Navegue pela página Acervo e encontrará livros, monografias, dissertações, teses, revistas, lendas, causos, contos, ilustração científica, documentos sobre o Cerrado. Este acervo está sendo constantemente ampliado com a colaboração de indivíduos e instituições que desejem divulgar conhecimentos sobre o Cerrado.

A essência deste acervo é predominantemente educativa para instrumentalizar as pessoas a conhecer para defender o Cerrado; o conhecimento nos permite ser responsáveis pelo cuidado de uma das áreas mais biodiversa do planeta Terra. Qualquer pessoa terá acesso universal a esta Biblioteca em qualquer lugar do mundo desde que tenha acesso a computadores disponíveis conectados a Web ou com computadores de mão [PalmTops, Pocket PCs, WebPADs, Tablet PCs, PDAs, HandHelds, eBook Devices, celulares etc.] que são equipamentos que permitem a portabilidade e uma acessibilidade maior da informação; qualquer pessoa poderá ler, estudar, aprender e interagir com o universo do Cerrado neste Museu

Com centenas de livros disponíveis no acervo, qualquer infocentro, escola, faculdade, oscip, universidade, ONG, telecentro, biblioteca, instituição social etc. poderá permitir, às pessoas que não têm computador, o acesso aos livros desta Biblioteca virtual. Acesso 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano. Disfrutem deste espaço cerratense tão especial!

O piar da Juriti Pepena – Narrativa Ecológica da Ocupação Humana do Cerrado –dos autores: Altair Sales Barbosa, Pedro Ignácio Schmitz S.J., Antônio Teixeira Neto e Horieste Gomes. Goiânia: Editora PUC-Goiás, 2014.

O livro está inspirado numa lenda indígena do Centro-Oeste brasileiro e de parte do Norte do país. A Juriti Pepena é uma ave invisível que habita as touceiras de catiguá, que é um tipo de inhame de folha riscada, de ocorrência nos brejos do Cerrado. Segundo a lenda, quem ouve os pios lamentosos desse ser passa por uma série de desgraças e sua vida vira uma infelicidade só, isso apenas pode ser revertido com a intervenção de um pajé dotado de muita sabedoria. Se isso não acontecer, a pessoa poderá ficar aleijada para sempre.

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Cerrados: perspectivas e olhares / Márcia Pelá, Denis Castilho (orgs.). Goiânia: Editora Vieira, 2010.

Mais que constatar que o Cerrado é formado por diferentes paisagens naturais que, por sua vez, desembocam numa rica biodiversidade, este livro apresenta outra acepção: uma multiplicidade de sujeitos – organizados como territorialidades, vinculados a dispositivos sociais e culturais de diferentes matizes – também formam os Cerrados. Por conseguinte, Cerrado não é apenas vegetação. Além de ser um ambiente natural formado por um conjunto de fatores como clima, solo, água, relevo, fauna, flora etc., ele também é um produto histórico – um território apropriado e disputado por atores sociais que o fazem a partir de suas escalas de poder, bem como de suas dinâmicas socioespaciais.

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Bulhões, M. M. De. (2013). Construção do Sujeito Ecológico : Educação Ambiental a partir da Cultura Local. Trabalho de Conclusão de Curso; (Graduação em Pedagogia) – Universidade de Brasília.

Resumo: O presente trabalho pretende refletir sobre a construção dos sujeitos ecológicos a partir de uma experiência de educação ambiental na Escola Geminiano Ferreira de Queiroz em Olhos D`Água, município de Alexânia-GO. O sujeito ecológico não pensa somente no “verde”, mas engloba a questão social e cultural em sua forma sustentável de ser e estar no mundo, refazendo seu olhar para sua realidade e transformando em atitude e ações o pensar globalmente e agir localmente; é um “estilo ecológico de ser”. 

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Oliveira, S. M. de (2015). Percepção ambiental na Educação de Jovens e Adultos. Trabalho de Conclusão de Curso; (Graduação em Pedagogia) – Universidade de Brasília.

Resumo: O presente trabalho pretende refletir acerca da percepção sobre o Cerrado na Educação de Jovens e Adultos. O objetivo principal foi analisar a percepção dos discentes de EJA de uma escola rural no Centro de Ensino Fundamental Engenho das Lages-Gama em comparação com a percepção dos discentes de uma escola urbana Centro de Ensino Fundamental nº 404- Samambaia sobre o Cerrado, para ver se há diferenças nesta percepção…

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Santos, M. R. (2013). A experiência no projeto alfabetização ecológica: ABCERRADO como prática educativa na Escola Classe 02 – Estrutural-DF.  Trabalho de Conclusão de Curso; (Graduação em Pedagogia) – Universidade de Brasília.

Resumo: A presente pesquisa foi realizada na Escola Classe 02 na Cidade Estrutural no Distrito Federal. O objetivo geral deste trabalho foi buscar compreender de forma qualitativa as dificuldades encontradas pelos professores em introduzir uma proposta de Alfabetização Ecológica no processo de alfabetização de estudantes do 3º ano em uma instituição de ensino público, levando em conta a resistência dos professores e a realidade local…

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O cerrado nos livros didáticos de geografia e ciências

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Siqueira, D. C. B. de. Representação do Cerrado nos livros didáticos na Rede Pública do estado de Goiás. Goiânia. 2011. 56 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Exatas e da Terra) – Pontifícia Universidade Católica de Goiás.
Resumo: aborda como é representada a natureza do bioma cerrado nos livros didáticos que são fornecidos às escolas públicas do ensino fundamental e médio, e a preparação e apoio que os docentes têm para trabalhar o tema caso fosse adotado o enfoque em uma visão holística e transdisciplinar. Descreve as principais concepções acerca da educação ambiental (EA), holismo, transdisciplinaridade e as limitações em termos de conteúdo que contemplem o bioma cerrado, a falta de preparo dos professores para trabalhar a temática ambiental, obrigatória pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs).
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Andrioli, C. Sob as vestes de Sertão Veredas, o Gerais. “Mexer com criação” no Sertão do IBAMA. Tese de Doutorado em Ciências Sociais, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais / Unicamp – Campinas. SP : [s. n.], 2011.
Resumo: O fulcro desta tese é desvelar as transformações nos usos do território que compuseram ‗o Gerais‘ em Sertão do IBAMA, como nomeio a nova territorialização. Para tanto, apresento a etnografia realizada com o vaqueiro Samuel Borges do Santos, mais conhecido como Samu, no noroeste mineiro, onde foi implantado o Parque Nacional Grande Sertão Veredas. Busco como ponto de partida desta travessia etnográfica responder à seguinte questão: como descrever a dinâmica da relação entre Samu e os gestores do parque, sobre o uso da terra, da forma como é vivida pelo vaqueiro? 

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Revista Xapuri

Somos uma empresa caseira de comunicação socioambiental, composta por um grupo pequeno de pessoas compromissadas com o social e com o meio ambiente. Trabalhamos sob o mantra da palavra Xapuri – herdada do extinto povo indígena Chapurys, que habitou as terras banhadas pelo Rio Acre, na região onde hoje se encontra o município acreano de Xapuri, terra onde nasceu e viveu o grande líder socioambiental Chico Mendes. Significa: “Rio antes”. Em nossa livre interpretação, traduzimos para “O que vem antes”, “o princípio das coisas”,  “a estrada por caminhar”, “o que falta ser feito”.

Para conhecer melhor, clique aqui.

Seu Geraldo Ponciano Nogueira


Passagens e solidão Joana Bonifácia Nogueira, que todos conhecem como dona Negrinha, 72, mora a 23 quilômetros de Bela Vista, em uma casinha que ameaça cair a qualquer hora. Os caibros estão cedendo. Quase metade do teto já abaixou perigosamente. As grandes fendas entre as telhas abrem espaço para a passagem da luz solar, do clarão da lua e dos pingos da chuva. Ali, em um recanto onde só se chega depois de trilhar péssimas estradas; passar por muitos mata-burros; cruzar eventuais atoleiros e vadear um pequeno córrego; dona Negrinha divide todas as suas horas com a solidão. Viúva de Geraldinho Nogueira, trabalhador rural que virou garoto propaganda e artista de televisão como contador de histórias em linguagem sertaneja, dona Negrinha tem uma invejável descendência: sete filhos, 25 netos e seis bisnetos. Mulher decidida, de fala firme e inquebrantável crença no trabalho, ela se abate profundamente quando fala dos filhos ausentes. Entre lágrimas, reclama da falta que sente dos filhos que estão “espalhados, trabalhando no que é dos outros”. Depois de uma vida de muito trabalho, dona Negrinha, se vê na situação de pedir ajuda “a qualquer filho de Deus” para recuperar a casa que Geraldinho Nogueira fez sozinho e onde ela viveu dias de muita agitação, com os cômodos cheios de filhos e netos. Dona Negrinha vive da aposentadoria de trabalhadora rural e de uma pequena pensão deixada por Geraldinho. O dinheiro, diz, “dá para comer”, mas vai quase todo em remédios. Para ter um final de vida digno, ela precisa recuperar a casa. “Levanto cedo, faço meu café, cozinho o almoço e a janta. Ainda dou conta do serviço. Essa casa, se der uma chuva forte, cai em cima de mim.” O que mais impressiona na cidadã Joana Bonifácia Nogueira é a disposição. Ela gosta de trabalhar e ser independente. Recusa os convites insistentes das filhas para sair da casa quase em ruínas. “Se dependesse das filhas, eu já tinha mudado. Mas não quero. Gosto do meu canto, gosto das coisas do meu jeito.” A pequena propriedade, que dona Negrinha não sabe dizer se tem dois e meio ou três alqueires, já não produz nada. “Mexer com criação eu não dou conta, porque não tenho dinheiro para comprar a ração. E trabalhar na plantação já não dá para mim. Tenho pressão alta, um “trem” no tal de coração, e estou quase cega”, justifica. Apenas as árvores frutíferas, como um abacateiro que “está perdendo fruta”, a mangueira, o limoeiro e o pé de jambo teimam em produzir por conta própria. “Cuidar mesmo eu não cuido não”. A coragem de dona negrinha é surpreendente. Mas ela não se arrisca passar a noite sozinha, principalmente se estiver ameaçando chover. Vai dormir na casa da filha Aparecida que mora perto. Mas às cinco, ou seis horas, já está de pé e de volta à sua casa. Quando não tem nada para fazer, caminha pelos pastos. “Nunca aprendi 8 Minha diversão era o trabalho. Agora, eu olho as coisas e lembro a vida muito sacrificada que levei.” Geraldinho Nogueira é uma lenda vivíssima em Bela Vista. Um busto seu enfeita um ponto privilegiado da cidade e não há uma pessoa adulta que não se lembre dele. Na parede da sala de dona Negrinha, entre a fotos antigas e cartazes de seus tempos de televisão, há um diploma de Cidadão Honorário de Bela vista. A fama não deixou nada de material para dona Negrinha. “Geraldinho trabalhou demais. Ele fez esta casa. Era trabalhador de roça, carpinteiro, carreiro. Quando descobriram ele para esse trem de televisão, ganhou um dinheirinho. Ela afirma que Geraldinho, “de tão bom que ele era acabou ficando bobo. Nunca quis ganhar muito dinheiro, dizia que dando para comer estava bom. Eu achei que o Hamilton Carneiro ia dar uma gorjeta para nós, mas até agora não saiu nada.” Histórias de Dona Negrinha Dona Negrinha preferiu não estudar. Teve a chance, mas achou que se trabalhasse muito teria melhor resultado. Vivendo sempre no meio rural, sem televisão nem rádio em casa, conserva uma maneira própria de falar. Seu idioma é o sertanejo legítimo, fonte na qual beberam grandes nomes da literatura brasileira, como o mineiro Guimarães Rosa e o goiano Bernardo Elis. A vida pessoal “A vida nossa, naquele tempo, era assim: nóis morava de agregado dos outros, né? E aí prantava o mantimento é na meia. Eles ia pra roça. Era longe de casa. As menina ia pra ajudá. Os home, quarqué lugar que chegava, tomava os banho. Elas ficava com vergonha e ia pra mais longe no corgo. Chegava em casa, sábado, tudo empoeirado. Eu ficava com dó, mas eu tava no mundo também trabaiando. Meu fio mais velho ficava panhando fumo pro outros. Eu tinha que lavar ele pra tirar aquela pregueira. Aí eu falei: não. Desse jeito, a coisa não dá. Aí nóis foi lutano, lutano, passava necessidade. O dia que tinha o arroiz pra comê, comia. O dia que não tinha comia o puro feijão. E foi até que Deus ajudou que nóis deu conta de comprar essa terra. Custemo enleirá. Mas Deus ajudou que eleirou. Aqui, não passava fome não. Enquanto tinha os filho e ele, Gerardinho prantô. Aí os fio foi casando. E ele já não agüentava trabalhar mais, foi trabalhar com o Hamilto (Hamilton Carneiro, publicitário e apresentador de televisão). Eu pensei que ia dá um resurtado bão. Deus levou ele e tá aí: eu suzinha, nessa casa perigando caí. Ficou só as precisão. Tenho irmã que mora em Goiânia. Tem uma que mora em Brasília. Elas usam uma roupa lá até injuá e manda pra mim. Tô usando. E achando que tá bonito. Não compro roupa. Compro carçado. Antes nem isso eu fazia. Geraldinho pegava um couro aí, cortava, fazia uma precata e nóis carçava. Remédio eu compro e muito. Me impuribiram eu de comê carne de poico; puribiu comê mantega. Tô anssim. Aí olhando pro tempo. Minhas fia vem direto. Vem os neto também. Enquanto Deus quiser, vou agüentando.” O tratamento da solitária “Esse menino meu, o Sebastião, ele prantou um arrozá e arrumou uns pião. Aí ele foi trabaiá. Quando dei fé, envem um cunhado dele. Chegô aí, falô 9 – até eles é cumpadi – cumpadi Tião tá com uma dori. Aí gritano. A gente arrumô um carro e levaro ele. Chegô em Bela Vista, disse que tinha que operá que era o tal penicite. Aí eu abri a boca no mundo a chorá. O Geraldinho saiu mei doido – ele tinha comprado uma nuvia – vendeu a nuvia prá í levá minino. Chega lá, em Goiana, o doutor falou: não. Não é penicite. É lumbriga. É silitária. Aí internou. Quando teve arta, o doutor falou que era prá ele bebê uma coiseira, uma remediada, é isso, é aquilo. Nóis envinha, topou com uma dona assim de idade. Pergutô o que que ele tinha eu fui contei. Ela falô, ó minha fia, ranja um chifre de carneiro. Ocê panha ele, sapeca e rapa e dá prele bebê que ó: fupe! Nóis chegou, eu fui falei pro Gerardinho. Ele foi longe demais e trouxe uma cabeça de carneiro. Eu rapava o chifre, punha num vidro e falava: todo dia cedo, cê bebe. E ele bebeno, beneno, bebeno. Passou muito tempo aquilo. Sarou. Quando foi um dia, nóis tava aqui, aparece a moça lá do hospital. Chegou e falou: ‘ó seu Gerardinho, nóis soube que o Sebastião sarou com o chifre de carneiro. Doutor fulano mandou para dizer pro senhor que, se tiver aí, pro senhor mandar um pedaço pra ele’. Geradinho pegou o chifre e mandou. Aí me falaram: o chifre tá sendo médio lá no hospital. Eu falei: então tá bão”. Morte de Geraldinho “Quando foi essa vez que ele adoeceu não teve jeito. Nóis pelojou demais. Ele começou o tratamento em Bela Vista. Ficou, ficou. Eu fiquei com ele. Chegava uma fia, chegava um genro… um dia, eu tava lá suzinha mais ele, ele falou: quero ir no banheiro. Eu fui e peguei aquele talo que tava com o soro e levei. Quando chegou no banheiro, deu foi um trem nele. Entortou a boca e caiu no vaso. Eu aprontei aquela gritaiada. Aí chegou minha fia, quando viu eu gritano, aprontou aquele arvoroço. Aí veio doutor. Puseram ele na cama. Eu abri a camisa dele. A barriga tava amarelinha, como quem que senhor tivesse passado assafrão. O doutor falou: vou apricar uma injerção nele que ele melhora. Aí médico falou pode arranjar um carro para levar ele pra Goiânia. Aí levou. Chegou lá, o doutor falou: tem que operar. Minha filha falou: sem minha mãe aqui, não opera. Aí veio um pião do Hamirto. Já saí com aquele berreiro de choro. Puseram ele num lugá que só um pode visitá. O Hamirto foi lá visitá ele, saiu carregado. Passô male, e foi carregado prá outro hospitá. O dia que eles deixou eu í lá vê ele, me deu um trem lá que eu caí. Esperaram eu melhorá. E, diacho de um trem que a gente não vai com roupa que tá, que a gente tem. Pegou, me deu uma roupa, eu vesti. Cheguei lá, ele falou baixinho – “uai, cê num tem ropa não?”Falei: tenho. Aí perguntei se ele tava mió. A hora que eu levantei um pano que ele tava tampado, que vi o jeito que ele tava, falei comigo: meu véi não vorta pra casa mais não. Quando foi de noite, ele morreu.” Longe demais da cidade – por Ivair Lima (DMRevista) Dona Negrinha não quer se mudar para a cidade nem morar com os filhos. Sua vontade é ficar na casa que Geraldinho construiu para a grande família que criaram. “Criei sete filhos e três netos. Fazia tudo. Cozinhava para peões, cuidava da casa, descaroçava, cardava, fiava o algodão. Toda a roupa da família era eu que fazia. Labutei muito. Agora o que eu quero mesmo, é ficar no meu canto. Não gosto de Bela Vista para morar. Gosto para ir de vez 10 em quando.” É impossível conversar com dona Negrinha e não se emocionar. Ela é uma mulher forte, apesar das doenças; rija, apesar do cansaço de uma vida de muito trabalho; e sensível como um bom poeta. Sua expressão quase sempre séria se suaviza quando se lembra dos filhos pequenos e dos bons tempos da casa cheia e muita luta. O publicitário Hamilton Carneiro, citado por dona Negrinha, disse ao Diário da Manhã que pagou por todos os trabalhos realizados por Geraldinho e tem os recibos. Informou que Geraldinho recebeu o maior cachê da época por estrelar a propaganda da extinta Caixego: 2.500 cruzeiros. Hamilton afirmou que Geraldinho “ganhou dinheiro e comprou uma casinha boa em Bela Vista e acho que construiu uma casa para um filho”. Disse também que Geraldinho não soube conservar o que recebeu. “Ele emprestou dinheiro para um sobrinho comprar um gado e montar um açougue e nunca recebeu. Ele emprestava dinheiro até para quem não conhecia.” Sobre os discos, um LP e dois CDs (Trova, Prosa e Viola), Hamilton disse que eles renderam pouco dinheiro porque foram pirateados no Brasil inteiro. André, da dupla André e Andrade, parceiros de Hamilton e Geraldinho nos discos e shows, disse que “ninguém torceu mais e protegeu Geraldinho mais que Hamiltom Carneiro”. Afirmou que quando um show rendia pouco, Hamilton repassava sua parte a Geraldinho. “Gastamos muito tempo investindo nesse trabalho. Quando sentimos que ia começar a dar dinheiro, Deus levou o Geraldinho. Nós semeamos, mas não colhemos. Na hora que o sucesso pintou, que o trabalho começava ser o bem aceito, Geraldinho morreu.” André diz que a pirataria levou o lucro possível. “Os discos não renderam dinheiro nenhum porque foram pirateados. Eu já vi e tenho conhecimento de que nossos discos são encontrados no Brasil todo. Mas é tudo pirata e não rende um centavo.” Com o fim da gravadora Anhanguera Discos, que lançou primeiro os discos, o publicitário, poeta e apresentador Hamilton Carneiro retoma a gestão dos discos no selo próprio. “Retomei porque ainda há uma demanda muito grande por esse projeto, mas o fiz de uma forma negociada com a família do Geraldinho para dar fim de vez às acusações de apropriação que sofri”, disse Carneiro sobre as críticas que recebeu de que ele teria lucrado com a projeção e venda dos discos do programa enquanto a família estaria supostamente empobrecida. Está aí a apresentação do Geraldo.

Fonte: Ivair Lima, um dos editores da DMRevista, publica no diário da manhã de 10 de março de 2005 em Goiânia


Transcrições dos Causos de Geraldo Nogueira – O Marimbondo

Geraldo: Eheheh – Rapaiz, marimbondo é um trem danado mêmo mas, eheh não sendo na gente tem dia que até é engraçado. ehehehe 

Interlocutor: Quando pega na nuca dum cumpanheiro assim perto é… 

Geraldo: É de trusquiá êe… Ehehe Interlocutor: É bom… Geraldo: Eu já vi contecê uma massaróca com esse negócio de marimbondo minino, esse foi duro mêmo, mas esse não foi cumigo não, foi cum otro cumpanheiro, é, um sujeito muito abusante que nóis tinha lá, ele era aqueles bichão fío, o pai dele era o tale, então tudo dele era mió mêmo que o…, e ele judiava cum nóis rapaiz, que nóis era mais fraco, é, a gente não tinha nada, era nas troca de dia, ele judiava com a turma mais fraca, então, abusava… E ele tinha uma bestona muito alinhada sô, uma riata daquela que lumiava mêmo, ai um dia, e o pai dele tinha um otro piãozinho lá, aparta vaca, tiradô de leite, dia de domingo eles cabô de tirá o leite ele falo pro rapaizinho: Ah, vamo da um passeio hoje fulano vê umas moça? Aí o otrô foi, ó ocê é que manda. Não, busca a tropa pra nóis, nóis vamo… Ai o otro reunião a tropa, ele arriô a mulona dele o otro arriô um cavalinho véio lá do pai dele e saíram os dois sadio, e aí vai lá, moradô é longe minino, e já ia berando um matão, uma estrada berando o mato no serradão, e vai lá na cabeceira e não sei o que que deu rapaiz, que deu um dilurimento nos bófri dele, eu acho que foi um, um… um… circuíte que deu na tripa dele, eheheh e é que aquele dilurimento sô, a massa dele tava muito seca, ressecada, e ele saiu já cáquele dilurimento anssim, apiô da mula já gemeno, marrô a mula e saiu pá banda do mato no serrado caçando um lugazinho mais ajeitado pêle aninhá e aí invái aí invái ai invái, quando já tava pa entra no mato, ele rudiô uma moita de murici e deu num trierinho de gado que vinha du mato pu cerrado, ai quando deu no triero limpinho ali ai ele disarriô e aninhô. E é que o murici sô ainda tinha uma gaia na artura que ele aninhô e trancô na gaia, sô i é que o miolo da tripa dele tava era muito seco, não dava di si. Ele pegô na gaia e foi espremeno, foi ajuntano força, foi ajuntano, i, foi correno água nu zói, foi, e tinha hora que a vêia do pescoço dele pa rebentá dele… E aquilo não abalava sô e a dor, aí com muito ele fazê muita força qui foi dano di laciá um poquinho, aquilo foi dando di aluí e ele apertano, apertano e quando apontô aquela batata minino, ele ajuntano força, quando aquilo deu de di rompe um poquinho, quando ele juntava, aquilo viajava um tantinho anssim, quando ele parava pa tomá um fôlego aquilo quietava otra veiz, ele tornava juntá que chegava quase rancá a gaia do murici, e aquilo foi indo desse jeito devagazinho, ocê oiava aquilo só memô cê ocê vê um cabo de formão, lizinho. E aquilo foi viajando devagazinho de tanto ele fazê força. Foi até qui aquilo bateu a testa no chão, mais inda tinha muito mantimento pa viajá ali. E eu não sei se ocêis, argum do cêis já deve de ter visto um marimbomdão que anda de apé, ele é um animal anssim rapaiz. E o tal do marimbondo caçadô e ínvinha no triero, ai ele insistia dali apertano e o marimbondo chego naquele toco lá no meio do caminho, ai ele parô, rodiô aquilo, cherô, resorveu prumá naquilo. Quando chego lá onde o trem tava aporano, num tinha ricurso dele subi mais, ele tornô a pará, ródio otra vêis e resorveu a ruê rapaiz, e a aba du trem tava pra baxo u 100 marimbondo tacô aquela tisorinha que fez cócega rapaiz, ele fechô o rigistu duma veiz, e fechô a gabina do marimbondo pra dentro rapaiz e ai a carroceria dele fico pru fora e trusquiô a popa desse caboclo, um ferrão que era isso ó, quando ele mandava, sô esse sujeito rancô essa moita de murici nu estambo i bufano e pulano, e o marimbondo ta tacano o prego, quanto mais o marimbondo firruava mais ele ajuntava. O cumpanheiro qui tava isperando ele lá no caminho incomodô ca quele aranzé dele, gritava o que que é isso fulano, o que que é isso e ele ta só gaio di pau quebrando e ele bufano, foi até que ele torô o marimbondo no meio rapaiz, ai quando ele chego lá aonde tava a mula sô, que ele foi cabá de abutua a carça, a carça dele não coube a popa dele, já tinha inchado tudo, vô si vortá pa trais…


O causo do Rádio


Geraldo: k Rapaz, de você falar de rádio, eu lembrei da primeira vez que eu topei o tal rádio rapaiz, quase que me mata de raiva. 

Interlocutor: Mas aquilo é um trem de tanta serventia sô? 

Geraldo: Uai, depois que costumô acháro o recurso rapaiz, mas nesse tempo ninguém cunhicia aquilo não, já tinha visto falá que já tinha aquilo, mas achei que nóis nem num ia vê, isso era muito longe, ai foi logo o trem butucô aí rapaiz. E aqueles primêro que pegô a saí pas fazenda só mesmo aqueles bichão forte que comprava, um fraco não dava conta não. E aí, uma ocasião, nessa época que apareceu esse recurso, eu fui trabaia prum cumpanhêrinho meu lá, judá ele fazê uma casinha, trabaiei prêle a semana intêra, quando foi sábado, eu juntando minhas quiçacinha pa í imbora, aí ele falô pra mim, não Gerardinho, posa ai amanhã cedo nóis vamo escutá uns caipira. Aí eu danei com ele. Cê ta ficando loco rapaiz! Onde cê vai rumá caipira aqui amanhã cedo? Aí ele falo, não ali no veinho Inófre, tem um rádio. Aí eu falei, uai já tem? Tem! Tá cum uns oito dia que chegô! Aí eu falei, uai, então eu vô posá que eu fico conhecendo essa ferramenta. Kkkkk Aí cedinho, noís bebeu café, eu fui fazendo o pito pú caminho, era perto, nóis chegô logo, quando nóis chegô já tinha umas quinze pessoa lá rapaiz, o povo num conhecia aquilo, frivia lá pá escuta. Aí o véio viu que o povo tava bobo cá quilo pegô a cobrá. Era quinhento réis pro cê escuta. Aí nóis chego mais doise. Aí o véio era um veião preguiçoso tava deitado numa camona lá na sala prosiando, aí nóis chegô, o cumpanheiro falô, ó Seu Inófre, nóise veio escuta uns caipira. Aí ele levantô espriguiçô falô, – ele era um veião casado segunda veiz, a muié nova, – vô lá dentro chamá a Maria, eu num sei mexê cum isso não. Aí eu oiêi apaiz, tinha um caxotinho em riba duma mesinha tá pertinho, pra mim aquilo era um caxotinho deles pô arguma mundiça. Quando ele apontô lá, a muiezinha atrás, quando deu no meio do salão ela passô pá diante e seguiu no meu rumo eu maniei uai, onde será que ta esse trem, oiei maniei, uai, não tem nada! Quando ela chegô naquele caxotinho lá em riba da mesa, eu assim perto, oiando aquilo, quando ela pegô no imbigo dele que troceu eu vi que tinha um palitinho lá dento rolô… Maniei, tá campinhano os caipira. Rapaiz, ele deslizô dos caipira e engarupô numa missa rapaiz, e o véio era daqueles devoto antigo, quando o padre raiô lá dentro daquele caxóte ele barreu o juêio no chão lá adiante. E ai nóis foi obrigado a jogá o chapéu di costa e jueiá tamém e eu não sei o que, que enfezado esse padre esse dia rapaiz e ele tirava uma meia hora pá rezá, uma meia hora pa daná cum nóis rapaiz, eu fui enfezando cá quilo, eu nunca vi esse homem e ele daná cum nóis desse jeito! Esse home tá é loco! Kkkk E aí o pau quebrô e ele não parava sô, e o juêio num guentô. Eu levava a mão assim pá favorecê, os dedo num guentava eu tirava, acudia num ele num guentava eu ia po ôto, e o pau quebrô, maniei, levo as carépa sô. Levantá não pudia. Quando eu vi que , eu maniei, agora num tem recurso eu vô deitá, puquê num pode levantá. Quando eu já tava caçano um jeito de deitá, o padre liberô nóis, eu mão no chapéu e avuei da banda di fora. Aí o cumpanheiro, vamu dá mais um prazo as vêiz os caipira vem! Eu falei ó rapaiz, o dia que eu arrumá um recurso pá vedá meu juêio eu posso vortá mais… ahaha.


O Causo da Bicicleta


Interlocutor: A tar de bicicleta vazô esse mundão tudo ai até chegá aqui na gente né? 

Geraldo: E rapaiz, a topada minha com essa tar de bicicreta a primeira veiz me esfolô tudo. 

Interlocutor: É, e como é que foi o encontro? 

Geraldo: Uai minino, nessa época sô que pego a sai essas bicicreta, esses ricurso, uma ocasião, a muié arrumô lá uma perrenguiçe, uma cramura, uma gemura esquisita, aquilo num miorava, eu rancava uma saroba ali no terrero mêmo, fazia uma xaropada dava pra ela bebe, foi ficando pior, daí eu maniei, dano, aí tentei leva ela pra cidade pum dotor da uma reforma nela pra mim. Aí fui lá arrumei um agasaio e levei ela, falei pu dotor, óia eu truxe a muié o sinhor expia o que ta fartando nela e arruma ela pra mim e eu não posso fica aí não, eu tinha sirviço e era longe, aí rapaiz, larguei ela e fui embora, e era di a pé, eu ia lá dia de sábado, pa vê comé qui tava, segunda feira de madrugada eu virava pa traiz di a pé, era aquela dificulidade, nesse tempo esses ricurso que tem hoje era poco, então foi indo assim, um dia sô, eu cheguei lá um dia de sábado, já pumas deiz hora da noite, tinha um cumpanheiro lá mi isperano, ia fazê um negócio cumigo, mi isperô. Eu cheguei cansado, aí nóis prosiemo ali um prazo, eu cramando prele, aí ele falo, uai Gerardinho pruque que ocê num compra uma bicicreta? Eu falei, Deus me livre sô, nunca muntei naquilo, num sei mexe ca quilo não. Aí ele falo, ce é bobo rapaiz, com duas viage que oce anda oce anda, que oce esprementá oce anda. E eu sei dum minino que ele tem uma, ele vende ela baratinho, rapaiz, eu infrui ca quela proposta. Aí eu fui e falei pra ele, ó intaum faiz anssim, ce combina com ele lá e toca esse trem pra ca pra mim, nem busca isso eu não sei não. Aí ele foi embora, quando foi domingo já de tardinha, ele chego lá ca quele aranzé rapaiz. Quando ele me entrego ela rapaiz, me deu um rependimento, eu maniei, esse trem num presta. Aí rudiei ela dum lado, do outro, pra mim tava tudo afiadinho, a gente num conhecia né. Aí nóis prosio, logo ele foi embora, já o sol já tava quase di entrano. Eu maniei, ah, eu vô da um reparo nesse trem é hoje memo. Peguei ela, maniei, eu vo lá pu campo de avião, anssim tinha começado esse campo lá, vô pra lá, que lá eu to sozinho, não tem ninguém pa faze bagunça comigo. E aí, e fui de pareia com ela, eu não sabia anda de pareia com ela sô, ela ia me puxando anssim, eu tropicava naquele estribo dela e muntuava em riba dela. Eu já fui desgostando caquilo, eu falei, esse trem num presta. Da rua até lá no campo ela mi dirrubo treis veiz. Ma eu teimando. Vamo vê. Chego lá no campo, prano demaise. Virei ela pa traiz e pensei, é já eu to lá dentro da cidade. Ajeitei o cinto direito, dei um tapa na aba do chapéu, quando tranquei no xifre 106 refrescado aquela geriza, ah, eu vo leva ela cumigo, que eu do uma esfrega boa nela é no caminho. Aí a rua la na porta era discambado anssim rapaiz, aí eu tirei ela pra fora, pensei ah, eu vo começa o jogo é aqui memo. Tranquei no xifrinho dela sô, quando juguei a perna nu pelo dela, ela já, aluiu. Aí eu sai, aquele trem uma hora numa banda, outra hora dotra, pelejando pa panha aquele prumo, e ela foi azedando. Quando ela gacho memo que vento tava zuando, ai eu aprumei. Eu aprumei ma num sabia diministrá ela no rumo qui pricisava não. Eu só quilibrei em riba, e ela no rumo que ela apontasse era aí memo e lá em baixo tinha um lote fechado de arame rapaiz, a valença que era um araminho antigo, inferrujado, ela marco no arame, eu pelejei pra ela vim pu meio da rua, ma num… queria que ela viesse era tudo. Não sabia que tinha que era entorta o pescoço dela não. E ela enquexo no rumo do arame e eu to pelejando, to pelejando, quando eu vi que ela nóis ia no arame memo, ai eu lembrei minino, eu falei, ah gente, eu vejo o povo fala que santo acode a gente, ai eu lembrei, falei, só aborrecendo eles agora, tem que… cuida dum trem desse, senão a gente morre memo, aí eu gritei um santo sô e ele não tava em casa, gritei outro ele tava acudindo outro pa outra banda, até que eu gritei um mais agraduado, mas ai num… já tava chegano no arame. Ai quando eu vi que ia, eu maniei, eu vô apruma que eu bato o estambo e caio di costa, quando eu aprumei rapaiz, o rodero di diante dela também levanto, e táaa!, nóis vazo, o santo num pôde para ela pra mim, mas judô tora o arame pa nóis passá. Aí quando… Interlocutor: – Cê não agradeceu ele não? Não, a hora qui eu disacupei desse aranzé lá em baixo, eu num fiquei sabendo qual é que me acudiu, que eu chamei eles tudo, aí eu agradeci eles tudo, falei, teve bão, aí lá adiante a rua já deu de i cabando aquela discida, ela foi manerano a toada, foi manerano, quando pego um rojãozinho anssim devagar eu fui aprendê munhecá aquele trem, eu pisava di cá, ela virava, eu acudia de cá ela virava, maniei, ma esse trem é loco. E aí, ai invai naquela labuta, i eu num tinha paia de pito sô, eu tinha que passá berando uma venda, o vendero já tinha levantado, maniei, ah, ali eu compro um botinho di cigarro, acendo uns dois ai no caminho, chego lá eu do isso pus minino, aí, i ela lá, ia passando mais puma banda da venda, eu querendo que ela viesse pa banda da venda, quando eu vi que ela passava pa diante, eu dei um górpe no chifre dela anssim rapaiz, ela fez, ruáap!! Deitô sô, eu entrei dentro da venda ca unha no chão, pa não leva o nariz no chão, ai o vendero foi, ainda dano comigo, uai rapaiz, ta caindo aí sô! Aí eu falei, não é pruque o trem trapaio ali, aí comprei um botinho de cigarro, dum antiguinho que tinha, branquinho tudo, e sai lá adiante, aí furei ele, tirei um, pus no beiço, e chamei a binga nele e tornei a muntá e to luitano, uma hora num barranco, outra ora notro, e aí invô, aquela peleja, foi logo perto, deu numa discambada duns trêis quilômetro e ela num tinha era aquele ricursinho de minguá a toada rapaiz. Tava só aquela forminha di ferro. Ela usa uma borrachinha ali pá… num tinha não. Quando ela viro anssim, ela tornô a melá comigo no mundo. E o trem foi zuando, foi zuando, eu chamava o dedo naquele bigode que tem pru bacho du chifre, a coisa fazia tiáááá´, e a toada tava do mesmo jeito. Eu levava o carcanha no rodero dela queimava o pé eu tirava, e aí invamo e o vento zuando. Acho que ela já nem num tava encostando no chão, ela ia memo… E eu num, quando eu senti o calorzinho do fogo do pito no beiço, e eu não puxei a fumaça não, o vento memo veio trazendo aquilo. Eu não podia largá do chifre dela pa acudi porque sinão levava… Aí eu pensei, a hora que eu vê que quema, eu guspo ele fora. E já tava pensando sô, tinha uma ponte, pa entra na ponte tinha uma curva, 107 maniei, na curva eu num do conta de fazê, eu vo dendo rio. Mas ai, quando o fogo apertô que eu fui guspi ele fora, ele tinha pregado no beiço. Rapaiz, ocê precisa di vê que massaroca rapaiz, eu bufava que nem um jumento, pa vê se aquilo desapregava, e o trem, i quando eu abria a boca pa bufá o vento fazia zôôôôo, ainda levava o fogo pra dentro menino e aí, nóis lá ia chegando num mata burro eu maniei, ali nóis vamo marrota e desacupo a mão pa acudi. Pois ela passo que nem num encosto rapaiz, quando eu vi que ela passo no mata burro, eu já gritei ao santo que corto o arame lá pra mim, pá mi dá uma cambota pa mim desacupa a mão pa acudi que tava doeno. Ele não pode pula adiante que senão ainda ia machuca ele, ai, ma ele me ajudo eu apontá ela num cupim que tinha na beira do caminho, acho que ele fico duma banda e deu um empurranzinho nela no rumo do cupim. Sô, quando nóis bateu nesse cupim, ela prumo pa rima, e eu chorei o stambo na nuca dela e passei por riba do cupim. Maiei pra lá e ela caiu di costa. Quando eu levantei que eu fui acudi que tava doeno, já tava aquela pipoca no beiço, a boca puma banda e doeno demais memo, e o estambo também doeno, eu oiêi no estambo, maniei, uai, não tinha botão de camisa, até a barguia da carça tinha relaxado, ai fartando umas garra de coro também no estambo, aí eu maniei, ah um toco, certo eu bati em riba dele ai. Oei no cupim lizinho, não tinha toco. Maniei esse estrago não era… Aí quando eu rodiei o cupim, que eu panhei ela rapaiz, que eu ergui ela que eu descobri o defeito. Ela tem um berruga na nuca. Quando ela subiu, eu chorei o stambo naquilo e virei. Tava cheinho de linha de botão, coro do estambo, tudo ao redor daquela berruga. Aí eu ainda falei suzinho lá rapaiz, ah, aqui a miséria que me estrago. Intero três obejeto que pra mim eu não tenho confiança mais nunca, é bicicreta, e cigarro de papel e sordado tabém.

Fonte: Recchia, Marcos Antonio. Certa vez: experiência e narratividade no mundo contemporâneo / Marcos Antonio Recchia. — Campinas, SP: [s.n.], 2009.

Lenda do Negro D’água

Conta a lenda que o Negro D’água ou Nego D’água vive em diversos rios. Manifestando-se com suas gargalhadas, preto, careca e mãos e pés de pato, o Negro D’água derruba a canoa dos pescadores, se eles se negarem de dar um peixe. Em alguns locais do Brasil, ainda existem pescadores que, ao sair para pescar, levam uma garrafa de cachaça e a jogam para dentro do rio, para que não tenham sua embarcação virada.

Esta é a História bastante comum entre pessoas ribeirinhas, principalmente na Região Centro-Oeste do Brasil, muito difundida entre os pescadores, dos quais muitos dizem já ter o visto.

Segundo a Lenda do Negro D’Água, ele costuma aparecer para pescadores e outras pessoas que estão em algum rio. Não se há evidências de como nasceu esta Lenda, o que se sabe é que o Negro D’Água só habita os rios e raramente sai dele, seu objetivo seria como amedrontar as pessoas que por ali passam, como partindo anzóis de pesca, furando redes dando sustos em pessoas a barco, etc. Suas características são muito peculiares, ele seria a fusão de homem negro alto e forte, com um anfíbio. Apresenta nadadeiras como de um anfíbio, corpo coberto de escamas mistas com pele.


Lenda do Pequi: O fruto do amor de Tainá-racan e Maluá

Pequi:  Conta uma lenda indígena que Tainá-racan era uma linda índia da Amazônia brasileira. Tinha os olhos cor de noite estrelada e seus cabelos eram como fios de seda negra. O andar, elegante como o de uma deusa passeando por entre as flores.Um jovem e formoso guerreiro de uma tribo vizinha – Maluá -, assim que a viu, sentiu forte fogo no corpo e o coração saltando no peito: “Ela é linda como a estrela da manhã. Hei de amá-la enquanto durar a minha vida!”. Pouco tempo depois, estavam casados.A vida deles era bela e alegre como o ipê florido. Todas as manhãs, Maluá saía para caçar e pescar, enquanto Tainá-racan sentava-se na porta de sua oca, tecendo colares e esteiras, moqueando o peixe e preparando o calugi, para ofertar ao seu amado, quando voltasse.Ao seu lado, sempre se deitava um jacaré, lhe fazendo companhia e conversando, pois, nessa época, os bichos também falavam.O tempo foi passando…. Caíram as flores. Os cajueiros arcaram de fartura e beleza seus galhos com frutos vermelhos. As castanhas escondiam-se no seio da terra boa. As cigarras enchiam as matas com sua forte sinfonia.

Após três anos de casamento, numa noite bonita, deitados numa pedra grande à beira do rio calmo, Maluá encostou a cabeça no peito de Tainá-racan e apertou-a com ternura.

– Está triste, amado meu?

– Sim. Você sabe que eu estou triste e você também está. Nossa dor é a mesma.

– Onde está nosso filho, que Cananxiué não quer mandar? – disse Tainá-racan.

Maluá alisou com carinho o ventre da formosa esposa, dizendo: “E o nosso filho não vem”, murmurou.

Dois pequeninos rios de lágrimas deslizaram pelas faces coradas de Tainá-racan. Um vento forte fez balançar as árvores da floresta e arrepiou as águas do rio. Uma nuvem escura cobriu a lua. Trovões reboaram ao longe. Maluá abraçou Tainá-racan e amou-a.

– Nosso filho virá, sim. Cananxiué também o quer – disse ele.

Luas depois, quando os ipês voltaram a florir, numa madrugada alegre, nasceu Uadi, o Arco-Íris. Era lindo, gordinho, tinha os olhos cor de noite estrelada, como os da mãe, e era forte como o pai.

Mas havia nele algo diferente, que espantou o pai, a mãe, a tribo inteira: Uadi tinha os cabelos dourados como as flores do ipê amarelo.

Ainda assim, Maluá recebeu o nascimento do filho com alegria. E, para explicar a sua diferença, espalhou pela tribo que Uadi era filho de Cananxiué.

Mas os próprios índios de sua tribo zombavam-no, dizendo que Uadi era filho do jacaré.

Alheio às piadas maldosas, o menino crescia cheio de encanto, alegria, e com uma inteligência incomum. Fascinava a mãe, o pai, a tribo toda. Com rapidez incrível, aprendeu o nome das coisas e dos bichos. Com sua mãe, aprendeu a cantar as baladas tristes e alegres de seu povo. Era a alegria da tribo.

Um dia, Maluá, com outros guerreiros, foi chamado para uma guerra. Os olhos pretos de Tainá-racan encheram-se de lágrimas. O rostinho alegre de Uadi se entristeceu. À despedida, seus bracinhos agarram-se ao pescoço do pai, e ele falou: “Papai, também estou indo embora. Vou pra casa de minha mãe, lá no céu”. E, com o dedinho, apontou para o alto.

O corpo do guerreiro se estremeceu. Seus lábios moveram-se, mas as palavras não saíam. Ele apertou o menino nos braços, com força, e, por fim, falou: “Que é isso, filhinho, você não vai a lugar nenhum. Ninguém arrancará você de mim. A sua casa é aqui na Terra. Se for preciso, não partirei para a guerra. Ficarei com vocês”.

Nesse momento, Cananxuié, o senhor de todas as matas, de todos os animais, de todos os montes, de todas as águas e de todas as flores, desceu do céu sob a forma de Andrerura – a arara vermelha – e gritou um grito forte: “Vim buscar meu filho!”, e o agarrou e o levou pelos ares.
Tainá-racan e Maluá caíram de joelhos. O guerreiro abriu os braços gritando: “O filho é nosso, sua casa é a de sua mãe, Tainá-racan, aqui na Terra!

Devolve meu filho”! O grito de Maluá ecoou pela mata, ferindo de dor o silêncio. O peito do guerreiro sofria como uma aroeira ferida pelo machado.

O velho chefe guerreiro aproximou-se, bateu-lhe no ombro e bradou: “Maior que sua dor é sua honra de guerreiro e a glória de nossa tribo! Cananxiué buscou o que você disse que era dele. Muitos outros filhos ele vai lhe dar. Tainá-racan é jovem. Você é jovem. Vai, guerreiro, não deixe a dor matar sua coragem!”

Maluá partiu. Tainá-racan chorou três dias e três noites na sua oca. E o jacaré, seu amigo, que veio da mata ao escutar os seus gritos de dor, ficava deitado à sua porta, dia e noite, tomando conta dela.

Uma noite, o jacaré implorou a Cananxiué que tivesse piedade dela, prometendo ir embora para sempre, nunca mais falar com os humanos e morar somente nas margens dos rios, se a fizesse novamente feliz.

Ouvindo-o, Cananxiué tomou novamente o corpo de uma arara vermelha e voltou à Terra, dizendo a Tainá-racan:
– Das suas lágrimas nascerá uma planta, que crescerá como uma árvore copada. Ela dará flores cheirosas que as pacas, veados, capivaras e os lobos virão comer nas noites de luar. Depois, nascerão frutos. Dentro da casca verde, os frutos serão dourados como os cabelos de Uadi. Mas a semente será cheia de espinhos, como os espinhos da dor de seu coração de mãe. Seu aroma será tão tentador e inesquecível, como você o será sempre para o seu amigo jacaré. E aquele que o provar, jamais o esquecerá.

Tainá-racan ergue o olhar e lhe pergunta:

– Cananxiué, meu deus, e como se chamará esse fruto, cujo coração são os espinhos de minha dor, cuja cor são os cabelos de ouro de Uadi e cujo aroma é inesquecível como o cheiro dessa mata, onde brinquei com o jacaré e meu filhinho?

– Chamar-se-á Tamauó, minha filha.

Tainá-racan sorriu. E imediatamente viu nascer uma planta, que chamou de Tamauó. A mesma que os índios mehinako, do Xingu, conhecem como akain; e que os homens brancos, do Norte, Nordeste e Centro-Oeste chamam de Pequi.

E, quando Maluá voltou, encontrou uma linda, grande e frondosa árvore, cheia de frutos, chamada de pequizeiro. Ele pegou alguns no chão, partiu, tirou os caroços dourados e os comeu, com farinha, junto com Tainá-racan. E depois, se amaram muito, ali mesmo à sombra do pequizeiro.

Assim foi que, durante muitos anos a seguir, sempre que os ipês e os cajueiros voltavam a florir nas matas e os pequizeiros também deixavam seus frutos maduros cair na terra, servindo de alimentos para todos, Tainá-racan e Maluá eram abençoados com mais filhos. E, a cada filho que nascia, plantavam mais um pequizeiro. E eles tiveram muitos filhos. E viveram felizes para sempre.


O Fruto do Amor

Ainda hoje, muitos índios plantam mudas de pequizeiros ao nascimento de cada bebê; e fazem também grande festa na época da colheita dos frutos – Mapulawache, a Festa do Pequi, cheia de brincadeiras provocativas e que despertam a sexualidade entre jovens indígenas, homens e mulheres. E, muito alegres e brincalhões, dizem que o cheiro do pequi lembra o sexo das índias, por isso, quem os come, se enche de amor e tem muitos filhos.

Mantendo a tradição da lenda indígena, também os jovens brancos que moram nos sertões goiano e tocantinense gostam de passear nas matas do Cerrado, depois que começam as chuvas, levando uma cuia com farinha, pra comer com o pequi maduro que colhem do chão, dizendo que, se o fruto for tirado ainda verde, fica amargo. E, nove meses depois, muitas crianças nascem no sertão, criando uma nova lenda do poder afrodisíaco do fruto do amor.

Texto adaptado com base no conto “Os Frutos Dourados do Pequizeiro”, de Marieta Teles Machado, Editora UCG, 1986; no filme Mapulawache: Festa do Pequi, dirigido pelo indígena xinguano Aiuruá; nas lendas dos índios Mehinako, do Alto Xingu; e nos costumes e lendas dos povos do Cerrado.


Mani: A lenda da Mandioca

Diz a lenda tupi que, certa vez, uma índia teve uma linda filhinha, a quem deu o nome de Mani. A menina era muito bonita e de pele bem clara, alegre e falante, e era amada por todos.Mani parecia esconder um mistério, era uma menina muito diferente do restante das crianças, vivia sorrindo e transmitindo alegria para as pessoas da tribo.Certo dia, porém, a indiazinha não conseguiu se levantar da rede. Toda a tribo ficou alvoroçada. O pajé correu pra acudir, levou ervas e bebidas, fez muitas rezas.Mesmo assim, nem as rezas do pajé, nem os segredos da mata virgem, nem as águas profundas e muito menos a banha de animais raros puderam evitar a morte de Mani.A menina morreu com um longo sorriso no rosto. Os pais resolveram enterrá-la na própria oca onde moravam, pois isso era costume dos índios tupi. Regaram a cova com água, mas também com muitas lágrimas, devido à saudade da menina.Passados alguns dias, no local em que ela foi enterrada, nasceu uma bonita planta. As folhas eram viçosas, e a raiz era escura por fora e branquinha por dentro, lembrando a cor da pele de Mani.A mãe chamou o arbusto de maniva, em homenagem à filha. Os índios passaram a utilizar a tal planta para fabricar farinha e cauim, uma bebida de gosto forte. A planta ficou conhecida também como mandioca, mistura de Mani e oca (casa de índio). Por ser tão útil, tornou-se símbolo de alegria e abundância para os índios – das folhas às raízes.


A lenda do Arranca-Línguas: O King Kong do Cerrado

Diz a lenda que esse gorila gigante, que habita as matas da região do Araguaia, é bem maior do que um ser humano e gosta muito de comer línguas – de cabras, cavalos, bois, e até mesmo de gente.Quem já o viu contou pra quem não viu que o bicho cabeludo, de voz fanhosa e cara chata, ataca as reses de noite, e delas só retira a língua, para comer. Já dos humanos, conta a lenda que o monstro só arranca a língua dos ladrões de gado.Dizem que ele se parece mais com o King Kong do que com um gorila africano, que perambula desde a cabeceira do Xingu até as cercanias de Goiânia. Explicam os historiadores que a região do Araguaia ficou despovoada por muito tempo pelo medo que as pessoas passaram a ter desse monstro que foi apelidado de King Kong goiano.Verdade ou não, o fato é que o Arranca Língua tem até poesia, de autoria do poeta Zoroastro Artiaga. 

KING KONG
Feroz, cruel, terrível, monstruoso,
De grande força e porte agigantado,
O sertão de Goiás, misterioso,
Habita o King-Kong tão falado.
História ou lenda, o fato é curioso
E parece bastante exagerado:
É que vagueia a procurar o gado,
Arrancando-lhe a língua, furioso.
E por todo lugar por onde passa
Assola o gado pela pastaria,
Pelo prazer de línguas arrancar.
Ah, se tal monstro por aqui passasse,
Quantas línguas compridas tiraria!
E quanta gente sem poder falar!

DADO CURIOSO: Ao contrário de tantas outras lendas, essa parece ter ano certo de nascimento. Ela teria aparecido no ano de 1929, na região de Aruana, onde ficava o antigo porto fluvial do Araguaia. Diz-se que naquele ano uma crise de febre aftosa atacou os rebanhos. Com a doença, os animais passaram a sofrer de grande “comichão” na língua. Tentando coçá-la, a rês acabava por cortar a própria língua com seus próprios dentes. De lá, a endemia se esparramou pelo resto do estado de Goiás, deixando, por onde passava, muitos animais com as línguas cortadas. Foi o suficiente para a imaginação popular criar mais uma fantástica lenda brasileira.


Mito do Milho

Segundo uma narrativa Paresi, índios que falam Língua Paresi do tronco Aruak e habitam a chapada dos Paresis no estado de Mato Grosso, faz muito tempo, um velho sábio pressentindo o final de sua vida, chamou seu filho mais novo e pediu-lhe que quando falecesse fosse enterrado no meio da roça. Disse ainda ao filho que três dias depois, brotaria sobre sua cova uma planta de folhas longas que iria crescer e em seguida produziria algumas sementes protegidas por uma espécie de túnica. Pediu ao filho que colhesse essas sementes quando maduras, mas que não as comesse, deveria plantar e toda a aldeia ganharia um presente precioso. Assim se fez e apareceu o milho.

Este mito foi coletado por Altair Sales Barbosa em 1972, entre os índios Paresi. 
O mesmo mito aparece com variações em diversos povos indígenas do Brasil.Ver por exemplo BRANDENBURGER, Clemente – “Lendas dos nossos índios” – Rio de Janeiro 1931. Esse autor constatou variações desse mito entre diversos indígenas, dentre os quais os índios de língua Tupi, que narram a origem do “avati”.
É sabido que esse cereal classificado botanicamente como Zea maiz, tem sua origem associada a grupos indígenas e certas áreas endêmicas do México. locais onde aconteceu sua domesticação por volta de 7.000 anos A.C. A origem de tais mitos entre povos indígenas do Brasil pode ser devido ao fato da larga utilização e importância desse vegetal como alimento.

Em 2008, os Paresí contavam com cerca de 2.005 indivíduos que se distribuíam em aldeias nas diversas Terras Indígenas. Trata-se de uma área composta por campos, em sua maioria, cerrados e matas de galeria, onde se caça veado, ema, seriema, perdiz, cotia entre outros animais.


A FÁBULA DO PÉ DE SABIÚ

A Peleja entre a Felicidade e a Ganância

Entre os geraiseiros, povos que habitam ou exercem atividades nos gerais, que é um tipo de cerrado semelhante ao descrito por Guimarães Rosa em “Grandes Sertões Veredas”, existem dois mitos interessantes associados ao pé de Sabiú, planta frondosa pertencente à família leguminosae e muito comum nos gerais.

O primeiro diz que se alguma pessoa, por descuido, passar por debaixo de um pé de Sabiú fica totalmente desorientado, perde a noção das coisas, perde a consciência e fica vagando sem rumo e sem direção. Entre as inúmeras histórias, contam que certa vez um vaqueiro experiente saiu à procura de uma rês desgarrada e, sem se dar conta, passou por debaixo de um pé de Sabiú, logo perdeu a noção dos seus objetivos e por dois dias seguidos vagou sem rumo até chegar a um rancho de um antigo amigo e conhecido. Só que ao chegar ao local não reconheceu as pessoas que ali moravam, seus amigos de longa data. Os moradores do rancho, experientes, logo perceberam o que havia acontecido. Tomaram então o vaqueiro e fizeram-no deitar de bruços por cerca de trinta minutos. Durante este tempo dizem que o vaqueiro teve um sono profundo e quando acordou estava curado, recuperou a consciência, reconheceu e ouviu os amigos e, após se alimentar, seguiu seu rumo determinado. 
O segundo mito reza que pequenas personagens do mato em forma de gente, talvez duendes, todas as sextas-feiras à noite se reúnem em baixo de um pé de Sabiú para festejarem alguma alegria e felicidades. Conta ainda, que no povoado de Riacho D’Água existia um pobre corcunda que era muito maltratado e recebia várias zombarias da gente daquele povoado. Um dia, cansado de tanta humilhação e sem perspectiva, resolveu fugir e andou sem ermo pelos gerais; quando o cansaço bateu, descansou debaixo da sombra de um Sabiú, pois debaixo desta árvore o terreno é sempre limpo. E ali garrou no sono, escanchado numa forquilha da árvore. 
Era sexta-feira. À noite chegaram várias criaturinhas que, brincando-de-roda, começaram a cantarolar uma música cuja letra repetia o refrão:

Segunda, 
Terça, 
Quarta, 
Quinta, 
Sexta.

O corcunda, animado com a música, pediu aos duendes para participar da brincadeira, sempre repetindo o refrão:

Segunda, 
Terça, 
Quarta, 
Quinta, 
Sexta.

E assim teve na vida um raro momento de alegria e felicidade. Diz o mito que, quando a festa terminou, as criaturinhas indagaram ao corcunda porque estava ali naquele momento? O corcunda então pôs-se a contar a sua história. As pequenas criaturas, que tinham poderes mágicos, retiraram a corcunda do indivíduo e a dependurou num galho de Sabiú, deram a este roupas novas, muito dinheiro e lhe disseram que poderia voltar para o povoado de Riacho D’Água, que sua vida iria mudar. O ex-corcunda caminhou então de volta e após alguns dias chegou ao povoado. Logo na entrada encontrou uma pessoa que o reconheceu. E, assustado, lhe perguntou o que havia acontecido. Este narrou detalhadamente. A pessoa, na ganância do dinheiro e do poder, saiu correndo procurando o local e, quando o encontrou, subiu num dos galhos da árvore e esperou a noite de sexta-feira chegar. Quando esta chega, eis que para sua surpresa apareceram as criaturas que o descreveu.
Estas então começaram a entoar sua cantiga, dançando em roda, sempre repetindo o refrão:

“Segunda, 
Terça, 
Quarta, 
Quinta, 
Sexta.”

Num belo momento, quando a dança já estava bem animada ao repetirem o refrão – Segunda, Terça, Quarta, Quinta e Sexta – as criaturas ouvem um som vindo do alto dizendo: Sábado e Domingo também. Atônitos, olham para cima da árvore e avistam a pessoa que modificara o refrão da música.

Indignados, fazem com que este desça da árvore, retiram do galho a corcunda que lá ficara e num ato de indignação e magia as criaturinhas implantam esta, nas costas do forasteiro e o expulsam do local. 
Moral da história: a tradição quando respeitada traz a felicidade, quando não respeitada gera a ganância.
Professor Altair Sales Barbosa.

A Ilustração Científica pode ser definida como uma área de intersecção entre a Ciência e a Arte, cuja finalidade é auxiliar o pesquisador a comunicar suas idéias e descobertas, em form a de desenhos detalhados. Esses desenhos podem ser de animais ou vegetais, mas também podem ser modelos experimentais, modelos de estruturas biológicas ( por exemplo modelo de transdução de sinal, de membrana biológica, da superfície de um vírus qualquer e tantos outros). A variedade de técnicas utilizadas é praticamente ilimitada, indo desde o mais simples desenho feito a lápis até sofisticados modelos animados com computação gráfica.
No Núcleo de Ilustração Científica do Instituto de Biologia da Universidade de Brasília empregamos as técnicas mais tradicionais de grafite, nanquim e aquarela. Estes tem sido os meios mais utilizados desde há muito para a comunicação científica das imagens.
Muitas pessoas questionam a validade da ilustração feita por meio “manual” ainda hoje onde computadores e tecnologia digital assombram com seus avanços. Entretanto, o olho humano ainda não encontrou rival para a percepção de detalhes que muitas vezes não são percebidos pelos obturadores de máquinas fotográficas. Ainda assim por melhor que uma fotografia possa ser, problemas inerentes como profundidade de campo, exposição e processamento de detalhes ainda podem ser melhor resolvidos com um bom desenho.
Tradicionalmente, a taxonomia, tanto animal quanto vegetal têm utilizado a Ilustração Científica com enormes vantagens sobre a fotografia. E, muitas vezes, mesmo uma micrografia eletrônica precisa de um desenho esquemático que seja, para mostrar aos observadores (alunos ou pesquisadores) o que deve ser visto, ou como esta deve ser interpretada.
Para conhecer mais sobre as instituições, desenhistas e pesquisadores que utilizam dessa técnica, conheça os nossos portfólios!

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Tratado dos Cerrados

Aprovado pelas entidades civis participantes do Fórum Global 92, Rio de Janeiro – RJ, em junho de 1992.

PREÂMBULO

  1. O domínio dos Cerrados, que corresponde a 25% do território do Brasil, situa-se principalmente nos planaltos centrais do país, abrangendo, total ou parcialmente, os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Distrito Federal, Maranhão, Piauí, São Paulo e Roraima, além de certas áreas do Nordeste. Enquadra-se na categoria internacional de savanas e, fisionomicamente, possui grande semelhança com as formações desse tipo encontradas em outras regiões do mundo.

 

  1. Os chapadões centrais ocupados pelo cerrado constituem a cumeeira do Brasil e da América do Sul, pois distribuem significativa quantidade da água que alimenta as bacias hidrográficas do continente. Dessa forma, exercem um papel fundamental para a manutenção e equilíbrio dos demais biomas, de tal sorte que o seu comprometimento poderá redundar em profundas alterações para os ecossistemas da Amazônia, do Pantanal, da Mata Atlântica, da Caatinga e da mata de Araucária. Algumas conseqüências disso já podem ser observadas, mas, provavelmente, ainda surgirão outras, que hoje desconhecemos totalmente.

 

  1. Além desse aspecto, há ainda a considerar a enorme biodiversidade dos cerrados que em relação a alguns grupos taxonômicos, é até maior que o da Amazônia.

 

  1. O cerrado serviu como local de assentamento de povos primitivos, contando-se registros de 15.000 anos ou mais, e depois sofreu um processo de colonização que conseguiu, em muitos casos, estabelecer relações de produção relativamente adaptadas às condições ambientais. No entanto, especialmente a partir da década de 1960, passou a sofrer um processo de ocupação intensa, privilegiando os sistemas de grandes propriedades, para a produção pecuária e, mais recentemente, para a produção de culturas de exportação e reflorestamento monocultural.

DIAGNÓSTICO

  1. A forma atual de ocupação dos cerrados, realizada sem qualquer consulta ou participação da sociedade no processo, é uma face do modelo de desenvolvimento adotado no Brasil nas últimas décadas. Assenta-se no financiamento subsidiado e incentivos fiscais, na concentração fundiária, na utilização de pacotes tecnológicos, na implantação de infra-estrutura subsidiando o capital e na expulsão das populações rurais pela desestruturação de suas formas de produção.

 

  1. O ecossistema do cerrado, visto como adequado para a expansão das atividades de exploração agropecuária e florestal vem sendo agredido e já destruído em cerca de 75% de sua extensão, principalmente através de:

 

  • Desmatamento indiscriminado de sua vegetação e implantação de maciços homogêneos de eucalipto para a produção de carvão, a afim de abastecer as indústrias siderúrgicas que produzem ferro guza, exportado principalmente para o Japão, e de celuloses;

 

  • Implantação de grandes extensões de pastagens homogêneas e monoculturas de exportação consumidoras de todo pacote tecnológico industrial: corretivos de solo, fertilizantes químicos, herbicidas, pesticidas e maquinaria pesada;

 

  • Instalação de grandes projetos de irrigação com uso intenso e indiscriminado dos recursos hídricos e de energia;

 

  • Instalação de grandes barragens ao longo dos principais cursos d’água, para fins de geração de energia elétrica.

 

  1. Todas essas ações vêm provocando uma série de impactos ambientais e sociais, destacando-se entre eles:

 

  • A redução drástica da enorme a ainda desconhecida biodiversidade existente nos cerrados;

 

  • A degradação dos solos devido principalmente ao uso de maquinaria pesada e produtos químicos que deflagram e aceleram um processo de erosão e esterilização;

 

  • A poluição e contaminação não só dos solos, mas também da água e, consequentemente de todos os animais (inclusive o homem) que dela se servem;

 

  • Assoreamento e diminuição dos recursos hídricos superficiais e subterrâneo em função de todas as formas de desmatamento d cerrado, que devido à sua característica de baixo consumo de água e capacidade de infiltração de seus solos, funciona como uma “esponja” captadora e armazenadora de água. Em conseqüência é diminuída também a sua grande capacidade de dispersor de águas;

 

  • Intensificação do processo de concentração fundiária com expulsão, migração e empobrecimento dos pequenos agricultores e trabalhadores rurais, gerando novos e insolúveis problemas nos médios e grandes centros urbanos;

 

  • Desagregação das comunidades locais em seus valores culturais, usos, costumes e simbologia.

PLANO DE AÇÃO

Diante de todo este quadro nos propomos a: 
1. Desenvolver gestões para a participação das populações locais no planejamento e no estabelecimento da polícia de desenvolvimento.

  1. Criar uma rede de ação permanente das ONGs e movimentos sociais das áreas dos cerrados visando uma ação conjunta para a sua defesa e troca de informações.

 

  1. Lutar pela integracão das sociedades de todos os países onde ocorrem ecossistemas de cerrados e savanas, para que se amplie o conhecimento e se adotem ações de planejamento, de preservação de desenvolvimento sustentado e de educação ambiental.

 

  1. Trabalhar na mudança da visão cultural institucionalizada de que os cerrados não oferecem recursos para a sobrevivência da humanidade.

 

  1. Propugnar pela realização de estudos para identificar as áreas nativas remanescentes dos cerrados com o objetivo de criar novas unidades de conservação de uso restritivos e de reservas extrativistas e de manejo sustentado.

 

  1. Incentivar ações que visem a implantação paulatina do desenvolvimento sustentável nas áreas dos cerrados, priorizando a pequena e média produções.

 

  1. Lutar pela demarcação e defesa da terra dos grupos indígenas, como base indispensável à existência, reconhecimento, defesa, promoção e bem estar de suas sociedades e de suas culturas.

 

  1. Lutar pela implantação de uma redistribuição de terra e uma política agrícola voltada para o pequeno produtor rural.

 

  1. Criar mecanismos de aproximação permanente com parlamento brasileiro.

 

  1. Pressionar para o bioma dos cerrados seja reconhecido na constituição brasileira como patrimônio nacional, no mesmo status da Amazônia, do Pantanal, da Mata Atlântica e da Zona costeira.

 

  1. Lutar pelo estabelecimento e incremento de programas de reflorestamento com espécies nativas em áreas degradadas e de importância para preservação e recuperação dos recursos hídricos.

 

  1. Pressionar para reorientação dos financiamentos internacionais que vem viabilizando e incentivando a implantação de projetos de ocupação predatória e elitista nos cerrados.
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