Parteiras no Cerrado

Atualmente, o Ministério da Saúde define como parteira tradicional a profissional que presta assistência ao parto domiciliar baseada em práticas tradicionais e é reconhecida pela comunidade como parteira.

Segundo a pasta, o Programa Trabalhando com Parteiras Tradicionais recolocou a melhoria do parto e nascimento domiciliar assistidos por parteiras tradicionais na pauta de discussão com estados e municípios, como uma responsabilidade do SUS e uma atribuição da Atenção Primária à Saúde.

Regulamentação da profissão

Atualmente, tramita na Câmara dos Deputados um projeto de lei (PL) que regulamenta a profissão das parteiras tradicionais. De autoria do deputado Camilo Capiberibe (PSB-AP), a proposta prevê qualificação básica de parteira tradicional, pelo Ministério da Saúde ou por secretarias estaduais de Saúde, além do pagamento de um salário mínimo.

O PL 912/19 estabelece ainda que o Sistema Único de Saúde (SUS) fornecerá às parteiras tradicionais todos os equipamentos, os instrumentos cirúrgicos e os materiais de consumo necessários à adequada prestação dos serviços. Além disso, determina que a parteira deverá encaminhar a gestante ou a parturiente para avaliação médica quando for constatada gestação ou parto considerado de alto risco.

“Utilizando-se de suas mãos, de uma bacia com água e de uma tesoura ou material cortante, fazem o parto de acordo com as condições encontradas no local: à luz de vela, de lamparina ou, até mesmo, de fogueira. Dirigem-se à casa da grávida a pé, a cavalo, de bicicleta, da forma que for possível. E se não fosse pela atuação dessas mulheres resolutas, não temos dúvidas de que a mortalidade materna e perinatal apresentaria números muito maiores”, avalia o autor da proposta, deputado Camilo Capiberibe.

Segundo o parlamentar, estima-se que existam mais de 60 mil parteiras em atuação no Brasil, sendo 45 mil nas regiões Norte e Nordeste. No Estado da Bahia, conforme cálculo da Rede Nacional de Parteiras Tradicionais, haveria entre 7 mil e 8 mil. No Pará, 6 mil, no Tocantins, em Mato Grosso e em Minas Gerais, mais de 5 mil. Elas são responsáveis pela realização de 450 mil partos todos os anos.

“Mesmo diante da expressividade dos números apresentados, verificamos que as parteiras ainda trabalham em condições muito aquém das desejadas. Isso deve-se, em grande parte, ao preconceito com que a categoria é vista, sendo evidente a resistência que determinadas corporações profissionais oferecem à disseminação do parto humanizado”, argumenta Capiberibe.

Fonte: www.agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-01/parteiras-renascem-com-mais-seguranca-e-tecnicas-tradicionais

Publicações

ATTUCH, Iara Monteiro. Conhecimentos tradicionais do Cerrado: sobre a memória de Dona Flor, raizeira e parteira. 2006. 147 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia) -Universidade de Brasília, Brasília, 2006.

O estudo trata dos conhecimentos de povos tradicionais associados à biodiversidade do Cerrado brasileiro e das relações interculturais que se estabelecem entre seus detentores e membros da sociedade envolvente. A autora analisa os saberes de Dona Flor, raizeira e parteira, integrante do Povoado do Moinho, comunidade negra localizada no município de Alto Paraíso, Goiás. Trabalhos antropológicos sobre memória coletiva são aqui utilizados como estratégia metodológica para abordar o saber da raizeira. Os olhares que médicos e enfermeiros das instituições públicas de saúde municipal têm sobre especialistas de saúde deste tipo são também foco desta pesquisa com o objetivo de trazer à luz visões de intermedicalidade.

Disponível em: http://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UNB_97b0eefabc56c2b2be50711093c6c5df


SANTOS, Silvéria Maria dos. Parteiras tradicionais da região do entorno de Brasília, Distrito Federal. 2010. 235 f. Tese (Doutorado em História)-Universidade de Brasília, Brasília, 2010.

A pesquisa tem como objetivo contribuir com o registro histórico das trajetórias e saberes-experiências das parteiras tradicionais da Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno/RIDE, desde 1960, com apoio da História Oral. Por tratar-se de um ofício tecido nos rituais e práticas de cuidados, encontra-se condenado à “cultura do silêncio”. Se existem fontes documentais e historiográficas, essas parecem estar indisponíveis para pesquisa. Permanece apenas uma memória oral que guarda os saberes-experiências do partejar, os quais são transmitidos pelo ato de contar, de uma mulher para a outra, assim como de uma geração para a geração seguinte. O desenvolvimento da região Centro-Oeste, os fatores socioculturais e as estratégias do planejamento da modernidade que estruturaram o Distrito Federal, resultaram na reconfiguração do ofício das parteiras como processo cultural, não havendo interação e transferência simbólica entre os saberes populares e os acadêmicos, como ação social capaz de combinar concorrência e cooperação, conflito e participação, saberes tradicionais locais e conhecimentos científicos. Deixou de se caracterizar pela articulação entre as estratégias de desenvolvimento e as especificidades culturais inerentes aos contextos territoriais das racionalidades constitutivas do ofício das parteiras. De onde é possível entender que diferentes acepções acerca de desenvolvimento podem representar o desafio de interagir com a competitividade e a solidariedade, em desdobramento aos modelos de atuação no partejar, modelo biomédico e o modelo dos saberes-experiências que engendraram o ofício das parteiras. Situação que reverberou para a política de silenciamento dessas mulheres na RIDE. 

Disponível em http://repositorio.unb.br/handle/10482/7309


Saraiva, Regina Coelly Fernandes. Saberes, fazeres e natureza nas vozes de mulheres da Chapada dos Veadeiros‑Goiás. História Oral, v. 1, n. 15, p. 209-229, jan.-jun. 2012.


WATSON, Juliana Floriano Toledo. Bem viver do Cerrado: partejar amor, parir uma bioética local. 2016. 181 f., il. Dissertação (Mestrado em Bioética)—Universidade de Brasília, Cavalcante, 2016.

Essa dissertação é uma reflexão gerada a partir da relação de aprendiz da pesquisadora com a parteira e raizeira Dona Flor, moradora da comunidade quilombola do Moinho, Alto Paraíso/GO. Se insere dentro da proposta de Pluralismo Bioético, tendo como principal referencial teórico e político os feminismos descoloniais. O saber é localizado desde uma pequena apresentação do micro: a pesquisadora, a mestra, e o Cerrado da Chapada dos Veadeiros; até o macro: a história da perseguição às sanadoras, também conhecida como caça às bruxas; os efeitos do colonialismo e da colonialidade na diferenciação entre saber dominante e saberes locais. Alguns elementos da ética da cura de raizeiras do cerrado são trabalhados por sua possibilidade de expandir a práxis no campo da Bioética. São eles: a espiritualidade, o amor, as flores, os doces, a música e o tempo da terra. Esses elementos somados a outros constituem o que se propõe chamar de Bem Viver do Cerrado. Conceito que carrega um potencial de reivindicação para os movimentos sociais e povos do Cerrado.

Disponível em:

https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/21643/1/2016_JulianaFlorianoToledoWatson.pdf


Viva Maria: Documentário revela histórias de Dona Flor, a parteira do Cerrado

Em sintonia com o 2º Encontro de Raizeiros, Parteiras, Benzedeiras e Pajés, que até o próximo domingo (28) acontece na Chapada dos Veadeiros (GO), Viva Maria hoje (26) pega emprestada a sabedoria de Dona Flor do Moinho no trato das plantas e ervas medicinais ouvindo um trecho do documentário da diretora Érica Bauer, professora da UnB, onde ela fala do poder de uma planta do Cerrado chamada Jofinho contra mordida de cobra.

http://radioagencianacional.ebc.com.br/geral/audio/2017-05/viva-maria-documentario-revela-historias-de-dona-flor-parteira-do-cerrado