Em cada pedaço de chão do interior do nosso Brasil existem homens e mulheres que são curadores, que aplicam a sabedoria ancestral, em chás de ervas, banhos e benzimentos, com rezas e cantos, e com essas práticas conseguem minorar muitos dos males que atingem os que as consultam. Assim, são essas pessoas, que conhecem as folhas, as cascas, os cipós, as luas mais propícias e também, as rezas que orientam sua fé na cura. têm suprido a falta de atendimento médico em localidades remotas. Há também quem, mesmo nas cidades, prefira procurar uma benzedeira para casos em que a cultura popular identifica como sendo de trato das benzedeiras – empacho, espinhela caída, quebrante, bucho virado, e tantos outros nomes que o povo usa para designar sensações físicas muito incômodas.

A medicina popular tem raízes numa realidade social de pobreza e se destaca pela prestação de serviços básicos de saúde. As pessoas envolvidas nesse trabalho geralmente têm muita fé e guardam e transmitem sua cultura por meio do uso sustentável dos recursos naturais.

A MEDICINA TRADICIONAL praticada pelos povos do Cerrado se expressa através de diferentes práticas de cura; síntese da medicina dos povos indígenas brasileiros, dos povos africanos e dos colonizadores portugueses; utiliza diversos recursos para cuidar da saúde: remédios caseiros feitos de plantas medicinais, dietas alimentares, banhos, benzimentos, orações, aconselhamento, massagem e aplicação de argila; argila; os remédios caseiros, preparados com plantas medicinais são os mais utilizados; mas a sua produção e comercialização são considerados ilegais pela Vigilância Sanitária;

Esta criminalização impacta negativamente a dinâmica, transmissão e salvaguarda da medicina tradicional, dai a importância dos saberes populares estarem presentes em duas políticas do Governo Federal: a política nacional de plantas medicinais e fitoterápicos que considera “o valioso conhecimento tradicional associado ao uso de plantas medicinais” capaz de ajudar na qualidade de vida da população.

E, na política nacional de práticas integrativas complementares em saúde, que visa integrar a medicina tradicional e terapias alternativas, estão novamente as plantas medicinais.

A medicina tradicional é viva, protege os conhecimentos tradicionais de povos indígenas e comunidades locais, e contribui para a conservação da (agro) biodiversidade brasileira.

Identidade de quem pratica a medicina tradicional é diversa: curandeira, raizeira, parteira, benzedeira, mãe de santo, agente pastoral; necessidade de uma identidade social: seja representativa dos ofícios com experiências comuns de cura através do uso tradicional da biodiversidade; e para exigir seus direitos perante políticas públicas;

A identidade de “Raizeira” foi escolhida para esta representação, sendo o “dom da cura através das plantas medicinais”, o seu principal elemento de expressão.

As características de pertencimento à identidade social de raizeira:

– a raizeira é reconhecida como protetora da natureza e de nascentes d’água;

– tem preparação espiritual vinda da natureza, tem relação diária com a natureza;

– tem conhecimento sobre o poder de cada planta, responsabilidade para fazer o uso correto, conhece as doenças da comunidade e as medidas de prevenção,

– entende a saúde também através da soberania alimentar e garantia de água.

– comercializa os remédios caseiros que produz, a um preço justo ou doa a quem não pode pagar: “o principal valor do remédio é a cura”.

“Rezadeiras, curandeiras, benzedeiras. Os nomes variam, mas a importância é a mesma para as pessoas que as procuram em busca de uma oração para a cura de algum mal. Em comum, além da humildade e do olhar doce, as rezadeiras têm alguns modos de orar, benzendo os pacientes com as mãos ou com plantas, em uma linguagem própria, uma espécie de cochicho ininteligível que mantêm com Deus ou com os(as) santos(as) que são devotas.

As rezadeiras são líderes naturais nas comunidades onde vivem. São respeitadas, principalmente pelas mães que, na maioria das vezes, optam por suas rezas para curar os filhos das doenças. Comum recorrer à flora sertaneja  para fazer lambedores, purgantes, emplastros, pomadas e garrafadas, acompanhadas de gestos e orações, rezas, benditos, novenas, ofícios, terços, rosários, entre outros recursos de cunho religioso.

Os rituais das rezadeiras são próximos do que os padres entendiam como doutrina espírita. Por isso, as benzedeiras, por muito tempo, isoladas do convívio com a Igreja Católica devido a interpretação de fenômenos de mediunidade. Com o passar do tempo, foram adquirindo espaço na sociedade e hoje estão presentes em grande parte das comunidades, como uma alternativa de apoio, das benditas  rezadeiras.

Essas mulheres fazem questão de declarar que não utilizam seus dons para realização de “pedidos malignos”. No máximo, elas pressentem os “enguiços”, que seriam um mal desejado a alguém, mais conhecido por todos como “mau olhado”.

Sempre lembradas por pessoas de classes sociais diversificadas, que em pleno século XXI, apesar de todo avanço da medicina, ainda acreditam primeiramente nesses “anjos de Deus”, as rezadeiras não acreditam que o ofício acabe um dia.

“Enquanto a medicina e a alopatia curam as doenças do corpo, as rezas curam as doenças da alma”, é o dito popular. “Como curar uma espinhela caída, um mau olhado, com paracetamol e ácidos acetilsalicílicos? Qual o médico que, em seu consultório, teria uma medicação para estes males?”, são questionamentos permanentes.

No interior do Brasil, ainda é possível encontrar mulheres conhecidas por livrar muita gente de males que às vezes a medicina desconhece. O que mais elas rezam é “espinhela caída”. Segundo as rezadeiras, trata-se de uma dor provocada pelo deslocamento de uma cartilagem localizada na “boca do estômago” (saída do esôfago para o estômago).

Outros males mais comuns curados pelas rezadeiras são o mau olhado, cobreiro, íngua, quebranto e erisipela. Em alguns casos, o “paciente” tem de voltar mais vezes para que a reza fique completa. Os chás e banhos de ervas medicinais também são receitados.

O conhecimento é repassado, principalmente, de mãe pra filha.   Geralmente, senhoras de fala mansa e andar compassado que adoram uma boa conversa e isso fez com que ela fosse uma das escolhidas para protagonizar os segmentos  de rezadeiras, benzedeiras, curandeiras.

As legislações nacionais e internacionais precisam proteger os conhecimentos tradicionais e garantir às comunidades locais alguma forma de repartição dos benefícios oriundos da biodiversidade.

Fonte: Revista Brasileiros com trecho do livro alumeia e óia pros encantamentos dos cerratenses ( FMB)

A rica biodiversidade do Cerrado oferece raízes, cascas, resinas, óleos, folhas, argilas, água, e outros diversos recursos naturais que são primorosamente manejados por suas populações para a prática da medicina popular.

A medicina tradicional é um sistema de cura utilizado por povos ou comunidades para o tratamento de seus diversos males. A sua prática é baseada no conhecimento tradicional associado ao uso da biodiversidade, transmitido de geração em geração e; no uso de diversos recursos como: remédios caseiros, dietas alimentares, banhos, benzimentos, orações, aconselhamentos, aplicação de argila, entre outros.

Publicação:

O SABER E O “PRA QUÊ”: ENTRE O MÍTICO E OS CONHECIMENTOS MEDICINAIS DE USO DA FLORA CERRADEIRA NA COMUNIDADE RURAL SÃO BENTO, EM BURITIZEIRO, NORTE DE MINAS GERAIS

ANA CAROLINA DOS SANTOS PEREIRA, DANIEL AMARAL DE SOUZA, MARIA DAS GRAÇAS CAMPOLINA CUNHA

http://www.ccr.unimontes.br/arquivo/AnaCarolina.pdf

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[dt_tab title=”Benzedeiras” opened=”true”]

“Se sente algum problema de remédio, vai na minha casa, é só sentir a cabeça doer, vai na minha casa, se tá com o corpo ruim doendo, vai na minha casa, com oração e chá caseiro eu dou volta. Com as palavras divinas que Deus me ensinou sou procurada em todo canto, pra benzer e pra ensinar remédio.” Geraldina Borges Conceição Santos – Dona Dina Raizeira e Benzedeira Riacho dos Machados (MG)

As raizeiras do Cerrado, também conhecidas como benzedeiras, são guardiãs da medicina popular. Elas utilizam raízes, cascas, resinas, óleos, folhas, argilas, água, e outros diversos recursos naturais que são primorosamente manejados para o tratamento de diversos males como mau olhado, quebranto, espinhela caída e até dores de cabeça.

A sua prática é baseada no conhecimento tradicional, transmitido de geração em geração, e no uso de diversos recursos como: remédios caseiros, dietas alimentares, banhos, benzimentos, orações, aconselhamentos, aplicação de argila, entre outros.

O benzimento é costume antigo e está no dicionário. Benzer vem do latim bene dicere, que significa bem dizer. Dizer bem de alguém e fazer o bem. Quem explica sua origem é o antropólogo João Baptista Borges Pereira: “No Brasil está desde o Descobrimento porque é uma herança do catolicismo português. Em Portugal, as mulheres ou são benzedoras ou são demoníacas. Pode fazer o bem ou o mal. Quanto mais a mulher envelhece, ela vai se tornando feiticeira e indesejável. Mas no Brasil, a benzedeira passa elementos sincréticos, misturados, com influências indígenas e africanas, ligada às influências portuguesas. Elas tinham uma preocupação grande de fazer o bem. As benzedeiras fundamentalmente são pessoas do bem”.

Publicação:

SABERES E FAZERES QUILOMBOLAS DA COMUNIDADE KALUNGA DO PRATA GOIÁS: AS BENZEDEIRAS, SEUS BENZIMENTOS E SUAS CONTRIBUIÇÕES PARA A EDUCAÇÃO DO CAMPO

Valquíria Fernandes DIAS; Severina Alves de ALMEIDA; Ângela Maria SILVA; Ângela Maria Dias MORAIS; Rosemeire Rezende HONDA

RESUMO Este trabalho traz o resultado de uma pesquisa com o povo Kalunga da comunidade Prata de Cavalcante de Goiás com suas historias, seus processos de resistência, seus saberes e fazeres. Esse povo há muito tempo vem resistindo numa trajetória árdua. Uma trajetória que não foi encarada de forma nada passiva, e ainda não está sendo. Eles vêm lutando constantemente para a garantia de seus direitos e para a preservação de sua cultura. Prata é uma comunidade que tem muito de saber popular, tradicional, e isso o trazemos neste trabalho, que é o poder de curar por meio dos benzimentos. Esses saberes e fazeres quilombolas cura doenças das mais variadas formas, promove parto caseiro, dentre outros. As plantas medicinais cultivadas nos terreiros ou até mesmo nativos da região, tem um papel fundamental, que é de auxiliar na eficácia dessas ações. São saberes que foram passado de geração, por meio da observação e por via oralidade, sendo que esse costume ainda não deixou de existir nas comunidades tradicionais. O que é fundamental para a preservação dessa cultura quanto para a realização de desenvolvimento de trabalhos acadêmicos.

Facit Business and Technology Journal 56 2017;2(1):56

file:///C:/Users/Professor(a).FE-373524/Downloads/172-708-1-PB.pdf

– OLIVEIRA, Elda Rizzo. O que é benzeção. 2. ed.São Paulo: Brasiliense, 1985.

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[dt_tab title=”Rezadeiras”]

O termo benzedeiras ou rezadeiras se atribui ao papel desempenhado geralmente por mulheres, que sempre tiveram uma relação muito forte com natureza e possuem um saber muito útil: produzem uma classificação e uma seleção de plantas, ervas, raízes que são utilizadas como recursos terapêuticos (Oliveira 1985); além disso, segundo Maciel e Neto (2006), o manejo de plantas realizado por benzedeiras, raizeiros e parteiras são excelente fontes de estudos etnobotânicos, que propiciam as interpretações dos conhecimentos, uso tradicional dos recursos vegetais e são agentes sócio culturais importantes nas comunidades onde ocorrem. O discurso mitológico que é passado de geração em geração através da tradição oral é, um mecanismo mobilizado para racionalização e entendimento de tudo que é vivente (Albuquerque 2005a).

Albuquerque UP, Almeida CFCBR, Marins JFA (2005a) Tópicos em Conservação, Etnobotânica e Etnofarmacologia de Plantas Medicinais e Mágicas – Recife: NUPEEA/ Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. 37 p. Albuquerque UP. (2005b). Introdução à Etnobotânica. 2.ed. Rio de Janeiro: Interciência, 2005. p.31-34.

Maciel MRA, Neto GG (2006). Um olhar sobre as benzedeiras de Juruena (Mato Grosso, Brasil) e as plantas usadas para benzer e curar. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi, Ciências Humanas. Belém, v. 1, n. 3, 63p.

Oliveira ECS, Trovão DMBM (2009). O uso de plantas em rituais de rezas e benzeduras: um olhar sobre esta prática no estado da Paraíba. Revista Brasileira de Biociências, v. 7, n. 3, p. 245-251.

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[dt_tab title=”Parteiras”]

Parteira Tradicional

Estima-se que existam mais de 60 mil parteiras tradicionais em atuação no Brasil. Isto mesmo, 60mil!!!

Muitas delas, vivem nos recantos profundos do país, em comunidades vulneráveis social e economicamente, onde são as únicas referências de saúde. Por meio da arte do partejar, elas dedicam suas vidas, fazeres e saberes ao povo brasileiro. No entanto, estão no ostracismo das políticas públicas e muitas vivem em situação precária, sem nenhum amparo governamental.

O Fundo de População das Nações Unidas (Unfpa) destaca que o trabalho das parteiras pode evitar cerca de dois terços de todas as mortes maternas e entre recém-nascidos registradas no mundo. De acordo com a entidade, as parteiras também são capazes de oferecer 87% de todos os serviços relacionados à saúde sexual, reprodutiva, materna e do recém-nascido.  No Brasil, anualmente, são realizados, em média, 41 mil partos domiciliares, desses a maioria é assistido por parteiras tradicionais. Mesmo sendo dados subnotificados ao Sistema de Informação à Saúde do Ministério da Saúde (DATASUS), os números nos mostram que as parteiras tradicionais existem e que seus trabalhos deveriam estar dentre as preocupações de gestores e profissionais de saúde de todas as regiões, principalmente Norte, Centro Oeste e Nordeste. Além disso, o parto domiciliar assistido por parteira tradicional é um direito reprodutivo reconhecido por autoridades nacionais e internacionais de saúde, porém a existência de Marcos Legais no Brasil que respaldam a implantação de políticas de inclusão do trabalho desenvolvido por parteiras tradicionais, não tem, no entanto, se revertido em mudanças significativas na qualidade de vida dessas mulheres guerreiras” Paula Viana, Grupo Curumim.

O Grupo Curumim, desde sua fundação, trabalha com parteiras tradicionais*, indígenas e quilombolas, nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, em algumas regiões do Sudeste e da região Sul. Colabora nas proposições e definições de políticas públicas de saúde para a inclusão do parto e nascimento domiciliar assistidos por parteiras tradicionais no conjunto da atenção integral à saúde da mulher no Brasil.

Dona Flor ou Flor do Moinho é uma Mestra!

Quilombola, parteira, raizeira, no auge dos seus 80 anos construiu uma história alicerçada na doação, na entrega, na ensinança, no estudo e salvaguarda da biodiversidade do cerrado e nas tecnologias mais simples, em favor da saúde e  da educação comunitária.

Dona Flor nos inspira, pois acredita na natureza e na capacidade humana de transformação e resilência! O SONHO DE DONA FLOR: Ter uma ‘Casa’, um espaço de ensinança e aprendizagem, que gere união e partilha entre aprendizes.

Dona Flor já não é mais uma jovenzinha, o peso da idade e algumas questões de saúde nos mostram que o projeto, a  Casa de Saberes precisa acontecer AGORA!!!

Tornar o sonho de Dona Flor realidade incide diretamente na redução da vulnerabilidade e na invisibilidade das parteiras tradicionais. Adotar uma Parteira, uma benzedeira, uma raizeira, tornar seus sonhos e  salvaguradar seus saberes, é um convite para a sociedade brasileira na atualidade. Ativistas estão dialogando sobre meios de adotar e salvaguardar estes mestres e mestras, em vivências formativas e em audências públicas, como a última que ocorreu no Senado Federal, em novembro de 2017. 

A Casa de Saberes Tradicionais Flor do Moinho

– Uma casa que se tornará um ponto de encontro, um ponto focal para que Dona Flor realize o sonho de transmitir seus saberes e fazeres.

– Um lugar acolhedor, que receba visitantes do Brasil e do Mundo todo, que desejam trocar, compartilhar, repartir conhecimentos. Uma casa de inter – câmbios!

– Um lugar onde toda e qualquer gestante se sinta acolhida, como um bebê num útero, num ventre afetuoso, se sinta confiante, receba orientações sobre a gestação, parto, aleitamento, puerpério.

– Um ambiente educativo, onde as crianças, meninas e meninos possam receber apoio e carinho com ludicidade e aprendam a se amar, se autocuidar.

– Uma escola, onde as formações permanentes sobre Partejar, Fitoterapia e Terapias, aconteçam, com arte, música, tecelagem, hortomedicinal, jardinagem e tecnologias… onde ciência e tradição se encontram e criam experiências novas e inovadoras vivências!

– Um lugar para homens que queiram vivenciar o paternar, um lugar para terapeutas, educadores/as, ativistas dos direitos humanos, uma casa para Ser humano! 

https://benfeitoria.com/casadesaberesdonaflor?ref=benfeitoria-pesquisa-projetos

A Dona Flor, além de mestre em plantas medicinais, é também parteira. O dom foi revelado com sua própria mãe. Sem saber sequer de onde vinham os bebês, passou por situação de apuros aos 18 anos. Sua mãe estava em trabalho de parto, um parto com muitas complicações, tanto que as parteiras desistiram e simplesmente saíram do quarto. Quando a Dona Flor entrou, não sabia o que fazer, mas também sabia que não podia cuidar de todos os irmãos sozinha, então começou a colocar sua mãe em diferentes posições para ajudá-la. Nessa hora sua mãe já estava desacordada. Segundo seu relato, uma voz divina foi guiando seus passos. Assim que colocou a mãe sentada em seu joelho com a coluna ereta, houve um estalo e o bebê nasceu com o cordão enrolado no pescoço. Ela conseguiu salvar sua mãe e sua irmã, sozinha.

Desde então foram 326 partos! Por isso é a mãezona de mais de 300 “filhos”. É gestação que não acaba mais. Sem contar com seus 18 filhos biológicos e 12 adotivos. Essa mulher inspiradora dedicou sua vida à comunidade. O seu prazer é o cuidado, seja na hora do nascimento, seja no restante da vida. Um exemplo de que a ciência não depende só da academia, essa médica não é alfabetizada, mas tem forte afinidade com a cura a partir de seus conhecimentos empíricos.

Sim, ela ficou conhecida pelo seu carisma e agora tem até filme, chama-se “Flor do Moinho”: https://www.youtube.com/watch?v=GThjaorgeJg

Publicação:

– Attuch, Iara Monteiro. Conhecimentos Tradicionais do Cerrado: Sobre a memória de Dona Flor, raizeira e parteira. Dissertação [Mestrado em Antropologia]. Brasília: UnB, 2006.

O estudo trata dos conhecimentos de povos tradicionais associados à biodiversidade do Cerrado brasileiro e das relações interculturais que se estabelecem entre seus detentores e membros da sociedade envolvente. A autora analisa os saberes de Dona Flor, raizeira e parteira, integrante do Povoado do Moinho, comunidade negra localizada no município de Alto Paraíso, Goiás. Trabalhos antropológicos sobre memória coletiva são aqui utilizados como estratégia metodológica para abordar o saber da raizeira. Os olhares que médicos e enfermeiros das instituições públicas de saúde municipal têm sobre especialistas de saúde deste tipo são também foco desta pesquisa com o objetivo de trazer à luz visões de intermedicalidade.

Disponível em http://repositorio.bce.unb.br/bitstream/10482/2549/1/2006_IaraMonteiroAttuch.pdf

– SANTOS, Silvéria Maria dos. Parteiras tradicionais da região do entorno de Brasília, Distrito Federal. 2010. 235 f. Tese (Doutorado em História)-Universidade de Brasília, Brasília, 2010.

A pesquisa tem como objetivo contribuir com o registro histórico das trajetórias e saberes-experiências das parteiras tradicionais da Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno/RIDE, desde 1960, com apoio da História Oral. Por tratar-se de um ofício tecido nos rituais e práticas de cuidados, encontra-se condenado à “cultura do silêncio”. Se existem fontes documentais e historiográficas, essas parecem estar indisponíveis para pesquisa. Permanece apenas uma memória oral que guarda os saberes-experiências do partejar, os quais são transmitidos pelo ato de contar, de uma mulher para a outra, assim como de uma geração para a geração seguinte. O desenvolvimento da região Centro-Oeste, os fatores socioculturais e as estratégias do planejamento da modernidade que estruturaram o Distrito Federal, resultaram na reconfiguração do ofício das parteiras como processo cultural, não havendo interação e transferência simbólica entre os saberes populares e os acadêmicos, como ação social capaz de combinar concorrência e cooperação, conflito e participação, saberes tradicionais locais e conhecimentos científicos. Deixou de se caracterizar pela articulação entre as estratégias de desenvolvimento e as especificidades culturais inerentes aos contextos territoriais das racionalidades constitutivas do ofício das parteiras. De onde é possível entender que diferentes acepções acerca de desenvolvimento podem representar o desafio de interagir com a competitividade e a solidariedade, em desdobramento aos modelos de atuação no partejar, modelo biomédico e o modelo dos saberes-experiências que engendraram o ofício das parteiras. Situação que reverberou para a política de silenciamento dessas mulheres na RIDE. 

Disponível em http://repositorio.unb.br/handle/10482/7309

– Saraiva, Regina Coelly Fernandes. Saberes, fazeres e natureza nas vozes de mulheres da Chapada dos Veadeiros‑Goiás. História Oral, v. 1, n. 15, p. 209-229, jan.-jun. 2012.

Ao avançar pela GO-118, sentido Brasília-Alto Paraíso, é marcante a presença de chapadões e formações rochosas que descortinam a beleza cênica do bioma Cerrado na região.Em Alto Paraíso, muitos são os lugares intocados, com pouca ou nenhuma interferência humana, santuários ainda preservados. Dentre eles encontra-se o Povoado do Moinho.Situado a 12 km da cidadezinha de Alto Paraíso, entre nativos e chegantes, no Moinho vivem pouco mais de 200 pessoas, em sua maioria afrodescendentes (maior concentração do município) que preservam seus modos de vida e tradição desde os tempos em que fugiram da escravidão.

O Moinho está localizado no coração da Chapada dos Veadeiros, às margens do Rio São Bartolomeu, afluente do Rio Paranã, na bacia do Rio Tocantins. Perto dele passa o Rio Preto, afluente do São Bartolomeu, que alimenta a cachoeira Anjos e Arcanjos, principal atração turística local.

O historiador Luiz Lima, profundo conhecedor da geografia e história da Chapada dos Veadeiros, descreve o lugar com riqueza de detalhes:

“Na grande curva que custeia a serra, descortina-se, a norte, o grande e profundo Vale do Moinho, com vila minúscula e escondida no arvoredo de quintais frondosos. Lá em baixo, já na cota mil, os sítios com singelas casinhas de adobe, evocam sutis encantamentos. Nesta panela férica e temperada, o rio São Bartolomeu, pra lá e pra cá, vai intercruzando as pontes do caminho, banhando como Nilo benfazejo, as terras que outrora vicejou pepitas de ouro, e depois dourados trigais. ”

DONA FLOR

Dona Flor do Moinho, 78 anos, mãe de 18 filhos paridos, e de outros criados, conta que já realizou mais de 300 partos.

Aos nove anos de idade, já preparava chás e efusões sob a orientação da mãe. Teve todos os seus filhos de parto normal, em casa, e cuidou de si mesma e de outras mães com os preparados de ervas e plantas do Cerrado.

Sobre esse conhecimento, dona Flor explica: “Aprendi tudo olhando, sempre fui muito curiosa, queria saber o que acontecia quando a mãe ia ganhar a criança, logo me ofereci para ajudar, era tudo muito normal. Tive meus filhos só, logo, uso muito o barbatimão, é a planta da mulher, não pode tomar muito não, mas antes de engravidar ele limpa tudo e depois do parto cicatriza. ”

Descendente de negros que se estabeleceram há muitas décadas na região, onde encontraram refúgio e condições de vida no Cerrado, dona Flor faz parte dos Quilombola que vivem Moinho, descendentes de escravos e de índios do tronco Macro-Jê.

Segundo dona Flor, a grande herança de seus ancestrais é o conhecimento tradicional, fruto da união dos povos indígenas e negros, oriundos da escravidão, muitos deles servidores dos garimpos durante a corrida pelo ouro que ocorreu na região.

Don Flor
foto: Eliana Feitosa

AS FONTES DE CURA DE DONA FLOR

A economia no Povoado do Moinho está diretamente ligada às belezas do lugar e à comercialização de produtos como artesanato, verduras orgânicas e preparados como xaropes e garrafadas da medicina tradicional, objeto de procura de pessoas vindas de diversas partes do Brasil e o mundo que visitam o povoado.

O Cerrado é alimento e cura, fonte de renda e lazer. Nessas comunidades cada indivíduo desempenha um papel importante para o grupo, sempre respeitando as lideranças, os mais velhos, traço dos costumes repassados pela ancestralidade e pelo harmonioso convívio que estabelecem.

A qualidade da água que alimenta rios, córregos e cachoeiras do Moinho alimentam também uma fração de Cerrado com características medicinais peculiares. O Rio Pretinho que alimenta a horta e os cultivos nos quintais nutre espécies de várias potencialidades terapêuticas.

O conhecimento tradicional em meio a uma sociedade que considera a natureza elemento comercial, subjugada e cuja finalidade é o lucro, tende a desaparecer caso não haja intervenções de manutenção da comunidade tradicional no campo e valorização da sabedoria ancestral.

A origem das plantas medicinais utilizadas nas preparações de remédios caseiros é muito diversificada: elas são cultivadas ou coletadas no Cerrado, doadas por pessoas conhecidas, adquiridas através de troca por remédios caseiros, ou ainda compradas em mercados ou raizeiros.

Todos possuem indicação, modo de usar e composição, mas é na cuidadosa orientação de Dona Flor que os adoentados mais confiam. Entre os remédios manipulados da farmácia instruções e receitas de diversos chás, emplastos, efusões que tem as plantas do Cerrado como princípio ativo.

AS CIÊNCIAS DE DONA FLOR

A coleta das ervas, plantas do Cerrado revela o ritual de respeito e reverência à natureza, representa o conhecimento indígena que foi repassado aos negros africanos que se refugiaram no lugar, sobre a forma de coletar plantas “do mato” para fazer os remédios.

Dona Flor explica: “Para buscar as plantas primeiro você prepara o coração e o espírito para trabalhar a natureza. Você não pode retirar uma folha, casca ou flor da floresta se você estiver com mal humor ou raiva senão a planta morre.”

Proteger comunidades tradicionais é perpetuar o bioma e as espécies que nele vivem. O Cerrado, berço das águas, necessita de uma legislação que valorize o “preservar” acima do desmatar para desenvolver, cultura implantada na década de setenta no Centro Oeste.

As comunidades tradicionais remanescentes de quilombola que vivem na região da Chapada dos Veadeiros são o exemplo da convivência harmônica do homem com o Cerrado. O Cerrado é alimento, é cura e é vida. Assim pensa a cerratense dona Flor.

Eliana Feitosa – Mestranda em Geografia pela Universidade de Brasília. Licenciada em Geografia pela UEG – Formosa. Pedagoga e Teóloga. Pesquisadora de Comunidades Tradicionais. Este artigo é fruto das pesquisas de campo para a Dissertação de Mestrado – Identidade e Cultura: estudo etnogeográfico da comunidade tradicional do Moinho em Alto Paraíso/GO, ocorrida entre 2015 e 2016.

Fonte: https://www.xapuri.info/etniagenero/mulheres/dona-flor-cerratenseraizeira-e-parteira-do-moinho/?fbclid=IwAR0wp1q8ByJD8iB75NKtNi3nv7xBDrp5RdjiN45mIeiENLt_tYz6PjfSspU

Flor do Moinho - Trailer Oficial

Foi com a ajuda de vocês que conseguimos registrar a história dessa incrível mulher. Conheça Dona Flor, raizeira e parteira, uma força da natureza em meio à Chapada dos Veadeiros. Confira o trailer do documentário Flor do Moinho.

Posted by Flor do Moinho on Thursday, August 25, 2016

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