Comunidade Kalunga Vão das Almas, Cavalcante - Goiás

As rezas são parte da vida da comunidade do Vão de Almas. Estão presentes de modo transversal nas tradições festivas e em outras práticas religiosas da comunidade, tradições essas que são reveladas nas festas religiosas que acontecem durante todo o ano. São romarias, impérios, festas de santos, arremates de folias, festas de “boca da noite” e “festas do meio dia”. As rezas também estão inseridas em outras práticas religiosas, como novenas, benzimentos, casamentos na fogueira, casamentos na igreja, velórios (excelências), promessas e etc. As rezas presentes nas festas religiosas do Vão de Almas têm como base o catolicismo. As festas se dividem entre os ritos das rezas e os momentos dedicados às folias e às danças, que apresentam elementos da cultura afro-brasileira tendo como principal expressão a sussa.  

A Romaria é o conjunto dos momentos religiosos e festivos, por meio do qual a comunidade se organiza em um determinado espaço durante uma semana, em uma espécie de peregrinação religiosa. A Romaria de Nossa Senhora da Abadia é uma festa tradicional realizada anualmente, de 12 a 17 de agosto, que reúne cerca de duas mil pessoas entre os romeiros, visitantes e pesquisadores vindos de diversos lugares. Essa festa há 200 anos tem a participação efetiva de pessoas do Vão de Almas e dos municípios de Teresina, Monte Alegre e Cavalcante.
No território Kalunga existem as seguintes romarias: Romaria de Nossa Senhora da Abadia e São João (comunidade Vão de Almas); Romaria de Nossa Senhora do Livramento, São Gonçalo e Santo Antônio (comunidade Vão do Moleque, Cavalcante); Romaria de São Sebastião (comunidade Salina, Cavalcante); Romaria de São Sebastião (comunidade Engenho II, Cavalcante); Romaria de Nossa Senhora Aparecida (comunidade Diadema, Teresina); e Romaria de São João (comunidade Sucuri, Monte Alegre).

As principais romarias são: Romaria de São João, de 22 a 26 de junho, e que junta cerca de 150 famílias da comunidade; Romaria de Nossa Senhora da Abadia, de 12 a 17 de agosto.

Os Impérios acontecem desde o momento que duas pessoas da comunidade são sorteadas, um homem (rei) e uma mulher (rainha), para organizar a festa, que é realizada sem nenhum patrocínio. As pessoas da comunidade fazem uma força tarefa e doam o que podem para ajudam na organização de toda a festa, desde a decoração até o preparo dos “comes e bebes” (comidas e bebidas distribuídas durante os momentos que acontecem na Romaria).
No Império, as rezas acontecem durante o dia, com a presença do rei, da rainha e dos anjos. São realizadas na igreja após a saída do barracão do festeiro (residência dos Imperadores durante a Romaria), acompanhados em cortejo pelos grupos da organização do Império até a igreja. Nessa atividade destacam-se as figuras do “Pai de estoque”, espécie de Alferes que carrega a espada ao invés de bandeira; e dos “Procuradores” que são casais de jovens que saem na frente da Folia de Cipó procurando e arrecadando esmolas destinadas ao santo.

A folia é um elemento da tradição religiosa brasileira aonde um grupo de homens festeiros, cantadores e tocadores, popularmente chamados de foliões, tocam instrumentos tradicionais como caixa, viola, pandeiro e com bandeira de santos no mastro (espécie de estandarte) saem de casa em casa cantando, louvando e recolhendo dinheiro no período de seis a doze dias. Esse recurso é utilizado para ajudar o encarregado da folia do ano seguinte. As rezas acontecem à noite no “arremate da folia”, isto é, quando termina a folia, realizado nas casas das famílias da comunidade. Nas Romarias também acontecem as “folias de cipó”, um tipo de folia com duração de apenas um dia.

Já as festas do “meio dia” as rezas são organizadas e realizadas durante o dia, especificamente ao meio dia, também em louvor aos santos da igreja católica. As festas, realizadas nas casas das famílias da comunidade, também acontecem ao “meio dia” e seguem a mesma organização das festas de “boca da noite”, exceto pela diferença de ao invés do jantar é oferecido um almoço para as pessoas presentes. Terminada a reza, as pessoas se divertem até o final da tarde, seguindo para suas casas ao anoitecer.

No Vão de Almas é possível identificar muitas rezadeiras e rezadores. Nas entrevistas foram lembrados nomes de muitas pessoas responsáveis por este ofício (alguns já falecidos) por manter viva essa tradição na comunidade: Seu Ulisses (conhecido como “Veio” Ulisses), Seu Justino (conhecido como “Veio” Justino), Dona Tereza, Dona Jandira, Dona Getúlia, Seu Paulinho, Seu Patrício, Seu Jacinto, Seu Aprígio, Dona Guilhermina, Dona Tereza, Dona Roxa, Dona Romana, Seu Simão, Seu Fulgêncio, Dona Severa e muitos outros. Senhora Jandira dos Santos Rosa tem 70 anos, é natural do Maranhão, localidade no interior do Estado do Tocantins, e criada na comunidade kalunga do Vão das Almas. Senhora Getúlia da Cunha tem 56 anos e nasceu no Vão de Almas, fazenda Lagoa, no município de Cavalcante, é viúva e mãe cinco filhos, sendo que dois desses já faleceram. É uma lavradora que não teve oportunidade de estudar. Senhor Lucio dos Santos Rosa, nascido no Vão do Moleque, comunidade Kalunga próxima ao Vão de Almas, tem 80 anos. É líder comunitário e não teve oportunidade de estudar.

Fonte: ROSA, Wanderléia dos Santos. Rezas, rezadeiras e juventude na comunidade Vão de Almas, Cavalcante – GO. 2013. 55 f., il. Monografia (Licenciatura em Educação do Campo)—Universidade de Brasília, Planaltina-DF, 2013.