Paulo, v. 13, n. 04, p. 619-631, dez. 2009. Oecologia Australis. http://dx.doi.org/10.4257/oeco.2009.1304.06.

 

FLORIANO, Eduardo Pagel. Germinação e dormência de sementes florestais, Caderno Didático nº 2, 1ª ed./ Eduardo P. Floriano Santa Rosa, 2004.

 

LABOURIAU, L.G. 1983. A germinação das sementes. Secretaria Geral da OEA, Washington. 174p.

Para superar a dormência, vários métodos podem ser utilizados, sendo os mais comuns: embebição em água, retirada do tegumento, corte ou furo do tegumento, escarificação mecânica, escarificação química, imersão em água quente ou fria (Santarém e Áquila, 1995; Tavares et al, 2015). Na natureza, a quebra de dormência muitas vezes é feita pela passagem das sementes pelo trato digestório dos animais, o que permite uma escarificação química sem danos à semente, propiciando trocas gasosas com o meio e/ou a eliminação de inibidores de germinação presentes, além de facilitar a penetração de água e a reativação dos processos metabólicos (Metivier, 1986; Traveset & Verdú, 2002). Esta passagem pelo sistema digestório pode ou não aumentar a porcentagem de germinação, pois as diferentes espécies de plantas possuem respostas muito variáveis, além das características de alimentação do animal que podem também interferir (Oliveira & Leme, 2013).

 

METIVIER, J. R. 1986. Dormência e germinação. In: Ferri, M. G. coord. Fisiologia Vegetal. 2ed. São Paulo, E. P. U. v. 2, p.343-392.

 

OLIVEIRA, Ademir K. M.; LEME, Frederico T. F. Didelphis albiventris como indutor de germinação de Rapanea ferruginea (Myrcinaceae) em área de Cerrado, Mato Grosso do Sul, Brasil. Iheringia. Série Zoologia, Porto Alegre, v. 103, n. 4, p. 361-366, dez. 2013.

 

SANTARÉM, E.R.   &   AQUILA, M.E.   Influência   de   métodos   de   superação   de dormência e do armazenamento na germinação de sementes de Senna macranthera (Collodon) Irwin & Barneby (Leguminosae). Revista Brasileira de Sementes. Brasília: ABRATES, v.17. n.2., 1995, p.205-209.

 

TAVARES, Débora Verônica Leal; MARTINS, Nilvania Paniago; BARROS, Wesley Souza; SOUZA, Lilian Christian Domingues de. METODOLOGIA DE QUEBRA DE DORMÊNCIA EM SEMENTES DE SUCUPIRA-BRANCA: revista conexão eletrônica. Revista Conexão Eletrônica, Três Lagoas, MS, v. 12, n. 1, p. 1-9, 2015.

 

TRAVESET, A. & VERDÚ, M. 2002. A meta-analysis of the effect of gut treatment on seed germination. In: Levely, D. J. & Galetti, M. eds. Seed dispersal and frugivory: ecology, evolution and conservation. Wallingford, CABI Publishing, p. 339-350.

As estratégias de dispersão de sementes são muito importantes para garantir maior probabilidade de sobrevivência e perpetuação da espécie para as plantas. A dispersão basicamente consiste em levar as sementes para locais afastados da planta-mãe e com condições favoráveis, reduzindo sua mortalidade e a possibilidade de endocruzamento. Grande parte das estratégias de dispersão de sementes envolve a participação ativa ou passiva dos animais (Fleming et al., 1987). Na endozoocoria a semente é transportada dentro do trato digestivo dos animais e expelida juntamente com as fezes em condições de germinar, sendo um dos mais importantes mecanismos, incluído no processo ecológico conhecido como mutualismo dispersivo. Há muitas questões envolvidas nesse assunto, como a importância de se identificar as espécies consumidoras de determinados frutos e verificar as probabilidades de germinação das sementes após a passagem pelo trato digestivo dos animais, indicando quais são os potenciais dispersores das sementes (Bizerril, 2000). Isto é feito através dos testes de germinabilidade onde normalmente são comparadas as taxas de germinação de lotes de sementes retirados de frutos maduros comparando-se com sementes obtidas a partir das fezes do animal dispersor, fornecendo indicações sobre as vantagens ou não, ou custos e benefícios, da semente passar pelo trato digestivo animal (Bizerril, 2000).

 

BIZERRIL, Marcelo X. A. O estudo da frugivoria e a dispersão de sementes: Qual a sua importância e o que investigar? Universitas – Biociências, v. 1, n. 1, p. 69-80, 2000.

 

FLEMING, T.H.; BREITWISCH, R. & WHITESIDES, G.H.  1987. Patterns of tropical vertebrate frugivore diversity. Annual Review of Ecology and Systematics 18:91-109.

 

OLIVEIRA, Ademir K. M.; LEME, Frederico T. F. Didelphis albiventris como indutor de germinação de Rapanea ferruginea (Myrcinaceae) em área de Cerrado, Mato Grosso do Sul, Brasil. Iheringia. Série Zoologia, Porto Alegre, v. 103, n. 4, p. 361-366, dez. 2013.

De modo geral, sabe-se pouco sobre os processos de dispersão de sementes no Brasil, e especialmente na região do Cerrado, sendo que poucas relações entre plantas e animais frugívoros são bem conhecidas nesse bioma (Bizerril, 2000).  A alta incidência de zoocoria em ambientes tropicais florestais implica uma grande importância animal na estrutura destas comunidades vegetais (Fleming & Heithaus 1981; Howe 1984).  A retirada dos animais dispersores pode acarretar uma mudança rápida na composição proporcional das espécies, nas características demográficas e na relação espacial dos indivíduos de cada espécie (Janzen 1980). Desse modo, são importantes os estudos de frugivoria e dispersão de sementes, para ampliar os conhecimentos do funcionamento das relações ecológicas nos ecossistemas do Cerrado, que possam contribuir para planos de conservação de espécies e seus habitats (Golin, 2008).

 

BIZERRIL, Marcelo X. A. O estudo da frugivoria e a dispersão de sementes: Qual a sua importância e o que investigar? Universitas – Biociências, v. 1, n. 1, p. 69-80, 2000.

 

FLEMING, T.H. & E.R. HEITHAUS. 1981. Frugivorous bats, seed shadows, and the structure of tropical forests. Biotropica, 45-53:45-53.

 

HOWE, H.F. 1984. Implications of seed dispersal by animals for tropical reserve management. Biological Conservation 30:261-281.

 

JANZEN, D.H. 1980. Ecologia vegetal nos trópicos. São Paulo: EPU e EDUSP, Coleção Temas de Biologia, v.7, 79 p.

 

GOLIN, Vanessa. Frugivoria e dispersão de sementes de Araticum Annona crassiflora Mart. por animais em área de Cerrado Matogrossense. 2008. 62 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Ambientais) - Universidade do Estado de Mato Grosso, Cáceres, 2008.

 

Conheça alguns frutos e seus dispersores