Benzedeiras de Padre Bernardo, GO

 Dona Margarida, 62 anos, nasceu no município de Niquelândia ao norte do estado de Goiás, que dista 148 km de Padre Bernardo. Nessa localidade, a mesma descobriu o dom para benzer. Mudou-se para várias fazendas antes de ir para Padre Bernardo. Aprendeu a benzer com sua mãe e com outras pessoas que sabiam das rezas, lá mesmo no município de Niquelândia. Ela afirma que tinha muita vontade de aprender a benzeção: “foi com a minha mãe e mais outras pessoas mais de idade que sabiam benzer que eu tinha vontade né, de aprender, eu pedia pra me ensinar, aí eu aprendi”. Atualmente, mora em uma casa repleta de plantas, quadros e decorações no centro de Padre Bernardo com seu esposo. E frequenta a Igreja de Nossa Senhora do Carmo também no Centro da cidade. 

 

Dona Rosinha, 74 anos, nasceu em Linhado, município de Corumbá no estado de Goiás e logo se mudou para Passa-trinta uma pequena comunidade ao lado da BR-414, estrada que liga o município de Niquelândia ao município de Dois irmãos, em seguida, foi-se para Padre Bernardo. Aprendeu a benzer em Passa-trinta com sua tia, mas parou de benzer quando se mudou para Padre Bernardo, pois além de ter sofrido um AVC, ela agora é evangélica. No entanto, de vez enquanto a necessidade aparece e ela não pode negar o seu dom divino. Assim, quando aparece uma criança passando mal, ela, ainda, benze. Segundo essa senhora: “Tem dia que, às vezes, conforme a pessoa assim, principalmente criança, estando passando mal eu benzo assim eu fico com dó eu benzo de quebrante, espinhela, mal olhado”. Dona Rosinha afirma que é a única pessoa da família que sabe e tem o dom de benzer. Ela mora em uma casa no centro de Padre Bernardo com uma filha que cuida dela. Ela frequenta a Igreja O Brasil Para Cristo, distante alguns minutos de sua residência.

 

Dona Violeta, 73 anos, nasceu na fazenda Sumidor no município de Padre Bernardo. Desta localidade, se mudou para o município de Luziânia, em Goiás, onde observava sua avó e as amigas benzer. Em seguida, casou-se e mudou-se para várias fazendas, conforme ela explica: “mudei pra Grota d água, de lá mudei pra Quebra coco, de lá mudei pra Lajinha, de Lajinha eu vim pro Bom Jesus. Eu vim pra aqui. Eu vim pro Grotão, de lá eu fui pro Bom Jesus, fiquei lá esse tempo tudo, uns sete anos, mas logo eu cheguei aqui”. Ela aprendeu a benzer mesmo, ainda, muito jovem com uma vizinha quando residia na fazenda Bom Jesus, antes de se estabilizar na cidade de Padre Bernardo. Atualmente, mora com seu esposo em uma casa no bairro Setor Divinópolis. Dona Violeta teve cinco filhos, todos nascidos em casa por parteiras, sendo que essas parteiras também eram benzedeiras. Ela benze somente crianças de até três anos de idade. 

 

Dona Clara, 79 anos, nasceu na cidade de Posse, no estado de Goiás, que faz divisa com o estado da Bahia. Foi lá que ela aprendeu a benzer com sua mãe aos 13 anos. Semelhante às outras benzedeiras, afirma que recebeu esse dom de Deus. Dona Clara passou a maior parte da sua infância e adolescência morando no município de Uruaçu, cidade que fica a 150 km de Padre Bernardo, mas quando se casou, mudou-se para o município de Padre Bernardo. Durante muito tempo, ela morou em fazendas e fazia suas benzeções nos vizinhos que moravam perto dela, até o dia em que saiu da roça e se mudou para a cidade de Padre Bernardo. Seu primeiro benzimento foi realizado em uma criança que estava com quebranto.
“A gente já nasce com aquele dom da gente fazer as rezas, benzer, é porque é um dom que Deus dá pra gente, e a gente já nasce com aquele dom”.
Dona Clara teve 12 filhos, todos nascidos em casa, por parteiras. O parto de sua penúltima filha foi realizado por ela mesma, pois estava em casa, sozinha. Nenhum de seus filhos se interessou em aprender as rezas e os procedimentos do benzimento. Dona Clara conta que tem duas irmãs que também têm o dom de benzer, assim ela explica: “Eu tenho duas que tem o dom de benzer, que eu tenho uma irmã minha que é evangélica, Luiza é evangélica e Angelina que nós tratamos ela de comadre Ló, ela benze de quebrante também”. Dona Clara mora a 13 anos na cidade de Padre Bernardo, em uma casa no bairro Setor Divinópolis com dois filhos, e desde que se mudou, nunca parou de benzer as pessoas e a procura pelo benzimento só aumento com o passar dos anos.
“Eu, de primeiro eu rezo três Ave Maria, aí eu rezo nas minhas palavras: Com Deus é o dia, com Deus é o sol, com Deus é a lua, com Deus as estrelas, com Deus é a luz. Como essas palavras são santas, são verdades todas as pessoas são curadas”, logo em seguida ela termina com um Pai Nosso pela saúde da pessoa.

 

Percebe-se que há especificidades nas doenças que podem acometer crianças ou adultos. O “quebranto” acontece quando a criança é muito bonita e as pessoas olham muito a criança, com um olhar forte pode causar o quebranto. Por conseguinte, as benzedeiras explicam que é causado pelo excesso de amor dos familiares. Isso pode acontecer com o olhar da mãe, do pai, dos avós, não é por maldade. O “mau olhado” é movido por um olhar invejoso, de ódio. Elas explicam que é “olho atravessado” que pega a criança. O mau-olhado, também, pode ser chamado de “olho gordo”, que quando uma pessoa olha para a outra com raiva ou com inveja e a pessoa invejada fica com moleza no corpo, sonolência e falta de apetite. O quebranto causa muito choro na criança e ela fica em vigília. Além disso, quando a criança está com “quebranto”, ela fica com moleza no corpo, febre e falta de apetite. Engasgo é quando a pessoa que se engasga com osso, com espinha de peixe, com farofa seca ou se comer a farofa com pressa. Neste caso, tem a reza do São Brás para desengasgar. O “cobreiro” se pega vestindo roupas em que animais peçonhentos passaram, e há diversos tipos ou “espécies” de cobreiros. Assim, há o cobreiro de aranha que dá só aquela “canjiquinha”, sendo essa fácil de curar. Há o cobreiro de lagartixa e das caranguejeiras que são mais difíceis de curar, necessitando até três benzeções seguidas para se curar. Elas afirmam que o cobreiro pode levar a morte, quando as feridas dão a volta no corpo da pessoa, isto é “fecham”. Por isso, afirmam que quando aparece o cobreiro e a pele fica “emborbulhada”, a pessoa tem que ir imediatamente à benzedeira. Outra doença que as crianças apresentam para as benzedeiras é a “espinhela caída”, trata-se de um ossinho que vira para dentro ou cai, perto da boca do estômago. Explicam que é um ossinho mole que sai do coração. Adultos também tem espinhela caída, ficam sem coragem de trabalhar, o corpo fica dolorido, sente fortes dores no estômago, dores nas costas, dores nas pernas, náuseas e vômitos. Para saber se a espinhela está caída, mede-se da ponta do dedo mindinho até a ponta do cotovelo e depois mede os ombros de uma ponta a outra tendo que coincidir as medidas, caso contrário, a pessoa está com a espinhela caída. Elas também benzem para “atalhar sangue”. Isso acontece quando a pessoa se corta profundamente e jorra muito sangue, assim, para o sangue se estancar na hora, faz-se o benzimento. Elas benzem contra “bicheira” – que é mais comum de acontecer em animais -, existe uma reza que é feita aos domingos que faz cair esses bichos imediatamente. A reza é assim: “Se benzimento de domingo alar/ esses bichos alam”. Há, também, a “erisipela”, que é uma doença de pele que se manifesta com o aparecimento de bolhas vermelhas, e quando estoura, vira uma ferida. Dona Clara benze muitas crianças por dia: “tem dia que eu benzo 8 crianças, 8, 9, 10 crianças por dia”. Sendo que essas crianças são de Padre Bernardo e outras regiões como Brazlândia, Mimoso de Goiás, Dois Irmãos, Trajanópolis e Taboquinha. São pessoas conhecidas ou próximas de pessoas que conhecem Dona Clara. Ela também benze adulto, porém benze mais criança e prefere benzer criança. Ela explica que benzimento de adulto é diferente de benzimento de criança, pois as palavras são diferentes. As doenças são diferentes e algumas palavras também. Ela sempre benze as crianças de quebranto, dor de barriga, dor de cólica de criança, cobreiro e “vento virado”. Este último faz a criança ficar com medo, para de caminhar, a criança cai e passa mal.

 

Fonte: SILVA, Grasiela dos Santos da. As benzedeiras na promoção da saúde da criança no município de Padre Bernardo – GO. 2014. 51 f. Monografia (Bacharelado em Saúde Coletiva)—Universidade de Brasília, Brasília, 2014.

 

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