Aves do Cerrado

Aves são animais únicos. Ao longo de milhões de anos de evolução acumularam diversas transformações corporais que as diferenciaram bastante de outros grupos de animais vertebrados. Possuem os membros anteriores modificados em asas, a mandíbula e maxila formando um bico revestido por queratina, e penas cobrindo o corpo. Internamente, diversas adaptações as tornam mais leves para o voo, como os sacos aéreos (bolsões de ar que além de diminuir a densidade corporal auxiliam na respiração), e os ossos pneumáticos, que possuem cavidades ocas e que muitas vezes são reduzidos ou fundidos, principalmente na asa, ou até mesmo ausentes, como no caso dos dentes, evolutivamente perdidos.

Atualmente, as penas são uma característica única das aves, e possuem outras funções além do voo; diferentes tipos de penas formam diferentes camadas de revestimento, onde as mais internas ajudam a manter e regular a temperatura corporal do animal, conferindo um metabolismo ativo e endotérmico (capaz de reter e ajustar o calor do próprio corpo), e as camadas mais externas possibilitam a exibição de diversas cores e ornamentos, resultando em uma grande variedade de padrões e formas: desde colorações de camuflagem que ajudam o animal a se esconder no ambiente, como no caso do Urutau, até as exuberantes plumagens coloridas das famosas aves do paraíso, ou os padrões de cor e adornos não menos fascinantes do Tucano Toco, Udu de Coroa Azul, Gavião de Penacho, Jandaia Verdadeira, Topetinho do Brasil Central, Saí Andorinha e Corrupião, todos típicos do bioma Cerrado.

O que muitos não sabem, porém, é que as aves são descendentes diretas dos dinossauros, mais especificamente dos terópodas (subordem Theropoda), os dinossauros carnívoros, como o T-Rex e o Velociraptor, que no geral também possuíam penas. Ou seja: aves são dinossauros!

Para saber mais sobre a morfologia e a origem evolutiva das aves:

Kaiser, G. W. The Inner Bird: anatomy and evolution. UBC Press, 2017.

Ostrom, J. H. Archeopteryx and the origin of birds. Biologial Journal of the Linnean Society, vol. 8(2): 91-182, June, 1976.

Ostrom, J. H. "Archaeopteryx and the Origin of Flight," The Quarterly Review of Biology 49, no. 1 (Mar., 1974): 27-47.

Elas formam um grupo de animais bastante diverso e importantes para ecossistemas do mundo todo, e no Cerrado não poderia ser diferente. Na savana brasileira, podem ser encontradas cerca de 874 espécies de aves, sendo elas o segundo grupo de vertebrados mais diverso para o bioma, depois dos peixes. A habilidade do voo permite uma alta eficiência na movimentação, alimentação e fuga, o que confere uma grande capacidade adaptativa ao grupo e ajuda a explicar o sucesso deste em ocupar diversos nichos. Portanto, encontraremos aves participando de uma variedade de interações ecológicas, seja como presa, servindo de alimento para outros organismos, que podem caçá-las ou comer seus ovos, seja como predador, atuando no controle populacional de insetos, aracnídeos, moluscos, peixes, sapos e rãs, lagartos e cobras, e até pequenos mamíferos e outras aves. Outro papel fundamental delas é a dispersão de sementes. Estudos especulam que cerca de 60% das plantas frutíferas do Cerrado têm suas sementes dispersas por aves, o que mostra a importância desses animais na manutenção física dos nossos ecossistemas, estimulando ciclos de regeneração natural e sucessão ecológica.

Para saber mais sobre a ecologia das aves:

Kuhlmann, M & Ribeiro, J. F. Fruits and frugivores of the Brazilian Cerrado: ecological a phylogenetic considerations. Acta Botanica Brasilica, 30(3): 495-507, 2016.

Macedo, R. H. F. The Avifauna: Ecology, Biogeography, and Behavior, p.242-265 in: The Cerrados of Brazil: Ecology and Natural History of a Neotropical Savanna. Marquis, R. J. (orgs.) Columbia University Press, 2002.

Sekercioglu, C. H. Increasing awareness of avian ecological function. Trends in Ecology & Evolution 21(8) 464-471, 2006.

O que define uma ave como uma ave do Cerrado? Essa é uma pergunta mais difícil do que parece, pois o domínio biogeográfico do Cerrado é bastante diverso e suas fronteiras com os biomas vizinhos não são tão bem definidas, formando longas porções de ecótonos (área de transição de biomas) ao invés de limites claros. Além disso, trechos de vegetação florestal, na forma de matas de galeria e matas ciliares, permeiam as savanas e campos, acompanhando o curso dos rios que compõem a complexa rede hídrica que emerge do bioma. Tais trechos florestais formam abrigos e corredores ecológicos para uma grande diversidade de espécies que dependem da densa cobertura vegetal característica dessas matas, que se assemelham à vegetação da Amazônia e da Mata Atlântica, principalmente nas regiões próximas a esses respectivos biomas. Essa semelhança entre ecossistemas, juntamente com ciclos de flutuações climáticas do período Quaternário, é o que justifica a grande contribuição da Amazônia e da Mata Atlântica na avifauna do Cerrado: muitas espécies encontradas em suas matas de galeria também são típicas dos outros dois biomas, e algumas, por vezes até consideradas exclusivas da Amazônia ou da Mata Atlântica, podem ser ocasionalmente vistas nas matas de galeria do Cerrado mais próximas aos limites desses biomas.

Portanto, para apresentar uma lista de espécies de aves do Cerrado, é necessária uma justificativa que defina parâmetros para a inclusão ou exclusão de espécies. Aqui no Museu do Cerrado, considerando como objetivos a divulgação democrática do saber científico e a valorização da biodiversidade, foi confeccionada uma lista de aves do Cerrado a partir da junção da lista elaborada em 1995 pelo Dr. José Cardoso da Silva com o conjunto de espécies apresentadas no livro Aves do Brasil: Pantanal & Cerrado. A primeira foi feita a partir de observações pessoais, consultas em coleções e relatos de observações que remontam desde 1870, no intuito de embasar análises de padrões biogeográficos, e inclui muitas espécies típicas de outros biomas que podem ou foram ocasionalmente vistas em áreas de Cerrado próximas a esses biomas, sendo a lista para aves do Cerrado mais aceita e difundida atualmente no meio científico. Já o livro Aves do Brasil: Pantanal & Cerrado, é um dos guias de campo mais completos e atualizados para a avifauna do Cerrado, e se embasa, além de diversas referências bibliográficas, em relatos e observações de especialistas do mundo todo, trazendo mais 37 espécies como típicas do bioma. Somando esses novos registros às 837 espécies citadas pelo Dr. José, temos as 874 espécies aqui listadas como aves do Cerrado. A lista seguiu os parâmetros de nomenclatura científica e ordem taxonômica estabelecidos pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos, em sua versão mais atual da lista de aves do Brasil.

Para saber mais sobre as aves do Cerrado e do Brasil:

Gwynne, J. A., et al. Aves do Brasil: Pantanal & Cerrado. Ed. Horizonte, SP. 2010

Piacentini, V. Q., et al. Lista comentada das aves do Brasil pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos. Revista Brasileira de Ornitologia 23(2): 91-298, 2015.

Silva, J. M. C. Birds of the Cerrado region, South America. Steenstrupia 21: 69– 92, 1995.

Silva, J. M. C. Distribution of amazonian and atlantic birds in gallery forests of the Cerrado region, South America. Ornitologia Neotropical 7: 1-18, 1996.

Infelizmente, muitas dessas espécies encontram-se ameaçadas de extinção, como o Jacu de Barriga Castanha, o Pato Mergulhão, a Águia Cinzenta, a Rolinha do Planalto, a Arara Azul Grande, o Bacurau de Rabo Branco e o Galito. Dentre as principais ameaças que afetam essas espécies, em que se pode incluir caça, poluição dos rios e intensificação das queimadas, uma em particular se destaca: o desmatamento e conversão de áreas nativas, muitas vezes destinados à monocultura extensiva e a pecuária. Cerca de metade da área original do Cerrado já foi convertida ou degradada de alguma forma, e com ele diversas espécies próprias de nossas paisagens estão se perdendo sem nem mesmo serem notadas pela sociedade. É preciso conhecer para preservar. Vamos descobrir e valorizar o Cerrado e suas aves!

 

Conheça o Plano de Ação Nacional para a Conservação das Aves do Cerrado e Pantanal e saiba mais sobre as espécies ameaçadas e as estratégias para sua conservação. 

 

Lista de Espécies Ameaçadas

TAXON

NOME COMUM

CATEGORIA

Columbina cyanopis

Rolinha-do-planalto

CR

Sporophila maximiliani

Bicudo-verdadeiro

CR

Conothraupis mesoleuca

Tiê-bicudo

EN

Coryphaspiza melanotis

Tico-tico-de-máscara-negra

EN

Geositta poeciloptera

Andarilho

EN

Nothura minor

Codorna-mineira

EN

Pyrrhura pfrimeri

Tiriba-de-pfrimer

EN

Scytalopus iraiensis

Macuquinho-da-várzea

EN

Scytalopus novacapitalis

Tapaculo-de-brasília

EN

Taoniscus nanus

Inhambu-carapé

EN

Urubitinga coronata

Águia-cinzenta

EN

Alectrurus tricolor

Galito

VU

Celeus obrieni

Pica-pau-do-parnaíba

VU

Cercomacra ferdinandi

Chororó-de-goiás

VU

Harpia harpyja

Gavião-real

VU

Hydropsalis candicans

Bacurau-de-rabo-branco

VU

Penelope ochrogaster

Jacu-de-barriga-castanha

VU

Sporophila hypoxantha

Caboclinho-de-barriga-vermelha

VU

Sporophila melanogaster

Caboclinho-de-barriga-preta

VU

Sporophila nigrorufa

Caboclinho-do-sertão

VU

Sporophila palustris

Caboclinho-de-papo-branco

VU

Sporophila ruficollis

Caboclinho-de-papo-escuro

VU

Tigrisoma fasciatum

Socó-boi-escuro

VU

Fonte: https://www.gov.br/icmbio/pt-br/assuntos/biodiversidade/pan/pan-aves-do-cerrado-e-pantanal 

 

Para saber mais sobre as ameaças e a conservação das aves do Cerrado confira também:

Batalha, M. A. et al. Consequences of simulated loss of open cerrado areas to bird functional diversity. Natureza & Conservação 8(1): 1-15, 2010.

Corrêa, B. S. Bioma cerrado, fragmentação florestal e relações ecológicas com a avifauna. Revista Agrogeoambiental 2(3): 57-72, 2010.

Marini, M. Â. Effects of forest fragmentation on birds of the cerrado region, Brazil. Bird Conservation International 11(1): 13-25, 2001.

Marini, M. Â. & Garcia, F. I. Bird Conservation in Brazil. Conservation Biology 19(3): 665-671, 2005.

Marques, E. Q. et al. Redefining the Cerrado - Amazonia transition: implications for conservation. Biodiversity and Conservation, 2019: 1-17.