O Cerrado como Hot Spot

O Cerrado é uma das 25 áreas do mundo críticas para a conservação devido a sua rica biodiversidade e à alta pressão antrópica que vem sofrendo (MMA, 2002). A crescente ocupação humana vem alterando a paisagem natural ao longo do tempo, formando um mosaico de áreas em diversos estágios de ocupação e perturbação, podendo causar perda da diversidade de espécies e variabilidade genética (Brown Jr. & Gifford, 2002). Segundo Coutinho (2000), cerca de 45% da área do Domínio do Cerrado foi convertida em pastagens cultivadas e lavouras diversas. Apenas 1,2 % está em área protegida (Scariot & Sevilha, 2003). No Estado de São Paulo, nos últimos 20 anos, mais de 95% da área de campos e campos cerrados foi destruída para a formação de pastagens e agricultura (Martins, 2001). Neste cenário de taxas crescentes de conversão de ambientes naturais em antrópicos, perde-se muito da diversidade específica destas áreas, sem conhecimento. Embora possa ocorrer um aumento da diversidade em ambientes heterogêneos, em regimes de perturbação natural, ações antrópicas podem ocasionar erosão gênica e diminuição da diversidade de espécies, podendo causar grandes perdas em populações, comunidades e ecossistemas.

Em relação à biota aquática das bacias hidrográficas do Cerrado, as principais ameaças são o desmatamento, a poluição industrial e doméstica, os insumos aplicados à agricultura, a construção de barragens e aterros, que modificam os hábitats necessários à sobrevivência dessa fauna (Ribeiro, M.C.L.B., 2007). O represamento é o fator antrópico mais dramático que afeta os ambientes fluviais, pois estes são definidos grandemente pela sua hidrologia. Alterações no regime de fluência em rios por atividades humanas causam mudanças na composição de espécies, na densidade populacional, no movimento da biodiversidade, influenciam a qualidade da água, o hábitat físico e as interações bióticas (Saunders et al. 2002; Park et al. 2003). O impedimento da migração e do deslocamento causado pelas barreiras também isola as populações, aumentando a taxa de extinção por meio de eventos estocásticos, genéticos, demográficos e ambientais (Morita & Yamamoto, 2002). Essas pressões ambientais têm levado à degradação do hábitat fluvial, onde muitas espécies correm o risco de desaparecer em futuro próximo (Saunders et al. 2002). Na América do Sul, o represamento de rios é a prática mais comum nas bacias hidrográficas, especialmente para a produção de eletricidade. Atualmente, quase todas as grandes bacias são represadas ou influenciadas em algum grau por barragens e reservatórios. Estimativas indicavam, em 2000, a existência de mais de 700 grandes reservatórios somente no Brasil (Pringle et al, 2000). O uso da água para a irrigação também pode afetar a sobrevivência das espécies fluviais, assim como o tráfego intensivo e não-regulamentado de embarcações, enquanto os animais estão se alimentando e descansando, pode causar prejuízos em longo prazo para essas populações (Reeves et al., 2003).

A primeira lista de espécies da flora ameaçada de extinção foi publicada em 1992 (Portaria no. 37-N, 3/04/1992, identificando 108 espécies de plantas vasculares ameaçadas. Em 2005, a nova revisão da lista, da Fundação Biodiversitas, aumentou para 1550 espécies (subespécies e variedades) ameaçadas da flora, sendo 580 delas reportadas para o Cerrado. A lista do IBGE (2005), entretanto, incrementou a lista em 45 táxons ameaçados para o bioma Cerrado, totalizando 624 táxons específicos e infra-específicos, sendo 453 dicotiledôneas, 156 monocotiledôneas e 15 pteridófitas (Rivera et al. 2010). Em relação à fauna, são 138 as espécies ameaçadas para o bioma Cerrado, dos quais 43 são invertebrados e 95 são vertebrados.

Fonte: Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade do Cerrado e Caatinga (CECAT), http://www.icmbio.gov.br/cbc/conservacao-da-biodiversidade/ameacas.html

Publicação

O documento intitulado de “Perfil ecossistêmico do Cerrado” foi elaborado pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) e pela Conservação Internacional (CI), a partir de consultas públicas realizadas ao longo de 2015 com mais de 170 representantes de 130 instituições do setor privado, governo, universidades, sociedade civil e populações tradicionais e indígenas.

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Nota sobre o anúncio de desmatamento no Cerrado em 2016 e 2017

21.06.2018 •
Os dados divulgados hoje pelo governo federal de desmatamento no Cerrado mostram que, entre 2016 e 2017, o segundo maior bioma do Brasil perdeu 14.185 quilômetros quadrados de vegetação nativa, ou 6.777 km2 no primeiro ano e 7.408 km2 no segundo.
O número foi comemorado pelo governo federal como positivo, pois a taxa caiu em relação a 2015, quando 11.881 km2 foram desmatados. Porém, o acumulado no Cerrado é equivalente ao da Amazônia em 2016 e 2017, quando 14.840 km2 foram desmatados. Considerando que a área do Cerrado é metade da Amazônia e tem 49,9% de remanescentes, enquanto a Amazônia tem 85%, a savana consolida-se como bioma mais ameaçado do Brasil atualmente.
Esse desmatamento equivale à emissão de 440 milhões de toneladas de CO2 equivalente, numa estimativa conservadora. “Apesar de estarmos dentro da meta nacional de redução do desmatamento do Cerrado, que por sinal é uma meta alta, precisamos derrubá-la ainda mais ser quisermos o Cerrado cumprindo seu papel”, afirma a diretora de Ciência do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), Ane Alencar. “Quando pensamos nos desafios que temos à frente, quanto ao controle do efeito estufa, a perda em biodiversidade e em serviços ambientais que o Cerrado fornece e o impacto sobre populações tradicionais que dependem desses recursos, um desmatamento desse vulto tem um custo muito alto para o Brasil.”
O desmatamento concentrou-se na região conhecida como Matopiba, que cobre o Cerrado nos Estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Essa é hoje uma das grandes frentes de avanço agropecuário, ao lado do sul da Amazônia, com uma produção crescente de grãos e gado. Os quatro Estados somaram 8.785 km2 de desmatamento em 2016 e 2017, ou 74% do registrado. É também a região onde havia mais remanescentes em 2015: 69,7%, de acordo com o Mapbiomas.
O governo não soube precisar os motivos para a queda, mas citou ações contra o desmatamento ilegal e o monitoramento por satélite. O ministro do Meio Ambiente, Edson Duarte, lembrou que o Código Florestal permite o desmatamento de até 80% da propriedade rural localizada no Cerrado, o que também pode influenciar nessas taxas elevadas registradas no bioma.
Fonte: http://ipam.org.br/nota-sobre-o-anuncio-de-desmatamento-no-cerrado-em-2016-e-2017/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=boletim_ipam_desmatamento_no_cerrado_caiu_e_verdade_mas&utm_term=2018-06-24

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  • Descolonizando os Gerais: situação colonial e estratégias de resistência das comunidades tradicionais geraizeiras do Norte de Minas Gerais.
    • O presente trabalho visa a evidenciar o conflito socioambiental instalado no Norte de Minas Gerais, onde extensos maciços de monocultivos de eucalipto e mineradoras de minério de ferro se materializam em uma frente de expropriação de grandes parcelas dos territórios de comunidades tradicionais da região. A região analisada será o território geraizeiro do Lamarão, localizado no distrito de Vale das Cancelas, município de Grão Mogol (MG).

http://www.periodicos.udesc.br/index.php/percursos/article/view/1984724619392018077/pdf

O Cerrado ocupa 25% do território brasileiro, no Nordeste está presente em regiões do Maranhão, Piauí, Bahia, Ceará, Pernambuco e Sergipe. Com árvores de baixo porte, galhos retorcidos, gramíneas e solo de alta acidez, o cerrado aparece em áreas de clima tropical; no Cariri cearense é possível ver também o chamado “cerradão”, um cerrado com presença de árvores mais altas. Além disso existe uma área de transição entre o Cerrado e a Caatinga onde pode observar uma vegetação mais rica que a da Caatinga, com florestas de árvores de folhas secas. Naturalmente, o clima é mais seco que o do Cerrado, com solo mais ressecado e períodos mais intensos sem chuva. A maior parte desta área está na fronteira do Cerrado com o sertão, no interior de estados nordestinos. Algumas espécies cuja distribuição é centralizada nos Cerrados podem se estender no nordeste do Brasil e se tornarem relevantes ou membros secundários das Caatingas, tais como Tabebuia aurea, e em Fabaceae Machaerium acutifolium Vog., Platypodium elegans Vog., Hymenaea martiana Hayne, Copaifera langsdorfii Desf. e Riedeliella graciliflora Harms.

Você também deve ter escutado falar da MATOPIBA. A expressão MATOPIBA resulta de um acrônimo criado com as iniciais dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Essa expressão designa uma realidade geográfica caracterizada pela expansão de uma nova fronteira agrícola no Brasil baseada em tecnologias modernas de alta produtividade. A delimitação da região foi realizada pelo Grupo de Inteligência Territorial Estratégica da Embrapa (GITE) que utilizou como primeiro grande critério as áreas de cerrados existentes nos Estados. Foi baseada em informações numéricas, cartográficas e iconográficas, resultando na caracterização territorial dos quadros natural, agrário, agrícola e socioeconômico.

Segundo dados da Embrapa, o programa deve compreender 73 milhões de hectares dentro do bioma Cerrado, numa delimitação territorial dentro da qual existem 28 Terras Indígenas, 42 Unidades de Conservação, 865 assentamentos e 34 quilombos. O MATOPIBA aprofundará os conflitos agrários, pois só no ano de 2014 foram registrados 123 conflitos por terra e território, dos quais 66,67% desses na região do Cerrado. Nesse contexto, a concentração da terra, o êxodo rural e a violência contra populações do campo, das cidades, das águas e das florestas tende a aumentar, diminuindo a disponibilidade dos bens da natureza essenciais para nosso Bem Viver.

Você sabia que o Rio São Francisco começa no cerrado? O Rio São Francisco possui mais de 90% de suas nascentes situadas no Cerrado, embora quase 55% das águas desse rio encontrem-se fora desse bioma. O rio São Francisco, popularmente conhecido por “Velho Chico”, nasce na Serra da Canastra (Minas Gerais). Possui uma extensão de 2800 quilômetros e atravessa os estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas. 

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